A Colméia, de Camilo José Cela

  Colméia, A por Camilo José Cela Uma quantidade simplesmente assombrosa de personagens, gerando uma quantidade ainda mais avassaladora de tramas secundárias e terciárias, paralelas e perpendiculares, povoam A Colméia, monumental panorama da boemia madrilenha da década de quarenta do século XX.Os Maias

Muitos livros igualmente monumentais (me vem à cabeça Os Maias, de Eça de Queiroz, entre tantos) cometem o erro de ter um enredo principal: o problema, nesses casos, é que o leitor fica tão absorto por ele (será que Carlos e Maria Eduarda vão ficar juntos?) que mal consegue prestar atenção às subtramas - por melhores que sejam. A auto-estrada distrai o leitor de todos atalhos e caminhos paralelos que poderiam ser deliciosos.

   Os Maias- 4 DVDsA Colméia não tem nem um fio narrativo que passe por um arremedo de enredo. Nada disso. São só retratos dispersos, engraçados, pungentes, personagem em cima da personagem, mudanças rápidas de cenário, cenas sempre curtas. E, por não ter estrada principal, o livro permite ao leitor apreciar com mais vagar, com mais delícia, os atalhos, os desvios, as pequenas estradinhas secundárias - mesmo que você às vezes se perca um pouco.

Não importa: A Colméia foi feita para você se perder dentro dela.

* * *

Durante a Guerra Civil Espanhola, Camilo José Cela cometeu a heresia (mortal para um artista) de lutar pelo lado vencedor. Enquanto artistas do mundo inteiro se alistaram para combater o Fascismo Franquista, Cela o defendeu. Depois da guerra, horror dos horrores, ainda trabalhou de censor jornalístico. Por muito menos, Gilberto Freyre e Adonias Filho foram silenciados por trinta anos. Revolucionários: Ensaios Contemporâneos

Em artigo para o The Guardian sobre seu excelente livro Revolucionários, Eric Hobsbawm, comunista até a medula e um dos grandes historiadores do século, faz um balanço do envolvimento dos escritores na Guerra Civil Espanhola

"The Spanish civil war united a generation of young writers, poets and artists in political fervour. The wrong side may have won, but in creating the world's memory of the conflict, the pen, the brush and the camera have had the more lasting triumph"

e consegue a proeza de nem mesmo mencionar Cela:

"As for Spain, there is no doubt where the poets of the Spanish language - those who are now remembered - stood: García Lorca, the brothers Machado, Alberti, Miguel Hernández, Neruda, Vallejo, Guillén".   Colméia, A por Camilo José Cela

Ganhador do Nobel (1989) e do Cervantes (1995), entre muitos outros prêmios, Cela é com certeza um dos maiores escritores de língua espanhola de todos os tempos, no mesmo nível ou superior a todos os citados. Com certeza, um homem da erudição de Hobsbawm não ignora a presença de Cela no lado oposto do conflito: se não o menciona, é proposital. Hobsbawm não era o único: o literary establishment hispânico, esquerdista como todo literary establishment, nunca perdoou Cela.

O que não quer dizer, naturalmente, que ele fosse um queridinho do sistema. Um grande escritor é sempre incômodo, até para o lado que ele apóia. A Colméia foi censurada na Espanha, por seu conteúdo sexual, e teve que ser publicada na Argentina, em 1951.

Em tempo: não, A Colméia não é um livro reacionário, conservador, diretista ou situacionista. Segundo o autor, seu protagonista é "o medo" e não foi à toa que as autoridades franquistas o censuraram.

* * *

Outras obras de Camilo José Cela:

 

18.01.08


Categorias: Livros, Artes


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