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A Não-Alienação Não Leva a Nada
Em 2002, recém-falido, eu não tinha eira nem beira.
Não via TV, não lia nenhum jornal ou revista, livros só da biblioteca e acessava a Internet via conexão discada, sempre precariamente, sempre rápido, e ainda gastava todo o meu dinheiro com pulsos excedentes. Se eu passasse 10% do meu tempo na Internet era muito. Futuro profissional? Nenhum. Dava aulas de inglês no cursinho do bairro e olhe lá. Enquanto isso, estava casado e apaixonado.
Nunca fui tão feliz como em 2002. Foi o auge da minha alienação. Jamais fui tão egocêntrico. De certo modo, quando se vive assim, é quase como se o mundo não existisse. Mergulhei dentro de mim mesmo, descobri civilizações inteiras lá dentro, dobrei o Cabo Bojador, exporei a fossa das marianas. Concebi as prisões.
Dois anos depois, em 2004, eu já não era mais tão alienado.
Em parte por causa da minha coluna semanal na Tribuna da Imprensa, eu assinava, e lia de cabo a rabo, a Folha, o Globo e a própria Tribuna. Além disso, também lia, na Internet, bons pedaços do JB e New York Times. E ainda ficava passando a limpo sites de notícias como Ananova, Slate, Wired e outros, verdadeiro colunista-predador em busca de assuntos e novidades.
Meu horizonte profissional estava outro. Escrevia a coluna. Mantinha alguns sites. Minha empresa de consultoria tinha pego no tranco e eu estava prestando serviços para algumas das maiores empresas do Brasil.
Passava o dia inteiro conectado em alta velocidade. Quando não estava escrevendo, estava editando textos, catando imagens, subindo imagens pro servidor, buscando links, pesquisando para uma coluna, entrevistando alguém, divulgando meu trabalho, respondendo emails, pra não falar, claro, de trabalhar pros meus clientes de consultoria.
Alguns, quase todos, aliás, diriam que a minha vida melhorou.
Mas eu dormia três horas por noite e vivia cansado. Passava, fácil, 70% (talvez mais) do meu tempo conectado. Saía pouco. Lia quase nada. Há muito tempo, não flanava sem rumo pelas ruas. No meio do ano, eu e minha esposa nos separamos.
A não-alienação não leva a nada.
Sou Mais Eu do Que o Mundo
Há pessoas que combatem a alienação. São uns criminosos contra a humanidade. Sem nossa alienação, o que seria de nós?
Durante as eleições presidenciais norte-americanas de 2004, eu escrevi várias colunas sobre como ambos os candidatos estavam usando a internet pra alavancar suas campanhas. Pesquisei muito. Lia trocentos artigos por dia. Estava completamente informado sobre esse assunto que, afinal, não poderia ser mais relevante. A vitória de um ou de outro candidato teria um impacto direto no futuro do mundo.
Mas e daí? Essa não-alienação me ajudou em alguma coisa? Vou poder influir no curso dos acontecimentos? Me tornei uma pessoa melhor por estar mais informado sobre a eleição? Ou mais madura, mais sábia, mais tolerante, mais sexy, ou mais qualquer coisa de minimamente importante?
Enquanto isso, num teste-surpresa, minha futura ex-mulher pediu pra eu listar três coisas que ela não gostava de comer. Eu não soube dizer nenhuma.
Saber que coisas minha esposa não gosta de comer é um conhecimento infinitamente (repito, infinitamente) mais importante do que saber qualquer coisa sobre as eleições norte-americanas, inclusive o simples fato de que elas vão acontecer.
Quanto mais antenado fico com o mundo, mais me distancio de mim mesmo. Quem perde com esse processo de distanciamento sou eu, não o mundo. Está na hora de revertê-lo. Sou mais eu do que o mundo a qualquer hora.
Há um universo inexplorado dentro de cada um de nós. O último escândalo de Brasília, a CPI do momento, o artista baleado num assalto, o homem na lua, a batalha de Stalingrado, tudo isso empalidece comparado aos enormes mistérios que carregamos de um lado para outro, dentro de nós.
Eu quero explorar os meus.
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