Nunca ouvi falar de quem ficou desapontado ao conhecer um músico ou pintor.
Ah, sei lá, esse Toulouse-Lautrec, muito baixinho pro meu gosto. E o Tom Jobim, pôxa, mais gordo do que eu esperava, e ele fica ridículo naquele chapéu. Etc.
Por outro lado, nada mais comum do que nos decepcionarmos com nossos atores e escritores favoritos. A coisa já é tão lugar-comum que conheço amigos escritores que dizem que nunca encontram seus próprios autores favoritos. Quebra toda a mágica. Autor é pra ser lido, não pra ser encontrado.
Embora exista gente que fantasie sobre tudo (oh, senhor encanador, pela voz eu pensei que fosse mais corpulento...), autores e atores são vítimas preferenciais disso. Afinal, eles vendem a fantasia. Dá pra ouvir Mozart a vida inteira e não fantasiar sobre ele. Mas como ler Kafka e não começar a imaginar como era a sua vida?
Então, amigos, vamos à dura verdade: um autor pode até escrever coisas interessantes, mas isso não quer dizer que ele seja interessante. Ele pode escrever coisas sensuais e não ser sensual. Ele pode escrever coisas aventurescas e não ser aventureiro.
Aliás, pior ainda, quase sempre escritores escrevem o que não fazem, escrevem o que gostariam de fazer, escrevem até para não ter que fazer. Aquele autor das mais rocambolescas aventuras não atravessa a rua sozinho, o das surubas calientes não vê mulher há três anos, o humorista sagaz é a pessoa mais sem graça do mundo.
Por isso, eu sempre digo que eventos como a FLIP são pra quem gosta de badalação, não de literatura. Quem gosta de literatura, adora Coetzee e tem R$100 pra gastar, compra todos os livros dele e vai pra casa ler.
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