Orla do Rio Mississippi, domingo a tarde, todo mundo deitado na grama, pegando sol. Chega um jipe do exército, saem três soldados. Imediatamente, as pessoas vêm recebê-los, perguntam de onde são, se é a primeira vez em Nova Orleans, em que unidade servem, agradecem por estarem aqui ajudando na recuperação depois do furacão Gustav.
Dia seguinte, segunda feira de manhã, mesma cena em um restaurante. De repente, entram três soldados, são feitas as mesmas perguntas e agradecimentos, a balconista até lhes oferece café de graça.
Uma alegria só.
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Princípios da década de 90, estou trabalhando com História Militar. Vou a congressos, pesquiso no Serviço Geral de Documentação da Marinha, publico na Revista Marítima Brasileira.
Naquela época, talvez até hoje, os militares sentiam uma carência muito grande. Diziam que eram mal-vistos, que a sociedade civil não se interessava mais por assuntos militares, que a profissão perdera o prestígio. Choramingavam pelos cantos, os coitadinhos.
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Junho de 2008, Lapa. Um amigo e eu comíamos um sanduíche numa lanchonete quando entram quatro ou cinco soldados da PM. Todos com fuzil na mão, prontos para um tiroteio imediato, pisando duro, com ar de donos do recinto.
Olhei para meu amigo, ele olhou pra mim: nos levantamos e fomos embora sem precisar dizer nada.
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Meus amigos militares ficariam mortos de inveja se vissem as cenas que vi essa semana em Nova Orleans. Poxa, diriam, que mundo injusto. Por que os soldados americanos são tão bem recebidos em sua terra enquanto nós somos tão escorraçados na nossa?
Ó vida, ó azar.
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Por um lado, existe a postura.
Os soldados americanos que estacionaram na beira do rio, ou que entraram no restaurante, se comportaram de forma completamente normal. Eram funcionários públicos que, por acaso, vestiam uniforme - assim como um carteiro também veste seu uniforme - mas que se consideravam a serviço do cidadão.
Ao contrário de muitos militares ou PMs brasileiros, não pareciam achar que seu uniforme, ou suas armas, lhes conferiam direitos especiais sobre os outros.
Talvez pisem mais duro quando entram nos bares de Bagdá mas aqui ficam pianinhos. Não posso imaginar nenhum deles dizendo uma frase tão brasileira quanto "sabe com quem está falando?!"
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Por outro lado, a questão na verdade é mais simples.
A receita para um exército ser amado por seu povo é simples: basta não se voltar contra ele, não torturar seus cidadãos, essas coisas. Besteira.
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