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Algumas anotações para um futuro romance que nunca escreverei, ambientado em um futuro próximo, onde as leis são um pouco diferentes ma non troppo. A trama se desenvolverá através de três episódios independentes.
* * *
Lucas e Natália são namorados há alguns anos, relação estável, cada um na sua casa, ambos bem-sucedidos em suas carreiras.
Por acaso, Lucas descobre que Natália está grávida e já de aborto marcado. Pergunta se o filho é dele, ela confirma. Natália não quer ter filho agora, é ginasta, iria acabar com sua carreira.
Como é que você não me conta uma porra dessas?! Meu filho!
Não contei justamente porque sabia que você iria querer ter a criança.
Claro! Você não pode tomar essa decisão sozinha. É meu filho também.
Você não tem nada a ver com isso, Lucas.
Claro que tenho. Se essa criança nascer, eu sou legalmente obrigado a sustentá-la por mais de vinte anos. Não faz sentido eu ser responsável por ela SE nascer, mas não ter direito a dar pitaco sobre se vai nascer ou não.
Pois não tem, é uma questão 100% feminina e pronto.
Ele chora, se desespera. Eles se amam, tiveram tantos momentos, têm tantos planos e sonhos, ela sabe que seu maior sonho é ser pai, não pode fazer uma coisa dessas sem ao menos conversar com ele.
Lucas implora: eu faço o que você quiser, crio o filho sozinho, assino um contrato, me comprometo a nunca lhe cobrar nada, se quiser nem revelo pra criança o seu nome, tudo o que você vai ter que fazer é parir.
Parir é justamente o que não posso fazer. É fácil pra você falar, mas está chegando minha última olímpiada, minha carreira acontece ou acaba de vez. Ter filho não vai fuder a SUA vida! O seu trabalho fica todo igual, mas eu tenho que destruir o MEU por causa do SEU filho. É o cúmulo do egoísmo. Se você quer tanto um filho que emprenhe outra. Ou adote. Ou carregue no seu ventre, sei lá.
Não é MEU filho, é NOSSO. Você quer matar nosso filho, que seria seu dever proteger e amar, e ainda diz que o egoísta sou eu!
Não vou matar ninguém. Você está fazendo drama à toa. Quem vai ter que se operar sou eu. É um procedimento cirúrgico banal, como retirar uma verruga. Aliás, o embrião, agora, está menor do que uma verruga. É uma coleção de células, nada mais.
Células que daqui a 30 anos podem estar nos dando um neto, se você deixar.
Você acha que é simples pra mim? Acha que quero fazer isso? Acha que não é um decisão difícil?
Não sei, responde ele, se é só uma coleção de células, se é fácil como tirar uma verruga, então a decisão não deveria ter nada de difícil. O que dificulta é que você sabe que o buraco é mais embaixo, sabe que está matando seu filho pra salvar sua carreira.
Sai daqui, sai DAQUIIIII!
Natália expulsa Lucas de casa. Ele vai a polícia. Eles não podem ajudar. O aborto é legal. Ele que emprenhe outra, diz o prestimoso PM.
Procurando na web, Lucas descobre uma ONG sobre direitos humanos masculinos ("protegendo a minoria mais discriminada: o homem branco jovem") e vai procurá-los. Eles são meio machistas, reaças e religiosos demais, mas são sua única chance. Recomendam que ele procure o Juiz Fulano, simpático à causa, e peça uma ordem-jurídica-legal-cautelar-de-emergência-blá-blá-blá.
No dia seguinte, Natália é acordada pela polícia. A ação impetrada por Lucas a impede de realizar o aborto enquanto não for a julgamento. Enquanto tramita, será vigiada dia e noite por policiais da Delegacia do Homem.
Natália entra em desespero. Sabe que a ação nunca será julgada. Só o que precisam é impedi-la de realizar o aborto por mais um mês. Depois disso, o aborto seria ilegal.
Usando suas habilidades de ginasta, Natália escala um prédio, pula por uma janela, etc, e foge da proteção policial.
(Um policial vê o salto e comenta: caramba, impressionante. E o outro: que nada, viu como ela pousou com o pé direito antes do esquerdo? Eu dava no máximo nota oito.)
Lucas entra em desespero, pensando que seu filho pode estar sendo morto naquele exato momento. Como última cartada, vai a um dos lugares preferidos de Natália, onde ela sempre ia para pensar, e a encontra lá.
Natália está pronta a defender sua carreira e seu direito de escolha com unhas e dentes. Lucas está pronto a defender seu filho e seu direito a vida com unhas e dentes.
Chorando muito, no limite de suas forças, ele puxa uma arma do bolso. Mas o que fazer com ela? Será essa uma questão que pode ser resolvida à bala? Se fosse novela, aqui seriam as cenas do próximo capítulo.
Eles brigam, quase se matam, discutem mais ainda e Natália consegue escapar. O meio do livro será recheado de escapadas e perseguições, pelo menos um caminhão de leite tem que explodir ao impacto com um patinete desgovernado, até que Natália é finalmente capturada, o assunto ganha todos os jornais, incendeia o debate público, até o Amaury Jr comenta.
Finalmente, em um dos exames pré-natais, descobre-se que o bebê vai nascer acéfalo. Lucas e Natália ainda tentam conseguir permissão para o aborto, mas é tarde. O Juiz Fulano, religioso até a medula, não permite que a ação cautelar seja desfeita. Faz parte do plano de deus que aquela criança nasça sem cérebro e viva apenas por um segundo. Essa é a sua missão e ninguém tem nada a ver com isso, amém, glória ao senhor.
O bebê nasce e morre, a luta frustrada contra o Juiz Fulano reaproxima Lucas e Natália, a repercussão do caso na mídia faz com que Natália seja contratada menina-propaganda de uma conhecida marca de anticoncepcionais e a tranquilidade financeira do novo contrato permite que ela dê a volta por cima, vença o atraso, recupere sua forma física e, ao som de Carruagens de Fogo, ganha medalha de ouro em sua categoria. Dois meses depois da olímpiada, ela anuncia simultaneamente sua aposentadoria e sua nova gravidez. Natália, Lucas e seus 12 filhos, todos céfalos, vivem felizes pra sempre, ela em casa cuidando na prole e ele, bom provedor, trabalhando fora pra sustentar essa boiada.
Ou isso ou então, mais provável, eles se separam inimigos pra sempre, Lucas nunca deixa de pensar que foram as acrobacias de Natália na fuga que fizeram o bebê nascer sem cérebro, Natália perde sua carreira e tem que trabalhar no quiosque de informações de um shopping de subúrbio ("eu te conheço de algum lugar, não é você aquela moça que não queria ter o filho?, acho que te vi na Márcia") e os dois passam o resto de suas vidas se odiando, rasgando as vestes e trincando os dentes.
Esqueci alguma coisa? Não coloquei algum argumento que eles poderiam ter usado? Você acha que a história poderia acabar de outro jeito? Dê sua sugestão.
Amanhã, o aborto retroativo.Se puder, compre algum desses livros clicando nos links acima - ou qualquer outra coisa no Submarino, entrando de um dos links desse blog. Eu ganho uma comissão de 8% e você ganha a satisfação de ajudar um escritor infeliz que está aqui nessa trincheira lutando o bom combate.
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