Confesso: tenho medo de gente que não come ninguém.
Não, não é zoação, é sério. Como todo medo, ele revela muito sobre nós mesmos.
Por exemplo, outro dia, conheci esse cara. Inteligentíssimo, professor, articulista. Casa dos trinta, gordinho, olhar de peixe morto, voz vagarosa e monocórdia, cérebro ferino. Desajeitado socialmente, um tanto defensivo, tem sempre uma resposta agressiva para qualquer comentário que interprete como um ataque ou crítica. Num jantarm em São Paulo, o sujeito me apareceu de tênis surrado, calça e casaco de moletom, mochila - roupa de aluno mulambento ir à escola.
Confesso: tenho medo dele. Fico incomodado. Coisas profundas e primordiais me borbulham nas vísceras.
E, como não sou idiota, sei exatamente o que é: me apavora ver nele uma versão possível de mim. Me apavora saber que bastariam alguns dias ruins, umas poucas desilusões, uns três "foda-se" consecutivos, e eu me transformaria alegremente naquela pessoa. Me apavora saber que, em vários períodos da minha vida, eu provavelmente *fui* ele. 
Esse homem é a versão encarnada e ambulante dos meus piores medos em relação a mim mesmo. Como eu poderia não ter medo?
* * *
Sempre que considero a possibilidade de sair de casa de moletom, tênis, pochete, etc, penso no seguinte sketch do Seinfeld:
Jerry: "Again with the sweatpants?"
George: "What? I'm comfortable."
Jerry: "You know the message you're sending out to the world with these sweatpants? You're telling the world, 'I give up. I can't compete in normal society. I'm miserable, so I might as well be comfortable.'"
* * *
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