Amiga paulistana sempre me dizia que o forte do seu apartamento era a vista. Chego lá, ela me mostra a janela triunfante e eu pergunto:
"Ué, cadê a vista?"
"AAALEEEEXX! Taqui a vista! Olha que coisa linda!"
"Mas só tem prédio...!"
O pior de tudo é que meu comentário inicial não foi irônico ou engraçadinho: foi totalmente sincero e espontâneo. Se eu tivesse parado pra pensar dois segundos, eu saberia que, em São Paulo, aquilo é vista.
* * *
Fiquei me sentindo super mal, achando que eu era um insensível, que o problema era comigo, etc, até que hoje uma outra amiga, que não sabia da história acima, contou caso parecido.
Estava em Brasília e um amigo dirigiu com ela por mais de quarenta minutos até um mirante lindo, onde se tinha uma vista maravilhosa, blá blá. Chegando lá, a cena se repete. Assim como eu, minha amiga jura que sua surpresa inicial foi autêntica, que não estava zoando:
"Falta muito pra chegar no mirante da tal da vista?"
"Mas você não está vendo a vista?"
"É só isso? Tem mais pro outro lado?"
Na história da minha amiga, entretanto, havia um candango por ali, também levando um casal de turistas pra ver a incrível vista, e matou o enigma, ao perguntar:
"Desculpa, mas você é carioca?"
"Sou," respondeu a minha amiga.
"Ah tá, eu nem trago mais carioca aqui. São os únicos que sempre esnobam a vista!"
* * *
Não é culpa nossa. Nessa cidade tão criminosamente desigual, talvez a única coisa que una todos os cariocas seja a vista. Em cima de um barraco no Vidigal ou em uma cobertura em Copacabana, todo pai carioca se debruça com o filho e mostra, com ar de orgulho:
"Olha só essa vista!"
E a gente cresce achando que vista é aquilo. Não é pirraça nossa, sério.
* * *
Moral da história: quando estiver fora do Rio e alguém me levar para ver a vista, eu já estarei mentalmente preparado pra não deixar escapar nenhum comentário bobo ou rude. Tudo será elogiado copiosamente:
"Meu deus, que máximo! São prédios e mais prédios e mais prédios sem fim! Olha, tem um prédio aqui, outro ali, mais um acolá! Um é baixinho e verde, outro é altão e bege, incrível esses contrastes, eles são todos diferentes um dos outros! Caramba, mas que vista linda!"
* * *
Pré-FAQ
O Rafael Galvão recebe pedradas dos neapolitanos e goianos porque fala mal das duas cidades. Já eu, que não falo mal de lugar nenhum, recebo pedrada sempre que escrevo qualquer coisa sobre a minha pobre, linda e combalida cidade.
Então, vamos fazer assim: antes de tacar pedra, cada leitor afirma sua cidade de origem, pra eu poder zoar de volta. Podem ficar tranquilos: moradores de Pirinópolis do Mato Dentro, Várzea do Umbu e adjacências serão considerados café-com-leite. É quase piada pronta.
* * *

Vista da casa do meu pai, no Rio.
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