Diz o ditado machista:
"Em Roma, como as romanas."
Passando os últimos dois meses em São Paulo, estou tendo que me acostumar a diversos costumes locais sinistros:
Levar criança pra brincar na livraria.
Cumprimentar com um beijo só.
Não usar chinelo de dedo no shopping (ou arriscar não ser atendido).
Nunca deixar o carro estacionado solto ou mesmo encostar nos outros carros.
Soletrar doze sem "u", dez sem "i" e festa sem "x".
Ausência brutal de mulheres seminuas desfilando pelas calçadas.
etc.
Entre tantos choques culturais, o mais sinistro mesmo foi o tabu da pizza no almoço.
Aparentemente, para o paulistano médio, é mais sinistro comer uma pizza no almoço do que colocar a filhinha de dez anos em cima da mesa e currá-la ali mesmo.
Mais ainda, o tabu é tão auto-evidente que dispensa explicações: não se come pizza no almoço
"porque não"
"porque não combina"
"porque não é certo"
etc
E, quando eu digo que nunca ouvi falar disso antes, ainda me descartam como sendo só um carioca:
"óbvio que um povo capaz de colocar mostarda na pizza também seria capaz de comer pizza no almoço. Pior, pegando sol, ao ar-livre, em frente à praia! Pra você, isso deve ser normal! Ouvi até dizer que vocês usam sangue de criancinhas ao invés de molho de tomate!"
Grande parte da força de um tabu é sua pretensa universalidade. Para o nativo, aquilo é tão impensável que ele nem mesmo considera que, talvez, em outras partes do mundo, o seu tabu não seja tabu.
Todos os paulistanos com quem falei também consideraram auto-evidente que, claro!, ninguém come pizza no almoço em lugar nenhum do mundo. Óbvio!
"Por que comeriam? Por que qualquer um comeria pizza no almoço?! Não faria sentido! Coisa de bárbaros!"
Mas, aparentemente, o tabu da pizza no almoço não existe em nenhum outro lugar, nem em cidades de imigração italiana forte, como Nova Iorque, nem mesmo na própria Itália. Busquei no Google por "pizza for lunch" e por "pizza pranzo". Nenhuma menção ao tabu. Perguntei para amigos ítalo-americanos ou italianos. Todos disseram nunca ter ouvido falar nisso. Minha roommate em Nova Orleans, italiana da região do Alto Adige, perto da Áustria, nem entendeu minha pergunta e retrucou surpresa:
"Por que catzo eu não comeria pizza no almoço?!"
Ou seja, o tabu não é nem mesmo italiano, é 100% paulistano.
Naturalmente, não há problema algum nisso. Não estou nem mesmo defendendo o hábito de comer pizza no almoço. Eu, como aparentemente todo mundo com quem falei que não é de São Paulo, nunca tinha parado pra pensar no assunto. Para todos nós, os não-paulistanos, pizza é uma comida como qualquer outra que pode ser servida a qualquer hora. O tabu nos soa tão bizarro quanto dizer que não se pode beber coca-cola de manhã, comer bolo de côco à tarde ou tomar sorvete à noite.
Também não estou reclamando. Cada cultura tem suas peculiaridades. Tudo é lindo. Se no Rio eu também não ______ (complete com algo que seria impensável fazer no Rio), por que ferir as suscetibilidades locais comendo pizza no almoço em São Paulo?
* * *
Tem alguma coisa que fazem na sua terra que você depois descobriu que não fazem em nenhum outro lugar? Ou, pior, algo impensável pra você e que, para o seu horror, é a coisa mais normal em outra cidade?
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