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Um leitor, de 18 anos, me mandou o seguinte email:
Queria saber como foram os teus 18 anos. O que tu pensava da vida, o que fazia, tua vida social... se puder escrever um bocado, com detalhes como numero de mulheres comidas/mês, número de livros lidos/mês e outros detalhes do tipo eu aceitaria de bom grado!
Achei engraçado tentar lembrar dos meus 18 anos.
* * *
Nos meus 18 anos, pra começar, eu não comi ninguém, não beijei ninguém, e nem mesmo pensei no assunto. Simplesmente não era uma das minhas preocupações. Só perdi a virgindade e dei o primeiro beijo no ano seguinte.
Na primeira metade do ano, eu era presidente do grêmio, o que quer dizer escrever um artigo mensal pro jornal oficial da escola, comparecer às reuniões do Conselho, falar em eventos festivos e presidir uma reunião semanal, em inglês, para todos os representantes de todas as turmas e para quem mais quisesse vir, de acordo com os parliamentary rules of procedures, que eu tive que decorar, coisas como the president of the senior class has the floor, you're out of order, etc.
Na segunda metade, fui tesoureiro da minha turma e gerente da lanchonete da escola. Essa lanchonete era a única fonte de renda da turma para fazer a festa de formatura. Se a lanchonete não desse lucro, não tinha festa. Se desse pouco, tinha uma festa mixuruca. E a responsabilidade era minha. Então, era só nisso que eu pensava, lucro, receitas, politicagens, mudanças no menu, aumento de preço, encomendas de material, já chegou o cara do Sadia?, precisa encomendar mais picolé?, será que o queijo ainda dura até semana que vem?, Alexandre, vem assinar o recebimento da entrega da Elma Chips, e também as escalas de serviço, todos os alunos tinham que trabalhar na lanchonete, quem é que tinha que estar na caixa registradora agora?!, vai achar fulano pra vir me substituir que eu tenho que ir pra aula, e esse menino está reclamando que o hamburger dele está mal-passado, passa de novo.
(Logo depois disso, eu virei vegetariano, de pura náusea. Fiquei anos sentindo aquele cheiro de hamburger no meu cabelo.)
Precificar os produtos era especialmente difícil, pois estávamos em uma das piores crises inflacionárias da história, os preços aumentavam todos os dias, os gibis e revistas eram vendidos com códigos ao invés de preços (C4, A9, etc) e as editoras mandavam motoboys cruzarem as as bancas da cidade uma ou duas vezes por dia pra trocar as tabelas de preços. De manhã, o C4 era um milhão de narjaras-turetas; à tarde, já estava um milhão e meio. Quem não viveu, nunca vai conseguir conceber. Eu nem lembro qual era a moeda.
Basicamente, a escola me consumia completamente. Além disso, eu ainda era editor do jornal brasileiro, que saía mensalmente e era 70% escrito por mim; participava da equipe de Knowledge Bowl, uma competição de conhecimento gerais com campeonatos por todo o continente; e também fazia parte do Model United Nations, um projeto em que escolas do mundo inteiro aprendiam os procedimentos da ONU e simulavam uma reunião da Assembléia Geral. Nossa escola seria o Kuwait, em um momento bastante delicado - logo após a Guerra do Golfo.
* * *
Nos meus 18 anos, eu fazia fonoaudiologia duas vezes por semana. Sem isso, eu não teria conseguido conduzir as reuniões do grêmio. Eu era muito gago. Foi com a fonoaudióloga que aprendi todas as técnicas de oratória que possibilitaram que eu ganhasse a vida dando aulas até hoje.
Mais do que tudo, ela que me ensinou Ioga e controle da respiração. Antes de cada reunião, eu sumia no backstage do auditório e ficava meia hora fazendo minhas posições de ioga, indisponível e incomunicável. Só quem sabia disso eram meus amigos mais próximos e minha equipe.
Com o tempo, surgiu até uma certa lenda. Afinal, onde estava o presidente do grêmio naquela última meia hora caótica antes da reunião semanal?
Ninguém acreditaria que aquele gordo elétrico estava deitado no chão fazendo a folha seca e respirando 3-6-9.
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Nos meus 18 anos, eu viajei pro exterior três vezes. Primeiro, a família foi esquiar na Áustria, depois atravessamos a Europa de carro até Paris e ainda visitamos as ilhas do Canal da Mancha. Foi a última viagem que meu pai, minha mãe, minha irmã e eu fizemos juntos.
Mais tarde, meu time de Knowledge Bowl foi representar o Rio de Janeiro em uma competição no Chile, onde ficamos em terceiro lugar.
E, por fim, novamente pela escola, fui para Haia, capital da Holanda e sede do tribunal-geral da ONU, onde eu e os outros integrantes da nossa delegação tentamos convencer os demais países que o Kuwait merecia todas as vantagens do mundo por ter ficado sob o controle do Saddam por alguns meses. Aproveitei pra dar um pulo na Alemanha e visitar minha irmã, que estava morando lá.
* * *
Quando eu tinha 18 anos, eu parei um avião na pista.
Estávamos em Jersey, ilha do canal da mancha bem próxima a França, única área do Reino Unido a ser ocupada pelos nazistas. O museu da ocupação era bem interessante, mas como estávamos no inverno, ele só abria uma vez por semana, justamente no dia do nosso vôo pra fora da ilha. Combinei com a família que eu iria acordar cedo, ir pro museu e encontraria eles no aeroporto. Dito e feito. Chego no aeroporto e cadê a minha mala?! Todos estavam tão acostumados a levar cada um a sua que largaram a minha no hotel.
Naquela época, no inverno, a Jersey European Airways só voava uma vez por semana pra Paris, de onde sairia nosso vôo pro Brasil poucas horas depois. Resultado: não podíamos perder aquele avião de jeito nenhum. Enquanto meu pai correu pro hotel pra pegar minhas coisas, eu, que falava inglês melhor, fiquei no aeroporto com uma tarefa simples: fazer de tudo mas não deixar aquele teco-teco decolar. (Era um bimotor de uns 15-20 lugares)
Chorei, implorei, gesticulei, improvisei. Em plena pista. No maior frio. E os ingleses todos, passageiros e tripulação, desesperados pro vôo sair na hora. Mas consegui segurar o avião até meu pai chegar.
* * *
Nos meus 18 anos, minha família desmilinguiu-se. Perdi meu cachorro querido, o Júnior, envenenado, minha mãe saiu de casa e foi morar num apart-hotel e minha irmã foi pra Alemanha. Subitamente, sobramos só eu e meu pai em um apartamento de 600m² na Barra.
Ganhei meu primeiro carro, um Santana 2000, automático, depois de ter desistido, por medo, de aprender a dirigir carro manual. Eu não tinha carteira (só fui tirar aos 19 anos) e bati umas 11 vezes naquele primeiro ano. O Zé (era o nome do carro) quase virou sucata. Mas como eu era o único da turma com carro, todo mundo ignorava os perigos e andava comigo pra cima e pra baixo. Nunca gastei tanta gasolina. Toda a noite eu cruzava a cidade, da Barra até a Urca, passando pelo Itanhangá, Gávea, Leblon, Ipanema e Botafogo.
Apesar de eu não beijar nem comer ninguém, minha vida social era agitada. O grupo era basicamente eu e minhas melhores amigas, mulheres lindas, fortes e inteligentes que amo até hoje. Ocasionalmente havia um outro homem, mas nem sempre.
Todo mundo tinha dinheiro (gastava-se muito), eu tinha carro, então saíamos por toda Zona Sul, pra jantar, dançar, ir ao cinema ou ao teatro, festas aqui e ali. Tomei os únicos porres da minha vida - depois, nunca mais bebi - e também foi o ano em que aprendi a fumar.
Os points que eu mais frequentava naquela época já não existem mais: Zepellin, na Niemeyer, o Mostarda e o Albericos, em Ipanema, Caneco 70, no Leblon. Ficar velho é isso.
Ano-Novo e o Carnaval eu passei na casa de Angra de uma dessas minhas grandes amigas.
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Eu já lia muito, mas não tanto quanto hoje. Foi nesse ano que descobri The Lord of the Rings, naquela época, ainda desconhecido, e um dos meus livros preferidos até hoje. Lembro que também li os thrillers da moda daquele ano, Jurassic Park e The Firm, que passavam de mão em mão. Não me lembro de outros livros lidos por conta própria, mas na época eu lia muito gibi.
Aos meus 18 anos, eu me viciei em Star Trek, assistindo reprises da série clássica na TV, em fitas de vídeo da Nova Geração e, sobretudo, nos pocket books. Naquela época, sempre que alguém ia para os EUA, gravava quantos episódios podia e trazia pro Brasil. As fitas circulavam por dezenas de pessoas, especialmente professores. Eu gostava mais dos pocket books, porque as histórias era mais elaborados que nos episódios. Cada um dos fãs tinha meia dúzia de livros e todos circulavam muito. Estávamos antes da Internet, lembram? Simplesmente, não havia como conseguir essas coisas de outro jeito.
Pra escola, eu estava cursando algumas aulas bem avançadas, como a aula de ONU, Teoria do Conhecimento (onde lemos Saussure, Kuhn e outros que não lembro) e, especialmente, literatura avançada. Essa aula era uma delícia e lemos muita coisa boa, como O Estrangeiro, Hamlet, Retrato do Artista Quando Jovem, A Metamorfose e outros.
Tinha acabado de escrever meu primeiro romance, aos 17, e não tive fôlego para mais nada no ano dos meus 18. Tentei uns contos mas, basicamente, o que mais fiz foi escrever o jornal da escola. O folhetim que mantive durante quatro anos ficou histórico e é lembrado até hoje: Marcados pelo Destino, as aventuras de uma mulher má que sempre aparecia descalça nas minhas ilustrações. Sim, eu já era doente.
Foi nesse ano também que eu reuni os meus melhores artigos do jornal da escola e mandei pra Revista Mad, mas só foram comprados no ano seguinte. Muitos dos artigos que vendi pra Mad surgiram no meu jornal da escola.
Eu não tinha computador, nem sabia usar. Naquela época, eu digitava em uma máquina de escrever eletrônica chamada Canon Typestar 7, que me serviu fielmente de 87 a 94 e cruzou quatro continentes. Procurei essa imagem pra mostrar pra vocês e me bateu uma puta saudade. Nem sei o que foi feito dela.
* * *
Tirei uma nota alta no SAT (teste padrão de conhecimentos) e comecei a ser bombardeado por junk mail de universidades americanas. Considerei algumas no sul, principalmente Tulane, mas a verdade é que eu não tinha a menor vontade de ir morar fora. Minha família não interferia nessa questão, mas, na escola, a pressão era enorme pra eu ir para os Estados Unidos.
Lá pelos meus 15 e 16, o que eu mais queria era estudar Hotelaria e Culinária na Suiça - uma vontade que passou, ainda bem. Aos 18, eu não fazia nenhuma idéia. Sabia que seria algo como História ou Literatura, e que eu preferia ficar no Brasil. Só.
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No resto do mundo, teve Olimpíada em Barcelona e eu caguei. Collor foi impeached e eu vibrei. Cairam duas aeronaves no mesmo dia, uma com o Ulysses e outra com o Arafat. O Ulysses nunca mais foi encontrado, mas o durão do Arafat foi encontrado andando sozinho pelo deserto alguns dias depois, único sobrevivente. Soube do assassinato da Daniela Perez quando estava na casa de uma amiga em Nogueira, na serra de Petrópolis, e fiquei chocado. Eu ouvia muito The Mamas & The Papas, Right Said Fred, REM, Fine Young Canibals e Queen. American Pie e Bohemian Raphsody eram as músicas que mais tocavam no meu carro.
Assisti Shadows & Fog, do Woody Allen, em um cineminha de Paris, antes mesmo dos americanos, pois ele estréia seus filmes primeiro na França, e é um dos meus filmes favoritos dele. Assisti The Last of the Mohicans em um cineminha de Haia e também se tornou um dos meus filmes favoritos, com um porém - não entendi metade do filme, pois quando os índios falavam em suas línguas nativas, as legendas eram em holandês.
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Finalmente, aos meus 18 anos, eu passei o maior susto da minha vida. Pela primeira e única vez, entrei em pânico, perdi o controle e agi sem pensar.
Ipanema, sexta-feira, 13 de novembro, em frente à faculdade Cândido Mendes, indo assistir de novo Shadows & Fog. Elas entraram e fui estacionar o carro. Fiz merda. Bati no carro da frente. Fui tentar sair e bati no de trás. Fui tentar sair e bati no da frente e ele, por sua vez, bateu no carro que estava em sua frente. Cagada total.
As aulas da noite tinham acabado de acabar e todos os alunos da faculdade saíram do prédio para ver um gordo louco destruindo os carros de seus colegas e amigos. Rapidamente, fui cercado por uma horda de vândalos que começou a socar os vidros e balançar o carro. Saí correndo, mas tive que parar no sinal, 30 metros depois. Eles vieram atrás de mim e continuaram gritando, xingando, sacudindo o carro. O sinal abriu e acelerei.
Parei o carro e percebi o problema: meu pára-choque traseiro (com minha placa!) não estava mais lá. Mandei um amigo lá falar com o guardador e ele revelou que meu pára-choque ficou enganchado no pára-choque do Fusca que estava atrás de mim e um amigo dos donos de um dos carros batidos levou com ele. Fiquei semanas tenso, esperando um telefonema fatídico, mas ninguém nunca ligou.
Não sei o que foi feito do meu pára-choque. Nunca mais revi Shadows & Fog.
* * *
Completei 18 anos em um barzinho delicioso, embalado por músicas da década de 70, chamado The Londoner, na estação de esqui austríaca de Kitzbühel.
No meu aniversário de 19, passei a manhã na escola badalando com as amigas e não fui a nenhuma aula, saracoteei pela cidade com a Bel à tarde, e jantei com as amigas e a família à noite.
Não fiquei sozinho nem um só segundo. Nunca me senti tão amado. Foi um dos dias mais felizes da minha vida e final perfeito pros meus 18 anos.
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E vocês? Como foram os seus 18 anos? Que tal fazer um post também?
Adendo
Escreveu o Permafrost:
Qdo eu tinha 18 anos era um perfeito idiota.
E, como acho que fica claro pelo post, eu também, eu também... E quem não era? Tem coisa mais medíocre do que já atingir todo seu potencial aos 18?
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