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Uma leitora fez um comentário no LLL que dizia mais ou menos o seguinte: o problema do Brasil não é racismo, pois os policiais param mais pretos do que brancos porque pretos tendem a ser pobres e pobres tendem a ser criminosos; ergo, pretos têm mais chances de ser criminosos (ou criminosos têm mais chances de ser pretos); ergo, tchan!, a polícia não é racista, o problema é sócioeconômico! (Meu resumo não faz justiça ao comentário, você tem que ler a versão integral sem cortes.)
Eu fiquei tão chocado, emudecido e estupefato que não soube o que dizer. Na hora, gargalhei de nervoso. Liguei pra alguns amigos e li o comentário por telefone, incrédulo. Uma chorou. Acabei postando o comentário separadamente, por achar que todos tinham que ver um negócio desses.
Incrivelmente, a minha atitude de 1) dar destaque ao comentário e 2) não me rebaixar a confrontá-lo é aparentemente mais inaceitável, terrível e escandalosa do que os absurdos escatológicos que foram ditos. Nos comentários do post, quem está levando pedrada sou eu. Disseram que gosto de fazer as pessoas se sentirem tolas, que não estou debatendo a sério, que não quero trocar idéias nem aprender com ninguém, que minha prepotência ofusca minhas outras qualidades, que não tenho trato com as pessoas, que sou debochado e sarcástico, irônico e arrogante, que ridicularizei a comentarista, que eliminei a possibilidade de convencer a moça ou outros que pensam como ela, que desprezo opiniões diferentes das minhas, que não vou ser levado a sério, que trato meus comentaristas como cobaias e que só quero confirmar minhas próprias idéias. Ufa. Esqueci algum?
Então, deixa eu clarificar algumas posições que norteiam esse blog.
Eu não debato e, com certeza, se debatesse, não debateria a sério. O debate presume uma intenção de convencer o outro que eu não tenho. Escrevo para expor minha opinião para quem quiser ouvir. Os apartes que fiz nos comentários foram não para debater, ou seja, para convencer alguém, mas para responder a perguntas dos leitores e clarificar pontos obscuros. Se entendermos debate como uma troca de idéias motivada para convencer o outro, eu posso garantir que em nenhum momento debati com ninguém. Se a moça vai continuar carregando pelo resto da vida as idéias expostas no comentário, isso é problema das pessoas que convivem com ela e do país administrado pelos políticos que ela eleger. A vida é muito curta.
O debate também presume que o debatedor leva a si mesmo e sua própria opinião bastante a sério e, em alguma medida, os outros debatedores e suas opiniões também. Pois eu não me levo a sério. Eu não levo minhas opiniões a sério. Eu não levo nenhum de vocês a sério. Eu não levo as opiniões de vocês a sério. Eu não levo esse blog a sério. Eu não levo o fenômeno blogs a sério. Eu não levo a vida a sério. Não há nada mais ridículo do que alguém falando passionalmente sobre um tema que leva a sério. Qualquer um fica chato, não tem jeito. Viver requer um mínimo de leveza, ou de cinismo, o que se puder arranjar. Se eu não me levo a sério, por que vocês iriam levar? Sinceramente, não dá pra levar a sério uma pessoa que me leve a sério. A vida é muito curta.
Não, eu não desprezo as opiniões dos outros, assim, de modo geral, mas desprezo sim muitas opiniões específicas. Concordo com aquela máxima do Millor: "às vezes, você está discutindo com um idiota... e ele também!" Certas opiniões inaceitáveis não se respondem, pois o diálogo lhes confere uma legitimidade que não merecem ter. Quando me dizem que preto é tudo burro, que mulher não sabe dirigir, que homem tem sempre que pagar a conta, que os judeus querem dominar o mundo, que sexo fora do casamento é pecado, eu não respondo. Tenho profundo desprezo por essas e outras opiniões que seria tedioso listar. Não merecem resposta. A vida é muito curta.
Acho engraçado um bando de gente que não conheço vindo me cobrar isso ou aquilo, como se eu tivesse alguma obrigação para com elas, qualquer obrigaçãozinha mínima que seja. Escrevo para todos: qualquer um pode me ler e qualquer um pode comentar, e vocês podem conversar entre si nos comentários livremente, mas eu só converso com quem eu quero. Escolho meus amigos e meus interlocutores com cuidado. Não tenho obrigação alguma de dar papo aos malucos que escrevem barbaridades nos comentários no LLL. Ninguém tem direito de ter suas perguntas ou desafios ou provocações respondidos por mim. Se você acha que sou arrogante e prepotente por não explicar calmamente ao meu amigo de direita que favelado não é inseto pra ser dedetizado, então paciência. A vida é muito curta.
Por fim, a última grande crítica dos meus leitores: se eu continuar assim, não vou mais ser lido. As pessoas não vão me levar a sério. Os leitores vão sumir. Ficarei falando sozinho. Finis Alex Castroe! O horror, o horror!
Pois bem então. Leiam com cuidado as minhas próximas afirmativas contundentes, pois elas podem ser mal-interpretadas:
Se você acha que preto é pobre, pobre é bandido, logo, a polícia perseguir negros não é racismo, então eu não quero papo com você. Eu não quero ser lido por você. Eu não tenho diálogo com você. Eu não saberia nem por onde começar a te convencer de qualquer coisa. Eu te cumprimentaria na festa por educação e olhe lá. Se quem compartilha dessa sua opinião achar que eu sou um arrogante e prepotente sem trato com as pessoas, ótimo. Vão embora. Saiam balançando a cabeça e fazendo tsc tsc. Não tem problema. Ainda é um país livre. Vocês têm o direito de falar e de pensar o que quiserem de mim. Mas longe. Xô. A vida é muito curta.
Os humanos, enquanto manada, são lamentáveis, mas individualmente alguns prestam. A melhor maneira de desentocá-los é se expor. Vale a pena afastar mil bois para atrair uma única leoa.
Eu me exponho porque esse é o melhor jeito de conhecer quem está à minha volta. As pessoas mais incríveis, abertas, lindas, sensuais da minha vida eu conheci através desse blog. Ao me expor, eu descubro quem vai bailar comigo. Ao me expor, eu sinalizo para aquelas pessoas encostadas na parede por falta de opção que, sim, elas têm companhia: podem vir dançar comigo!
Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas. Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.
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