Pesquisa do IBOPE revela que 26% dos brasileiros admitem que, se fossem policiais, torturariam suspeitos. Mais interessante ainda, esse percentual é de 19% entre os que ganham até um salário mínimo, mas de 42% entre quem ganha mais de cinco. O Matamoros, apesar de se definir como um "pessimista quanto ao gênero humano", claramente era otimista em relação à elite brasileira, pois se chocou. Naturalmente, em qualquer lugar do mundo, quanto mais bem educada uma pessoa, menos ela apóia técnicas bárbaras como a tortura. Exceto no Brasil, claro.
Confesso que comecei a escrever um texto longo, articulado e argumentativo, explicando porque os resultados da pesquisa me parecem previsíveis e auto-evidentes, mas desisti. Meu novo projeto de ser humano inclui tentar ser menos opinativo e mais ficcional: calar um pouco a boca e deixar minha ficção falar por mim.
A piada-parábola abaixo já diz tudo o que teria pra dizer.
* * *
O generalíssimo e um dos seus ministros estão fazendo um tour das dilapidadas escolas de sua bananeira república. As escolas não têm cadeiras, não têm quadro-negro, não têm giz, não têm merenda, não tem porra nenhuma. As professoras imploram medidas urgentes ao generalíssimo e ele só colocando panos quentes:
Assistir aulas de pé faz bem às crianças, fortalece as articulações. Sem quadro-negro, elas vão ter que exercitar mais a memória e ficarão mais espertas. Pra que merenda? De estômago cheio, elas ficarão sonolentas e vão se desconcentrar, etc.
No mesmo dia, o generalíssimo e o ministro vão visitar as prisões locais. As más condições de vida deixam o fragoroso líder indignado.
Como assim, apenas quatro refeições por dia? Como assim carne de primeira somente cinco vezes por semana? E essas camas sem colchão? Esses banheiros apertados? Somente oito horas de banho de sol por dia? Isso é um absurdo.
E prontamente assina decretos se comprometendo a dar um quarto com banheiro particular pra cada prisioneiro, um chef gourmet pra preparar as refeições, linha telefônica individual, tudo de bom e do melhor, é o mínimo que se pode fazer por essas pobres pessoas!
Lá fora, bem discreta e submissamente, o ministro pergunta ao generalíssimo se ele tem certeza do que fez, se o dinheiro a ser gasto com os prisioneiros não poderia ser melhor empregado com os famintos aluninhos da rede pública.
O democrático presidente alisa seu portentoso bigode e confidencia:
Pela escola, já passamos, meu caro ministro. Pela prisão, nunca se sabe...
* * *
Piadas não são só piadas. Piadas nos ajudam a entender melhor quem nós somos, nossos gostos, preconceitos, medos, preferências. Pelas piadas, se conhece uma civilização. Quando uma piada transcende sua função imediata de fazer rir e transmite conhecimentos inestimáveis sobre a cultura que a criou eu a chamo de Piada-Parábola. E elas tendem realmente a entrar no imaginário popular, como no caso do amigo da onça ou do famosobode. Outras piadas-parábolas:
Nº1: Os Dois Caipiras (explica porque a esquerda só sabe ser oposição e só faz merda no governo)
Nº2: O Judeu e os Barbeiros (explica o preconceito)
Nº3: A Cindy Crawford (explica os homens)
Nº4: A Onça (explica o mercado e a livre-concorrência)
Nº5: Muita Pizza (explica que tudo é relativo)
Nº6: O Bode (a melhor: explica tudo, rigorosamente tudo)
Nº 7: O Concurso de Polícias (explica o caso Staheli, o inquérito da morte do PC, até o caso Baumgarten)
Nº8: A Sala de Espera (explica as vantagens do inconformismo)
Nº9: Os Índios (explica a lealdade)
Nº10: O Touro e As Vacas (explica a infidelidade, a monogamia e a libertinagem)
Nº11: O Velho Cientista (explica a burrice)
Nº12: Tudo É Relativo (explica a Teoria da Relatividade, o revisionismo moral e estético dos pós-estruturalistas e mostra que tudo, tudo mesmo, é relativo)
Nº13: A Tinta Vermelha (explica as ditaduras)
Nº14: As Escolas e As Prisões (explica desde o funcionalismo público até a política latino-americana de modo geral)
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