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Semana passada, eu fiz a pergunta, e não era retórica: que desculpas você pediria a sua empregada doméstica?
Só uma pessoa respondeu. Publico aqui o texto enviado por uma amiga:
Não é possível pedir desculpas
Lúcia foi trabalhar na casa da minha mãe quando eu tinha oito anos – saiu quando eu tinha 28 e já nem morava mais lá. Durante esses vinte anos de trabalho doméstico ela nunca cansou de dizer que fora trabalhar lá por minha causa – e por minha causa permanecera.
Peço desculpas à Lúcia por tê-la deixado acreditar que eu era uma menina doce e gentil que a tratava muito bem. Porque a menina doce e gentil nunca se preocupou em saber como é que ela fazia para sobreviver e sustentar duas filhas com aquele salário mínimo que ganhava. E a menina doce e gentil, confortável na ilusão de amizade, não se constrangia em, na frente da Lúcia, negociar mensalidades com a mãe ou dizer o valor de presentes que ganhava – que em muito superavam a sua renda mensal. Aquela menina doce e gentil também não se preocupou em saber de que forma a cama e o quarto apareciam magicamente arrumados quando ela chegava da escola, nem em descobrir o percurso mágico que as roupas sujas faziam do banheiro até a gaveta, onde reapareciam misteriosamente limpas, cheirosas e passadas. Também se permitiu não perceber o que havia por trás da aparição da comida pronta sobre as travessas limpas da mesa de jantar. A menina tão doce e tão gentil nunca se constrangeu em deixar que Lúcia limpasse do banheiro os doces detritos de sua bundinha gentil. E não se incomodou em dividir com a “amiga” os seus problemas de mocinha de classe média: namorados, namorados e namorados. E não percebeu que ela também havia de ter seus probleminhas. Falta de dinheiro talvez? Ou cansaço físico pelas horas de transporte aliadas ao serviço pesado? Ou um fundo de infelicidade por viver a vida da menina doce e gentil na base da compensação imaginária? Porque será que Lúcia não dividiu com sua doce e gentil amiguinha as surras que tomou do marido?
Lúcia perdeu o marido assassinado a tiros, ganhou um neto de uma filha de quinze anos, mudou-se para o interior, ganhou outro neto quando a filha mais nova atingiu quinze anos também, virou evangélica e sustenta sozinha toda a sua família trabalhando em uma república de meninas que deixam suas calcinhas obscenas para ela lavar na mão. Todo ano, no meu aniversário, Lúcia me liga – e sonha em voltar a trabalhar para sua patroa gentil.
H.
Essa reflexão não é fácil. A gente precisa remexer em coisas que não gostamos de remexer, que estão quietinhas lá no passado. Mas também é uma pergunta importante para descobrirmos quem somos e quem queremos ser.
Como sabem, estou escrevendo um livro sobre domésticas e gostaria MUITO de ouvir a opinião de vocês: que desculpas VOCÊ pediria a sua empregada doméstica?
E, se você não tem desculpas nenhuma a pedir, se acha que não cabe a pergunta, que é uma relação profissional como qualquer outra, eu também gostaria de saber.
Para maior privacidade, se não quiserem deixar comentários, mandem emails.
Update
Comentou a leitora Aline:
Bem, Alex, quando vc faz a pergunta "que desculpas vc pediria a sua empregada?", parece que todas as pessoas tem ou pelo menos tiveram empregada em casa.
Olha, se eu perguntar "em qual candidato a presidente vocês votaram em 2002?", isso não quer dizer que eu acho que todo mundo votou pra presidente em 2002, mas que estou dirigindo minha pergunta somente a essas pessoas.
Se um blog lança a pergunta "quando foi a sua primeira menstruação?", eu não vou presumir que o blogueiro tonto acha mesmo que todo mundo menstrua!, mas que a pergunta foi dirigida somente às pessoas que de fato menstruam, o que não é o meu caso. Ou seja, vou ouvir a pergunta e já saber que não é comigo. Etc etc.
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