Pedindo Desculpas à Empregada

Tribuna da ImprensaMinha coluna de hoje, na Tribuna da Imprensa, Pedindo Desculpas à Empregada, é uma adaptação do post de segunda-feira. Os trechos abaixo são novos:

Confesso que fiquei bastante surpreso pela reação dos leitores. Apesar de tosco e falho em vários sentidos, o texto claramente não é uma apologia ao fato, mas sua denúncia. Se ficção, é uma tentativa de quebrar o silêncio sobre um assunto espinhoso. Se não-ficção, é sobre um sinhozinho branco de meia-idade finalmente compreendendo que sua relação "tão natural" com sua empregada era, na verdade, de dominação e horror.

A revolta dos leitores parece ser mais contra o que foi articulado ("como ele tem coragem de confessar um crime desses com essa cara-de-pau!") do que contra o que foi feito. Mas o crime é cometido todo dia, várias vezes por dia, em todo o Brasil: sua articulação em texto foi apenas uma. O que é pior?

Ainda me lembro, no começo da década de noventa, em uma roda de adolescentes classe média-alta da Barra da Tijuca, meus amigos discutindo os méritos comparativos da "empregadinha" sobre a "puta". A maioria tinha perdido a virgindade com putas, mas acabaram "evoluindo" para as "empregadinhas", porque elas "não é só pagar, você tem que seduzir."

Dentre a multidão de anônimos sinhôzinhos brancos da classe média que comete esse crime com naturalidade, sem nem mesmo enxergá-lo como crime, sinceramente achando até que estavam seduzindo as "empregadinhas" que "comiam", já é um passo adiante (pequeno, sem dúvida) que o narrador ficcional de Goldman ao menos em retrospecto perceba seu crime e peça desculpas. Nada perdoa um estupro, naturalmente, mas reconhecer o crime é o primeiro passo para deixar de cometê-lo. ...

E você, amigo leitor que nunca estuprou ninguém, quantas desculpas você tem entaladas no peito e nem sabe? Quantas vezes você humilhou, constrangeu, ou feriu sua empregada doméstica e nem ao menos se deu conta? Do que você se desculparia?

Empregadas e Patroas: uma Relação de Amor Meninas Domésticas, Infâncias Destruídas    Manual da Empregada Doméstica   Espancando a Empregada

 

17.10.08



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Comentários:


Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Embora eu ache tua iniciativa boa, bem intencionada e estimulativa de uma lucidez maior sobre essa questão, me parece q vc já tá quase relando no perigo de igualar "estuprar a empregada" com meramente "transar com a empregada consensualmente". Como demonstram muitos casamentos e relacionamentos patrão/empregada consolidados e ambamente satisfatórios, há uma gama bem graduada entre os dois extremos. O fato de não haver palavras suficientes pra chamar cada coisa por seu devido nome não pode nos levar a usar o nome do pior caso pra designar todos eles.

PermalinkPermalink 18.10.08 @ 01:33



Comentário de: Trovador · http://trovador.wordpress.com

Desculpa, Dr. Plausível, mas discordo. O que ele quer dizer é que os jovens brancos de classe média não tem consciencia de direitos humanos, em sua maioria. Muito menos de cidadania ou coisas do tipo.
Não dizendo que não haja, de fato, relacionamentos saudáveis mas que na sua GRANDE e IMENSA maioria não o são.
Vê-se a empregada no Brasil como uma versão moderna da Escrava de antigamente. Ora, não existia relacionamentos "saudaveis" entre a Escrava e o Senhor de Senzala? Mas convenhamos que sua grande maioria eram estupros.
E por mais que seja "sedução", se você fosse no caso, uma empregada e dependesse do emprego que não tem sequer carteira assinada e o filho do seu patrão tentasse te seduzir e você soubesse (ou não soubesse) que seu emprego depende do humor do pai daquele garoto, que faria?

PermalinkPermalink 18.10.08 @ 16:16



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr/

Você pode ajudar algumas moças bobas de classe baixa a se defenderem de alguns cafajestes de classe média.

PermalinkPermalink 18.10.08 @ 16:54



Comentário de: Jorge Nobre · http://jorgenobre.unblog.fr/

Agora, se você realmente acha que a doença do Brasil é apenas a doença de uma classe e que a maldade diminui junto com o dinheiro, receio que você terá muitos anos de decepções pela frente.

PermalinkPermalink 18.10.08 @ 16:59



Comentário de: Alex Castro Email

jorge, hmm, eu devo ter me confundido um pouco, mas exatamente onde foi q eu disse isso? vc pode citar o trecho?

PermalinkPermalink 18.10.08 @ 18:08



Comentário de: hardy

Acho que o Jorge estava falando com o trovador ali em cima. O Alex realmente lê rápido...

PermalinkPermalink 18.10.08 @ 19:03



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Trovador,
Meu ponto ali era de nomenclatura. Acho temerário chamar de 'estupro' todos os casos-tipo q foram chamados por esse nome nos comentários do artigo anterior do Alex; e tbm chamar pelo nome mais genérico de 'crime' todos os casos em q pode ter havido uma certa truculência. Em maior ou menor grau, a truculência (seja ela física, psicológica, manipulativa, econômica, &c) é uma característica masculina. O homem é em geral maior, mais forte, mais motivado e mais direto do q a mulher. A truculência é apenas uma das formas existentes de manipular um resultado. A mulher é prática em outras formas de truculência. Se o patrão utiliza sexualmente a relação de poder entre ele e a empregada, também ela em algum nível pode estar se utilizando sexualmente ou emocionalmente ou economicamente dessa mesma relação. Dizer depois q foi estupro é função de inúmeras outras variáveis, inclusive a variável de não ter sido bom. (Tamos falando de animais humanos aqui, não de anjinhos.)

Pro Alex, ao q parece, o ideal seria generalizar tudo dentro da definição de 'estupro' ou 'crime' com a esperança de esterilizar a relação patrão/empregada, de erradicar o sexo totalmente da relação P/E, q é fundamentalmente a relação entre um homem e uma mulher. "De-sexualizemos o poder e aí talvez nos tornemos todos puros."

Acho q vou dar um passeio ali no parque enquanto espero isso acontecer.

:•;)

PermalinkPermalink 18.10.08 @ 19:47



Comentário de: Te

O link da Tribuna tá indo pro artigo do dia, não pro seu. Muito bom você levar essa discussão pra Tribuna.

Saiu em DVD um filme nacional dos anos 1970, Como era boa a nossa empregada. Dizem que foi um sucesso de bilheteria quando foi exibido e o Canal Brasil sempre reprisa. Estou pra ver de curiosidade. Mais uma contribuição para o pensamento de que a empregada doméstica também presta serviços sexuais.

PermalinkPermalink 19.10.08 @ 18:46



Comentário de: Alex Castro Email

jah corrigi o link, valeu!

PermalinkPermalink 19.10.08 @ 19:11



Comentário de: Te

Por nada! Aí vai o link pro DVD, o Submarino ainda não vende:

http://www.travessa.com.br/COMO_E_BOA_NOSSA_EMPREGADA/artigo/7e2c4bf0-cbd0-4560-80ce-49269426ffbe

A capa desenhada pelo Ziraldo é uma coisa, putz!

PermalinkPermalink 19.10.08 @ 19:16



Comentário de: mauro tatini · http://mtatini.blogspot.com

eu escrevi um monte sobre isso no site da trip - mas eu ainda acho incrível que ninguem se manifesta no que diz respeito à idade do (fictício ou não, nem importa isso aqui) garoto. O que importa é que ela não queria, e ele insistiu. Primeiro que "por favor, dá pra gente, dá!" não é uso de violência. Segundo que todo mundo querendo a prisão do colunista se "esquece" que o menor no caso era ele; e que crime de estupro caduca depois de 10 anos da data do ocorrido. E quando eu sugeri que as pessoas usassem o tempo delas pra serem voluntárias em diminuir o número de garotas menores que são abusadas no nordeste em nome do sexo-turismo; o número de garotas de rua que tem que trocar o corpo por comida ou algum lugar pra ficar - que acontece diariamente no Brasil - e tudo desse tipo, ninguem respondeu. Porque não dá ibope fazer isso, e dá um trabalho enorme. Mas sentar atrás de um computador reclamando que o "boyzinho" "estuprou" a empregada e "tem que pagar pelo que fez" é fácil. Eu tenho 40 anos, e quando eu era moleque, era comum a gente ser levado pelos pais a uma casa de massagem aos 12, 13, 14 (já muito tarde) pra nossa primeira experiencia - e muitas maes sabiam disso, era "parte de ser/virar homem". Não quero isso pro meu filho, mas não vou ficar olhando pra trás e chorando pelo que se fazia na nossa cultura. Quero parar o que acontece agora, não o que aconteceu. E na nossa época era bem comum isso - a casa de massagem, ou a empregada. Não vou pedir desculpas por fazer parte dessa cultura. (em tempo: eu nunca fui a uma casa de massagens, nem comi a empregada. Mas não foi por falta de vontade - que, a bem da verdade, existia na direçao de um monte de mulheres, desde algumas professoras, até a mãe e irmã de alguns amigos. Eu transei pela primeira vez com minha primeira namorada, o que eu fiz por um ano e meio. Eu tinha 14 quando começamos a namorar, e ela, 30. Isso mesmo, 30. A gente se fala até hoje. Falando nisso, alguem conhece uma pessoa que está na cadeia por ter transado com uma menor? uma única pessoa? só uminha? não achei que conhecessem. Mas isso é "normal". Comer a empregada mais velha, "ah, não, estupro!!!" - principalmente se o "patraozinho" for rico, ou bem de vida. Se ele fosse pobre, ninguem falaria nada - porque não tem graça reclamar nesse caso)

Resposta do Alex: oi mauro. até hj em dia, o que você descreveu ainda acontece muito. a enorme maioria dos meus amigos homens perdeu a virgindade em puteiros, depois se promoveu a empregadinhas, depois mulézinha que se pega em boate e, só então, mulher de verdade, querendo dizer, no linguajar deles, aquela com quem vc tem algum tipo de relação. o que você apontou, na verdade, só indica as diferenças entre os EUA e o Brasil. nos EUA, nao interessa o quanto o moleque tivesse insistido, a mulher iria presa e seria acusada de pedofilia, pasmem. no Brasil, a gente (ou a grande maioria, de acordo com a repercussão do texto) vê a questão diferente: apesar de ser mais jovem, foi o moleque q usou do seu poder econômico para forçar a mulher, apesar de adulta, a ter uma relação sexual q ela não queria. na verdade, claro, as duas interpretações são válidas e possíveis e, como em qualquer interpretação, diz muito sobre quem está interpretando...

PermalinkPermalink 19.10.08 @ 19:24



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