Sempre me causou bastante incômodo a famosa tese de Schwarz sobre as “idéias fora de lugar”.
Grosso modo (isso é um blog, ok? Para mais detalhes, consultem a bibliografia), ele aponta a incongruência das idéias liberais (artificialmente importadas da Europa) em uma sociedade não- ou pré-burguesa, onde esse discurso seria incompatível com nossa realidade escravista e clientelista, considerando também essa cultura do favor (e não a escravidão) o grande “nexo efetivo da vida ideológica” brasileira.
(O artigo está disponível integralmente na internet, ou pode ser encontrado no livro Ao Vencedor, As Batatas.)
Nunca consegui articular bem o meu incômodo com essa teoria e tenho ficado bem caladinho, claro. Afinal, quem sou eu pra discutir com Schwarz!
Entretanto, estou vendo que terei que fazer isso, em algum momento na minha tese, e já estou colecionando aliados tão diversos quanto Sidney Chalhoub, Alfredo Bosi e Ricardo Salles.
Abaixo, somente alguns esboços de idéias e possíveis linhas de argumentos. Sintam-se à vontade pra detonar.
Já Estiveram as Idéias no seu Lugar?
Se no Brasil, o liberalismo era uma “idéia fora de lugar”, incongruente e incompatível com as práticas econômicas, sociais e políticas cotidianas, onde ele não o foi? Existiu, em algum lugar, esse liberalismo puro, essa superposição perfeita entre discurso e prática liberal?
Como lembra Hobsbawm (na Era das Revoluções), na década de 1850, ao mesmo tempo em que, segundo Schwarz, José de Alencar escrevia romances fracos e artificiais por tentar aplicar ideais burgueses a uma realidade clientelista, a Suíça era o único estado europeu que tinha sufrágio universal masculino.
Nesse contexto, se as idéias estavam fora do lugar em todos os lugares, faz mesmo sentido falar em “idéias fora do lugar” no Brasil?
De Alfredo Bosi, Dialética da Colonização (SP: Cia das Letras, 1992):
“Até meados do século [XIX], o discurso, ou o silêncio de todos, foi cúmplice do tráfico e da escravidão. O seu liberalismo, parcial e seletivo, não era incongruente: operava a filtragem dos significados compatíveis com a liberdade intra-oligárquica e descartava as conotações importunas, isto é, as exigências abstratas do liberalismo europeu que não se coadunassem com as particularidades da nova nação.” (p.211)
Qual É o Nexo Efetivo da Vida Ideológica do Brasil no Século XIX?
Joaquim Nabuco, em O Abolicionismo (1883), é um dos primeiros a arriscar uma interpretação total do Brasil colocando a escravidão no centro de sua análise, como o fator constitutivo do país. Até então, como notou Ricardo Salles (NI, 139), quando os oitocentistas faziam suas auto-críticas do Brasil, os maiores problemas eram vistos como sendo provincianismo, patriarcalismo e patrimonialismo.
Eu, que concordo com o Nabuco de 1883 de que a escravidão nos define até hoje, acho moderadamente irônico que Schwarz desloque a escravidão do “nexo efetivo da vida ideológica” para colocar em seu lugar o clientelismo. É quase como se ele estivesse comprando parte do discurso das elites oitocentistas, com sua mistura de vergonha e denegação da importância da escravidão.
Teria tanta força o clientelismo sem a escravidão corroendo as relações sociais, políticas e econômicas do Império?
De Ricardo Salles, Nostalgia Imperial (RJ: Topbooks, 1996):
“Ancorado na base social excludente da sociedade escravista e, mais tarde, da organização social que a substituiu, a impermeabilidade do liberalismo brasileiro à penetração das idéias democráticas como ser vista mais como sinal de vitalidade que indício de fraqueza ou inconclusão. Para a sociedade imperial, especificamente, trata-se de buscar entender o papel desempenhado pelo pensamento liberal na construção de uma ordem política que assegurasse a reprodução das relações sociais escravistas. ... Longe de poder ser considerado como uma debilidade do sistema, este fato comprova sua maturação.” (pp.137, 140)
Será a História Paradoxal?
No fundo, no fundo, acho que meu problema é o seguinte: sempre acreditei que a História, por definição, não pode ser paradoxal. Se algo aconteceu, foi porque fazia sentido acontecer dentro daquele contexto, foi porque os homens de seu tempo construíram sua realidade assim, uma construção que para eles, contemporaneamente, fazia sentido, uma construção da realidade que atendia aos seus anseios e resolvia seus dilemas e necessidades. Assim, do mesmo modo como a História não pode ser paradoxal (se nos parece paradoxal, vista do futuro, é porque não a entendemos direito), então também as idéias articuladas e vividas por aqueles homens também não podem ser, ou estar, ou ter estado, fora do lugar: se foram vividas e articuladas, é porque estavam, definitivamente, no seu lugar.
Resta-nos entender como.
É relativamente fácil olhar pros séculos passados e dizer que liberalismo e escravidão eram incompatíveis, que o liberalismo era uma “idéia fora do lugar” em uma sociedade escravista e clientelista, como se os homens do passado fossem todos ou idiotas ou hipócritas ou ambos, e não percebessem a contradição entre sua fala e sua prática. Entretanto, se os nossos escravistas defendiam idéias liberais e se os nossos ideólogos liberais possuíam escravos, é porque a idéia estava em seu lugar, é porque era viável ser liberal e escravista, é porque a ideologia liberal funcionava na prática como forma de apreender a realidade de um país escravocrata.
Resta-nos entender como.
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