Em meados do século XIX, a Grã-Bretanha proibiu unilateralmente o tráfico de escravos no Atlântico e se deu o direito de abordar qualquer navio suspeito de estar carregando escravos.
Já os Estados Unidos, país escravista, ainda sem o poder que teria mas já cheio de panache, negou à Grã-Bretanha o chamado "direito de visita". Na verdade, todo mundo negou, claro, inclusive o Brasil, mas, quando era país marronzinho, os ingleses abordavam à força. Daí veio a Questão Christie, blá blá.
O que acontecia então era que muitos navios negreiros viajavam com dois ou mais registros nacionais, e dependendo de quem os parasse, poderiam alegar ser do país mais conveniente.
Agora, uma historinha tirada do magistral O Engenho, de Fraginals:
Em 1839, os negreiros Eagle e Clara, navegando sob a bandeira norte-americana, foram abordados pelo cruzador britânico Buzzard. Quando ficou comprovado que ambos os navios não eram norte-americanos, e sim espanhóis, as tripulações foram levadas à Serra Leoa, julgadas e condenadas.
Agora vem a parte boa. O governo norte-americano, que aparentemente não tinha nada a ver com a história, apelou da sentença, alegando que ambos os navios foram abordados quando não se sabia que eram, na verdade, espanhóis. Ou seja, o cruzador britânico tinha violado a sacrossanta proteção da bandeira norte-americana. A ação da Marinha Inglesa colocava assim em perigo todas as embarcações norte-americanas, que poderiam ser arbitrariamente abordadas para comprovar se eram realmente norte-americanas ou não.
A ação durou anos, os negreiros acabaram absolvidos e o governo norte-americano ainda foi indenizado. God bless America.
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