Judite adora constrager os outros a fazerem o que ela quer. É uma mestra. Funciona com quase todo mundo. Menos comigo. E ela não desiste.
Começo da tarde, estava eu voltando do centro, quase um zumbi. Tinha passado 48h sem dormir terminando meus papers da universidade e fazendo relatórios de usabilidade. Judite me liga, reclama que ainda não tínhamos nos visto no Rio, disse que estava indo almoçar com Maria Eduarda, outra amiga em comum, num restaurante ao lado na minha casa, na Barra, "vem encontrar com a gente!" Eu penso: claro, um almocinho rápido, perto de casa, com duas pessoas que eu gosto. Depois, cama.
O almoço foi ótimo. Ao final, Judite coloca as três comandas na minha mão, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo que eu iria pagar a conta. Quantas pessoas não se constrangeriam a pagar? É assim que ela sempre consegue o que quer. Mas eu tossi, coloquei a mão na cabeça e pedi mil desculpas, "pôxa, eu ia até falar com vocês, não tenho um real, meu cartão de crédito americano não está funcionando aqui e não tive tempo de tirar dinheiro ontem, se você pudesse, depois eu pago..". E a pobre Maria Eduarda, que não tem defesas contra a Judite, aceitou a deixa, pegou as comandas e disse que ela pagava, que seria um prazer, imagina! (Já está na minha lista lhe pagar um outro bom almoço. Mas só pra ela.)
Tentei ir pra casa dormir, mas elas me pediram só um mais favorzinho: estavam indo em uma loja de computação comprar uma impressora para Maria Eduarda, eu não poderia ir junto só pra impedir que comprasse alguma besteira? "Afinal, homem sempre entende dessas coisas mais que nós, mulheres, não?" Eu, já quase desmaiando de cansaço, respondi que tudo bem, seria rápido e, afinal, a loja era do lado da minha casa.
Pois bem, enquanto Maria Eduarda ia pagando por sua impressora e eu ia me despedindo de novo, Judite coloca as mãos na testa em um gesto de completa exaustão e impotência. Lá vem mais mis-en-scene, pensei.
"Ai, Alexandre, estou tão cansada, exausta mesmo, passando meio mal, você não poderia levar a Maria Eduarda em casa pra mim?"
Estávamos na Barra, Maria Eduarda morava na Glória, eram cinco da tarde. Judite estava pedindo um favor que me custaria duas horas da minha vida, provavelmente três. E eu a menos de quinhentos metros da minha casa, sem dormir há dois dias.
Respondi que não, estava muito cansado, precisava dormir, sinto muito. A pobre Maria Eduarda quase queria sumir, falou "não precisa me levar pra casa, não, Judite, eu pego ônibus, que besteira!" Naturalmente, as duas estavam passando o dia juntas, Judite tinha pego ela em casa e o trato era que a levaria de volta.
Fiquei mortificado de colocar a pobre Maria Eduarda, que já tinha me pago um almoço caro, em outra saia-justa dessas, mas eu sou fisicamente incapaz de ser manipulado desse jeito. É uma questão de honra. Raios, é quase uma questão fisiológica.
Conheço Judite de outros carnavais. Se ela fosse outra pessoa, se estivesse realmente cansada e sem condições de cumprir seu trato com a amiga, teria chegado pra mim em particular, enquanto Maria Eduarda pagava pela impressora, feito seu mis-en-scene só pra mim e pedido pelamordedeus pra eu levá-la em casa. E eu diria sim, claro.
Mas não. Judite é incapaz de ser discreta. Ela prefere fazer o pedido em público, na frente da Maria Eduarda, na frente de todo mundo, contando que ninguém seria capaz de dizer não assim na lata, contando sempre em constranger os outros a fazer o que ela quer. Pena que comigo nunca funcionou.
Eu quase posso imaginar seu processo mental ao me ligar horas antes: "hmmm, se o Alexandre estiver por perto, é capaz de eu conseguir que ele pague o almoço e ainda leve a Maria Eduarda em casa pra mim! Perfeito!" E, mesmo assim, quando ela me chama, eu vou. Sabe por quê? Porque ela é uma pessoa linda, divertida e engraçada. Mais do que tudo, porque eu sei que sou imune aos seus poderes. Não interessa o mis-en-scene que ela faça, eu sei que consigo dizer não e pronto.
Depois dessa, me despedi rapidamente das duas e fui pra casa dormir. Não sei como acabou a história.
O mais engraçado é saber que, da próxima vez, Judite vai tentar de novo. Ela não desiste.
* * *
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