Não falha. Os nossos gestos revelam quem somos, principalmente em público. Linguagem corporal é tudo.
Pode ser num café, numa praça, na biblioteca, até mesmo na sala de aula. Estão vendo aquela moça, sapatos largados no chão, pés em cima da mesa, da cadeira ou do banco, languidamente fumando um cigarro, lendo um livro ou falando no celular? Deixa eu apresentar ela pra vocês.
Essa mulher não se preocupa muito com o que os outros estão pensando, ou se a sua postura é apropriada, ou mesmo se ela pode colocar os pés ali: ela adapta o mundo a ela, não vice-versa; sabe o que quer e faz, sem se importar muito com os outros. Seu gesto é transgressor e, como toda transgressão, é egoísta e arrogante: o transgressor é aquele que pensa primeiro em si e depois na coletividade. O que lhe interessa é seu conforto e seu prazer: se tiver que quebrar algumas regras para isso, paciência.
Já a mulherzinha tímida, humilde, inibida, fraca, dependente jamais colocará os pés para cima em público. Ela será tomada por milhares de dúvidas: "será que pode? Será que não vão me chamar a atenção?" Olhará em volta: "não tem mais ninguém com os pés em cima do banco, melhor não..." Depois, vai pensar na sua imagem e nas coisas que sua vovozinha lhe ensinava, não é feminino colocar as pernas pra cima, "coisa de homem, minha neta!", mulher senta é de joelhinho apertado, ou de perninha bem cruzada, tentando se dobrar em si mesma, ocupar o mínimo possível de espaço, e quase sumir, pra não incomodar de ninguém - jamais se espalhando languidamente em um banco como se ele fosse sua própria casa.
E mesmo assim, ainda haveria uma última dúvida cruel: tiro os sapatos ou não? "ai meu deus, seria falta de consideração colocar os sapatos assim em cima do banco, estão sujos, alguém vai sentar aí depois, o que iriam pensar de mim...?" Mas, por outro lado, "ai jesus, como é que eu vou tirar os sapatos?!, meu pés são horríveis, que vergonha!, e ainda não fiz as unhas essa semana, e cruzes, acho que estão com cheirinho...!, será que alguém vai perceber? ai minha santa virgem!, melhor não..."
Com essa mulher, deus me livre, eu não quero nem conversa.
* * *
A primeira coisa que me chamou atenção em Bruna foi justamente seu hábito de tirar os sapatos e botar os pés em cima de tudo. Fui me aproximando e descobri que tínhamos muito em comum. Tivemos um namoro rápido. Depois que lhe contei do seu pequeno gestozinho que me atraíra, ela riu (a gente nunca sabe o que atrai o outro em nós, não é?) e simplesmente passou a fazê-lo todo o tempo. Agora, é sua marca registrada.
* * *
Não resta dúvida que parte da atração do gesto está em ser profundamente mal-educado. Meu tesão é justamente por essa mulher que não tem medo de ser transgressora em nome do seu conforto. Mas tem hora pra tudo. Outro dia, apresentando um trabalho em uma grande empresa, três das funcionárias sentaram-se na primeira fileira do auditório, colocaram cadeiras diante de si, tiraram os sapatos e apontaram suas solinhas - ai, meu deus, lindas - direto pra mim. Além das três safadas terem me desconcentrado completamente, sério, não era a hora e nem o lugar.
* * *
Estamos sempre transmitindo informações para todos à nossa volta. O enorme e desengonçado rabo colorido do pássaro macho simboliza que ele é tão foda e saudável que, mesmo com aquela tremenda desvantagem prática, ainda conseguiu não ser comido por nenhum predador. A aliança consideravelmente grossa e bastante visível que Liloló me deu sinaliza que tenho dona. E a mulher que tira os sapatos em um lugar público e coloca os pés para cima está sinalizando que ela é, a princípio, tudo o que eu procuro. Desinibida, transgressora e dominadora. Individualista, exibicionista e hedonista. Forte, livre e egoísta. Uma diva. Perfeita.
Eu levanto minhas anteninhas vibrando e venho de onde quer que esteja. Puxo papo, convido pra um café, peço pra tirar uma foto, qualquer coisa. Assim como a leoa que vai se esfregar no macho com maior juba, estou tranquilo na certeza de estar fazendo nada mais do que o meu dever biológico.
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Em tempo: Liloló tira os sapatos e põe os pés em cima de tudo - inclusive de mim, de quatro em frente a ela.
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