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"Sabe que no colégio eu tinha um amigo negro, o único negro da classe, e tal. O apelido dele era Pelé. Todo mundo chamava ele de Pelé. Aí, um dia, meu pai me ouviu conversando com ele, ou falando dele, enfim, soube que eu tinha um amigo negro cujo apelido era Pelé. E me deu a maior bronca. eu fiquei bem mal, ainda por cima porque fui conversar sobre isso com ele, e ele falou que a mãe dele também odiava que todos chamassem ele de Pelé. Eu lembro que meu pai falou pra mim: pô, você chamar ele de Pelé, é a mesma coisa de chamá-lo de negro. E eu lembro que eu menti, falei que não... A gente chama ele de Pelé porque ele joga bem futebol! Mas eu menti porque fiquei bem envergonhada. Eu tinha uns doze anos. E essa minha mentira significa que eu entendi muito bem o problema de chamar o Pedro de Pelé. Percebi que chamar de Pelé por causa do talento futebolístico semelhante, ok. Chamar de pelé por causa da cor dapele semelhante, não. E, mesmo assim, um menino branco que jogasse futebol muito bem jamais seria chamado de Pelé, talvez até se ofendesse, seria chamado de, sei lá, que jogador de futebol era branco? Zico? Então, Zico."
* * *
Quem é da raça certa só escuta epítetos raciais quando é o único, ou praticamente o único, em uma multidão de gente da raça errada - tipo dinamarquês no terreiro de candomblé em Salvador. E, mesmo assim, são epítetos bem diferentes. Afinal, uma raça é certa e a outra, a errada.
Esse povo que, de vez em quando, muito raramente, é chamado de "branco azedo" não sabe o que é passar o dia inteiro sendo chamado de "neguinha". Equacionar as duas coisas seria como equacionar "ei, você aí, limpando o chão" com "meritíssimo".
"Sério, não aguento mais essa palhaçada. Se eu chamo alguém de "negão" ou "baiano", eu sou um monstro do preconceito. Mas se me chamam de "branquelo", aí pode. Aliás, claro que pode! Sou branco mesmo, por que me incomodaria de ser chamado de branquelo? E por que não posso chamar o negão de negão?!"
Os "ruços", "branquelos" e "polacos" nunca foram preteridos numa vaga de emprego ou proibidos de namorar uma menina por causa da sua cor. Assim é fácil não se incomodar.
Já os epítetos equivalentes ("negona", "paraíba") podem ofender pessoas para quem sua própria raça é muitas vezes uma fonte de opressão e desvantagem. Nesse sentido, chamar alguém de "negão" equivale a tirar um pouco sua humanidade, explicitar que ele destoa da regra geral do grupo e já selecioná-lo para, basicamente, se fuder.
"Ah, não apela, Alex, isso é o maior preconceito! Se alguém usa uma camisa escrita 100% negro, ninguém reclama, é lindo, mas se eu sair na rua usando uma camisa 100% branco vão fazer o maior alarde, vou ser chamado de nazista, skinhead, preconceituoso, o escambau! Isso é justo, por acaso? É justo?"
Uma camisa "100% Branco" é de profundo mau-gosto, ao mostrar quem está por cima celebrando sua hegemonia. "100% Negro", por outro lado, é a celebração de uma identidade subalterna tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.
* * *
"O que confere ao insulto sua força performativa não é a própria repetição, mas o fato de que ele é reconhecido como estando de acordo com um modelo, uma norma, e se liga à uma história de exclusão. ... A elocução implica que o falante é o porta-voz do que é 'normal' e trabalha para constituir o destinatário como tendo passado dos limites" (Jonathan Culler, Teoria Literária - Uma Introdução, cortesia da Laila)
* * *
Ser da raça certa é nunca ser descrito em termos de raça, é ter raça neutra, não ter raça:
"Quem é o Paulo?"
"Aquele gordinho." ou
"É o careca." ou
"O de camisa azul." etc...
Ser da raça errada é sempre ser uma raça antes de ser uma pessoa.
"Quem é o Paulo?"
"Ah, é aquele negão ali."
"Qual? Tem dois."
"O altão."
"Ah."
Update - Comentários que Merecem Virar Post
Ai ai, se eu tivesse esse poder de síntese. Ao invés de perder esse tempo todo escrevendo longos textos, a historinha abaixo já expressa tudo o que eu tinha a dizer. Simplesmente perfeita:
"Lá para os idos de 2002, durante a campanha, as cotas estava no programa do Lula, numa porcentagem qualquer. Estava no terceiro ano, no colégio mais badalado da capital (uns 700$ a mensalidade na época), numa turma de 100 alunos, me vira a menina e reclama: "Mas para quê tanta vaga para negros? Olhe em volta, só tem 1 (hum!) negro aqui!".
Leia todos os posts dessa série:
Usos do Nego
Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
Ser da Raça Certa I: Você É da Raça Certa?
Ser da Raça Certa II: 100% Branco
Ser da Raça Certa III: De que Cor É o Personagem?
Ser da Raça Certa IV: O Critério Eliminatório
Por favor, ajude a divulgar essa série. Se for linkar, linque todos os posts.
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Essa série co-escrita por, debatida e articulada com, reescrita e revisada por Lulu - que, como todos sabem, sou eu. Vale muito a pena ler o outro blog dela - ou seja, meu.
* * *
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http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/19903 Posts similares:
Ser da Raça Certa (Parte I de IV)
Ser da Raça Certa (IV de IV) - Update!
Ser da Raça Certa (III de IV)
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ICA. Nós brasileiros não temos dívida com a raça negra nem com outra raça. QUEM ESCRAVISOU ÍNDIOS E NEGROS FORAM OS POTUGUESÊS. Com a República nos separamos intitucionalmente de portugal e da familia real. O apelido SÓ FERE QUANDO É OFENSIVO. QUANDO CHAMAMOS ALGUEM DE PRETO, NEGRO, PORTUGA BRINCANDO NÃO É NADA DEMAIS. Vejam o presidente Lula chama dona Marisa de GALEGA e não é ofensa. Os que se dizem negros(não existem mais negros e brancos puros no Brasil)deviam orgulhar-se de serem chamados negros, negão, neguinho. DEVEM ACABAR COM FRESCURA DE SEREM SEMPRE OS PERSEGUIDOS OS COITADINHOS. TODOS SOMOS IGUAIS JURÍ
ICAMENTE. Se alguem lhe prejudicar, vá para justiça que ela lhe dará seus direitos. SÓ NÃO DEVEMOS IMAGINAR QUE SOMOS UMA SOCIEDADE PERFEITA. TEMOS QUE AJUDAR A APERFEIÇOÁ-LA. E DEIXAR DE FRESCURA, DE FRESCURA.DIGO DE FRESCURA! A VIDA ESTÁ AÍ PARA VIVERMOS E SER FELIZES. MESTIÇOS, CAFUZOS MULATOS, MAMELUCOS,NEGROS, ÍNDIOS, BRANCOS E TODA ESSA RAÇA MISTURADA. Post anterior: Americano se Mata Após Receber Coração de Suicida
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