Vergonha da Escravidão (Histórias de um País Escravocrata)

Continuo tentando traçar o esquecimento da escravidão na cultura brasileira. Naturalmente, esse esvaziamento não acontece no vácuo, mas é fruto de um longo e intencional projeto de rasurar a vergonha da escravidão de todas as esferas da cultura brasileira, das artes ao direito.

   Casa-Grande e Senzala  Escravos, Os

Nosso primeiro código civil, a Consolidação das Leis Civis, encomendado pelo governo imperial a Teixeira de Freitas em 1855, não contém nenhum artigo referente à escravidão – assim como a Constituição de 1824, ambos documentos fingem que a escravidão não existe. O pacto nacional parece ser: se não falarmos nela, pode ser que os estrangeiros não percebam que exista e paremos de passar vergonha no exterior, ao mesmo tempo em que continuaremos a usufruir dos seus benefícios.

Escreveu Teixeira de Freitas (citado em Nabuco, Joaquim. O Abolicionismo, pp.89-90):

“Cumpre advertir que não há um só lugar do nosso texto onde se trate de escravos. Temos, é verdade, a escravidão entre nós, mas se esse mal é uma exceção que lamentamos, condenada a extinguir-se em época mais ou menos remota, façamos também uma exceção, um capítulo avulso na reforma de nossas Leis civis; não as maculemos com disposições vergonhosas, que não podem servir para a posteridade; fique o estado de liberdade sem o seu correlativo odioso. As leis concernentes à escravidão (que não são muitas) serão pois classificadas à parte, e formarão o nosso Código Negro.”

Nabuco, naturalmente, caçoa: seria muito patriótico não legislar sobre a escravidão se isso fosse beneficiar os escravos, mas

“quando não se legisla sobre estes porque a escravidão é repugnante, ofende o patriotismo, é uma vista que os nervos de uma nação delicada não podem suportar sem crise, e outros motivos igualmente ridículos, desde que no país noite e dia pratica-se a escravidão e todos se habituaram, até a mais completa indiferença, a tudo o que ela tem de desumano e cruel, à vivisecção moral a que ela continuamente submete suas vítimas, esse receio de macular nossas leis civis com disposições vergonhosas só serve pra conservar aquelas no estado bárbaro em que se acham.”

 Abolicionismo
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* * *

Em 1857, o Brasil tentou estabelecer um tratado de extradição com a França, mas os franceses rejeitaram uma cláusula sobre a repatriação de escravos fugitivos. Em 1868, tentou-se novamente e a França, tendo aceitado a cláusula, queria apenas a garantia de que os escravos seriam tratados como cidadãos. Infelizmente, isso esbarrava em um pequeno problema: nossa vergonha patológica em admitir por escrito a existência da escravidão.

Escreveu Rio Branco, chefe da diplomacia brasileira, a um subordinado:

“Não fiz menção no projeto dos casos relativos a escravos porque não havia necessidade, uma vez que entram na regra geral. Demais, tenho grande repugnância em escrever essa palavra em documento internacional.”

E comenta Joaquim Nabuco:

“O governo francês, porém, também tinha sua honra a zelar, não partilhava essa repugnância, e precisava garantir a sorte dos antigos escravos que extraditasse. ... Até quando teremos uma instituição que nos obriga a falsificar a nossa Constituição, as nossas leis, tratados, estatísticas e livros, para escondermos a vergonha que nos queima o rosto e que o mundo inteiro está vendo?” (p.95)

* * *

O mais triste é que nada mudou. Lendo e relendo os comentários das minha série de posts sobre o racismo, só vejo mais exemplos dessa mesma vergonha, repugnância e denegação, nas suas mais variadas matizes: “somos uma democracia racial”, “não temos racismo”, “o nosso problema é social”, “os policiais param mais negros porque eles são mais pobres e os mais pobres tendem a ser mais criminosos” (frase campeã), etc etc.

* * *

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28.07.08


Categorias: Livros, Raça


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Comentários:


Comentário de: Suzana

Não acredito muito na possibilidade de que
isso mude algum dia. Sou negra e pra um negro
é também difícil chegar pra alguém e falar:
cuidado com essa expressão ou essa linha de
pensamento, pq ela é claramente racista. As
pessoas se ofendem facilmente e usam os
argumentos de sempre: no Brasil é classe e
não raça, como se um preconceito fosse melhor
do que o outro. Quando as pessoas simplesmente
se negam a ver, fica difícil dialogar.

PermalinkPermalink 28.07.08 @ 08:18



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Alex,
Pesquisa admirável e interessantíssima. Só me pergunto até q ponto, numa tese q idealmente deveria ser isenta, é ideológico de tua parte fundir "escravatura" e "racismo contra o negro" numa só entidade. Também houve escravatura de índios. É possível haver escravatura de qqer raça, de qqer pessoa, mesmo entre pessoas da mesma raça e ela será odiosa da mesmíssima forma. O racismo tbm é odioso da mesma forma, seja ele entre quaisquer raças. Mas o fato de a escravatura e o racismo serem igualmente odiosos não os torna idênticos entre si.

Qdo vc diz "o mais triste é q nada mudou", fica difícil fazer mais do q assentir com a cabeça, só pra fazer algum movimento. A raça dos escravos nem sequer é mencionada nos textos citados. Não pode ser porque Teixeira, Rio Branco e Nabuco tivessem mais horror de escrever a palavra 'negro' do q a palavra 'escravo'. Só pode ser porque a vergonha nada tinha a ver com a raça, e sim com a instituição da escravatura.

PermalinkPermalink 28.07.08 @ 21:38



Comentário de: Alexandra · http://www.peregrinatrix.com

Dr Plausível,

Pelo que eu saiba, escravizar os indios se revelou um fracasso no Brasil logo no início da colonização. Não só era difícil manter os indios como escravos por vários motivos incluindo o fato de que eles fugiam com muito mais facilidade do que um negro que não conhecia a região, como também a igreja cedo condenou a escravização do índio e esta foi logo substituída pelos negros trazidos da Africa.

No Brasil, no século XIX, falar de escravo é falar de negro. E falar de racismo hoje, é falar da herança da escravidão. É difícil separar duas coisas tão intimamente ligadas.

PermalinkPermalink 12.07.10 @ 16:56



Comentário de: Indy · http://adapt-se.blogspot.com/

Tadinho dos negros,leite quente, biscoitos e beijinho na testa.E claro, cotas e tudo quanto mais os brancos malvados puderem fazer pra se redimir dos erros cometidos no passado.Não tenho vergonha do que houve no Brasil,não por eu achar certo,é indiscutivelmente errado.Mas não fui eu,não tenho nada com isso.Discutir racismo no Brasil é risível.Os problemas são sim de ordem social,e por mais que a frase “os policiais param mais negros porque eles são mais pobres e os mais pobres tendem a ser mais criminosos”(acho até que é minha essa frase) pareça uma ofensa para quem levanta a bandeira da existência do racismo no Brasil,não deixa de ser uma verdade.O racismo existente no passado nos deixou de herança um problema social grave,a sociedade hoje em dia luta contra essa discrepância entre os níveis sociais.Ninguém em seu juizo perfeito comete o erro de ser racista nos dias atuais.Ja sabemos o que é certo e errado,discorrer sobre esse tema é gastar tempo e energia.Os direitos são os mesmo pra todos,o que não pode é tentar compensar dando regalias a pessoas negras hoje em dia,porque no passado negros não tinham direitos.Isso gera conflito,desnessesário diga-se de pasagem.

PermalinkPermalink 12.07.10 @ 17:04



Comentário de: HTC Sync · http://htcsync.org/

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