Estou escrevendo uma tese sobre a ausência da escravidão na literatura brasileira do século XIX. Apesar de estar por todos os lados, apesar de fazer parte da vida cotidiana de todos, apesar de gerar dramas humanos terríveis e debates filosóficos intensos, a escravidão mal aparece em nossa literatura. Retratada somente pelas bordas, jamais foco da atenção.
A literatura naturalmente reflete os grandes temas do seu tempo. A razão é simples. Descobrir pi até o 43º algarismo pode ser apaixonante para matemáticos, mas tem muito pouco impacto na vida prática das pessoas nas ruas. Os grandes temas de uma época são justamente aqueles que impactam a vida de todas as pessoas, que mexem com seus preconceitos, que modificam suas experiências, que causam dor, morte, alegria - todos ingredientes essenciais do drama humano que é o estofo da boa literatura.
E, apesar disso, nenhum de nossos grandes autores enfrentou a questão da escravidão.
Dito isso, comecei a pensar nas teses de daqui a duzentos anos. Que temas os acadêmicos de 2206 vão nos acusar de ignorar? Que temas cruciais são esses que a nossa literatura deveria refletir?
Um deles, sem dúvida, é o aborto. Poucos assuntos poderiam ser mais complexos e emocionais, mais cheios de poréns e todavias, mais assombrados por imperativos morais e relativismos concretos.
Qualquer um que diga que tenha uma resposta simples, uma posição inequívoca, uma postura sem compromisso, ou é um idiota ou não considerou todos os lados da questão.
Dois grupos quase sempre histéricos e exagerados dominam o debate. Ambos tentam nos convencer que sua posição é obvia e auto-evidentemente a única correta e que a posição do outro grupo é, pra todos os fins e efeitos, perversa e demoníaca.
Um deles se diz a favor da vida (como se o outro fosse contra a vida!), mas ambos definem vida de forma bem diferente.
Um deles se diz a favor da escolha (como se o outro fosse contra escolha!), mas o outro alega que não podemos "escolher" cometer homícidio - entretanto, só será homicídio dependendo de como se define vida, o que nos leva de volta à primeira questão.
É preciso ser muito fanático, radical e maniqueísta pra não reconhecer que ambos têm argumentos convincentes. Cabe a nós, cidadãos de uma democracia, resolver esse dilema, tomar nossa decisão, pressionar nossos parlamentares. Enquanto isso, o tempo urge. A questão tem impacto direto na vida de milhares e milhares de pessoas. Drama humano, meus amigos.
Esse blog deturpou meu pensamento. Nunca fui ensaísta nem polemista. Ficar dando minha opinião assim, na primeira pessoa, como eu mesmo, fodeu com minha capacidade de empatia e me fez muito egocêntrico. Sou, sempre fui e sempre serei um ficcionista. E minha contribuição eu dou através da ficção. O bom escritor é o que sabe se colocar na pele de todo mundo. Quando manda bem, você nem sabe sua verdadeira opinião.
A partir de amanhã, um esboço de um romance sobre aborto em três episódios.
Parte I: O Anti-Aborto Preventivo
Update
Tenho um posicionamento que concilia as duas opiniões: Sou a favor da vida, logo sou contra "O" aborto. Porém... Sou a favor da escolha, logo sou a favor d"A LEGALIZAÇÃO" do aborto. Não há nenhum paradoxo aqui. Apenas considero que essa não é uma questão que deva ser regulada pelo Estado.
O mais triste desse comentário é que talvez seu autor realmente não enxergue sua contradição e se ache sinceramente um conciliador, talvez candidato ao Nobel da Paz.
Infelizmente, ele não concilia nada e chega a ser desrespeitoso em seu completo desprezo pelos argumentos do outro lado: somente demonstra o diálogo de surdos que domina a questão.
Dado que uma parte significativa da população considera que o aborto é assassinato pura e simples, não dá se argumentar que "é uma questão de escolha", "relativa ao corpo da mulher" e "que não deve ser regulada pelo Estado". Esse tipo de argumento ignora completamente os enormes desdobramentos éticos, filosóficos e religiosos da questão, como se não fossem nem ao mesnos dignos de serem considerados.
Diante do argumento "aborto=assassinato", não faz sentido você rebater que é "uma simples questão de escolha que não deve ser regulada pelo Estado" e achar que isso vai resolver a conversa, porque seu interlocutor, logicamente, vai responder que assassinato não é questão de escolha e que o Estado surgiu, entre outras coisas, pra regular o assassinato. Também não adianta dar argumentos práticos e de saúde pública, falando sobre as mortes em abortos ilegais, impacto no SUS e diminuição da criminalidade, porque "assassinato", esse grande tabu da nossa sociedade, super-trunfa todos esses argumentos. Aos ouvidos de um religioso, seria como dizer que deveríamos legalizar o crime porque muitos criminosos estão se machucando fugindo da polícia: se legalizarmos o roubo, eles não vão mais precisar sair correndo pela rua pra não ser presos, coitadinhos.
Reparem que não estou dizendo que aborto é assassinato, mas também não estou dizendo que não é: digo somente que esse é o centro nevrálgico da questão, que não pode ser ignorado ou evitado.
Se aborto não é assassinato, então todos os argumentos dos anti-aborto caem por terra, se tornam um grande escarcéu por nada, por um procedimento cirúrgico como tantos outros.
Se aborto é assassinato, então todos os argumentos dos pró-aborto empalidecem na comparação e também caem por terra, pois o assassinato não é uma questão femininina, de saúde pública e, muito menos, de escolha individual.
Talvez seja uma das questões mais importantes e complexas do nosso tempo. Se você acha que a resposta é simples, ou que é passível de ser resolvida com um sofisma de três linhas, eu diria que há grandes possibilidades de você ser um idiota.
Update II
Eu sou um homem feliz. Sempre acho que o mundo é lindo, que as pessoas são boas, que tudo vai acabar bem. Os comentários de posts como esse e da série sobre racismo são importantes para o meu crescimento espiritual porque me esfregam na cara algumas verdades duras que eu vivo esquecendo: que o mundo é uma lugar muito muito feio e que as pessoas são raivosamente ruins.
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Para quem quiser saber minhas posições religiosas:
Prisão Religião
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