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Naturalmente, o conceito de raça certa é móvel e variável. Alguém da raça certa em Pernambuco talvez não conseguisse namorar a filha de um gaúcho mais arretado.
Quando digo que sou branco é porque, na minha terra, eu sou visto e tratado como branco, por brancos e não-brancos. Quando entro em uma festa chique trajando smoking, ninguém me olha surpreso e pergunta se minha família é rica porque sou pagodeiro ou jogador de futebol. Meu direito natural de estar ali é um dado. Todos os exemplos acima de "raça certa" se aplicam a mim. Nunca sofri preconceitos. Minha carteira de reservista da Marinha diz: "Tez: Branca". Se em outras regiões eu não seria branco, essa é uma questão acadêmica. Senão, ficamos parecendo aqueles americanos que chegam aqui e tentam convencer os mulatos de que eles são, na verdade, negros!
Cada ser humano é, antes de tudo, quem ele pensa ser e quem ele é percebido como sendo.
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No fundo, no fundo, há um critério absolutamente eliminatório, que dispensa todos os outros.
Ser da raça certa é saber, com certeza absoluta, que a família da sua nova namorada não vai querer vetar o relacionamento só de olhar pra sua cara, antes mesmo de você abrir a boca. Ou, talvez, depois de saber seu sobrenome:
"Hmmm, Adolfo Schnaiderberg? Muito prazer... Minha filha, posso falar com você aqui na cozinha um minutinho?"
Independente das variações regionais, você é da raça certa (qualquer que seja a raça certa na sua terra) se nunca se perguntou, nem por um segundo, se perdeu aquela vaga de emprego, aquela namorada ou aquele apartamento por ser da raça errada.
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O melhor livro sobre raça e Brasil que esse estudante do racismo brasileiro já leu. Leia essa resenha do Idelber e depois volte pra comprar aqui pelo blog, e eu ganho uns caraminguás.
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O pai de uma amiga estava concorrendo pra uma vaga de reitor em uma universidade americana da costa leste. Na fase final da seleção, entre ele e outro candidato igualmente competente, acabou perdendo o emprego. A razão: o outro candidato era negro e a instituição precisava honrar seu compromisso com a diversidade.
Posso imaginar os leitores branquelos se revoltando: "está vendo? Está vendo? Somos da raça errada também. Já perdemos empregos por seremos brancos!"
Eu vejo a questão por outro ângulo. Esse episódio, relativamente comum nos Estados Unidos, prova apenas que os brancos são a raça certa por definição. Só quem é o incontestavelmente mais forte pode abrir mão das suas vantagens, de forma consciente e aberta, para compensar as injustiças sofridas contra quem sempre foi mais fraco.
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Update
As pessoas passam pelas mesmas situações e tiram conclusões tão diferentes, não? Alguns leitores branquinhos contaram histórias de preconceitos que sofreram. Sem entrar no mérito de cada caso, minha reação teria sido de empatia:
"Caralho, que merda. E olha que comigo foi só hoje! Qual será o efeito na psique de alguém que sofre isso todo dia, várias vezes por dia, desde antes mesmo de ser gente?"
Entretanto, a reação mais comum parece ser:
"Oras, se aconteceu comigo uma vez em trinta anos, foi ruim mas não tirou pedaço, por que cargas d'água o cara que sofre isso todo dia, várias vezes por dia, desde antes mesmo de ser gente, vai reclamar?! Sério, quanta insegurança! Quanta falta de auto-estima! Depois não entendem porque são todos pobres e vivem sendo parados pela PM!"
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Para entender o que o racismo faz com a cabeça de uma criança.
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De um modo bem real, ser da raça certa é como ter um super-poder e, como bem disse o Homem-Aranha, com poderes vêm responsabilidades.
Se você é da raça certa, então teve vantagens que muitas vezes nem imagina, pois as considera "naturais" e que só se tornam visíveis em comparação às desvantagens que sofrem as pessoas da raça errada. Por mais injusto que possa te parecer, logo você que nunca fez nada a ninguém!, que nunca escravizou ninguém!, você é mais parte do problema que da solução.
Só quem é da raça certa e nunca sofreu preconceito pode se dar ao luxo de acreditar (e defender aos altos brados em caixas de comentários) nossa utopia brasileira da democracia racial. Seu faxineiro, aquele que adora ser chamado de Pretinho, aprendeu essa mesma ideologia na escola mas ela não sobreviveu ao seu primeiro encontro com a PM. Ele *sabe* que somos um país preconceituoso.
Mais importante que tudo, se você é da raça certa, precisa se dar conta da sua responsabilidade em não tornar as coisas ainda piores do que já são. Tenha um pouco de empatia. Se coloque no lugar do outro.
Não, ele não gosta de ser chamado de "Pretinho". E, se gosta, então o problema é muito, muito pior.
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Leia todos os posts dessa série:
Usos do Nego
Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
Ser da Raça Certa I: Você É da Raça Certa?
Ser da Raça Certa II: 100% Branco
Ser da Raça Certa III: De que Cor É o Personagem?
Ser da Raça Certa IV: O Critério Eliminatório
Por favor, ajude a divulgar essa série. Se for linkar, linque todos os posts.
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Minha coluna de hoje na Tribuna da Imprensa: Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
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Essa série co-escrita por, debatida e articulada com, reescrita e revisada por Lulu - que, como todos sabem, sou eu. Vale muito a pena ler o outro blog dela - ou seja, meu.
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http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/19972 Posts similares:
Repercussão da Série sobre Racismo
Brancos Não Tem Raça
Ser da Raça Certa (Parte I de IV)
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