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Para muitas leitoras, a história de Libeca - que pode ser lida como um conto independente - é a melhor parte de Mulher de Um Homem Só. Para convencer quem ainda estava em dúvida, o trecho completo:
* * *
Mas às vezes ele me choca, me choca de verdade. Algumas histórias não sei se teria casado se soubesse. A primeira vez que esses ideais inconstantes do Murilo foram postos à prova foi com o caso da Libeca e, nessa prova, o Murilo não passou não, não passou mesmo, teria ido direto pra recuperação e ia ficar dezembro todo na sala de aula. Mas acho que sou eu. Religiosa ou não, não interessa, sou muito passional, muito apegada à vida: uma vida, um minuto a mais de vida que seja, não vale todas as teorias e argumentações e racionalizações do Murilo, e não entendo como ele pode ser tão frio, como pode colocar idéias antes de gente, e isso me assusta, porque decidi passar a vida com esse homem, e ele é o pai da minha filha, e não sei se posso confiar nas decisões dele, se o seu bom senso errático não poderia preferir lealdade a algum ideal abstrato do que à vida de Raquel. E essa história me bota medo, mas vou contar mesmo assim, vou contar o que Murilo fez com a Libeca porque isso tem tudo a ver com o que houve depois.
Júlia, como sempre, estava lá. Os dois estudaram juntos em um colégio católico (até o Murilo se revoltar e pedir pra sair, vocês lembram), os dois cresceram juntos, porra. Faziam tudo juntos. Se não fosse por mim, ainda estariam fazendo, mas esquece. Apesar do companheirismo todo, apesar de tanto amor entre eles, não andavam no mesmo grupo: eram a única interseção de dois círculos diferentes. Os amigos de Júlia não entendiam o que via em Murilo, como agüentava andar com um chato daqueles, caretão e pentelho, de óculos fundo de garrafa e vocabulário difícil, e também tinham ciúmes dele, porque apesar do grupo e da galera, daquela turma toda de gente tão interessante e avançadinha (ou assim eles se consideravam), Murilo era a prioridade de Júlia e ela largava tudo para estar com ele. O vice-versa, naturalmente, era verdadeiro, como não?
E chegamos a Libeca, que andava com Júlia e seus amigos, fumava maconha e ouvia rock progressivo, pichava banheiros e matava aula de ginástica. Estavam todos no começo do segundo grau, ou ensino médio, é isso que estão chamando agora?, e finalmente podiam se vestir como quisessem: a obrigatoriedade do uniforme só ia até a oitava série. E Libeca era daquelas alunas citadas pelos freis mais conservadores para justificar a insensatez de tal medida: só se vestia de preto, jeans rasgados, coturnos fedorentos, essas coisas. Os jeans rasgados foram proibidos, sob o argumento de que as roupas dos alunos precisavam, pelo menos, estar inteiras, mas o resto era ou deixar ou voltar aos uniformes. Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo, carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado, e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. E era, ou se dizia, ou se pensava, uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados no melhor bairro da cidade e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso. Por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as meninas de sua idade lavassem as próprias calcinhas. Falando em calcinhas, Libeca e suas amigas também gostavam de defender o amor livre, que sexo não significava nada, que essas coisas não tinham importância alguma, e faziam pouco de meninas como eu, que éramos direitas e vaidosas, não fumávamos e tínhamos o mínimo de decoro. Mas muitas dessas minhas amigas tão decorosas já namoravam firme, aqueles calouros universitários que na época nos pareciam uns homenzarrões, e, com eles, perdíamos a inibição, ficávamos mais seguras de nossos corpos e brincávamos de colocar coisas deliciosas na boca, essas travessuras que só se faz com quem se confia, com quem se é íntimo, com quem se ama, mesmo sendo aqueles amores fugazes mas faiscantes da adolescência. Enquanto isso, Libeca sentava no colo dos garotos, se dava a intimidades físicas com todos, porque essas coisas não importavam, eles botavam a mão aqui e ali e, quem visse, diria que era mulher liberada e experiente, mas quando estava a sós com eles, toda a força dos valores culturais decadentes da nossa sociedade se fazia sentir e Libeca defendia com fúria aquele ultrapassado e cabeludo conceito de honra que residia ali no meio das suas pernas, e nunca fez nada com nenhum dos garotos em cujo colo sentou. E, às terças-feiras, Libeca se desvencilhava dos amigos em segredo e ia visitar sua bisavó, que era uma velha muito sozinha que morava em um asilo no subúrbio, seus pais e seus avós nunca iam, mas Libeca se sentia mal com isso, e ficava mais de duas horas em três ônibus pra chegar no asilo e nunca faltava, e levava escondido um saquinho de pão de mel pra bisavó, que não podia comer doce por causa do seu diabetes, mas que dizia pra Libeca que vida sem pão de mel não valia a pena, e Libeca levava, e ficava lá vendo a bisavó quebrar o pão de mel com os lábios porque não tinha mais dentes e deixava a massa derreter na boca, e as duas conversavam, a bisavó ouvia a Voz do Brasil todo dia e sempre perguntava pra Libeca suas opiniões, o que pensava desse novo Plano Cruzado, se era fiscal do Sarney, se a seleção tinha chances de levar o tetra no México ou até se a Viúva Porcina devia mesmo era ficar com o Roque, e era bom porque isso forçava Libeca a se informar e, além de ler Dostoievski e não entender, também enfrentava a Veja todo domingo. Enfim, quinze anos.
Desculpem o desvio mas é que, assim como a Libeca se sentia mal com o abandono da bisavó, também me sinto mal que Murilo e Júlia, apesar de tudo e depois de tudo, nunca tenham sabido quem era essa moça que queria se matar. Gosto de me enganar achando que saber do pão de mel teria feito alguma diferença para o Murilo mas não: ele agiria como agiu de qualquer jeito – Júlia talvez levasse o pão de mel em consideração.
E, nesse dia, estavam os dois, Murilo e Júlia, em um dos seus cantos preferidos do colégio, aproveitando sua meia hora de recreio debaixo da sombra de uma amendoeira: ela fumando e desenhando em um caderninho e ele lendo algum livro da coleção Vagalume, acho que o Escaravelho do Diabo. Então, apareceu a Libeca e, ao contrário de quase todos os outros colegas da Júlia, a Libeca tolerava o Murilo, até gostava dele um pouquinho. Tinha um assunto pessoal pra falar com a amiga, mas Murilo estava lá e a Libeca não se importou, contou pra ele também. Não era segredo.
Libeca queria morrer. A vida não fazia sentido, nossos valores morais eram falsos ícones impostos por uma mídia corrupta e globalizada, as relações humanas eram regidas por um deus artificial criado para facilitar a dominação dos mais fracos pelos grandes cartéis internacionais... Ah, chega! Quem é que já não ouviu esse tipo de conversa? Não tenho estômago de repetir essas besteiras todas, acho muito triste uma menininha assim já com tanto amargor na boca, e sem razão alguma, e não gosto de falar muito porque nessas horas penso na minha filha, se também não poderia estar falando pra outros jovens da idade dela que a vida não presta.
Mas tenho que continuar porque Libeca continuou, não parou; não parou mas falava com muita calma, aquela calma que assustava, e dizia que não queria mais, já tinha inclusive tentado o suicídio antes, ao treze anos, mas agora era pra valer. De que adiantava ficar no mundo quando não se gosta de nada? Não tinha vaidade, não gostava do seu corpo, não gostava da sua família, não gostava da sua vida, a vida não lhe dava prazer. E acrescentou, pra surpresa boba do Murilo, pois Júlia já sabia, não porque Libeca tinha contado, mas porque não comprava aquele mise-en-scène todo, que era virgem – virgem!, e Murilo corou, como se essa idéia atentasse contra algum senso de pudor seu, logo ele que só iria perder a virgindade dali a dois anos, em um puteiro de segunda – que não conhecia o prazer sexual e que nem queria conhecer, tudo era tão falso nesse mundo!, nem se masturbava, sentia nojo do menor prazer físico, e lá se foi Murilo corar de novo enquanto Júlia nem piscou.
E, no fundo, coitados deles dois, que se achavam tão adultos e inteligentes e sofisticados, mas só tinham quinze anos mesmo, e nem desconfiaram que Libeca nunca tinha tentado o suicídio coisa nenhuma e que se masturbava toda noite sim, muitas vezes passava a noite inteira se masturbando, como se aquele ato individual, aquele único ato não influenciado pelas forças imperialistas que dominavam todos os aspectos de nossas vidas, fosse, por isso mesmo, a única coisa que valesse a pena ser feita, e que tinha muito prazer sim cada vez que chegava no asilo e sua bisavó ainda estava viva, tinha medo profundo do dia em que chegaria lá e não houvesse a quem dar o pão de mel.
Mas Murilo e Júlia levaram aquilo a sério. Murilo e Júlia, aliás, levavam tudo muito a sério naquela época, eram jovens seríssimos, convencidos de uma suposta situação de maturidade precoce e que, portanto, deveriam se comportar de acordo. E tinham razão de levar Libeca a sério porque dessa vez era sério mesmo. Libeca queria morrer: o prazer de encontrar a bisavó era um prazer amargo, misturado com medo, e ela, quando se masturbava, não sentia realmente prazer físico algum, não pensava em ninguém, não visualizava nada, se masturbava a seco, se masturbava de ódio, ficava vermelha, inchada, depois ardia pra urinar, até o chuveirinho do bidê doía. Menos uma ou outra pequena mentira, Libeca queria mesmo morrer e, por isso, estava ali pedindo ajuda daquela maneira tão óbvia, tão ridícula, coitada. E também não tinha sido à toa que Libeca discutira o assunto na frente do Murilo, embora ela mesma nunca tenha se dado conta disso, porque, em sua cabeça, Murilo era mais centrado, mais adulto que Júlia. E Libeca esperava que fosse justamente ele quem a cortasse e dissesse o que é isso?, você é tão jovem!, que absurdo!, você tem a vida toda pela frente!, e esses clichês que, salpicados na hora certa, podem salvar uma vida, porque ninguém realmente deseja morrer – muito menos uma adolescente sadia, de dentes perfeitos e no peso certo.
Murilo, entretanto, que corava com masturbações e virgindades, permanecia impassível ao suicídio. E foi Júlia a primeira a falar, mas ainda demorou um tempo, porque estava chacoalhada por dentro, e precisou esfriar seu temperamento quente antes de abrir a boca, e se lembrou de o quanto realmente gostava de Libeca, e pensou em alguns bons momentos das duas, e enquanto isso o tempo ia passando, um silêncio desagradável debaixo da árvore, mas o engraçado é que não era, quero deixar bem claro, silêncio de hesitação. A resposta que Júlia deu ela teria dado imediatamente: o tempo de espera foi porque queria se controlar por dentro, queria ter certeza de que, quando falasse, seria de voz firme, queria fechar os olhos às lágrimas para que não escapulisse nenhuma. E se esfriou e olhou para Libeca e, com a seriedade que só uma adolescente extremamente convencida de sua própria importância pode ter, afirmou:
– Vou sentir muito a sua falta.
E Libeca emudeceu. Emudeceu mesmo. Não só naquela conversa não: ficou calada pelo resto do dia. Mas ah!, nem precisava falar: estava na presença de dois loquazes filósofos, bastava que ouvisse, que se regalasse com aqueles grãos-de-bico de sabedoria, maduras (quase podres) lições de vida. Estava muda mas ainda participava da conversa: virou-se para Murilo, a pessoa de quem mais esperava ajuda, o “homem” mais responsável do grupo, e ele apenas sacudiu a cabeça, concordando com Júlia. Sei o que Libeca pensou e não foi não, Libeca, isso é que é o pior. Os dois cretinos nunca tinham conversado sobre isso, nunca haviam debatido suicídio, nunca haviam decidido o que fazer se uma situação como aquela se apresentasse. Nada disso. Ambos chegaram àquela mesma posição ridícula espontaneamente. E nem mesmo foi um quem influenciou o outro. Murilo só não disse as mesmas palavras que Júlia porque mal conhecia Libeca, seria hipócrita dizer que sentiria a falta dela. Pensou um pouco no que falar e acrescentou, sem o menor constrangimento de usar a palavra sagrado:
– É seu direito. Nosso direito sagrado.
Libeca continuou muda e ele desenvolveu:
– Na nossa existência, só temos dois momentos realmente íntimos. Dois únicos momentos nos quais uma pessoa fica sozinha consigo mesma e ninguém tem nada a ver com isso.
E Murilo fez uma pausa, não uma pausa dramática, mas uma pausa cumplicitória, esperando que sua amiguelhazinha adivinhasse seu pensamento e completasse seu raciocínio. Júlia entendeu. A primeira era fácil:
– O suicídio e... Ela hesitou um pouco, formulou uma resposta, questionou, confirmou, verbalizou: ...a masturbação.
Pronto. Feliz com sua comparsa, Murilo continuou o discurso, fruto de seus dezesseis anos incompletos de sabença, a cara cheia de cravos e erupções, o cabelo penteado em uma franja pra esconder as espinhas da testa:
– Nada é realmente nosso. Tudo pode ser tirado, recolhido, leiloado. Mas nossa vida é só nossa, só diz respeito a nós. Seria uma grande arrogância e uma enorme falta de respeito da nossa parte ter a ousadia de lhe dizer o que fazer com sua vida.
E Júlia, não encontrando mais nada eticamente aceitável para falar, repetiu:
– Vou sentir sua falta.
Libeca entendeu. Demorou um pouco, mas entendeu. Era sério mesmo. Os dois não estavam brincando. Não seria ali que Libeca ouviria os clichês de consolo de que precisava. Por fim, Júlia decidiu elaborar:
– Acho até filosoficamente errado (filosoficamente é o caralho!, pensou Libeca, mas continuou calada para ouvir até o fim) eu falar isso, não tenho nada a ver com sua vida, mas vou dizer de qualquer jeito: gosto muito de você, Libeca, muito mesmo!, e pegou a mão de Libeca, e Libeca estava tão anestesiada por aquela palhaçada que nem puxou a mão de volta como queria, e caso essa seja a sua decisão, quero que saiba que vou sentir muito sua falta e vou ficar muito triste.
E acabou. Murilo havia feito seu discurso. Júlia, já tendo falado mais do seria filosoficamente correto, também se absteve da conversa. E Libeca, Libeca concluiu que realmente não havia mais nada a ser dito, não tinha mais o que fazer ali, nunca teve. Foi embora.
E eu, o que posso dizer mais? Os dois sábios nem mesmo discutiram entre si o assunto depois. Não havia o que discutir. Concordavam de tal maneira que a única coisa que poderiam acrescentar eram parabéns mútuos por sua atitude lógica e coerente. Mas não havia por que parabenizar o outro por não ter feito mais do que sua obrigação de ser humano pensante. E é esse, minha amigas, o pai da minha filha. E, ainda mais assustador, Júlia é a madrinha.
(Quanto a Libeca, ela morreu, naturalmente. Teve um câncer maligno repentino nos ossos e se desmilingüiu em poucos meses. Deixou um viúvo, um ex-marido, três filhos e uma netinha que mal conheceu. Como quase todas nós, conseguiu sobreviver aos seus quinze anos. O mais irônico é que, talvez, com a ajuda de Murilo e Júlia. Dado seu rancor contra o mundo naquela época, não sei se clichês de CVV teriam salvo sua vida. Mas aquele choque com certeza a balançou. Libeca passou os dias seguintes odiando aqueles dois putos, nem se lembrou de o quanto odiava a si mesma. Quando passou o ódio, também havia passado o impulso. E não voltou mais. Entrou em outra fase, parou de ler e nunca nem abriu a coletânea de Nietzsche que comprara algumas semanas antes. Foi passar o verão no nordeste, se apaixonou por um surfista e deixou o cabelo crescer, trocou piercings por tatuagens e continuou sendo adolescente, e dali a pouco mudou tudo de novo, e assim foi indo. Só soube mesmo o que era orgasmo, entretanto, com o segundo marido, mas nem isso foi lá grande perda, porque passou todo o primeiro casamento achando que estava tendo orgasmos e gostando muito, e isso é o que conta. Enfim, Libeca sobreviveu e nunca mais dirigiu palavra a Murilo e, portanto, saiu da minha história.)
Ai, quem me dera ter contado esse caso apenas para exemplificar as esquisitices de Murilo e Júlia. Dizer: eles são assim, ó. Por exemplo, olha só o que eles fizeram quando tinham quinze anos. Mas não. A historinha é importante, pois não é a criança o pai do homem? Não estão esse Murilo e essa Júlia, que tão eticamente aconselharam a Libeca, dentro do pai e da madrinha da minha filha?
* * *
Convencida, finalmente? Então, compre o livro.
Devo ser mesmo muito transparente. De vez em quando, me acusam:
"você só vem falar comigo quando quer alguma coisa."
E dá vontade de responder: sim, ué. Claro. Qual é o problema? Não somos amigos nem nada, não temos assunto. Tenho que fingir que sou seu amigo só porque quero alguma coisa de você? Ou senão o quê? Só podemos fazer favores pra amigos? Se o cara não for, ou se fingir de amigo, não rola?
Já salvei a vida de duas pessoas e nunca mais as vi. Imagina se tivéssemos que virar amiguinhos, ou sair pra almoçar toda semana - ou mesmo todo ano! Já não basta salvar o cara, agora tenho que aturá-lo pra sempre? Ninguém mais salvaria ninguém.
Eu não discrimino meus favores prestados. Posso dizer "não", se não der, ou dizer "sim" e pegar mais um crédito no banco kármico. Faço favores para amigos, porque os amo, e para inimigos, por despeito, para humilhá-los com minha generosidade.
O que me irrita mesmo são aqueles malas que ficam enrolando ("e aí?, como está?, tudo bem?, tudo..."), que te roubam horas e horas que não voltarão nunca mais ("e a família? sua sobrinha já está andando?"), que te obrigam a manter o pior tipo de conversa oca ("mas tá quente, hein?, caramba, será que esse verão não acaba nunca?!"), que ainda fingem interesse profundo na sua vida ("sua tese é sobre o que mesmo?, não, não, pode contar em detalhes!") quando você sabe que eles querem te pedir alguma coisa.
Devo ser mesmo um monstro, porque gosto é das pessoas que me procuram e falam logo o que querem, nem que queiram somente me explorar. O meu maior inimigo é quem me faz perder tempo.
* * *
http://twitter.com/AlexCastroLLL
Se é verdade que somos o que comemos, então quase todo vegetariano que conheço se alimenta exclusivamente de chatice.
Hoje, excluí um comentário. O motivo que me levou a fazer isso foi o mesmo motivo que me levou a excluir 95% de todos os comentários excluídos do LLL ao longo dos últimos 7 anos. Não foram muitos. Há anos, não excluía nenhum. Por isso, vale a pena relembrar o meu critério de exclusão de comentários:
Excluo comentários que criticam pessoas que EU expus.
Se cito o Bia e alguém vem comentar que ele é um idiota, eu não apago. Posso até deixar claro que discordo (se me der a esse trabalho), mas não apago.
Eu defenderia o Bia sempre, mas não acho que um idiota falando besteira na web seja um ataque. É algo pra se ignorar.
Além disso, o Bia, jornalista, escritor, blogueiro, pessoa pública, se expõe porque quer - assim como eu. E quem se expõe tem que estar preparado pra ouvir o que não quer. Não só aqui mas em trocentos sites e blogs pelo Brasil tem gente chamando eu e Bia de retardados. E daí? Somos adultos, colocamos nossa cara na janela porque quisemos.
Por outro lado, ocasionalmente, tem pessoas que EU exponho, como leitores cujos emails eu cito ou leitoras cujas fotos eu publico. Ninguém teria lido esse email ou visto essa foto se não fosse por mim. Não posso presumir, como presumo em relação ao Bia, que essas pessoas estão preparadas pra serem espinafradas. Podem ficar seriamente chateadas - e por minha causa.
Então, quase todos os comentários que apago são assim: publico a foto, um idiota vem dizer "que mulher horrorosa!", eu vou, apago o comentário, bloqueio o mala, e pronto. Publico o email de um leitor, o idiota vem dizer "como é que pode alguém escrever uma imbecilidade dessas!", eu vou, apago o comentário, bloqueio o mala, e pronto.
Esse critério de exclusão de comentários não está aberto para discussões.
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Incorporei essa subseção aos Termos de Uso do LLL, republicado abaixo.
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Ou não.
A verdade é uma prisão. Não é verdade que todas as histórias desse blog são apócrifas. Na verdade, quase todas são reais, mas nenhuma é 100% real.
Um estatístico me ensinou que os números, devidamente torturados, revelam qualquer coisa. Sempre que os fatos não batiam com minha mensagem, eles foram devidamente torturados e distorcidos, até aprenderem quem é que manda por aqui.
Na prática, esse é um blog de histórias reais ficcionalizadas. Ou, quem sabe, de histórias ficcionais transformadas em filosofia. Contos? Crônicas? Auto-biografia? Prefiro chamar de ficção.
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Declaração de Princípios Alex Castro
Eu não debato e, com certeza, se debatesse, não debateria a sério. O debate presume uma intenção de convencer o outro que eu não tenho. Escrevo para expor minha opinião para quem quiser ouvir. Os apartes que eventualmente faço nos comentários são não para debater, ou seja, para convencer alguém, mas para responder a perguntas dos leitores e clarificar pontos obscuros. Se entendermos debate como uma troca de idéias motivada para convencer o outro, eu posso garantir que em nenhum momento debati com ninguém. A vida é muito curta.
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Não, eu não desprezo as opiniões dos outros, assim, de modo geral, mas desprezo sim muitas opiniões específicas. Concordo com aquela máxima do Millor: "às vezes, você está discutindo com um idiota... e ele também!" Certas opiniões inaceitáveis não se respondem, pois o diálogo lhes confere uma legitimidade que não merecem ter. Quando me dizem que preto é tudo burro, que mulher não sabe dirigir, que homem tem sempre que pagar a conta, que os judeus querem dominar o mundo, que sexo fora do casamento é pecado, eu não respondo. Tenho profundo desprezo por essas e outras opiniões que seria tedioso listar. Não merecem resposta. A vida é muito curta.
Acho engraçado um bando de gente que não conheço vindo me cobrar isso ou aquilo, como se eu tivesse alguma obrigação para com elas, qualquer obrigaçãozinha mínima que seja. Escrevo para todos: qualquer um pode me ler e qualquer um pode comentar, e vocês podem conversar entre si nos comentários livremente, mas eu só converso com quem eu quero. Escolho meus amigos e meus interlocutores com cuidado. Não tenho obrigação alguma de dar papo aos malucos que escrevem barbaridades nos comentários no LLL. Ninguém tem direito de ter suas perguntas ou desafios ou provocações respondidos por mim. Se você acha que sou arrogante e prepotente por não explicar calmamente ao meu amigo de direita que favelado não é inseto pra ser dedetizado, então paciência. A vida é muito curta.
Por fim, a última grande crítica dos meus leitores: se eu continuar assim, não vou mais ser lido. As pessoas não vão me levar a sério. Os leitores vão sumir. Ficarei falando sozinho. Finis Alex Castroe! O horror, o horror!
Pois bem então. Leiam com cuidado as minhas próximas afirmativas contundentes, pois elas podem ser mal-interpretadas:
Se você acha que preto é pobre, pobre é bandido, logo, a polícia perseguir negros não é racismo, então eu não quero papo com você. Eu não quero ser lido por você. Eu não tenho diálogo com você. Eu não saberia nem por onde começar a te convencer de qualquer coisa. Eu te cumprimentaria na festa por educação e olhe lá. Se quem compartilha dessa sua opinião achar que eu sou um arrogante e prepotente sem trato com as pessoas, ótimo. Vão embora. Saiam balançando a cabeça e fazendo tsc tsc. Não tem problema. Ainda é um país livre. Vocês têm o direito de falar e de pensar o que quiserem de mim. Mas longe. Xô. A vida é muito curta.
Os humanos, enquanto manada, são lamentáveis, mas individualmente alguns prestam. A melhor maneira de desentocá-los é se expor. Vale a pena afastar mil bois para atrair uma única leoa.
Eu me exponho porque esse é o melhor jeito de conhecer quem está à minha volta. As pessoas mais incríveis, abertas, lindas, sensuais da minha vida eu conheci através desse blog. Ao me expor, eu descubro quem vai bailar comigo. Ao me expor, eu sinalizo para aquelas pessoas encostadas na parede por falta de opção que, sim, elas têm companhia: podem vir dançar comigo!
Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas. Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.
Critério de Exclusão de Comentários
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Se cito o Bia e alguém vem comentar que ele é um idiota, eu não apago. Posso até deixar claro que discordo (se me der a esse trabalho), mas não apago. Eu defenderia o Bia sempre, mas não acho que um idiota falando besteira na web seja um ataque. É algo pra se ignorar. Além disso, o Bia, jornalista, escritor, blogueiro, pessoa pública, se expõe porque quer - assim como eu. E quem se expõe tem que estar preparado pra ouvir o que não quer. Não só aqui mas em trocentos sites e blogs pelo Brasil tem gente chamando eu e Bia de retardados. E daí? Somos adultos, colocamos nossa cara na janela porque quisemos.
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Qualquer publicidade, propaganda ou conteúdo pago será sempre indicado como tal. Quando o post é fruto de presente/divulgação/cabine de imprensa/etc, isso é sempre claramente explicitado e não é garantia de elogio.
Se eu fizesse "parcerias não-monetárias de conteúdo", meus textos estariam em metade dos sites da internet. Não entro em "projetos de mídia viral" e nem "troco links": eu só me vendo por dinheiro mesmo, e sempre aviso.
As capas de livros nos posts são apenas ilustrações/sugestões de livros do mesmo assunto, para leitores que queiram saber mais. Gostaria de só linkar livros que eu li, mas a grande maioria dos livros que eu recomendaria ou nunca foi publicada no Brasil ou está fora de catálogo. Via de regra, quando eu tenho algo específico a dizer sobre algum livro, eu o menciono no texto do post ou, então, em uma notinha logo abaixo da capa. Minhas recomendações principais estão na coluna da direita. Esses são alguns dos meus livros favoritos de todos os tempos e eu os recomendo sem reservas.
Métricas do LLL
Eu não leio mais blogs. Não tenho mais leitor de RSS. Não tenho mais contador de visitas no LLL. Eu não tenho mais como saber quem me citou ou linkou, de qual link a pessoa está vindo, qual palavra buscou no Google pra chegar aqui, quantas pessoas assinam o feed RSS, nada disso. Repito, não sei nem os pageviews do blog. Saí dessa vida. Mantive só as redes sociais e olhe lá: Orkut e Facebook, que meio que ignoro, e Twitter, que ainda me consome algum tempo.
Então, se você me citou ou me linkou, e eu não disse nada, não fique chateado: é porque eu não soube mesmo. Vem aqui, me avisa e eu vou ver o que você quiser.
Fonte da Receita do Blog
Esse blog se mantém basicamente das comissões do Submarino, da venda direta dos meus livros e do rachuncho que me cabe da receita publicitária do Interney Blogs como um todo. Dá uns R$600 por mês. É merreca (graças a deus não vivo disso!) mas fica pingando na minha conta bancária brasileira o ano todo, melhorando absurdamente minha qualidade de vida. Agradeço a vocês leitores todos os dias por isso. Aliás, obrigado. De novo.
Satisfação Garantida LLL ou Seu Dinheiro de Volta
Caso você leia aqui qualquer coisa que lhe desagrade, basta passar no caixa com seu comprovante de compra e devolvemos todo o dinheiro que você pagou para ler o LLL. Na hora. Em dobro. Sem burocracia! La garantya soy yo!
Como Contribuir
Sou estudante e vivo de uma bolsa de estudos que obviamente não é milionária. Larguei a vida corporativa para poder escrever mais e melhor.
Naturalmente, você não tem nada a ver com isso, mas caso os meus textos tenham lhe tocado, caso eu tenha conseguido fazê-lo ver o mundo com outros olhos, caso o meu trabalho tenha adicionado valor à sua vida, peço que faça uma pequena contribuição, do tamanho do seu apreço.
A maior fonte de renda desse blog (e grande responsável por ele não ter sido detonado em vários momentos de frustração e falta de saco) é a parceria com o Submarino. Se quiser contribuir, basta entrar no Submarino pelos links aqui do blog e comprar alguma coisa para você - eu ganho uma comissão de 8%.
Outra contribuição que você pode fazer é ou comprando meu romance, "Mulher de um Homem Só", ou ajudando a divulgá-lo por aí. Dê uma olhada nas resenhas.
Ao fazer isso, você estará simbolizando que o meu trabalho significa sim algo na vida dos meus leitores. Não poderia haver melhor incentivo para um autor batalhador.
Muito obrigado.
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Há de se admirar nos conservadores a tremenda façanha de criar todo um enorme corpo de conhecimento só pra justificar o próprio egoísmo.
Daria menos trabalho simplesmente ajudar os outros!
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Na verdade, pensando bem, presentear os canalhas da humanidade como uma racionalização fechadinha que justifica seus piores instintos de acumulação, ganância e egoísmo, como se essas pulsões fossem não apenas naturais mas (pasmem!) conducentes à prosperidade geral do mundo, bem, não deixa de ser um generoso ato de amor.
Não, vou me levantar daqui pra ajudar, não. Mas veja, não é porque sou um inútil egoísta insensível. Imagina! Claro que não! Sou uma pessoa boa, cristã e tudo! Minha imobilidade é uma ação política consciente visando a prosperidade geral da espécie. Não entendeu? Ah, sério, estou com preguiça de explicar, mas vou te dar uns livros aqui, tem um sobre uma mão invisível, esse aqui diz que não somos racistas, esse outro fala dos petralhas, tem até um mostrando o que acontece quando pessoas como eu entram em greve! Você vai ver, faz todo o sentido do mundo! Agora dá sossego, vai. Chispa.
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Ok, sério agora. Dilema de Tostines: o conservador é, antes de tudo, um egoísta que então adota a ideologia que aceita, justifica e até elogia o seu egoísmo; ou ele é alguém que sinceramente acredita nessa ideologia e, por causa disso, torna-se progressivamente mais egoísta? Cartas para a redação.
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Pré-FAQ dos Comentários
Puxa, Alex... Antigamente, quando você escrevia coisas com as quais eu concordava, eu adorava te ler e te achava um pensador original, sabe?, diferente disso tudo que está por aí! Mas agora, que mudança!, você escreve coisas com as quais eu não concordo! Pior ainda, coisas que me fazem sentir desconfortável, como se eu (puxa, logo eu que sou tão legal!) fosse racista, egoísta e privilegiado! Então, hoje eu já coloco você no mesmo saco de gato junto com todas as outras pessoas que falam coisas com as quais eu não concordo! Você não é mais um pensador original: você é só mais uma pessoa que repete várias outras coisas que dizem as pessoas que dizem coisas com as quais eu não concordo! Puxa, Alex, que decadência, hein? Sofreu lavagem cerebral aí no ambiente acadêmico americano, foi? Que triste isso...
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Update
Não tenho nada contra o egoísmo em si. Sou escritor. Tenho infinita empatia pelas falhas de caráter dos homens. 98% dos esquerdistas que conheço são egoístas. No Brasil, tratam suas escravas domésticas às vezes pior que os burguesões.
Incrível não é os conservadores serem egoístas - pois não somos todos? - mas sim se darem ao trabalho de erigir todo um edifício filosófico de conhecimento pra justificar e elogiar seu próprio egoísmo.
Imaginem como seria o mundo se os pedófilos, ao invés de terem vergonha de sua tara ilegal, defendessem a posição filosófica de que uma pedofilia sem limites seria a chave para resolver os problemas da humanidade. Enquanto isso, alcoólatras pregariam, entre um drinque e outro, que o mundo seria um lugar melhor se todos simplesmente bebessem até cair e pronto.
Pois é, meu espanto é só esse. O egoísmo eu acho bem normal.
Eu sei que parece que todo mundo que queria já comprou mas me sinto na obrigação de registrar: o preço da obra completa de Freud no Submarino continua caindo. São 25 volumes por R$270. Sim, estão desovando a tradução velha porque vai sair uma tradução nova e melhor - que provavelmente vai custar R$80 cada um. Então, se você trabalha com isso, talvez seja exatamente a hora de aproveitar pra pagar R$10 por livro e já fazer sua biblioteca. Enfim, de nada.
Obras completas de Freud, de R$960, por R$270
Sei que vocês não acreditam, mas enfim.
Eu não leio mais blogs. Eu não tenho mais leitor de RSS. Eu não tenho mais contador de visitas no LLL. Eu não
tenho mais como saber quem me citou ou linkou, de qual link a pessoa está vindo, qual palavra buscou no Google pra chegar aqui, nada disso. Não sei nem, repito, os pageviews do blog. Saí dessa vida. Mantive só as redes sociais e olhe lá: Orkut e Facebook, que meio que ignoro, e Twitter, que ainda me consome algum tempo.
Então, se você me citou ou me linkou, e eu não disse nada, não fique chateado: é porque eu não soube mesmo. Vem aqui, me avisa e eu vou ver o que você quiser.
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Aliás, desde o fins das Os Viralata, as vendas de Mulher de Um Homem Só voltaram a crescer. Bem escasso é foda. Daqui a pouco, acaba. Compre logo o seu.
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Colega americana veio me pedir conselho:
Quanto tempo devo esperar antes de transar com um homem pela primeira vez? Minha regra anterior era duas semanas mas agora, depois de algumas más experiências, estou pensando em ampliar para um mês...
Escuto essas coisas e fico horrorizado:
Por que você se rebaixaria a transar com um homem que perderia o respeito por você... por transar com ele?!
Se perderia o respeito de um homem por transar com ele antes de um mês, então é porque ele é tão babaca que não deveria transar com ele nunca!
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Retrucou minha amiga:
Oras, é muito fácil pra você dizer isso. Afinal, você é brasileiro. O povo aí transa como quem aperta a mão.
E eu, pra proteger nossa imagem internacional, nem contei que aqui se lincha por uma minissaia e se expulsa por um boquete.
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Os Viralata acabou mas meu romance Mulher de Um Homem Só continua a venda.
Em 2009, ele foi homenageado por duas pessoas que respeito muito: primeiro, a Mary W. o colocou como sua melhor leitura de 2009 e, depois, Mestre Inagaki, classificou-o entre os cinco melhores livros do ano - ao lado da buceta do Bia.
Ontem, a Cris Cerdera, mulher linda, querida e inteligentíssima, também publicou uma não-resenha sobre Mulher de Um Homem Só, ressaltando uma abordagem possível da história que poucos outros leitores mencionaram:
Não sou eu que tenho que resistir ao livro. É ele que precisa resistir a mim. Precisa dar um chute bem dado nas minhas desconfianças. Provar que merece minha atenção e meus afetos. Tenho que admitir que o livro do Alex fez isso – e fez bonito demais. Porque eu me apaixonei. ...
Ele [O Alex] brinca com a língua, existe uma relação dele com a língua que é erótica, de desejo, de fruição, bem como fala o Barthes. O Alex tem intimidade com essa senhora. Nas mãos dele, ela – a língua – se entrega. ...
A narradora [Carla, casada com Murilo], me confundiu, me exasperou, me deixou com vontade de dar um chute na bunda dela. Me levou pra dentro da história, dialogou comigo, olhou no fundo do meu olho e me perguntou: "Você me entende?" ...
E existe também o fato – para mim muito claro – de que o autor lança uma bela e espessa cortina de fumaça nos nossos olhos. Porque, ao contrário do que possa parecer, MduHS não é uma história de ciúme. Isso não ficou claro logo no começo para mim. Foi preciso prestar atenção demorada às palavras de Carla pra perceber isso. MduHS é a história do amor de Carla por Júlia. E de como ela resistiu a esse amor até o fim. Esse dado, esse ‘truque’ do autor me fisgou. Porque não há nada que seja dito claramente. A gente nunca vai poder dizer com toda certeza e eu acredito que a boa literatura faça exatamente isso. ...
Me lembro de uma professora da graduação que dizia, ao comentar o texto do Eco, Obra aberta: ‘Gente, a obra é aberta, mas não é escancarada’. E o que isso vem a ser? Isso quer dizer, apenas, que as possibilidades de leitura estão inscritas no próprio horizonte do texto. Essas possibilidades podem ser múltiplas – sim, óbvio – mas não infinitas. Não disparatadas. É no próprio tecido da narrativa que vamos encontrar as pistas de que necessitamos.
Então, só como exemplo, eu vou transcrever aqui uma das passagens do livro que para mim é das mais belas:
Lá do nosso jeito, a gente se entendia, e conversávamos muito, falávamos de Murilo, novela e política e fofocas em geral. Outra vezes, nem trocávamos palavra, e era assim que eu apreciava Júlia. Ela adorava mexer no meu cabelo, me pentear longamente, languidamente, lentamente, e eu gostava, me entregava, me prostrava, ficávamos no sofá da sala, ou até na rede mesmo, eu deitada sobre o colo de Júlia, sentindo a escova repuxar os cabelos, sentindo as pontas dos dedos massageando o couro cabeludo, sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo, sempre naquela faina infindável, deliciosa, pachorrenta, úmida de tão boa, tenho cabelos longos, nunca cortei, vão até a cintura, e Júlia mastigava inveja, degustava mexer em meu cabelo, ajeitar, pentear e cheirar, e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio, e assim ficávamos as duas, horas, eu grávida e Júlia ali, puxando e repuxando, penteando e despenteando, depois, Raquel nascida, colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual, eu dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos, acordava e ela ainda estava lá, e então eu dormia de novo, e era tão bom, porque não havia palavras, não havia Murilo, não havia inconsequência, não havia arte, não havia nada, só aquele momento, só nós duas, só aquele contato [...]
Clique aqui para ler a não-resenha completa da Cris. Ou deixe de doce e compre o livro.
Idiota: E então, Alex, o que é que você faz (aqui/lá) nos Estados Unidos?
Eu: Faço doutorado em Letras-Português.
Idiota Brasileiro: hehe, foi até os Estados Unidos pra estudar português? Por que não fez isso aqui? Hehe...
Idiota Americano: hehe, pra você deve ser superfácil então, né? Hehe...
Eu: *silêncio civilizado*
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Ensinando Português nos Estados Unidos
Também acontece do idiota brasileiro ficar estupefato ao saber que, ao contrário dos seus mais arraigados preconceitos, se estude português nos Estados Unidos. Eu tento explicar que é tão normal um americano se formar em Letras-Português quanto um brasileiro se formar um Letras-Russo, ou um francês fazer Letras-Árabe, etc etc. Existem formações superiores em línguas estrangeiras em todos os países do mundo. Em geral, não são nunca o curso mais pop do campus, mas sempre existem.
O universitário americano é provavelmente mais poliglota que o brasileiro: aqui, em grande parte dos cursos superiores (especialmente nos Liberal Art Colleges), é obrigário que o aluno de qualquer área (de História a Engenharia) curse dois ou três semestres de língua estrangeira. Por causa disso, de todos os alunos matriculados em cursos universitários de línguas modernas (excetuando latim, grego e hebráico antigos, por exemplo), metade faz Letras-Espanhol e a outra metade faz todas as outras línguas - português, russo, chinês, inclusive Letras-Inglês. Isso mesmo. Nos EUA, tem mais alunos fazendo Letras-Espanhol do que Letras-Inglês. Tem mais alunos cursando Letras-Espanhol do que todas as outras línguas juntas. (Pensem agora como é no Brasil, onde Letras é praticamente sinônimo de Letras-Português, com inglês bem abaixo: o resto é tudo perfumaria.)
Boa parte dos meus alunos de português conta com uma bolsa do governo americano de estímulo às "línguas pouco estudadas" ou "less commonly taught languages" (repara o esforço que fazem pra não dizer simplesmente "línguas exóticas"): basta o aluno se comprometer a cursar pelo menos uma disciplina por semestre na língua em questão (português, iorubá, creole haitiano, etc) e ele recebe uma bolsa generosa. E, sim, por um lado, os brasilianistas ficam com o pé atrás do português estar na lista das "línguas exóticas" mas, por outro, ficamos felizes pois boa parte dos nossos alunos começa a estudar o português por causa disso.
(Minha queridíssima amiga Annie, dona de um português perfeito, dançarina profissional de samba, professora de capoeira, mais viajada no Brasil do que a maioria de nós, atualmente terminando tese de doutorado genial sobre a comunidade brasileira em Nova Orleans pós-Katrina, aprendeu o que sabe sobre nossa língua e nossa cultura em grande parte graças a essa bolsa.)
Quantos de vocês cursaram línguas estrangeiras enquanto estavam na universidade brasileira? Ou receberam dinheiro do governo brasileiro para estudar uma língua estrangeira? Deve ser porque somos todos geniais, nem precisamos. Já esses gringos ignorantes, todos estudando as línguas e culturas de outros países... Sério, nem dá pra entender como foi que acabaram conquistando o mundo! E nós, sempre tão espertos, aqui nessa merda. Eita mundo injusto.
(Cada vez me divirto mais com esse nosso ressentido folclore consolador compensatório: "os americanos são uns simplórios ignorantes monoglotas e nós, por outro lado, somos cultos e espertos, inteligentes e poliglotas - mas inexplicavelmente subdesenvolvidos!")
Tirando os problema de concordância numérica do quais felizmente nos livraremos, a notícia é trágica: acabou (acabaram?) Os Viralata.
Em quatro anos, publiquei quatro livros pela Os Viralata. Me renderam dinheiro (que fez diferença na hora do aperto), exposição na mídia (entrevistas para rádios, jornais e revistas), novos leitores (e novos amigos). 
Cheguei ao Albano Martins Ribeiro, vulgo Branco Leone (nick muito apropriado para o "quem somos eu" da Os Viralata) através do Biajoni, que já tinha lançado o Sexo Anal por lá. Eu queria apenas uma gráfica e encontrei muito, muito mais. Encontrei um amigo, um editor, um visionário. E um louco, claro.
Para muitas pessoas, Os Viralata era uma possível maquininha de fazer dinheiro. Eu, Biajoni, Olivia, Roger, todos tentamos convencer o Albano a mudar de modelo de negócios, abrir uma empresa de verdade, investir no conceito de "vanity printing", cobrar mais caro, correr atrás de clientes.
Em suma, transformar em empresa lucrativa capitalista algo que era, na prática, uma filantrópica ONG informal.
Mas Albano não quis. Talvez por preguiça, talvez por burrice, talvez por ser um visionário comprometido com a integridade de seu projeto (como esse é um obituário, vamos com a última opção), Albano simplesmente se recusou a transigir. Nunca uma editora, Os Viralata foi, do começo ao fim, uma entidade única, amorfa e fascinante, indefinível e inexplicável, atraente e esquisita.
Não era nem empresa nem editora nem teve jamais existência juridíca. Não era uma ONG nem uma organização filantrópica. Era totalmente idealista mas sempre teve a intenção do lucro. Era um site? Um fanzine? Um canal de distribuição? Tico-tico no fubá?
Os Viralata acabou antes mesmo de conseguirmos decidir o que eles era. Ou eram. Sei lá.
Mas sabemos algumas coisas.
Sabemos que Os Viralata vão se tornar uma daquelas experiências lendárias, união instável entre autores talentosos e autores sem talento algum, reunidos em torno do único louco que seria capaz de agregar um grupo tão heterogêneo.
Ignorado pela grande mídia, Os Viralata saem da vida para entrar na história - mas não em nenhuma História publicada pela Companhia das Letras, mas na história em letras minúsculas, aquela marginal e subversiva, aquela contada em livros que não se publicam e em sites que saem do ar, aquela que é transmitida boca-a-boca e mão-a-mão, através de livros que emprestamos cuidadosamente somente aos melhores amigos e fazemos questão que nos devolvam, e também através de livros que encontramos nas estantes de quem entende ou que garimpamos em sebos poeirentos por preços excessivos.
Uns vão se mostrar: "comprei esses três!" e outros vão lamentar: "fiquei de comprar e nunca comprei!" Uns vão se gabar: "ganhei dois de presente!" e outros vão confessar: "não resisti e paguei cem reais, mas era o último do sebo!"
Assim o livreiro, coberto de poeira,
Guardava a memória
Da editora guerreira, do velho Albano.
E à noite nos sebos, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Tornava prudente: "Meninos, eu li!".
* * *
Um esclarecimento: Albano disse que um dos motivos para desistir da Os Viralata foi o fato de, em dezembro de 2009, apesar de 9 mil visitas, e 300 mil exibições de banner pela internet, só ter vendido 4 livros. Realmente, é um absurdo.
Mas queria dizer que, felizmente, as vendas de Mulher de Um Homem Só não fazem parte desse número. Meus livros são (eram?) editados e distribuídos pela Os Viralata, mas quem vendia era eu.
Nas últimas seis semanas de 2009, graças à promoção de Natal, Mulher de um Homem Só vendeu 26 exemplares - e, como sou pobrinho, esses R$800 salvaram meu natal.
(O número não inclui as vendas em livrarias, que sabe deus quando vou fechar, mas sei que muitos leitores compraram seus Mulher de Um Homem Só na Berinjela, na Baratos, na HQMix.)
Enfim, muito muito obrigado a todos que compraram e colaboraram. Mesmo com o fim da Os Viralata e com os links todos bagunçados (vou consertar aos poucos), meus livros continuam à venda e sendo entregues regularmente. Recomendo que comprem enquanto puderem, pois logo vão virar exemplar de colecionador.
* * *
Pois bem. Foi bonito e talz, mas fim. O sonho acabou. Ainda tem duas coxinhas e um ovo colorido ali no canto, mas são de ontem. Comam por sua conta de risco. O vira-lata morreu, viva o vira-lata.
Não consigo me imaginar amando alguém que não me ame de volta. Isso é coisa de quem gosta de melodrama e de reclamar do que não pode ter.
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Apesar do que dizem as más línguas, nem tudo o que me passa pela cabeça eu falo.
Outro dia, estava em uma lanchonete comendo um filé com queijo e encontro com um velho amigo de escola. O homem foi tenista profissional, rodou o mundo jogando tênis enquanto estava na casa do vinte e, agora, depois de cruzar os trinta, vende leite. E ele olhou para o meu sanduíche e disse, super na boa:
- Pô, Alex, se você não comesse tanto queijo e tanta gordura não estaria gordo assim.
- Vem cá, eu vou na sua quadra quando você está jogando tênis pra dizer que se você tivesse lido mais livros não estaria vendendo leite?
Mas não falei. Atleta acabado depois dos trinta não precisa que lhe chutem. Sorri amarelo e pronto.
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1. Passear de carro pelas montanhas. Curtir a queda súbita de temperatura. Dirigir por entre a mata. Babar na vista. Evitar ser morto. Descobrir corpos desovados. Subir na Glória e descer em São Conrado. Subir no Alto e descer na Estácio. Descobrir que o Rio inteiro está interconectado por essa rede de estradinhas. Sair de lá antes do sol se pôr.
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2. Paquetá. Pra não fazer nada. Pelo passeio de balsa pela baía. Pra ver o Rio e Niterói. Pra morgar nos parques.
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3. Visitar as praias nos dois extremos: Grumari e Prainha pra um lado, e Piratininga e Itacoatiara do outro. Aproveitar bem o passeio. Dirigir pela ponte. Curtir a vista, as ilhas, o mar. Relaxar.
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4. Noite na Lapa. Perambular pela multidão. Comer churrasquinho de gato. Proteger a carteira. Ouvir chorinho ao vivo. Curtir os prédios históricos dilapidados. Ficar ao ar livre e não entrar em lugar nenhum.
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5. Flanar pelo centro. Sentir o pulso da cidade como em nenhum outro lugar. Caminhar pela história do Brasil, da varanda de onde D.Pedro disse que ficava ao gramado onde Deodoro proclamou a República, passando pelo porto onde desembarcou Dom João VI. Visitar dez sebos, um atrás do outro. Comprar tabaco aromatizado na Africana, a loja mais antiga em funcionamento na cidade - desde 1846. Curtir o pôr-do-sol na Cinelândia, vendo se acenderem as luzes do Municipal, do Museu de Belas Artes, da Biblioteca Nacional, do Odeon.
E olha que nem falei de Paraty, minha cidade preferida no mundo.
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambição, verdade e medo. Dê sua opinião!
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