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A discussão sobre o uso da palavra "nego" gerou, na minha opinião, a melhor caixa de comentários do LLL. Estudo raça no Brasil porque acho que essa é a questão mais importante do nosso país hoje. Eu teria muita coisa a dizer sobre o assunto (toda uma tese de doutorado, aliás) mas queria só enfatizar o seguinte ponto, tão absurdamente óbvio que me parece incrível ser objeto de discussão:
Quem decide o que é ofensivo é quem escuta, não quem fala.
Tenho uma amiga que odeia ser chamada de "cara". Não sei porquê. Não faz diferença. Eu sou carioca: falo "cara" de três em três palavras. É um sacrifício não falar "cara". Devo fazer um esforço para respeitar minha amiga, mesmo sendo seu estranhamento completamente aleatório e irracional, ou devo falar "cara" à vontade e foda-se?, ela que pare de ser fresca? O que VOCÊ faria? (O fato de eu morrer de tesão por ela não deve ser considerado na resposta da pergunta.)
Um dos verbos mais profundamente escrotos da língua portuguesa é "judiar". Não me ocorre nenhum exemplo, em nenhuma língua que eu fale, de uma palavra tão profundamente abjeta ainda em uso corrente, como se não fosse nada de mais. Uma aluna minha, judia colombiana, ficou tão chocada quando expliquei o significado na palavra (aparece em "O Auto da Compadecida") que eu, quase constrangido, pedi desculpas em nome da língua portuguesa. Ela está coberta de razão: é chocante. Traduzindo para o inglês dá pra se ter uma idéia do impacto:
"My son loves jewing the dog, he's so naughty!"
E, sim, a palavra é tão corrente na língua portuguesa que a maioria dos falantes a usa sem nenhuma malícia. Nem se dão conta de que estão usando o nome de um povo como sinônimo de fazer maldade. A questão é: isso justifica o uso da palavra?
A palavra é nojenta. Ela é ofensiva aos judeus (que sabem BEM o que está por trás dela) e, vocês me dão licença, é ofensiva inclusive a mim. Se você a usa sem perceber sua carga de malignidade, a solução é tomar consciência disso e parar de usá-la, NÃO bradar sua ignorância como defesa.
"Pô, Alex, você está americanizado, procurando chifre em cabeça de porco. Todo mundo chama o faxineiro lá do escritório de "pretinho", super na boa, somos amigões, até saímos pra tomar chope de vez em quando, eu SEI que ele não liga!"
Não importa se o apelido do "pretinho" foi dito super na boa, supercarinhosamente, como todo afeto e amor: o que importa é o que ELE acha. E ele não vai te dizer nunca, sabe por quê? Porque ele é o faxineiro, porque ele precisa do emprego, porque ele não quer criar problema com alguém da casta superior, porque ele já ouviu isso tanto que internalizou, etc etc. As razões possíveis são muitas, e nenhuma é boa. Só quem é negro sabe como é ser chamado de negão o dia todo por pessoas brancas.
"É muito fácil para alguém que é branco ... dizer que "imagine, hoje em dia não tem problema nenhum". Quem tem que dizer se tem problema são os negros. Quem algum dia já teve um apelido que não lhe agrada, do tipo "gordão", "banana", e é obrigado a ouvir isso o dia inteiro de pessoas que não têm a intenção de ofender (nem sempre dá pra saber) e acham que a pessoa não liga, deve ter alguma idéia do que estou falando." (Kitagawa)
Quem tem a raça certa e está do lado de cá do racismo nunca sentiu isso na pele, mas poderia pelo menos fazer o esforço de *tentar* entender.
Update
O Daniel, como sempre, matou a pau:
Disse hardy har har
"Racismo é crime. Se quem decide o que é ofensivo é quem escuta, ou seja, se quem define o crime é a vítima, então nunca há defesa possível pro acusado."
Talvez eu nunca tenha entendido o mundo, mas não é justamente a vítima que sempre define o crime? Ou melhor, se achando no papel de vítima (de racismo, roubo, estupro, calúnia, abuso de autoridade, perturbação do silêncio, ou sei lá), a pessoa vai lá e faz uma denúncia. Depois disso, cabe a um juiz decidir se a pessoa realmente foi vitima de um crime ou não. Não é porque a vítima se definiu como vítima que automaticamente o suspeito é culpado. Não é assim?
Ou são os criminosos que se declaram como tal? "Seu juiz, com licença. Sou um patrão que explora os empregados e desrespeita de maneira escandalosa a CLT. Poderia me multar, por favor?" "E eu pratiquei racismo contra este negrinho. Prenda-me, por obséquio."
Acho que o lance dessa conversa não é esse. O lance é respeito mesmo. Prestar atenção em como o que a gente diz e faz afeta os que estão perto, e como reagir a isso. Não tem nada a ver com censura, com PC, com deixar de dizer algo por medo do que vão achar. Muito pelo contrário: dizer e estar aberto a ouvir também.
Amanhã... Como saber se você está do lado certo ou do lado errado do racismo...
O melhor livro sobre raça e Brasil que esse estudante do racismo brasileiro já leu. Leia essa resenha do Idelber e depois volte pra comprar aqui pelo blog, e eu ganho uns caraminguás.
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Leia todos os posts dessa série:
Usos do Nego
Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
Ser da Raça Certa I: Você É da Raça Certa?
Ser da Raça Certa II: 100% Branco
Ser da Raça Certa III: De que Cor É o Personagem?
Ser da Raça Certa IV: O Critério Eliminatório
Por favor, ajude a divulgar essa série. Se for linkar, linque todos os posts.
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Essa série co-escrita por, debatida e articulada com, reescrita e revisada por Lulu - que, como todos sabem, sou eu. Vale muito a pena ler o outro blog dela - ou seja, meu.
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Judiando da Gringa - Muitos Novos Updates ao Texto
Repercussão da Série sobre Racismo
Ser da Raça Certa (Parte II de IV)
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