Nas primeiras décadas do século XX, o Brasil vivia sua assim chamada Belle Epoque. Na capital, derrubavam-se prédios coloniais na tentativa de fazer do Rio de Janeiro uma cidade mais "parisiense". Na política, uma democracia de aparências que se vendia como civilizada e civilizatória. Nos cafés, poetas parnasianos trocavam poemetos vazios, excessivamente formais e sem compromisso algum com a realidade. Reinava um artificialismo sufocante.
1922 marca uma ruptura geral. Na Praia de Copacabana, um punhado de militares se auto-imola exigindo reformas políticas. No Teatro Municipal de São Paulo, artistas transformam a destruição do passado em projeto pró-ativo. Em poucos anos, a República Velha cai de podre em um golpe quase sem sangue. Um assassinato no nordeste ajuda a eclodir o movimento, gaúchos amarram seus cavalos no obelisco, parece que o Brasil deixou de ser apenas Rio, Minas e São Paulo.
Na década seguinte, o romance regionalista já reina quase supremo, oferecendo uma visão alternativa do Brasil e buscando uma maior inserção da literatura nos problemas do seu tempo. Em oposição ao classicismo e alienação dos parnasianos, o romance regionalista, tanto o progressista quanto o conservador, tanto o nostálgico quanto o revolucionário, sempre dialoga com o presente, denuncia suas mazelas, envolve-se nas grandes questões sociais. O romance regionalista de trinta, seja qual for sua ideologia, é sempre engajado.
Um dos iniciadores do processo é Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, lançado em 1933, onde, praticamente pela primeira vez, a contribuição do negro à sociedade brasileira é vista como algo positivo. O fato é especialmente digno de nota, considerando-se que as décadas posteriores viram o apogeu de um lombrosismo a la Nina Rodrigues, onde médicos e intelectuais faziam contas complicadas para calcular quantos imigrantes europeus seriam necessários para embranquecer o Brasil em um século.
Alguns anos mais tarde, José Lins do Rego lança seu Menino de Engenho, parte homogênea de uma obra diretamente influenciada por Freyre - Rego se considerava seu discípulo e eram amigos pessoais. Não por acaso, naturalmente, as obras de ambos têm diversos pontos em comum e podem ser consideradas parte de uma vertente bem específica do regionalismo: o regionalismo conservador nostálgico.
Rego e Freyre, filhos de uma aristocracia rural falida, membros de uma classe dirigente cada vez menos poderosa, com cada vez menos função em um século XX que já não precisava deles, voltam seu olhar para o passado patriarcal. Existe, na obra de ambos, uma rejeição à mercantilização, à industrialização, ao progresso tecnologico generalizado que marcava sua época. Transparece em suas obras a certeza de que esse processo estava destruindo as tradicionais relações humanas que, antigamente, tornavam a vida mais doce, mais humana, mais ordeira - desde que fossem seus avós a dar as ordens, naturalmente. Ao denunciar as relações inumanas e vis que ligam industriais, burgueses e comerciantes contemporâneos aos seus trabalhadores e operários, Rego e Freyre parecem querer recuperar um passado onde a elite era mais generosa, altruísta e protetora e, conseqüentemente, os trabalhadores e escravos eram mais gratos, mais felizes e sabiam o seu lugar. De acordo com eles (e, em alguns trechos, isso é afirmado explicitamente), até mesmo uma escravidão patriarcal e bondosa seria preferível às relações crueis e impessoais do nascente capitalismo. Freyre e Rego utilizam a denúncia social do regionalismo para rejeitar o presente em nome do passado.
O projeto de um Graciliano Ramos, em Vidas Secas e em toda a sua obra, apesar de também regionalista, não poderia ser mais diferente. Em Vidas Secas, não existe idealização alguma, nem do passado, nem do presente e nem do futuro. Para Graciliano, nunca houve o nordeste harmonioso, amoroso e ordeiro que Rego e Freyre sempre evocam. Nem mesmo os heróis são vistos com simpatia. Fabiano e sua família são mostrados como não mais que bichos, tão vitimizados pelo sistema ao ponto de já mal conseguirem dominar a língua ou articular palavras e pensamentos. As autoridades, quando são mostradas, soldados e fazendeiros, são irredimivelmente vis e mesquinhas. O romance não oferece nenhuma esperança para nenhum deles. Vidas Secas é só denúncia, do começo ao fim. A esperança, se existe, é como um ponto-de-fuga: está fora do romance mas todas as linhas levam a ele; a esperança reside no aumento de consciência e desalienação do leitor. Em comparação ao regionalismo conservador nostálgico de Freyre e Rego, podemos chamar essa outra vertente de regionalismo socialista de denúncia. Mesmo quando não mencionado ou aludido, o seu foco é sempre o futuro: a literatura é um chamado para mudanças sociais ou revolucionárias que possam alterar o cruel estado de coisas que ela denuncia.
Entre ambas essas vertentes, regionalismo nostágico conservador evocativo do passado ou socialista revolucionário clamando pelo futuro, desenvolveu-se o regionalismo brasileiro de meados do século XX.
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