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Algumas frases pinçadas de posts antigos do LLL:
"Sempre que faço algum post declarando meu amor pela minha cidade, nego se sente atacado, responde com mil pedras na mão."
"Caramba, se me amarrassem numa montanha russa, eu pagaria o dobro, o triplo do preço da ingresso pra sair dali - mas nego paga fortunas pra entrar!"
"Sinceridade é sempre boa indo; vindo parece que nego não gosta."
"Nego não acredita mas eu raramente leio blogs."
"Nego assiste Friends e Sex & The City e já acha que sabe tudo sobre cultura americana."
Lá na minha terra, usamos "nego" pra designar "pessoa em geral" - como nos exemplos acima. Para mim, como usuário da língua, é um termo já completamente não-racial, uma daquelas metáforas mortas que perderam qualquer contato com o seu significado original.
Tenho um amigo americano que discorda (ele é branco, sabe tudo de Brasil, fala carioquês fluente, gente boa toda vida) e dá o seguinte contra-exemplo: um colega, baiano e negro, o chama de "nego" e ele acha isso lindo, pois é um modo do amigo "incluí-lo em sua negritude." Já esse troço de chamar todo mundo de "nego", pra ele, pode ser considerado ofensivo e deve ser evitado.
Eu realmente fiquei confuso. Agora não sei se fui eu ou ele que não entendemos alguma coisa. Tentei explicar que "nego", nesse contexto, não é um epíteto: não se está virando pra alguém, branco ou preto, e dizendo "ô você aí, seu nego!" Nunca se refere a ninguém específico. "Nego" é usado como substituto de "as pessoas", "alguém", "gente".
Ou, usando um exemplo concreto, falar que "nego paga fortunas pra entrar na montanha-russa" NÃO evoca uma fila de afro-brasileiros esperando pra usar o brinquedo.
Em suma, minha teoria é que "nego" significando "as pessoas" não é ofensivo e já foi esvaziado de significado racial - pelo menos no Rio. A teoria dele é que o termo é racial, possivelmente ofensivo e não deve ser usado.
O que vocês acham?
O melhor livro sobre raça e Brasil que esse estudante do racismo brasileiro já leu. Leia essa resenha do Idelber e depois volte pra comprar aqui pelo blog, e eu ganho uns caraminguás.
Update
Os comentários desse post, com raras e honrosas exceções, são praticamente um compêndio de todos os preconceitos brasileiros sobre raça, dessa nossa cegueira racial congênita, desse nosso desejo ansioso por uma democracia racial e da nossa antipatia por qualquer um que ameace nossa querida ilusão coletiva. Meu amigo não é um gringo ignorante politicamente correto; ele é um brasilianista brilhante que fala português perfeito, já morou no Brasil e já foi casado com brasileira - aliás, negra. Descartar assim tão rapidamente a interessantíssima questão que ele levanta já é um indicador de uma certa fobia racial brasileira. Eu fiquei dias e dias matutanto a questão antes de decidir colocá-la no blog para angariar opiniões.
Também não ficou bem claro pra mim porque as pessoas estão se dando ao trabalho de escrever comentários para dizer que "na Bahia o povo se trata de "meu nego" carinhosamente" quando o próprio texto já fala isso!, e também ressalta que a questão em pauta não é essa. Alias, eu acho profundamente problemático *chamar* qualquer pessoa por epítetos raciais, seja chamar o índio de índio ou o branco de negro. Eu não uso.
O comentário mais interessante foi, com certeza, do Daniel, que reproduzo aqui:
Em todos os exemplos que você deu, o "nego" é alguém que não concorda com você ou que tem atitudes estranhas, inexplicáveis, insuportáveis e/ou arrogantes. Alguém que serve de antagonista para que o contraste entre suas idéias e atitudes e as do "neguinho" ajude o leitor a entender o teu ponto de vista
Por algum misterioso e inconsciente mecanismo, esse antagonista, seja nos seus textos, seja em conversas informais pelo brasil afora, é chamado de "nego". Não de "sujeitinho" ou de "carinha", mas de "neguinho". Quem concorda ou age como você nunca vai cair na categoria de "neguinho".
Certamente quem usa essa expressão não está indignado com as atitudes da negraiada, nem pensa em termos de raça quando fala "neguinho não tem noção". Mas provavelmente esse costume deve ter uma origem, esfumaçada pelo tempo, onde havia um componente racista.
Graças a esse comentário, voltei ao antigo LLL, fiz uma busca por "nego" e realizei uma crítica literária cuidadosa de todos os *meus* usos da palavra. E, realmente, sou forçado a concordar com o Daniel. Entre dezenas de exemplos utilizados *por mim*, "nego" designa sempre "pessoas de modo geral" mas com um componente negativo. Não são "pessoas de modo geral" netras, mas "pessoas de modo geral que não são eu" ou "pessoas de modo geral que fazem as coisas como eu não faria".
A operação verbal, mental e cultural em jogo não é de inclusão de todos em um termo genérico e geral, mas de exclusão, criando uma separação entre nós e eles na qual o negro fica sempre excluído do normal e aprisionado na alteridade. Quem fala nunca se inclui no "nego": "nego" é sempre o outro, o estranho, o desconcertante, o desconhecido.
Update 2
Devo ser mesmo muito do contra. Bastou meus leitores tentarem me convencer que eu estava certo que eu imediatamente me convenci de que estava errado.
Conversei sobre o assunto com minha colega de sala, carioca, negra, linda e gente-boa toda vida, e ela também acha que a expressão "nego", como usada no Rio, é bastante racista.
O mais engraçado é que, mesmo assim, dois cariocas expatriados que somos, não conseguimos deixar de usar o termo. A conclusão peremptória da conversa foi assim:
"Nego é muito racista mesmo, é sinistro!"
* * *
Leia todos os posts dessa série:
Usos do Nego
Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
Ser da Raça Certa I: Você É da Raça Certa?
Ser da Raça Certa II: 100% Branco
Ser da Raça Certa III: De que Cor É o Personagem?
Ser da Raça Certa IV: O Critério Eliminatório
Por favor, ajude a divulgar essa série. Se for linkar, linque todos os posts.
* * *
Essa série co-escrita por, debatida e articulada com, reescrita e revisada por Lulu - que, como todos sabem, sou eu. Vale muito a pena ler o outro blog dela - ou seja, meu.
* * *
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