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Email que recebi:
"Gostaria de fazer uma sugestão para o LLL (que na verdade é um pedido pessoal de indicações): você poderia fazer uma lista com os livros indispensáveis e/ou os que você mais gosta sobre crimes? Veja, usei a palavra "crimes" para que a lista possa ser abrangente: detetive que desvenda algum, estudo sobre mentes criminosas (ex.: Truman Capote), bandidagem da boa (Edward Bunker) etc."
O pedido, em si, é interessante, mas a grande verdade é que não tenho interesse algum por crimes, bandidos, gangues, detetives ou mentes criminosas de modo geral. Nunca li os autores citados - nem tenho muito interesse. Dos livros na minha lista de favoritos (aqui na coluna da direita), nenhum é sobre crimes. Leio muitos livros policiais, mas estritamente pelos personagens: acompanhar Nero Wolfe e Archie Goodwin passando férias na Europa seria tão interessante (ou mais) do que vê-los resolvendo crimes. Idem idem para Holmes & Watson, Padre Brown, Fletch, Arsene Lupin, Maigret, Columbo, Monk, Bobby de Law & Order Criminal Intent, etc etc. Nesses livros e filmes, o crime é a coisa que menos me atrai: quero saber da dinâmica dos personagens.
Ou seja, sou a pior pessoa pra se perguntar isso. Fale com a Olivia e ela vai ter excelentes sugestões.
Mas, ainda assim, fiquei matutando aqui: qual é a graça do crime? Por que as pessoas se expõem continuamente a coisas das quais fugiriam na vida real, a coisas que não querem nem saber que existem, a coisas que passariam mal se vissem pessoalmente, a coisas que as destruiriam se acontecessem com um ente querido? Qual é o atrativo de tanto sangue, violência e morte?
Não venham acusar esse velho libertário de censura. Acho que as pessoas devem produzir e consumir o que quiserem. Videogames violentos não são causa, são sintoma. Eu não quero saber o que o gamemaníaco vai fazer quando sair da Lan house: eu quero saber porque ele entrou! Qual é a graça de passar horas e horas, e gastar reais e reais, fingindo que se está matando ou machucando gente?
Aos espectadores de filmes de ação, terror e mistério, eu pergunto: tanta morte ensina alguma coisa? Ajuda vocês a serem pessoas melhores? Comove? Diverte? (E aí já começamos a entrar em outra questão espinhosa: para que serve a arte, afinal de contas? Ou melhor, para o que utilizamos a arte?)
Bote a mão na consciência. Tente imaginar um outro mundo onde a violência não fosse glorificada. O que pensaríamos de gente que acha "divertido" duas horas de um maníaco com máscara de hockey matando pessoas, uma atrás da outra? O que essa idéia de diversão nos diz sobre o estado mental desse indivíduo? Você gostaria de ficar preso no elevador ou de dormir ao lado de alguém que se diverte com mortes em série? E, entretanto, fazemos isso todos os dias, não?
Como sempre, o maluco desajustado deve ser eu. Até hoje, eu não entendo a graça de parques de diversão ou maconha, por exemplo. Por que alguém paga para sentir medo? Por que alguém paga (e ainda arrisca prisão) pra ficar alto? Caramba, se me amarrassem numa montanha russa, eu pagaria o dobro, o triplo do preço da ingresso pra sair dali - mas nego paga fortunas pra entrar! Se acordasse me sentindo como se tivesse acabado de fumar um baseado, eu iria ao médico correndo, pensaria que estava morrendo, faria todos os exames, gastaria uma fortuna em remédios, pagaria o que fosse preciso para o meu mundo voltar à sua órbita - e nego sobe o morro e arrisca levar uma bala na cabeça pra ficar assim.
Talvez o mais inacreditável seja a relação entre sexo e violência. Deve ser porque não sou pai, é a única explicação. Como pode uma sociedade tentar ao máximo proteger suas crianças do sexo (um ato natural e lindo, mágico e necessário, a origem de toda a vida, algo que queremos que nossas crianças um dia pratiquem com prazer e responsabilidade), mas ao mesmo tempo as expor a doses quase psicopatas de violência (algo que não queremos que jamais faça parte de suas vidas, nem como vítimas, nem como perpetradores)? Não faz muito tempo, os americanos quase surtaram coletivamente porque um seio (um seio, meu deus!) de Janet Jackson escapou para fora do sutiã e foi visto, em cadeia nacional, por milhões de crianças - que assistem em média a seis homicídios por dia. "Não temos problemas com torturas e decapitações, mas precisamos proteger nossas crianças daquele peitão!"
Sério. As perguntas não são retóricas. Alguém me explica? Por favor?
Será que os dramas e emoções da vida normal não bastam? Estaremos restritos a tediosas crianças que perdem sapatinhos ou a nojentos banhos de sangue e tripas?
Tire a violência absolutamente gratuita da obra de Tarantino e o que sobra de filmes como Cães de Aluguel e Kill Bill? Qual é a graça de sentar no cinema e ver a Uma Thurman (ou o Charles Bronson, ou o Clint Eastwood, ou o Jason, ou um tubarão branco, ou o Predador, ou um vírus apocalíptico, ou uma nova era de gelo, ou um navio afundando, etc) matando uma pessoa atrás da outra? Aliás, é impressão minha ou 80% do cinema é sobre alguém ou alguma coisa matando gente em série? Qual foi o último filme realmente bem sucedido que não incluía nenhuma morte violenta, ou que não tinha alguma morte como ponto fundamental da trama?
Qual foi o último filme que você viu que celebrava a vida, caralho?!
Update
Meu irmãozão Biajoni, de belíssimo leiáuti novo, escreve sobre esse post lá no blogui dele:
foi um post-kiwi: peludinho por fora, frutinha por dentro.
Update II - O Exagero
Reparem que não estou criticando a violência como tema artístico em si. A arte engloba tudo. Violência é um tema artístico tão válido quanto o amor, o trabalho, a doença, o destino, a morte. O que me espanta é predomínio do tema: nossa produção cultural parece viver praticamente só de violência.
Sempre que critico alguma obssessão por X, me aparecem alguns praticantes de X se sentindo atacados, como se eu tivesse falado deles. É como eu fazer um post sobre aqueles gordos mórbidos que comem compulsivamente e um bando de idiota vir encher minha caixa de comentários dizendo coisas como:
Ei, seu idiota, como você ousa falar mal de quem come? Eu como três vezes por dia e não tem nada de errado comigo! Você tem é preconceito contra as pessoas que comem! Você é feio e bobo!
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