O Sabe-Tudo
Por fim, a coisa mais engraçada do Bill é que ele sabe tudo. Sério mesmo. Tudo. Sem brincadeira. Nunca ouvi pronunciar palavras de dúvida ou hesitação. Aparentemente, machos alfa nunca dizem eu não sei. E, claro, também não esperam você pedir suas opiniões, porque já presumem que você, macho ômega, está louco para ouvi-la e se saciar na sabedoria dos alfas. Três exemplos pra vocês, todos dessa última semana, todos reais, eu juro:
O Rotiváiler
Eu: "Caralho, a escrota da vizinha tava andando de novo com o Rotiváiler solto, o bicho é bravo e perigoso, se eu me distraio um dia, ele pode me atacar e ao Oliver!"
Ele: "Rá, perigoso? Eu derrubo esse bicho em 5 segundos. Basta fazer assim e assim e assim [longa descrição física do método infalível de derrubar um Rotiváiler em 5 segundos] Eu já te falei de quando matei um urso aos nove anos de idade? E de quando surfei do lado de um tubarão?"
Obviamente, ele já tinha contado. Vou poupar vocês.
O Álcool Brasileiro
Eu, tomando um copo de suco de laranja de caixinha: "Puxa, o suco de laranja aqui é muito bom. Agora, no Brasil, todas as marcas praticamente vêm com água e com açúcar, é um saco!'
Ele: "Bem, você tem que entender [depois de alpha something, you have to understand é sua expressão favorita] que o governo brasileiro estimulou muito a produção de açúcar por causa do álcool e agora simplesmente não tem carro o suficiente pra usar esse açúcar todo, porque a produção automobilística não acompanhou o plantio de cana, então o açúcar está sobrando, e está barato, e por isso, agora, no Brasil, estão colocando açúcar em tudo."
Eu: "Puxa, o que eu faria sem você pra me explicar o Brasil?"
Feriados no Brasil
Era feriado de Martin Luther King mas tinha um bando de gente trabalhando, inclusive em escritórios. Eu, bobamente, perguntei ao Bill como funcionava esse negócio de feriado nos EUA, porque me parecia que, em larga medida, todo feriado aqui é meio que facultativo, enquanto que, no Brasil e em boa parte do mundo, feriado é um dia em que ninguém pode trabalhar, a não ser empresas de ramos específicos e, mesmo assim, pagando hora extra. Entretanto, ao invés de me explicar os EUA, Bill, mais uma vez, teve a caridade e a generosidade de explicar para esse nativo confuso como funcionava seu próprio país:
Ele: "Você tem que entender que isso é uma herança do governo fascista e ditatorial brasileiro, numa tentativa de ter mais poder e controle sobre a iniciativa privada etc etc etc."
Eu: "Olha, Bill, eu não sei como começou esse costume brasileiro, mas tenho quase certeza que foi uma conquista dos trabalhadores o fato de não poderem ser obrigados a trabalhar em feriados."
Ele: "Você que pensa! Dos trabalhadores, não. Dos sindicatos. E quem controla os sindicatos? O governo! etc etc."
Pré-FAQ
Alguns leitores vão desler o texto e achar que estou reclamando do Bill.
Não estou, não. No fim das contas, ele é uma pessoa boa que nem se dá conta do ridículo que transmite. Sua certeza de saber tudo é tão inata que chega a ser ingênua, pura, comovente. Pra ele, ser alfa, ser superior, ser invejado por ser estudante de medicina são coisas muito naturais. Um homem de um metro e oitenta não se gaba de sua altura para outro que só tem um metro e meio. Nem faria sentido.
Outros, talvez os mesmos acima, ainda vão perguntar: puxa, como é que você atura esse mala, Alex?
Ora, leitor bobinho, você não entendeu nada. Adoro o Bill e ele me diverte muitíssimo. A vida com ele é uma eterna surpresa. Eu falo do suco de laranja e ele me vem com a política de combustíveis do Lula. Falo de feriados e ele me vem com teorias conspiratórias do governo e dos sindicatos querendo dominar o livre mercado. Eu literalmente nunca sei de onde vai sair a próxima.
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