O Aborto Compulsório (Episódio Três)

Algumas anotações para um futuro romance que nunca escreverei, ambientado em um futuro próximo, onde as leis são um pouco diferentes ma non troppo. A trama se desenvolverá através de três episódios independentes.

* * *

Seu Antenor recebe uma carta exigindo sua presença no Juizado de Menores, onde é informado que a escola de seu filho, Leonardo, o recomendou para um aborto compulsório.

Estou com a ficha do Leonardo aqui, diz o juiz. Ele tem dificuldade de aprendizado, já repetiu duas séries, vive batendo nos coleguinhas, um criador de caso, seu Antenor.

Sim, mas, mas...

Passei os últimos dois dias revisando a ficha, para ter certeza de não estar cometendo nenhuma injustiça. Reparei também que o senhor e sua esposa já tem um outro filho homem, Chiquinho, de 7 anos, então não vai haver questão de não ter varão para passar adiante o nome da família.

Não estou entendendo. De onde partiu isso?

Da escola, seu Antenor. Recebemos uma carta dos professores do Leonardo, endossada pela diretora, recomendando o-

Pela dona Mariluce? Mas ela adora o Leo, estava tentando ajudá-lo...

Eu sei que é difícil de o senhor enxergar isso agora, seu Antenor, mas ela ainda está. Dona Mariluce gosta muito do Leonardo. Eu a conheço faz tempo, ela só recomenda o aborto compulsório nos casos realmente incorrigíveis. Ela está inclusive ajudando o senhor e a sua esposa, para que possam concentrar melhor seus esforços no outro filho, o que ainda tem jeito.

Como pôde a Dona Mariluce recomendar uma coisa dessas?!

Dona Mariluce está apenas cumprindo seu dever. O senhor esquece que as escolas são obrigadas por lei a reportar os jovens incorrigíveis. Senão, amanhã seu filho comete um crime e a escola também pode ser responsabilizada.

Mas recomendar que ele seja morto, assassinado!

Não usemos palavras tão duras, seu Antenor. O Leonardo só tem dez anos, ainda não é uma pessoa completamente formada. Por enquanto, ele ainda é apenas uma coleção de células. Não é um assassinato, somente um aborto. Um procedimento cirúrgico simples, relativamente indolor, como tirar uma verruga, besteirinha, o senhor vai ver.

Isso é um absurdo! Eu amo o meu filho mesmo ele sendo um pouco violento e meio burrinho! Ele tem defeitos mas é cuspe do meu cuspe!

Seu Antenor, quanto egoísmo, o senhor me decepciona. Será que não pensa no bem da coletividade? Estudos já indicaram conclusivamente que a queda da criminalidade dos últimos anos está ligada diretamente à flexibilização nas leis do aborto. As crianças que foram abortadas são justamente as que iriam crescer pra se tornar assassinas, ladras, traficantes, garotas do Tchan, redatoras do Pânico, blogueiros de direita e assessoras parlamentares. Podendo cortar esse mal-

Não vou deixar vocês matarem meu filho!

Lá vem o senhor de novo com esse linguajar politicamente incorreto, seu Antenor. Assim eu fico magoado. Aqui somos todos funcionários públicos conscienciosos fazendo nosso melhor em prol da nação e da coletividade, pátria amada, salve salve. Ninguém aqui vai matar ninguém.

Só o meu filho, porra! Meu filho! E se fosse o seu filho?

Os olhos do juiz se enchem d'água, ele embarga um pouco a voz, abre a carteira e puxa uma foto:

Esse aqui é o Gabriel. Meu primeiro filho. Ele foi pego (o juiz mal consegue falar) beijando um outro menino atrás do campo de futebol... Já tinha sido suspenso duas vezes por colar, estava com nota baixa de comportamento, e a escola recomendou seu aborto. Ele estaria fazendo 25 anos esse mês.

Seu Antenor não sabe onde se enfiar:

Perdão, eu não sabia...

Não tem problema, seu Antenor, foi melhor assim. Eu e minha esposa pudemos nos dedicar melhor a nosso outro filho, ele teve chance de ir a uma universidade mais cara (que não poderíamos pagar se tivéssemos dois filhos) e, hoje, ele está crescido, já me deu um neto e é deputado da bancada evangélica. Os anos se passaram e reconheci que a escola do Gabriel estava mesmo com razão quando o recomendou para o aborto compulsório.

O senhor juiz me desculpe, mas o MEU filho ninguém vai abortar não.

Esse seu individualismo egoísta não vai ajudar em nada a sua situação. É muito fácil para o senhor ver apenas sua situação, falar do "seu filho", blá blá, mas nós, funcionários públicos conscienciosos fazendo o nosso melhor em prol da nação e da coletividade, pátria amada, salve salve, temos que pensar nos interesses de todos os brasileiros. Hoje, o senhor está aí, abraçando um menino inofensivo de 10 anos, mas amanhã, quando ele arrombar um carro e roubar um rádio, o que o proprietário pensaria disso tudo? Será que não viria aqui nos acusar de termos sido relapsos na defesa da sua propriedade? Eu acho que sim. O que é um aborto, um procedimento cirúrgico simples, como retirar uma verruga, comparado com o sacrossanto direito de propriedade? Não acredito que o senhor não entenda uma coisa tão simples!

Mas seu Antenor não entende. Ele chega em casa, manda Leonardo preparar uma trouxa de roupas e fogem. Acabam encontrando outros meninos fugitivos do aborto compulsório e formam uma uma sociedade secreta nos esgotos da cidade. Com o tempo, começam a travar contato com quilombos de fugitivos nas matas próximas. Em breve, Leonardo assume o nome de Zumbi, consegue unir todos os quilombos sob seu comando e ameaça derrubar o governo. As autoridades reagem etc etc.

Esqueci alguma coisa? Não coloquei algum argumento que eles poderiam ter usado? Você acha que a história poderia acabar de outro jeito? Dê sua sugestão.

 Aborto REGINA DE CASTRO Aborto, Suicídio e Pena de Morte CELSO MARTINS

 Drama do Aborto: em Busca de um Consenso, O ANIBAL FAUNDES   JOSE BARZELATTO  Aborto?... Nunca!...: 40 Razões FELIPE AQUINO

 Domínio da Vida: Abortos, Eutanásia e Liberdades Individuais RONALD DWORKIN Sacramento do Aborto, O GINETTE PARIS

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22.05.08



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Aborto - Updated

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Comentários:



achei esse bem parecido com o anterior, mas do anterior gostei mais...

PermalinkPermalink 22.05.08 @ 02:38



Comentário de: Caio

Meio maniqueísta, meio simplório (bom, "simplório" já está incluído em "maniqueísta" mas é sempre bom frisar), pega um argumento pró-aborto, modifica um pouquinho daqui, inverte um pouquinho dalí, força e ignora alguns raciocínios, e voi-lá!
"Belo" texto...

PermalinkPermalink 22.05.08 @ 18:10



Comentário de: Michel


Usando esses argumentos pueris poderíamos ir contra camisinha, coito interrompido, pílula anticoncepcional, praticamente qualquer método contraceptivo. Aliás, a Gisele Bünchen não permitiu que nosso filho, o João Carlos, nascesse, só porque não queria dar para mim. Que egoísmo. O João Carlos seria diplomata e evitaria a guerra do Brasil com a Argentina em 2050, conflito motivado por um penalti mal marcado. Aliás, isso pode ser ampliado para outros campos, o banco que não me emprestou dinheiro, só porque eu era insolvente, vejam só, não permitiu que eu montasse minha fábrica de isopor comestível, produto revolucionário no mundo, que além de não poluir, contribuiria com o programa bolsa ou a vida (mais tarde batizado de bolsa isopor).

PermalinkPermalink 27.05.08 @ 08:50



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