Na Verdade, as Idéias Estão no Lugar (Histórias de um País Escravocrata)

Sempre me causou bastante incômodo a famosa tese de Schwarz sobre as “idéias fora de lugar”.

 Ao Vencedor as Batatas Machado de Assis, Historiador SIDNEY CHALHOUB

Grosso modo (isso é um blog, ok? Para mais detalhes, consultem a bibliografia), ele aponta a incongruência das idéias liberais (artificialmente importadas da Europa) em uma sociedade não- ou pré-burguesa, onde esse discurso seria incompatível com nossa realidade escravista e clientelista, considerando também essa cultura do favor (e não a escravidão) o grande “nexo efetivo da vida ideológica” brasileira.

(O artigo está disponível integralmente na internet, ou pode ser encontrado no livro Ao Vencedor, As Batatas.)

Nunca consegui articular bem o meu incômodo com essa teoria e tenho ficado bem caladinho, claro. Afinal, quem sou eu pra discutir com Schwarz!

Entretanto, estou vendo que terei que fazer isso, em algum momento na minha tese, e já estou colecionando aliados tão diversos quanto Sidney Chalhoub, Alfredo Bosi e Ricardo Salles.

Abaixo, somente alguns esboços de idéias e possíveis linhas de argumentos. Sintam-se à vontade pra detonar.

  História Concisa da Literatura Brasileira Joaquim Nabuco: um Pensador do Império

Já Estiveram as Idéias no seu Lugar?

Se no Brasil, o liberalismo era uma “idéia fora de lugar”, incongruente e incompatível com as práticas econômicas, sociais e políticas cotidianas, onde ele não o foi? Existiu, em algum lugar, esse liberalismo puro, essa superposição perfeita entre discurso e prática liberal?

 Era das Revoluções: Europa 1789 - 1848Iracema

Como lembra Hobsbawm (na Era das Revoluções), na década de 1850, ao mesmo tempo em que, segundo Schwarz, José de Alencar escrevia romances fracos e artificiais por tentar aplicar ideais burgueses a uma realidade clientelista, a Suíça era o único estado europeu que tinha sufrágio universal masculino.

Nesse contexto, se as idéias estavam fora do lugar em todos os lugares, faz mesmo sentido falar em “idéias fora do lugar” no Brasil?

  Dialética da Colonização

De Alfredo Bosi, Dialética da Colonização (SP: Cia das Letras, 1992):

“Até meados do século [XIX], o discurso, ou o silêncio de todos, foi cúmplice do tráfico e da escravidão. O seu liberalismo, parcial e seletivo, não era incongruente: operava a filtragem dos significados compatíveis com a liberdade intra-oligárquica e descartava as conotações importunas, isto é, as exigências abstratas do liberalismo europeu que não se coadunassem com as particularidades da nova nação.” (p.211)

Qual É o Nexo Efetivo da Vida Ideológica do Brasil no Século XIX?

Joaquim Nabuco, em O Abolicionismo (1883), é um dos primeiros a arriscar uma interpretação total do Brasil colocando a escravidão no centro de sua análise, como o fator constitutivo do país. Até então, como notou Ricardo Salles (NI, 139), quando os oitocentistas faziam suas auto-críticas do Brasil, os maiores problemas eram vistos como sendo provincianismo, patriarcalismo e patrimonialismo.

 Abolicionismo

Eu, que concordo com o Nabuco de 1883 de que a escravidão nos define até hoje, acho moderadamente irônico que Schwarz desloque a escravidão do “nexo efetivo da vida ideológica” para colocar em seu lugar o clientelismo. É quase como se ele estivesse comprando parte do discurso das elites oitocentistas, com sua mistura de vergonha e denegação da importância da escravidão.

Teria tanta força o clientelismo sem a escravidão corroendo as relações sociais, políticas e econômicas do Império?

 Nostalgia Imperial: a Formação da Identidade Nacional no Brasil

De Ricardo Salles, Nostalgia Imperial (RJ: Topbooks, 1996):

“Ancorado na base social excludente da sociedade escravista e, mais tarde, da organização social que a substituiu, a impermeabilidade do liberalismo brasileiro à penetração das idéias democráticas como ser vista mais como sinal de vitalidade que indício de fraqueza ou inconclusão. Para a sociedade imperial, especificamente, trata-se de buscar entender o papel desempenhado pelo pensamento liberal na construção de uma ordem política que assegurasse a reprodução das relações sociais escravistas. ... Longe de poder ser considerado como uma debilidade do sistema, este fato comprova sua maturação.” (pp.137, 140)

Será a História Paradoxal?

No fundo, no fundo, acho que meu problema é o seguinte: sempre acreditei que a História, por definição, não pode ser paradoxal. Se algo aconteceu, foi porque fazia sentido acontecer dentro daquele contexto, foi porque os homens de seu tempo construíram sua realidade assim, uma construção que para eles, contemporaneamente, fazia sentido, uma construção da realidade que atendia aos seus anseios e resolvia seus dilemas e necessidades. Assim, do mesmo modo como a História não pode ser paradoxal (se nos parece paradoxal, vista do futuro, é porque não a entendemos direito), então também as idéias articuladas e vividas por aqueles homens também não podem ser, ou estar, ou ter estado, fora do lugar: se foram vividas e articuladas, é porque estavam, definitivamente, no seu lugar.

Resta-nos entender como.

É relativamente fácil olhar pros séculos passados e dizer que liberalismo e escravidão eram incompatíveis, que o liberalismo era uma “idéia fora do lugar” em uma sociedade escravista e clientelista, como se os homens do passado fossem todos ou idiotas ou hipócritas ou ambos, e não percebessem a contradição entre sua fala e sua prática. Entretanto, se os nossos escravistas defendiam idéias liberais e se os nossos ideólogos liberais possuíam escravos, é porque a idéia estava em seu lugar, é porque era viável ser liberal e escravista, é porque a ideologia liberal funcionava na prática como forma de apreender a realidade de um país escravocrata.

Resta-nos entender como.

* * *

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  Caetana Diz Não: Histórias de Mulheres da Sociedade Escravista   Casa-Grande e Senzala

 Utopia Brasileira e os Movimentos Negros  Defeito de Cor, Um

 

21.07.08


Categorias: Livros, Raça


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Comentários:


Comentário de: Ricardo

ok,
te amo de novo

PermalinkPermalink 21.07.08 @ 09:52



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Acho 'paradoxal'. um pouco forte demais. Eu diria 'contraditório'. Mas vou usar teu termo.

Se existe um paradoxo, ele fica camuflado qdo se vê o Brasil escravocrata e o Brasil pós-escravocrata como o mesmo país. Escravo, por definição, não era humano: era um bem, um meio de alcançar um fim, ou seja, q as necessidades básicas do povo fossem satisfeitas SEM seu próprio trabalho. Pros escravagistas, o escravo era o equivalente ao q pra eles seria um animal, e ao q pra nós seria uma máquina. Se alguém vier com o papo de q as máquinas têm direitos e deveriam poder votar, nossa reação seria equivalente à deles qdo se dizia q os escravos tinham direitos, ou à dos europes se alguém lhes dissesse q o poder de voto deveria ser estendido aos animais.

O paradoxo reside em q, durante o escravagismo, as "idéias fora de lugar" coexistiam com as expediências e praticidades do dia-a-dia. Existe também uma paradoxalidade no modo como VOCÊ vê o escravo, q certamente não é como o via quem tinha escravos. Pra quem tinha, era como ter um robô; e a idéia de ter um robô com certeza provêm do mesmo lugar q a idéia de ter um escravo. A vantagem do robô é q ele pode ser programado, desligado e não vem com contradições embutidas.

Assim, acho um exagero dizer q a escravidão "define o Brasil até hoje". A escravidão é apenas uma maneira de realizar um trabalho. Seria como dizer q o uso ou não de máquinas define as relações de poder. O clientelismo, provincianismo, patriarcalismo e patrimonialismo estariam ali da mesmíssima forma fossem os escravos robôs, os pudessem os animais realizar as mesmas tarefas. Se há algo q define o Brasil até hoje foi ter sido uma vasta colônia de um pequeno país europeu periférico com uma cultura já naquela época derivativa e simplista. O Brasil é o q é por causa do relevo da Europa: todas as idéias progressistas (=criadoras de progresso) européias surgiram pra lá dos Pirineus.

É triste mas é (talvez) verdade.

PermalinkPermalink 21.07.08 @ 13:39



Comentário de: Francisco von Hartenthal · http://instrutordeyoga.com.br

Olá, Alex.

Tenho aprendido muito sobre como o racismo define nossa cultura brasileira lendo seus artigos. Obrigado.

Não se se lhe interessa, mas vai o link de um ataque a uma comunidade quilombola na última sexta http://bocamalditaparana.blogspot.com/2008/07/racismoessa-praga-mata.html

PermalinkPermalink 21.07.08 @ 13:41



Comentário de: Alessandra · http://alessandrasouza.blogspot.com

"Assim, acho um exagero dizer q a escravidão "define o Brasil até hoje". A escravidão é apenas uma maneira de realizar um trabalho. Seria como dizer q o uso ou não de máquinas define as relações de poder. O clientelismo, provincianismo, patriarcalismo e patrimonialismo estariam ali da mesmíssima forma fossem os escravos robôs, os pudessem os animais realizar as mesmas tarefas."

O pequeno detalhe aí, Doutor, é que os escravos NÃO eram robôs: eram pessoas, e depois da abolição se tornaram, ainda que só no papel, cidadãos. É verdade que o clientelismo, provincianismo, patriarcalismo e patrimonialismo provavelmente existiriam do mesmo jeito sem a escravidão, mas eu acho muito difícil negar que sem ela o Brasil não seria muito diferente em vários aspectos.

PermalinkPermalink 21.07.08 @ 14:02



Comentário de: Dr Plausível · http://drplausivel.blogspot.com

Alessandra, isso é bem verdade. O grande problema da escravidão é q o escravo é antes de tudo um ser humano e interage humanamente com seus donos. Só não acho q essa noção possa ajudar a descartar a tese do Schwarz na tese do Alex. Note q dizer q a escravidão "define o Brasil até hoje" está a quilômetros de dizer q "é muito difícil negar q sem a escravidão o Brasil seria muito diferente em vários aspectos".

(Aliás, achei q tem um "não" sobrando no q vc escreveu. Confirma?)

PermalinkPermalink 21.07.08 @ 14:23



Comentário de: s leo · http://sergioleo.blogspot.com

Prometeu e ficou devendo, Alex. Não vale dizer que haveria uma sábia razão para que os escravistas pudessem ser liberais sem entrar em contradição. Pelo que me lembro do texto do Schwarz, lido a quarto de século atrás, ele aponta _ com grande razão, me pareceu na época e parece hoje _ como as elites, ligadas culturalemnte, políticamente e, de certa maneira, economicamente, aos grandes centros importam idéias e têm dificuldade de aplicar nas conduições de produção e de arranjos sociais encontrada no cotidiano brasileiro.

Claro que o ideário liberal trazia vantagens aos que o professavam, mas também parece claro que entrava em conflito com o contexto mais amplo em que esses mesmos liberais garantiam o próprio sustento.

Não é um paradoxo histórico, mas uma circunstância dos agentes históricos, que tinham de conciliar filiações pessoais e sociais com as condições econômicas que encontravam.

Mais recentemente, li por tabela essa tese do Schwarz num outro contexto, o livro do Rodrigo Naves "A Forma Difícil", da editora Ática, que tem um capítulo sobre Debret _ acho que o Naves foi o primeiro a analisar o Debret sob a ótica do Shcwarz, e aponta como o francês, aluno de David e discípulo aplicado do neoclassicismo teve de rebolar para trazer os conceitos artísticos que tinha ao cenário escravocrata. Depois, pelo que vi no Google ao procurar o nome do diabo do livro, virou clichê usar o Schwarz para falar do Debret.

Hoje temos racismo, mas não temos escravidão _ não generalizada. E continuamos tendo o clientelismo como motor da política e explicação para os arranjos partidários. O que está mais entranhado na alma nacional?

Digo tudo isso só para ver até onde v. vai. Gostei dessa sua ousadia. E temo pelo seu êxito, estava eu muito confotável com essas idéias do Scwarz P_ se você conseguir derrubá-las, quem vai ficar fora do lugar sou eu.


PermalinkPermalink 21.07.08 @ 15:12



Comentário de: Leo · http://lmonasterio.blogspot.com

Só para reforçar o teu ponto:

"No Brasil, da década de 1870, 13% da população estava qualificada para votar,
enquanto que, na mesma época, em Portugal, Inglaterra, Holanda e Itália apenas 9%, 7%,
2,5% e 2%, respectivamente, tinham o mesmo direito (Graham, 1990 e Carvalho, 2000)."

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo caminho. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira. 2000.

GRAHAM, Richard. Patronage and politics in Nineteenth-century Brazil. Stanford:
University of California Press, 1990.

Vc jah leu o Visconde de Cairu? Ele eh quem primeiro importa as ideias de Adam Smith para o Brasil, mas arruma um jeitinho de acomodar a escravidao.

PermalinkPermalink 22.07.08 @ 11:00



Comentário de: Eduardo · http://leite-de-pato.blogspot.com

Alex,
O Roberto Damatta tem exposto uma idéia segundo a qual o Brasil estaria, grosso modo, entre os EUA e a Índia, se fosse possível pensar numa escala que vai de sociedades mais liberais às mais hierarquizadas.
O artigo que conheço dele em que essa idéia está mais desenvolvida é o "Você sabe com quem está falando?"
A escravidão e o patrimonialismo no Brasil são centrais na construção da nossa hierarquia como a idéia de pureza para as castas é central na hierarquia indiana. De qualquer forma, em lugar nenhum parece ter existido sociedade livre de hierarquias e, provavelmente, também não deve ter havido sociedades totalmente hierarquizada sem qualquer espaço para a variabilidade da experiência individual. O que ajuda a criticar as idéias fora de lugar. Onde houver hierarquia as idéias liberais estão "fora de lugar".
O Louis Dumont é a referência principal do Damatta nessa sua análise sobre o Brasil. Evidentemente o Dumont trata desses modelos com muito mais profundidade que o Damatta em dois livros Homo Hierarquicus e Homo Aequalis. São livros pesados mas muito interessante.

PermalinkPermalink 22.07.08 @ 19:04



Comentário de: Cristiano

Afirmar que as "idéias liberais estavam fora do lugar no Brasil do século XIX" implica mesmo pensar que elas estariam no lugar alhures? Achar que a História não é paradoxal não será o mesmo que supor uma linearidade causal e determinística para o seu curso? Enfim, temas sobre os quais pensarmos...

PermalinkPermalink 24.01.12 @ 19:44



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