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Estava conversando hoje com um jovem escritor que fez a bobagem de me mostrar um conto. Eu não gostei. Achei um amontoado de lugares-comuns. Tive a impressão de já ter lido aquele mesmo conto mil vezes.
Desde 2003, está em efeito minha resolução de ano-novo de não criticar colegas. Quando jovens autores vêm pedir opinião, entretanto, me sinto obrigado a dar. Sei que, às vezes, uma crítica dura, vinda de alguém que você admira, pode matar uma vocação literária ainda no berço. Por outro lado, provavelmente será bom que alguém com a pele tão fina desista logo da literatura - antes de receber críticas de verdade! - e embarque em uma carreira mais caridosa, como contabilidade e ciências atuariais.
Enfim, meu jovem autor disse que o importante no seu conto era a angústia: "Eu tenho milhares de momentos... esse foi um momento de angústia."
E eu pensei, cá com meu teclado, mais um angustiado, meu deus!
Eu me lembro da época em que a literatura falava da verdade, da moral, do ciúme, da culpa, da redenção. Mas, a partir do século XX, sabe-se lá por quê, a literatura passou a só falar de angústia e seus temas correlatos: o vazio da vida contemporânea, a efemeridade das relações humanas, etc etc, blá blá bleargh.
Naturalmente, é uma relação parasitária: quando mais a literatura torna-se repetitiva e monotemática, mais angustiados ficam os pobres leitores e produtores de livros. Resultados: mais livros sobre angústia.
Não é nem que eu não tenha momentos de angústia, mas eu teria vergonha de escrever sobre eles, e ser mais um nessa multidão de escritores angustiados.
Continuou o meu jovem escritor: "Quando estou com qualquer sentimento fora do comum preciso escrever para me libertar... Os contos fluem somente."
E eu suspirei: meu amigo, eu disse, com vontade de bater em seu ombro, o que flui é a sua urina quando mija. Arte é uma construção consciente.
E ele: "Não disse que não estava inconsciente... Mas quando pega-se o papel e as palavras começam a sair, você tem de deixá-las..."
Essa é a questão. Eu e meu jovem autor temos concepções algo diferentes do que é literatura. Não que isso seja problema. Muita gente chamada de genial pelos cadernos especializados também pensa diferente de mim e isso não impede de serem convidados a todos os coquetéis.
Há uma diferença enorme entre escrever um diário e escrever literatura. Os seus grandes momentos dão grandes páginas do seu diário: não, necessariamente, literatura.
No primeiro rascunho, concordo, não se contenha, não se reprima, não pense muito e nem se analise. Deixe fluir tudo de dentro de você - mas com higiene, por favor. Mas, logo depois, é hora de reler com consciência crítica. Corrigir, cortar, por mais doloroso que seja. Principalmente, é hora de decidir se você escreveu literatura (ou algo que pode tornar-se literatura) ou só mais uma página do seu diário.
Nem tudo o que sai de você é literatura.

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