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Ontem, eu disse:
Quem tem a raça certa e está do lado de cá do racismo nunca sentiu isso na pele, mas poderia pelo menos fazer o esforço de *tentar* entender.
E vocês me perguntam: o que é ser da raça certa?
Assim como rico de verdade é aquele que não sabe quanto dinheiro tem, ser da raça certa é ter a opção de não pensar em raça: é viver sua vida como se você fosse apenas o Zé ou Felipe, um economista ou um advogado: não um "negão", um "japaguaio", um "baiano".
Ser da raça certa é nunca pensar na sua raça como raça. Quem tem raça são as minorias, os negros, os japoneses, os índios. Você, não.
Não estou nem falando apenas sobre raça: ser da raça certa é nunca ser "o outro", mesmo que esse outro não seja racialmente determinado: não ser judeu, preto ou japonês, mas também não suburbano, caipira ou nordestino.
Ser da raça certa é fazer parte do grupo que está dentro, não do que está fora, olhando pelo vidro, com cara de pidão.
* * *
Ser da raça certa é nunca ser *interpelado* racialmente.
Sem entrar em altusserianismos, eis o que diz o Houaiss:
1. Dirigir-se a (alguém) com alguma pergunta ou pedido de explicação, em tom confrontativo. Ex.: interpelou-o sobre sua atitude omissa. 2. Intimar a prestar declarações, a dar esclarecimentos, em tribunais, cortes, parlamentos etc. Ex.: o Congresso interpelou o ministro das finanças
Na sala de aula de Joinville, ninguém pergunta ao menino loirinho de olhos azuis de onde ele é. Vai ver ele até não é dali, mas isso não importa: visualmente ele faz parte do grupo dominante. Ou seja, é normal - mesmo se vier de fora. Já um menino que pareça filho da Marcelia Cartaxo com o Gero Camilo vai ter sempre que dizer "de onde é", mesmo que tenha nascido ali, mesmo que sua família esteja em Joinville há três gerações.
Não estou querendo dizer que a pergunta "de onde você é" seja racista, mas ela é, por definição, excludente. Mesmo quando perguntada super na boa, com o maior carinho, o que a pergunta está fazendo é identificar o outro como "aquele que não pertence ao nosso grupo": "você, que tem uma cor diferente, um sotaque estranho, uma outra religião, de onde você é?"
Em Cuba, eu fiz o máximo para me passar por nativo. Tinha o mesmo biotipo e vestia as mesmas roupas. Entretanto, mesmo quando ficava calado, era uma derrota quando um cubano identificava em mim "o outro" e me perguntava amigavelmente de onde eu era. Tudo o que eu mais queria era nunca ouvir aquela pergunta. Por outro lado, quando estou na praia de Ipanema, tomando coco e aplaudindo o pôr-do-sol, de shorts e chinelos de dedos, e comentando que neguinho é sinistro, ninguém nunca veio me perguntar de onde eu era.
Quem faz parte do grupo dominante não precisa nunca explicar a si mesmo ou sua presença naquele ambiente: ela é um dado. Só quem é de fora, quem é da raça errada, precisa constantemente justificar sua existência: meus avós vieram da Paraíba na década de 50, etc.
Parece pouca coisa mas não é. Passar toda sua vida, em sua própria terra, explicando porque sua cor, seu sotaque, sua religião não são iguais a de todos os outros coleguinhas é o tipo da coisa que pode ou esmagar a alma de uma pessoa ou revoltá-la para sempre.
Update - Comentários que Merecem Fazer Parte do Post
E as vítimas são vítimas duas vezes, uma por serem, coletivamente, e não individualmente, inseridas num conjunto de estereótipos detratores e humilhantes ao longo da história, e agora por serem burras, inseguras, etc. Valha-me deus nosso senhor do bonfim, alguém salve essas almas "esclarecidas" que comentam aqui. Ou uma boa sessão de blue eyes, quem sabe. (Juliana)
(Amanhã... ser da raça errada é ser uma raça antes de ser uma pessoa... as camisetas "100% negro" e "100% branco" são igualmente racistas?... branquelo é xingamento?)
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Leia todos os posts dessa série:
Usos do Nego
Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
Ser da Raça Certa I: Você É da Raça Certa?
Ser da Raça Certa II: 100% Branco
Ser da Raça Certa III: De que Cor É o Personagem?
Ser da Raça Certa IV: O Critério Eliminatório
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Essa série co-escrita por, debatida e articulada com, reescrita e revisada por Lulu - que, como todos sabem, sou eu. Vale muito a pena ler o outro blog dela - ou seja, meu.
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