Eu sei, esse blog sempre foi chato, mas agora está ficando cada vez pior.
Como disse L., antigamente o LLL falava de liberdade individual e esfregava na cara dos seus leitores que eles não eram tão livres e abertos, libertários e libertinos, quanto poderiam ser, que suas vidinhas eram chatas, monogâmicas, previsíveis.
Hoje, o LLL deu uma guinada à esquerda (ainda segundo L.) mas continua falando de liberdade (apenas agora coletivamente) e continua esfregando na cara dos seus leitores que eles vivem em denegação, que não enxergam os problemas do Brasil, que são racistas e classistas, que viveram vidas privilegiadas e que deveriam se sentir culpados quanto às suas empregadas ("esse problema não existe mais, Alex!"), quanto às suas palavras ("neguinho tá sem noção") e até mesmo quanto às suas preferências estéticas ("pô, Alex, eu não sou racista, eu só acho que preto é feio e cabelo pixaim é áspero, oras!").
Enfim, a gente aqui tranquilão, gozando a nossa democracia racial, fazendo pouco dos americanos (que, além de burros, são racistas) e lá vem o mala estragar a nossa festa.
Chato, chato, chato.
* * *
Tudo isso foi pra apresentar o comentário da Ariane:
Não sou lá muito esperta, talvez não tenha entendido realmente o teor de algumas mensagens, só sei que quando leio/ouço que o Brasil não é um país racista, fico louca da vida.
Vivemos num mesmo Brasil? Já estou em dúvida...
E quando partem para essa coisa de que as negras alisam o cabelo por isso são racistas?...que irritante! Pra começo de conversa, toda mulher quer mudar a droga do cabelo que tem, independente de ser branca, negra, japonesa. Já viu mulher contente com o próprio cabelo? Eu já alisei, enrolei, pintei de todas as cores do arco-íris, já fiz loucuras e não sou negra. Os salões estão lotados toda semana de mulheres de todas as cores que se torturam horas para sairem diferentes. Limitar a questão à esse tipo de coisa, francamente, acho que é fugir do foco.
De mais à mais, o que vocês querem? Que as negras se amem e amem sua aparência quando a propaganda, massivamente, empurra o padrão 'pele alva, cabelos lisos, olhos claros'. Todas as princesas dos contos de fadas são moças loiras ou brancas como a neve. Onde estão as heroínas negras? Onde estão as fadinhas, bonecas, misses, deusas? Onde estão os filmes norte americanos para adolescentes que infestam a Sessão da Tarde com histórias romanticas protagonizados por negras? E em nossas novelas? E nos comerciais de tv? Em nenhum lugar eu vejo as negras brilharem como mulheres lindas! Aqui, só no carnaval parece que era permitido apreciar a beleza da negra, nos desfiles de escolas de samba, e digo era por que de alguns anos para cá as atrizes e aspirantes a alguma coisa, loiras e brancas, tomaram os lugares das negras como rainhas de baterias ou destaques. Só sobrou a tal Globeleza que, como já ouvi, 'é bonita por que tem feições de branca'. Além de martelar incessantemente um padrão de beleza totalmente fora da realidade brasileira, ainda querem que as negras se amem e se adorem e não mudem um fio do cabelo....Quem nos representa lá fora no quesito beleza? Não é a Gisele? Pois é, ela é a cara do Brasil, né?
[Comentário do Alex: o próximo desenho animado da Disney terá uma "princesa" negra e será passado em Nova Orleans. Mas o próprio escarcéu sobre o filme demonstra seu pioneirismo...]Engraçado, lembrei agora que quando eu era bem pequena, ganhei da minha mãe de natal uma boneca negra. Coisa que não é comum nem hoje (já se passaram 30 anos desde então...), acho que não foi sem propósito. E eu nunca questionei, ou estranhei, nem nada. Normal. Minha primeira amiguinha, na primeira série da escola, era (era não, é. Ela era minha amiga) negra. A gente estudou juntas até a oitava série e a tia dela era nossa professora. Éramos muito amigas, frequentávamos a casa uma da outra e tal. Muitas vezes eu ouví os meninos chamando ela agressivamente de macaca, nega, preta...ela sorria um sorriso amarelo, fingia que não ouvia. Eu achava aquilo tão revoltante, imoral, escroto. Pqp, aquela gente não recebia educação não? Os professores fingiam que não ouviam, merda pior. Ela tinha que aguentar, desculpar mil vezes ou se sentir culpada por ser negra? Ninguém fazia nada? O engraçado é que era uma escola publica, estudavam alí crianças de familia de classe média até miseráveis (um garoto ia de chinelo havaiana pra escola, eu me lembro)e meninas da FEBEM (naquele tempo ainda existia FEBEM e era um programa de integração, eu acho)e a minha amiga era a única do colégio todo que gozava de um padrão superior à todos os outros: andava com roupas caras, ia de carrão pra escola, era a única que levava dinheiro pra escola, morava numa casa enooorme e tal e só estudava alí por que a tia dela trabalhava lá. Mas era também a única negra.
E outro garoto com quem estudei, foi tão esculachado, tão maltratado (negro, óbvio). Colocaram um apelido grotesco nele, infernizaram o moleque até que ele deixou a escola.
Trabalhei alguns anos como auxiliar administrativa de uma pizzaria em são paulo (eles tem um total de 12 restaurantes) e certa vez abriu uma vaga para atendente e eu fui chamada para ajudar na seleção. Apareceu um monte de meninas sem nenhuma qualificação, nem sabiam falar direito, mascando chicletes como ruminantes. Aí apareceu uma moça com um curriculo espetacular: falava vários idiomas, entendia de informática, mil experiências, faculdades e tal. Ela estava muito acima do pretendido, o cargo não fazia juz aos talentos dela. Estava passando por uma crise e aceitava qualquer trabalho. Enfim, a moça era uma lady, falava super bem, ótima dicção, minha escolhida. Falei pra minha chefe quando a moça se foi: É ela, nem precisa entrevistar mais ninguém. Então eu ví a cena mais absurda da minha vida; minha chefe rasgou a ficha da moça e disse: Tá brincando né? Não vou colocar uma neguinha aqui na recepção.
Juro. Ela rasgou a ficha da moça SÓ por que a moça era negra.
Mas olha, preconceito no Brasil não existe, viu? Eu é que deliro...
Quantos imbecis pastam por esse mundo rasgando fichas e fechando portas para os negros? Não tenho idéia do número exato, mais creio que são muitos. E pqp, estas coisas se aprendem em casa, não? Pq na minha casa eu nunca, jamais ouvi meus pais se referirem pejorativamente à quem quer que fosse e daí que quando eu e meus irmãos nos deparamos com preconceito racial no colégio, ficamos confusos e abismados. E meus pais tiveram que nos explicar o racismo....
Já cansei de ouvir coisas do tipo 'É um baita de um negão...mas é gente fina, viu?' como quem diz: APESAR de ser negro ele é boa gente, não é uma ameaça, não se preocupe.
Tenho uma tia (a vergonha da familia, por sinal) que se refere aos negros como se eles ainda fossem escravos. Tenta justificar seu preconceito generalizando defeitos imaginários, do tipo 'mas os negros são todos isso e aquilo'. Nem o fato de uma vizinha negra ter sido a única pessoa na face da terra que a ajudou quando estava passando necessidade, mudou as 'opiniões' dela sobre os 'negrinhos'.
Quem nunca ouviu, nem que tenha sido no colégio, as frases estupidas 'Negro parado é suspeito, correndo é ladrão'. 'Se negro não caga na entrada, caga na saída'. 'Só podia ser preto mesmo!'? Não pode ser que só eu ouvi estas coisas! Eu não fui criada em outra dimensão!
[Comentário do Alex: acho impossível alguém nunca ter ouvido isso. A explicação mais provável (presumindo boa fé, claro) é que, para um absurdo desses não destruir a ilusão do cara de viver numa democracia racial, ele se convence de que é só uma piada, oras, nada de mais, quem se irrita com isso é que é chato, defensivo, ô gente mal-humorada sô!]Minha filha tem tres anos e este ano começou a frequentar a escolinha. Ela me perguntou essa semana por que a tia (professora) tinha a 'cara marrom'. Meu, não é muito fácil explicar as coisas para uma criança de tres anos, você deve imaginar. Que eu ia dizer? Pensei um pouco e ví o vaso com flores do campo na cozinha. Apontei o vaso e disse: As flores não são diferentes? Cada uma tem uma cor, tá vendo? Não são todas lindas? Então, as pessoas são assim também. E como as flores, as pessoas também são todas lindas.
Ela gostou da resposta, esqueceu o assunto e tocou a vida. Mas, eu sei que não é tão simples. Um dia ela vai querer saber mais, vai me fazer novas perguntas e o exemplo das flores não bastará. O difícil não será explicar as diferenças de cores, será explicar as diferenças de tratamentos. Terei que explicar pra ela que as pessoas são estupidas e que apesar de estarmos vivendo a era gloriosa das descobertas e da tecnologia, o homem ainda é o flagelo do homem. E espero que o racismo a deixe muito chocada, como me deixou um dia. (...)
Ah, antes de ir, lembrei uma coisa. Sabe o que eu penso? Que Deus e o mundo achincalha a Preta Gil não por que ela é gordinha (como querem fazer parecer, óh hipócritas!), mas por que ela é uma negra que ousa ser bonita, sensual e principalmente, confiante. Negra (e ainda gordinha) ousando ser confiante? Esfola! Tá cheio de atriz por aí fazendo merda e queimando o filme, mas nunca vi pegarem tanto no pé de alguém como dessa moça.
No Brasil, mulher negra tem que ficar piano, não pode ficar 'se achando' de jeito nenhum.
Ou sou eu que enlouqueci?
* * *
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