Militares nos EUA e no Brasil

Soldiers @ Mississippi River

Orla do Rio Mississippi, domingo a tarde, todo mundo deitado na grama, pegando sol. Chega um jipe do exército, saem três soldados. Imediatamente, as pessoas vêm recebê-los, perguntam de onde são, se é a primeira vez em Nova Orleans, em que unidade servem, agradecem por estarem aqui ajudando na recuperação depois do furacão Gustav.

Dia seguinte, segunda feira de manhã, mesma cena em um restaurante. De repente, entram três soldados, são feitas as mesmas perguntas e agradecimentos, a balconista até lhes oferece café de graça.

Uma alegria só.

* * *

Princípios da década de 90, estou trabalhando com História Militar. Vou a congressos, pesquiso no Serviço Geral de Documentação da Marinha, publico na Revista Marítima Brasileira.

Naquela época, talvez até hoje, os militares sentiam uma carência muito grande. Diziam que eram mal-vistos, que a sociedade civil não se interessava mais por assuntos militares, que a profissão perdera o prestígio. Choramingavam pelos cantos, os coitadinhos.

* * *

Soldiers @ Mississippi River

Junho de 2008, Lapa. Um amigo e eu comíamos um sanduíche numa lanchonete quando entram quatro ou cinco soldados da PM. Todos com fuzil na mão, prontos para um tiroteio imediato, pisando duro, com ar de donos do recinto.

Olhei para meu amigo, ele olhou pra mim: nos levantamos e fomos embora sem precisar dizer nada.

* * *

Meus amigos militares ficariam mortos de inveja se vissem as cenas que vi essa semana em Nova Orleans. Poxa, diriam, que mundo injusto. Por que os soldados americanos são tão bem recebidos em sua terra enquanto nós somos tão escorraçados na nossa?

Ó vida, ó azar.

Soldier Engages Civilians at Mississippi River

* * *

Por um lado, existe a postura.

Os soldados americanos que estacionaram na beira do rio, ou que entraram no restaurante, se comportaram de forma completamente normal. Eram funcionários públicos que, por acaso, vestiam uniforme - assim como um carteiro também veste seu uniforme - mas que se consideravam a serviço do cidadão.

Ao contrário de muitos militares ou PMs brasileiros, não pareciam achar que seu uniforme, ou suas armas, lhes conferiam direitos especiais sobre os outros.

Talvez pisem mais duro quando entram nos bares de Bagdá mas aqui ficam pianinhos. Não posso imaginar nenhum deles dizendo uma frase tão brasileira quanto "sabe com quem está falando?!"

* * *

Por outro lado, a questão na verdade é mais simples.

A receita para um exército ser amado por seu povo é simples: basta não se voltar contra ele, não torturar seus cidadãos, essas coisas. Besteira.

 Elite da Tropa

 

09.09.08


Categorias: Turismo, New Orleans


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Comentários:


Comentário de: Breno Kümmel

Pois é, só de pensar que a vida de um Policial Militar no Rio é tão parecida com a de um soldado americano em Nova Orleans pós-furacão, e eles agem de forma tão diferente...

Realmente, inexplicável.

MAs, olha pelo lado bom, pelo menos se o PM fosse te prender sem motivo, ele não ia poder usar algemas. Há progresso!

PermalinkPermalink 09.09.08 @ 20:00



Comentário de: Luis

Bruno,

mas não é só no Rio..

esse comportamento do militar é no brasil todo. eu mesmo, nunca teria coragem de apertar voluntariamente a mão de um militar.

PermalinkPermalink 09.09.08 @ 20:24



Comentário de: Breno Kümmel

Acho que já vale ressaltar a diferença entre um policial militar e um outro tipo de militar.

PM enfrenta traficante como parte de sua rotina. Outros militares (do exército, marinha, aeronáutica) em sua maior parte só se preparam para uma possível guerra (ou eventual intervenção no Rio).

Tem uma diferença em faltar dedos nas suas mãos pra contar seus colegas mortos e atirar com uma arma num alvo pintado uma vez por mês, no máximo.

PermalinkPermalink 09.09.08 @ 21:59



Comentário de: Vivien · http://www.mejoana.blogspot.com

Eu tenho medo de militar, tenho medo de policial. Se vejo algum desses, vou para o outro lado, fico gelada, suo. Meu filho tira o maior sarro, disse que pareço uma traficante ou coisa parecida, mas o duro é que sou só uma professora inofensiva mesmo...e por isso, morro de medo desses caras lunáticos, suas armas fálicas e seus uniformes ( como disse, seu ar "vc sabe com quem está falando??").
Colocou o uniforme, ficou doido. Pode reparar no olhinho de lunático do cara.

PermalinkPermalink 10.09.08 @ 10:48



Comentário de: Rachel · http://www.riogringa.com

The other twist is that we're at war, and even though most of us don't support the war in Iraq, most people see soldiers as heroes, even if the soldiers haven't been to the Middle East.

PermalinkPermalink 10.09.08 @ 19:09



Comentário de: mauro tatini · http://naruadosbobos.blogspot.com

tem uma outra diferença, bem mais marcante, que na minha opinião faz TODA a diferença do mundo: serviço militar no Brasil é obrigatório. Pior: só não se livra quem realmente não conhece ninguem, não tem um mínimo conhecido aqui ou ali. Sobra só o que sobra, mesmo - um monte de gente que não quer servir o país, mas não tem opção. Aqui nos estados unidos o serviço militar é facultativo - faz quem quer. Com isso, quem está lá QUER estar, escolheu isso, na maioria das vezes faz porque quer seguir carreira - tanto que eles gastam uma grana alta com propaganda, pra que as pessoas se alistem (o lema deles é "army - it's not a job, it's an adventure!")
E quando a gente gosta do que faz...

PermalinkPermalink 10.09.08 @ 20:40



Comentário de: Breno Kümmel

Mauro: pelo menos quando fui prestar contas no serviço militar obrigatório, só ficava quem queria. Tinha mais gente querendo servir do que vaga.

PermalinkPermalink 10.09.08 @ 23:56



Comentário de: Alex Castro Email

mauro, já falei com muitos militares e todos me dizem que tem muito mais gente querendo servir do que somente os 10% dos alistados que eles podem pegar... o trabalho agora é selecionar os melhores dentre os que alistam.... via de regra, eles perguntam se vc quer servir, quem diz que nao está fora, e eles selecionam os melhores entre os que querem....

PermalinkPermalink 11.09.08 @ 11:40



Comentário de: Ricardo Florentino · http://www.rflorentino.blogspot.com/

A função principal dos militares é servirem a pátria, motivo por si só justificável para os cidadãos os amarem. Servir no sentido de defender a nação de ataques estrangeiros e auxiliar a população em situações catastróficas, além de outras funções consideradas nobres. Porém a atitude das pessoas perante eles reflete a postura dos militares, a forma de relacionar-se com o próximo e as ações que realizam no exercício de suas funções.

No Brasil, por exemplo, diversos fatores contribuem para a imagem negativa das forças armadas, como o episódio dos soldados que entregaram os favelados aos traficantes, para serem executados. Além, como citado no texto, o relacionamento com os cidadãos não ser exatamente em uma situação de igualdade.

PermalinkPermalink 11.09.08 @ 11:57



Comentário de: Te

Policiais brasileiros pra mim são tão sinistros (militar com seu uniforme, civil com sua cara de bicheiro e federal fazendo circo das suas ações, todos ostentando armas) que quando soube de um que tratou o bandido que prendia por senhor perguntei se ele tinha saído de um episódio de Law and Order.

PermalinkPermalink 11.09.08 @ 13:25



Comentário de: Te

Olha outra prova do desprestígio dos policiais na sociedade (apesar de dizerem que o motivo do protesto é outro):
http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2008/09/11/alunos_da_uff_fazem_manifestacao_contra_criacao_do_curso_de_seguranca_publica-548179310.asp


PermalinkPermalink 11.09.08 @ 14:05



Comentário de: Breno Kümmel

Realmente ia ser complicado ter policial no campus... os maconheiros teriam que se esconder nos cantos mais escuros da faculdade pra poder curtir seu hobby, em vez de fazer em qualquer lugar como hoje fazem.

PermalinkPermalink 11.09.08 @ 17:08



Comentário de: Luiz Aquino · http://hajaluz.net

Ontem ocorreu algo que eu me lembrei ao ler seu texto.

Chegava na minha faculdade de bicicleta e tive que passar próximo a um guarda. Ele não saiu da frente até que bem próximo lhe pedi licença.

Temo em pensar no que poderia ocorrer se lhe "atropelasse", mesmo que isso fosse culpa dele por ter ficado de propósito em minha frente.

Percebo que ele ficou na frente de propósito para mostrar que eu deveria me submeter a ele se quisesse passar.

Ele não é PM ou Soldado, é um segurança de empresa particular. O comportamento dele representa uma cultura medíocre, que se manifesta quando um idiota coloca um uniforme e imagina ser autoridade somente por causa disso.

PermalinkPermalink 16.09.08 @ 11:26



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