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O Rio de Janeiro já foi cenário de muitos filmes nacionais e internacionais, sendo O Incrível Hulk somente o mais recente deles. É raro ver o Rio sendo tão bem utilizado por Hollywood.
Alguns pontos altos incluíram a linda escadaria Manuel Ferreira, na Lapa, uma perseguição de carros pelas ruelas de Santa Teresa, uma agência dos correios nos Arcos da Lapa e a enseada de Botafogo vista da favela. Por fim, a fábrica de Guaraná onde Bruce Banner trabalha é a belíssima fábrica desativada do Chocolate Bhering, que eu já fotografei (acima).
(Um artigo legal sobre o uso do Rio de Janeiro nas locações do filme: Incredible Hulk: Design and Locations)
Inacreditavelmente, todos os brasileiros falam bom português e nenhum se chama Lopez ou Gonzalez. Não deveria ser mais do que a obrigação, mas a gente bem sabe como isso é raro.
Duas coisas que eu particularmente gostei:
Ao tentar se comunicar com os nativos e avisá-los de que não pode ficar com raiva (“angry”), Bruce Banner diz, em português, para que não o deixem com fome (“hungry”). A graça é que o filme não explica a origem da confusão, que só faz sentido pra quem conhece bem tanto o português quanto o inglês. Ou seja, tinha alguém pensante na equipe do filme.
No Rio, Bruce Banner trabalha em uma fábrica de refrigerante de Guaraná. Por acidente, ele deixa cair uma gota de seu sangue numa garrafa, ela é exportada pros EUA, alguém toma, se intoxica de radiação gama e, assim, o Hulk é localizado no Rio de Janeiro. A graça é que, quando vão descrever a cena da intoxicação, os personagens comentam que a pobre vítima tomou uma garrafa de Guaraná “but got more than he bargained from”, ou “conseguiu mais do que pretendia”, deixando implícito que os personagens sabem da reputação energética do guaraná.
Uma coisa particularmente triste:
No Brasil, nossa polícia acha mais importante matar bandidos do que proteger a população: não têm pudor algum em começar tiroteios no meio de civis inocentes. Pior ainda, muitas vezes parecem achar que a população das favelas ou é composta de combatentes inimigos ou, simplesmente, de não-cidadãos que podem ser mortos à vontade.
Pois bem, foi triste constatar que a equipe do exército americano (comandada pelo vilão do filme!) que invade uma favela carioca para capturar Bruce Banner, apesar de não ter lá muito respeito pela soberania brasileira, tem mais respeito pela vida e integridade física dos nossos cidadãos do que a nossa própria polícia - incluindo aí até o Capitão Nascimento. Além de só usarem armas com dardos tranquilizantes, nunca atiram quando existe possibilidade de atingir civis inocentes. Esses gringos não sabem nada de invadir favela!
Uma coisa que diz muito sobre as noções de raça no Brasil e nos EUA, e também sobre o complexo de inferioridade brasileiro:
Quando o exército americano localiza a fábrica de onde partiu o guaraná infectado, o general manda que descubram se existe algum homem branco trabalhando na fábrica – naturalmente, deixando implícito que, para os americanos, os brasileiros são tudo, menos brancos. Diplomaticamente, o tradutor substituiu “homem branco” por “americano” na legenda, protegendo assim as frágeis suscetibilidades nacionais.
Será que esses gringos acham que eles são os únicos brancos do mundo? Que aqui não tem branco? Oras, a audácia das filombetas!
Se o tradutor não mudasse a legenda, era capaz de platéias mais exaltadas queimarem o cinema.
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