A ficção de José de Alencar se enquadra no que Doris Sommer chama de "ficção de fundação".
Especialmente na América Latina, a literatura foi uma importante ferramenta de auto-afirmação da identidade nacional. Tentando construir uma nova mitologia para seus nascentes estados nacionais, autores como Alencar produziram uma literatura romântica e muitas vezes simplista, apresentando uma versão idealizada da vida local e se alinhando aos interesses ideológicos das elites nacionais que se consolidavam no pós-independência. Naturalmente, críticas à realidade ou debates sobre projetos alternativos de construção nacional estão quase sempre conspicuamente ausentes das ficções de fundação: uma das principais características desse tipo de romance é seu projeto pacificador, conciliador, unificador.
No Brasil, Alencar é um dos escritores fundacionais responsáveis pela escolha do índio como o paradigma literário. O branco ainda era por demais associado ao português, em oposição a quem a jovem nação recém-independente queria se definir. O negro, considerado inferior e onipresente, era fundamental à vida cotidiana e, talvez por isso, não se prestava a uma idealização épica: sua figura era por demais doméstica. Somente escolhê-lo como figura central da literatura já significaria colocar em discussão as próprias fundações da sociedade escravista. O índio, quase invisível na cultura brasileira e totalmente ausente da rotina diária da capital, tornou-se a figura paradigmática eleita, e foi construído na obra de Alencar como modelo de pacificação e possibilidade unificadora de uma nação em construção.

Esse estudo de Doris Sommer é um dos melhores livros sobre literatura e nacionalismo que já li.
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