Algumas anotações para um futuro romance que nunca escreverei, ambientado em um futuro próximo, onde as leis são um pouco diferentes ma non troppo. A trama se desenvolverá através de três episódios independentes.
* * *
A família entra no Posto de Saúde Municipal. Seu João, dona Maria e os três filhos, Paulinho, de 13, Juquinha, de 10 e Claudinha, de 8. O atendente pergunta o que desejam.
Viemos realizar um aborto retroativo.
O rapaz olha para as crianças: em qual deles?
No do meio, o Juquinha.
Juquinha se vira para a mãe, sabe que o pai está mais decidido, vai ser impossível de convencê-lo, e implora mais uma vez: mãe, mãe, por favor, eu juro que vou ser bonzinho, eu juro, eu juro.
Calaboca Juquinha!, grita o pai, você já falou isso ontem mas não comeu nem metade da salada e foi malcriado com sua irmã!
Mas João, tenta dizer a mãe.
Mas nada Maria, a gente já conversou sobre isso em casa.
Paulinho dá um chute na canela do irmão e fala, hehe, vou ficar com o quarto só pra mim. E leva um pescotapa do pai.
Lá dentro, enquanto confere os documentos que provam a paternidade de Juquinha, o médico tenta convencê-los:
Os senhores estão convictos? Aborto não tem volta. Sim, o Juquinha não passa de um amontoado de células com o potencial de se tornar humano, mas agora esse potencial nunca vai se realizar. Vocês têm o direito constitucional ao aborto, ninguém questiona isso, o que não quer dizer que devam fazê-lo.
Já conversamos muito, doutor, estamos decididos.
Bem, pra poder encerrar retroativamente a ficha dele no SUS, eu preciso incluir as razões do aborto.
E precisa? Ó a cara dele. É um menino abusado, perguntador, irrequieto, insuportável. Não obedece, mata aula, não faz dever, bate na irmã, não se dá bem com o irmão, não come as verduras, só quer saber de se empanturrar de porcaria, conta piadas infames o tempo todo. E tem mais, eu ainda acho que ele é meio efeminado.
Meu senhor, todos sabemos que a homossexualidade é uma deficiência debilitante, reprovável e imoral, mas já existem casos - poucos, é verdade - de homossexuais vivendo vidas longas e quase gratificantes, não é justificativa pra aborto retroativo.
Não quero arriscar essas coisas na minha família, não, doutor. Se fosse filho único, eu até mantinha, sabe?, mas já temos outros dois que se comportam, tiram boas notas e lavam até a louça. Amanhã esse daí cresce, sei lá que besteiras ele vai fazer, é melhor abortar logo, doutor, é melhor assim.
O médico encara dona Maria: a senhora tem certeza?
Maria abaixa a cabeça: tenho sim senhor.
Olha lá, diz o médico, vocês ainda têm mais dois anos para fazer o aborto retroativo. Não querem esperar mais um pouco pra ver se ele não toma jeito?
Pela primeira vez dentro do consultório, Juquinha fala: isso, pai, por favor, por favor, eu juro que me comporto, faz isso não, amanhã é o último episódio da 108º temporada de 24 Horas, por favor!
Doutor, me disseram que é só um procedimento cirúrgico simples. Como tirar uma verruga, não é?
Sim, mas...
Então, aborta esse menino.
Paaaiiii!
A gente pode marcar a operação pra semana que vem...
Pode fazer hoje, não, doutor?
Poder pode, mas...
Então, aborta esse menino agora!
O médico começa a preparar sua seringa...
Poucos anos depois, um Juquinha musculoso e queimado de sol reaparece em casa. Na verdade, não foi abortado. O médico apenas lhe colocou para dormir e ele acordou em uma fazenda, no interior do estado, junto com outros meninos pretensamente abortados, onde passavam seus dias cortando cana, plantando café e fazendo tênis da Nike. Eram os sortudos. Muitos outros tornaram-se escravos sexuais de políticos e bispos, alguns até mesmo doaram seus órgãos compulsoriamente para figurões da república.
Mas Juquinha era um líder nato, uniu todas as facções, impôs a paz, liderou uma revolta, venceu os capatazes e conseguiu fugir. Agora estava em casa. Finalmente.
Seus pais não perderam tempo. Imediatamente, processaram o estado pelo aborto retroativo mal-feito. Além de ganharem uma indenização polpuda, o governo ainda foi condenado a pagar todas as despesas de Juquinha pelo resto da vida. Final feliz.
Ou então, ou então.
Depois do aborto retroativo, Dona Maria e Seu João começam a limpar as coisas de Juquinha. Encontram muitos cadernos cheios de números e fórmulas. Não entendem nada. Aquele capeta nunca foi de estudar. Pedem para Paulinho mostrar aqueles rabiscos para o professor de matemática da escola.
O professor liga nessa mesma noite. Está maravilhado. Nem mesmo ele conseguiu entender completamente os rabiscos - Juquinha tinha péssima caligrafia - mas entendeu o bastante para saber estar diante de algo extraordinário. Marcou de mostrar as anotações para um colega na universidade. Eles não gostariam de ir?
Entre os acadêmicos, a comoção é geral. O catedrático de Matemática Pura abre o champanhe. O lente de Matemática Abstrata mal consegue falar. O livre-docente de Matemática Aplicada chega a ficar de pau duro. Mas, mas, quem é esse gênio?, o quê?, só um menino?!, não pode ser!, ele solucionou sozinho o Paradoxo de Rosencranz e Guilderstern, que todos os matemáticos do mundo tentam resolver há centenas de anos, eu mesmo considerava insolúvel, e está aqui, provado até a décima-quinta casa decimal!
Enquanto os matemáticos celebram, vai passando um professor de medicina que se aproxima pra ver o motivo de tanta confusão, olha para as folhas com mais cuidado e, de repente, grita: meu deus, o que é isso?, está aqui!, explicadinho, nas margens dessa folha de caderno, a cura do câncer!, a cura da aids!, a cura da homossexualidade!, um novo xarope contra a gripe!, nos últimos detalhes, quem escreveu isso?, essa pessoa merece o Nobel de Medicina!
Ele tenta arrancar as folhas das mãos dos matemáticos ("esse menino pertence às biológicas!") quando vai passando um professor de filosofia, pega uma folha que caiu no chão, passa os olhos por cima e já sai gritando: meu deus, é isso!, é isso!, como nunca tinha pensado nisso antes!, é o sentido da vida!, a resposta da existência!, bem aqui, nessa folha de caderno!, quem foi o gênio que escreveu isso?!, etc etc.
Ou então, ou então, ou então!
No meio da festa, o professor de medicina pega aquelas folhas, lê com um pouco mais de calma e grita: esperem, olhem! Ele não apenas curou o câncer! Ele controlou o câncer!
Dona Maria, com as lágrimas cheias d'água de pensar no filho abortado retroativamente, pergunta: como assim, qual é a diferença?
Ele controlou TODO o processo cancerígeno!, grita o professor. Com esse conhecimento, ele poderia não só curar o câncer mas também causá-lo! Nas mãos erradas, essa invenção poderia ser a arma mais mortífera de todos os tempos. Ou então livrar para sempre a humanidade de sua doença mais terrível! Nunca saberemos.
Nessa hora, seu João pigarreia, recolhe os papéis espalhados pela mesa e diz:
Melhor assim então. O menino arrancava asa de passarinho e tudo. Era meu filho, eu sei. E vambora, Maria, que você ainda tem que fazer o almoço.
Esqueci alguma coisa? Não coloquei algum argumento que eles poderiam ter usado? Você acha que a história poderia acabar de outro jeito? Dê sua sugestão.
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