Em 1831, como parte de nosso acordo com a Inglaterra para sermos reconhecidos como nação independente, o Brasil passou uma lei proibindo o tráfico de escravos. Vem daí a expressão “pra inglês ver”, pois o governo nunca fez nem a menor menção de implementar a lei e o tráfico continuou praticamente igual, o número de escravos importados chegou a subir.
Caso único na história do mundo, quando o governo imperial finalmente decidiu, por motivos próprios, terminar com o tráfico, passou uma outra lei, em 1850, basicamente proibindo o que já era proibido pela lei de 1831 – mas, dessa vez, é sério, hein, gente? Olha, não pode mais. De verdade. Mesmo.

Nunca vi análise mais corajosa, mais lúcida, mais combativa, mais atual. Recomendo sem restrições.
Abaixo, um trecho de um discurso de Lorde Brougham, proferido no Parlamento inglês em 1842 e citado por Joaquim Nabuco em O Abolicionismo (1883). É um pouco longo, mas vale a pena ler, é engraçadíssimo:
Em primeiro lugar, disse ele, temos a declaração expressa de um homem de bem no Senado do Brasil, de que a lei que aboliu o tráfico é notoriamente letra morta, tendo caído em desuso. Em segundo lugar temos uma petição ou memorial da Assembléia Provincial da Bahia ao Senado urgindo pela revogação da lei; não que ela os incomode muito, mas porque a cláusula que os escravos importados depois de 1831 são livres embaraça a transação da venda e torna inconveniente possuir negros há pouco introduzidos no país. Eu encontro outra Assembléia Provincial, a de Minas Gerais, pedindo a mesma coisa com iguais fundamentos. Depois de insistir nos perigos para o país da falta de negros, o memorial acrescenta: “Acima de tudo, o pior de todos esses males, é a imoralidade que resulta de habituarem-se os nossos cidadãos a violar as leis debaixo das vistas das próprias autoridades!” Eu realmente acredito que a história toda de desfaçatez humana não apresente uma passagem que possa rivalizar com essa - nenhum outro exemplo de ousadia igual. Temos nesse caso uma legislatura provincial que se apresenta por parte dos piratas e dos seus cúmplices, os agricultores, que aproveitam com a pirataria comprando-lhe os frutos, e em nome desses grandes criminosos insta pela revogação da lei que o povo confessa estar violando todos os dias, e da qual eles declaram que não hão de fazer caso enquanto continuar sem ser revogada; pedindo a revogação dessa lei com o fundamento de que, enquanto ela existir, resolvidos como estão a violá-la, eles se vêem na dura necessidade de cometer essa imoralidade adicional debaixo das vistas dos juízes que prestaram o juramento de executar as leis.
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