... porque nunca sentiram na pele.
A maioria das pessoas tem uma dificuldade absurda de se colocar no lugar do outro. Dizem (com inocência perversa) que ser chamado de "branquelo" é o mesmo que ser chamado de "neguinho". Acham (com ingenuidade criminosa) que racismo não existe só porque seus amigos negros nunca lhes falaram disso.
Mas esquecem que os amigos negros ficam de boca fechada porque, numa cultura que foge do conflito como a nossa, contar quantas vezes a polícia te humilhou na rua é pedir pra ser chamado de chato, criador de caso, ou até mesmo (pasmem!) racista.
Felizmente, existem os blogs. Esse aqui é meu novo favorito:
Menina nasceu numa família inter-racial que se dividiu cedo.
Menina cresceu sonhando em ter longas madeixas lisas iguais às de suas priminhas do único lado da família com o qual mantinha contato regular.
Menina cresceu vendo programas de televisão que eram um mundo de “-etes” e “-itas” de sobrenome europeu e carinha idem.
Menina aprendeu, a duras penas, a valorizar sua herança genética, seus ancestrais africanos, em aproveitar sua estética pra criar visuais interessantes. Menina aprendeu a amar seu cabelo crespo, a valorizar a praticidade das tranças africanas, a combater preconceitos, a jogar no time do “mundo melhor”.
Menina se orgulha (sem modéstia ou arrogância) de suas conquistas profissionais, de sua veia política super desenvolvida, de ser bem informada, culta, estudiosa, batalhadora, vencedora. Menina desconfiava, porque ela é mesmo desconfiada, de que, no país que valoriza tanto a cor e textura do cabelo e a (não) flacidez da bunda, isso não é o que realmente importa.
Menina deixou a cidade mais africana do mundo para trás e veio morar em Paraíso feliz da vida com suas tranças no cabelo. Menina achou estranho, numa cidade com uma população negra e/ou afro-descendente bastante respeitável, não encontrar ninguém usando o mesmo tipo de penteado.
Mas menina já descobriu o porquê.
Menina tirou suas próprias tranças e adotou o visual black enquanto não encontrava o salão de cabeleireiros adequado. Mas também porque Menina adora seu cabelo black (apesar da praticidade das tranças). Menina imaginou que ficaria uns dois meses com o cabelo black e então o trançaria. Ali pelas festas de fim de ano, talvez.
Menina agora sabe que vai manter seu cabelo “eu-sou-negona” pelo máximo de tempo que puder. Tratamento de choque.
Porque menina ficou horrorizada ao ser alvo das manifestações de seus alunos frente ao seu cabelão black: que foram da curiosidade ao choque, do susto à ridicularização. Menina teve que ouvir que seu cabelo é um couve-flor, um alface, que ela parecia uma macumbeira (sic).
Menina viu-se obrigada a dedicar uma aula em cada turma a falar do preconceito racial e religioso travestido de preferência estética. Menina ficou REALMENTE chocada. Porque, vindo da cidade mais africana do mundo (mesmo que preconceito racial também exista lá, e forte!), Menina não estava preparada para isso. Não mesmo.
E se Menina fica chocada com os alunos, que dizer dos digníssimos colegas educadores (sic) que debatem suas ascendências européias enquanto corrigem provas e, ao mesmo tempo, se dedicam a falar do cabelo ruim, mas ruim mesmo (sic), que fulaninho tem. Ou de como seus irmãos ou filhos se sentem tristes por não terem um cabelo tão bom (sic) como os seus.
Menina promete se meter na conversa alheia na próxima ocasião e dizer que ruins são as pessoas que fazem o mal. E que boas são as pessoas que fazem o bem. E que o cabelo crespo dela nunca fez mal a ninguém e, portanto, de ruim não tem nada. Menina vai falar isso sim!! Ah, se vai!!
E Menina também já avisou que dispensa indicações de-um-creme-alisante-ótimo-que-eu-conheço.
Leia o blog: Histórias de Menina
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Update
Sobre Estética, Racismo e Preconceito Contra Si Mesmo
O Márcio escreveu:
Pior que eu acho que eh preconceito estetico mesmo, nao racial. Senao eu teria que considerar as americanas negras racistas contra elas mesmas, ja que 90% delas alisam os cabelos. ... Digo que eh preconceito estetico mesmo, pq eh bem longe do que racismo quer dizer nos EUA/Europa.
E eu respondo o seguinte:
E tem mais aqui: Why Black Girls Still Prefer White Dolls
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Outros posts sobre racismo:
Usos do Nego
Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
Ser da Raça Certa I: Você É da Raça Certa?
Ser da Raça Certa II: 100% Branco
Ser da Raça Certa III: De que Cor É o Personagem?
Ser da Raça Certa IV: O Critério Eliminatório
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Repercussăo da Série sobre Racismo
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