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Declaração de Voto

Presidente - Dilma - PT 13
Governador - Cabral - PMDB 15
Senador - Temer - PSOL 500
Senador - Lindberg - PT 131
Dep.Federal - Brizola Neto - PDT 1234
Dep.Estadual - Minc - PT 13001

Eu não vou votar nessas pessoas, infelizmente, porque moro no exterior, mas vou vigiá-las de perto; vai ser como se tivesse votado. O meu voto é declarado por motivos sentimentais, e para eu não me sentir muito isolado da minha triste política fluminense.

Dobradinha Cesar/Crivella no Senado não dá: Lindbergh tem chance, mas pra isso é necessário que os fluminenses não-direitistas não-evangélicos se unam em torno dele.

O blog do Brizola Neto é uma das melhores coisas dessa eleição.

Normalmente, eu jamais votaria no Cabral e minha tendência seria anular o voto mas, por pragmatismo, acho importante para Dilma ter o governador do Rio de Janeiro na base de apoio do seu governo.

 

02.09.10


Categorias: Política

Fidel Castro e a Perseguição aos Homossexuais em Cuba

Ontem, 31 de agosto de 2010, o jornal mexicano La Jornada publicou uma entrevista com Fidel Castro. O título já diz tudo:

Soy el responsable de la persecución a homosexuales que hubo en Cuba: Fidel Castro

Todos os jornais do mundo noticiaram a entrevista mas, se querem saber mais, recomendo clicar no link acima e ler na fonte. Alguns trechos:

–Sí –recuerda–, fueron momentos de una gran injusticia, ¡una gran injusticia! –repite enfático–, la haya hecho quien sea. Si la hicimos nosotros, nosotros… Estoy tratando de delimitar mi responsabilidad en todo eso porque, desde luego, personalmente, yo no tengo ese tipo de prejuicios. ...

–¿Quién fue, por tanto, el responsable, directo o indirecto, de que no se pusiera un alto a lo que estaba sucediendo en la sociedad cubana? ¿El Partido? Porque ésta es la hora en que el Partido Comunista de Cuba no "explicita" en sus estatutos la prohibición a discriminar por orientación sexual.

–No –dice Fidel–. Si alguien es responsable, soy yo…

Recentemente, terminei de escrever uma noveleta sobre, entre outras coisas, lésbicas em Cuba - ficou com 40 mil palavras, estou revisando. Por causa disso, muita gente - muita gente mesmo - me passou links não para a entrevista original mas para matérias sobre ela na CNN, Estadão, etc. Desnecessário dizer que recomendo fortemente que leiam o original, né?

De Cuba, Com Carinho Cuba: La Isla Grande

* * *

Aos passadores de links, sinto informar que a notícia é velha.

No livro Cien Horas con Fidel (2006), uma série de entrevistas concedidas ao jornalista francês Ignacio Ramonet, Fidel já fazia a mesma auto-crítica, o mesmo mea-culpa :

“Con relación a los homosexuales había fuertes [prejuicios]… la parte de responsabilidad que me corresponda la asumo… Yo tenía opiniones, y más bien me oponía y me había opuesto siempre a cualquier abuso, a cualquier discriminación, porque en aquella sociedad había muchos prejuicios. Ciertamente los homosexuales eran víctimas de discriminación. En otros lugares mucho más que aquí, pero si eran, en Cuba, víctimas de discriminación, y afortunadamente, una población mucho más culta, más preparada ha ido superando esos prejuicios. ...

Había – y hay – destacadísimas personalidades de la cultura, de la literatura, gente famosa, orgullo de este país, que eran y son homosexuales, y han gozado y gozan de mucha consideración y mucho respeto en nuestro país. Así que no hay que pensar en sentimientos generalizados. En los sectores más cultos y más preparados había menos prejuicios contra los homosexuales. En los sectores con mucha incultura –un país en aquel tiempo de un 30 por ciento de analfabetismo– eran fuertes los prejuicios contra los homosexuales, y en los semianalfabetos también y hasta en mucha gente que pueden ser profesionales. Eso era una verdad en nuestra sociedad. ...

La discriminación contra los homosexuales ya es un problema bastante superado. La adquisición de una cultura general integral, el pueblo que tenemos hoy... No le voy a decir que no haya machismo, pero ya no como el de aquella cultura nuestra en que era muy fuerte" (pp.222-225)

A Revolução fez muita besteira - mas também fez muita autocrítica.

O livro Cien Horas con Fidel também foi publicado com os títulos Fidel Castro: Biografía a dos voces e também Fidel Castro: My Life: A Spoken Autobiography - mas é tudo o mesmo livro.

* * *

Já que estamos falando nisso, circula muito, pela internet e por mesas de bares, uma citação terrível de Fidel, onde ele diz:

Nunca hemos creído que un homosexual pueda personificar las condiciones y requisitos de conducta que nos permitan considerarlo un verdadero revolucionario. Una desviación de esa naturaleza choca con el concepto que tenemos de lo que debe ser un militante comunista.

Cheguei até a ouvir defensores de Fidel argumentando que a frase só podia ser apócrifa, pois todos sabiam citá-la mas ninguém sabia dizer de onde veio. Bem, então eu conto. Saiu do livro Castro's Cuba, Cuba's Fidel (1965), de Lee Lockwood:

"LOCKWOOD: There has apparently been an organized effort by men in your government to deal firmly with homosexuals, some of whom were in positions of responsibility. It seemed that a general, naively conceived effort was under way to stamp out homosexuality.

CASTRO: That problem has not been sufficiently studied nor sufficiently analyzed, nor to I believe that definitive norms exist yet anywhere in relation to this very delicate problem. We have considered it our duty to take at least minimum measures to the effect that those positions in which one might have a direct influence upon children and young people should not be in the hands of homosexuals, above all in educational centers.

LOCKWOOD: Is it our position that if one is a homosexual, one cannot be a Revolutionary?

CASTRO: Nothing prevents a homosexual from professing revolutionary ideology and, consequently, exhibiting a correct political position. In this case he should not be considered politically negative. And yet we would never come to believe that a homosexual could embody the conditions and requirements of conduct that would enable us to consider him a true Revolutionary, a true Communist militant. A deviation of that nature clashes with the concept we have of what a militant Communist must be. But above all, I do not believe that anybody has a definitive answer as to what causes homosexuality. I think the problem must be studied very carefully. But I will be frank and say that homosexuals should not be allowed in positions where they are able to exert influence upon young people. In the conditions under which we live, because of the problems which our country is facing, we must inculcate your youth with the spirit of discipline, of struggle, of work. In my opinion, everything that tends to promote in our youth the strongest possible spirit, activities related in some way with the defense of the country, such as sports, must be promoted. This attitude may or may not be correct, but it is our honest feeling. It may be in some cases a person is homosexual for pathological reasons. It would indeed by arbitrary if such a person were maltreated for something over which he has no control. You can only ask yourself when assigning a person to a position of responsibility, what are the factors which might help that person do his job well, and what are those that might hinder him?"

Cuba: uma Nova História Cuba Cairá?

* * *

Diante disso, o narrador do meu romance faz a seguinte defesa:

- Sempre que aparece esse assunto, alguém puxa do bolso essa frase infeliz do Fidel. Sim, ele disse que que não acreditava que um homossexual pudesse ser um verdadeiro militante comunista revolucionário e que homossexuais não deveriam estar em posição de influenciar os jovens . Mas nunca citam o contexto, no qual ele qualificou e relativizou esse absurdo várias vezes. Nunca citam que Fidel e a Revolução fazem mea culpa desse absurdo há quase cinquenta anos. Nunca citam os tantos outros chefes de estado desse mesma época que falavam absurdos ainda maiores. O próprio Lula, antes mesmo de fundar o PT, deu uma entrevista famosa pra um jornal gay afirmando que não havia homossexuais na classe operária e que as lésbicas eram umas burguesas desocupadas[1]. E eu te pergunto: faria sentido usar essa frase pra acusar o Brasil ou o Governo Lula de homófobos hoje em dia?

- É, mas nem o Brasil e nem o Governo Lula, em nenhum momento, criaram campos de concentração para homossexuais. Pelo contrário, enquanto a gente quebrou as patentes dos coquetéis contra a Aids, os cubanos prenderam e isolaram os soropositivos em quarentena forçada[2]. O Brasil pode não ser nenhum paraíso GLS mas são duas trajetórias nacionais bem diferentes. Além disso, em Cuba, esse governo ainda está no poder. E nós, quantos já tivemos desde que Fidel derrubou o Batista? 15? [3]

- Alex, claro que não estou defendendo a presidência vitalícia do Fidel, mas quase todos esses absurdos que a direita adora puxar do chapéu foram cometidos no quinquenio gris, lá na década de setenta, o período mais soviético e repressivo da Revolução. Para todos os fins e efeitos, foi outro governo sim. E, além disso, sociedade cubana já fez uma auto-crítica muito mais contundente do quinquenio gris do que, digamos, o Brasil e nossa ditadura. De vez em quando, ainda leio na Folha algum general de pijama cantando loas ao AI5 e muito leitor concordando. Em Cuba, ninguém, a começar pelo próprio Fidel, acha que as UMAP foram uma boa idéia . De lá pra cá, o governo cubano reverteu todas essas práticas, tirou as referências ao homossexualismo do Código Civil[4], colocou casais gays nas novelas[5], e hoje faz até cirurgias de troca de sexo. O Cenesex, que a Rosa Maria mencionou, é dirigido pela própria filha do Raul[6], promove mil campanhas de tolerância e diversidade, está até fazendo lobby no congresso para aprovarem o casamento homossexual[7]. Apesar de todos os absurdos cometidos, Cuba é hoje um dos melhores países latino-americanos para ser gay - talvez o mais. Lá no sul dos Estados Unidos, onde você mora, ainda existem leis severas contra homossexualidade que proíbem o sexo anal mesmo entre adultos, sem ninguém ver, dentro de casa[8]. E o nosso querido Brasil-sil, enquanto isso, país do carnaval blá blá, também é o país da homofobia, com números altíssimos de crimes violentos contra homossexuais[9]. O quinquenio gris realmente não foi fácil, eu me lembro, estava aqui, mas foi uma fase que passou rápido e foi totalmente repudiada.

Notas:

[1] Entrevista ao jornal "Lampião da Esquina", editado pelo escritor e ativista João Silvério Trevisan, edição de julho de 1979. Se Lula fazia afirmações assim como líder operário sendo entrevistado em um jornal gay, é de se imaginar o que não falava na mesa de bar entre amigos.

[2] Em um capítulo vergonhoso, mas tristemente eficiente, da Revolução, Cuba controlou a AIDS colocando seus soropositivos em quarentena total. Somente em 1989 eles obtiveram o direito de circular semi-livremente entre casa e sanatório. Em 1993, a internação nos sanatórios deixou de ser obrigatória. Hoje, a maioria dos soropositivos cubanos, quase todos homossexuais e bissexuais, apenas residem nos sanatórios por escolha própria.

[3] De fato, se contarmos tanto Chefes de Estado quanto de Governo, sem incluir a Junta que governou o país por dois meses em 1969, o Brasil teve 17: Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Ranieri Mazzilli, Tancredo Neves, Brochado da Rocha, Hermes Lima, João Goulart, Castelo Branco, Costa e Silva, Emilio Medici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula.

[4] Em 1975, o Tribunal Supremo reverte todas as leis e resoluções oficiais impedindo homossexuais de trabalhar em educação e cultura. Em 1979, ser gay deixa de ser crime, mas a "ostentação da homossexualidade" continou proibida: segundo o artigo 359 do Código Penal, era proibida a "pública ostentación de su condición homosexual o importune, o solicite con sus requerimientos a otro”. Além disso, realizar “actos homosexuales en sitio público o en sitio privado, pero expuestos a ser vistos involuntariamente por otras personas” também continuava proibido, por ser considerado delito "contra el normal desarrollo de las relaciones sexuales”. Sucessivas reformas, em 1988, 1997 e 1998, eliminaram toda e qualquer linguagem homofóbica do Código Penal. A categoria "escándalo publico", por exemplo, definida explicitamente como importunar publicamente com "requerimientos homosexuales" foi substituída por "ultraje sexual", definido como "acoso con requerimientos sexuales".

[5] Houve uma novela, em 1998, com uma subtrama lésbica, mas super-rápida. Em três capítulos, as duas moças se conheceram, se apaixonaram, uma delas largou o marido violento e alcoólatra, saiu do armário para a outra e, convenientemente, morreu num acidente de trem. Tudo sem contato físico, é claro, nada de beijos no horário nobre. "La otra cara de la moneda", exibida pela TVC em 1998 // Parece a nossa "Vale Tudo", mas com dez anos de atraso. Em "Vale Tudo" também havia um casal de lésbicas estável e fofo, donas de pousada, bem de vida, que faziam o favor de não se pegar em público pra não constranger os telespectadores e, rapidamente, assim que o ponto foi feito, uma delas morreu em um acidente de carro - justamente para não ficarem esfregando sua felicidade homossexual por muito tempo na cara dos telespectadores. // Eu me lembro de "Vale Tudo"! - Disse Rosa Maria - Também fez muito sucesso aqui! Exatamente. A TV acena com uma mão e tira com a outra. // Não teve uma outra novela que fez parecido recentemente? Duas adolescentes lésbicas foram namoradinhas sem contato físico pela novela inteira e havia parte do público clamando por pelo menos um beijo entre elas e, outra parte, ameaçando jogar foras os televisores se houvesse um beijo gay? Lembra disso? Pois a solução que arranjaram foi que, no último capítulo, as duas meninas estavam em uma montagem escolar de Romeu e Julieta e se beijaram no palco, interpretando seus personagens masculino e feminino e não mais como duas mulheres, uma solução elegante que, se não deixou ninguém feliz, também não deixou ninguém revoltado. ("Mulheres Apaixonadas", exibida pela Rede Globo em 2003) // Essas coisas avançam devagar. Faz pouco tempo houve outra telenovela com um casal de lésbicas. ("El balcón de los helechos", exibida pela TVC em 2004) Dessa vez não morreu ninguém. Elas eram simpáticas, felizes, criavam juntas um menino. O mais incrível é que nunca se mencionava sua condição de casal, jamais trocavam carícias ou se beijavam. Ou seja, ou eram melhores amigas inseparáveis que criavam junto um menino como se fosse seu filho... ou eram uma casal de lésbicas! Imagino que os silêncios e as elipses sejam uma estratégia de plausible deniability. Caso elementos mais conservadores reclamassem, a produção poderia argumentar: o que? como? casal homossexual? na minha novela? Não! Jamais! São apenas duas excelentes amigas! [essa nota de rodapé, originalmente, era um diálogo que foi cortado e será reescrito e resumido aqui]

[6] Mariela Castro, filha de Raul Castro, irmão mais novo de Fidel, que assumiu a Presidência de Cuba no ano seguinte de nossa conversa, 2008.

[7] Poucos meses depois de nossa conversa, em dezembro de 2007, celebrou-se o casamento (simbólico) de Mônica e Elizabeth, o primeiro realizado em Cuba com apoio estatal. Vestidas ambas de noiva, elas se uniram no pátio interior do Cenesex (Centro Nacional de Educación Sexual), com presença e estímulo da própria diretora, Mariela Castro, filha de Raul e sobrinha de Fidel. O casamento não tem valor legal, mas o tema do casamento homossexual, por iniciativa do Cenesex e da Federación de Mujeres Cubanas, já está sendo debatido na Assembléia Nacional. Enquanto isso, segundo Mariela afirmou a um jornal cubano, uma das atribuições do Cenesex é justamente fazer campanhas educativas para preparar o povo para essa mudança.

[8] Na verdade, eu estava errado, mas somente por quatro anos. Foi somente em 2003 que a Suprema Corte americana derrubou todas essas leis estaduais, decidindo que a conduta sexual privada é protegida pela constituição. Nesse ano, 14 estados ainda tinham leis contra a sodomia e, até hoje, três estados ainda possuem leis contra a "conduta" homossexual em público.

[9] Segundo o Relatório Anual divulgado pela Ong "Grupo Gay da Bahia" em 2010, o Brasil teve um homossexual assassinado a cada dois dias no ano anterior, tornando-se assim o país mais homofóbico do mundo.

O romance ainda está em fase de revisão. As opiniões dos personagens não são necessariamente as minhas. As notas são reflexo do próprio academicismo do narrador.

Cuba por Korda Cuba-Espanha-Cuba: uma História Comum

* * *

Cuba é um país como qualquer outro. Você não tem opiniões fortes sobre a Nigéria sem saber nada sobre ela, então também não saia levantando o dedo, brandindo contra ou a favor do Fidel, sem nunca ter se informado a respeito. Se você tem interesse o suficiente por Cuba pra ter opiniões fortes, então também deveria ter interesse o suficiente para ler um livro sobre o assunto. Caso contrário, desculpe a franqueza, mas você é a definição do idiota ignorante.

Sugiro que comece pelo meu humilde livrinho, somente algumas crônicas despretensiosas, leve e barato, que você paga pela internet e recebe por email, na hora:

Radical Rebelde Revolucionario - Cronicas Cubanas, por Alex Castro

Radical Rebelde Revolucionário (2007), crônicas cubanas. Ebook em pdf.
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01.09.10


Categorias: Cuba

Esperança para o Oliver (Relembrando o Furacão Katrina)

Cinco anos atrás, no LLL:

Quinta, 1º de setembro de 2005

Finalmente, uma boa notícia.

Oliver de Sapatinho

Grupos de pet rescuers estão se preparando para ir a Nova Orleans, resgatar animais de estimação que ficaram presos em suas casas. Entrei em contato com o pessoal da Animal Rescue League of Boston, eles pegaram todos os dados do Oliver, já me ligaram pelo menos uma vez aqui em NY para confirmar detalhes, e disseram que estão coordenando com outros grupos, como o Noah's Wish, para dividir a cidade em áreas e cada grupo ficaria responsável por salvar os pets de uma região. Eles devem entrar na cidade hoje ou amanhã. Se minha casa ficou de pé e as portas não abriram com o furação, o Oliver ainda deve estar lá dentro, assustado e fraco, mas vivo.

Ainda há esperança.

* * *

Enquanto isso, deixo vocês com as duas mais recentes fotos do Oliver (não vou dizer últimas) tiradas na quinta, quatro dias antes do furacão.

Oliver de Sapatinho

Eu tenho andado mais de uma hora por dia com ele pelas ruas de Nova Orleans e, como ele não admite dormir no chão, minha cama estava ficando toda imunda. Decidi comprar esses sapatinhos para quando ele fosse andar na rua. Nos primeiros dias, ele demorou a se acostumar mas agora já está craque. As crianças da vizinhança adoram. Todo mundo deve ter certeza que eu sou gay, mas foda-se.

Eu amo muito o meu cachorro, fiz muitos sacrifícios pra trazê-los pros EUA e quero muito vê-lo de novo. Se ele voltar são e salvo, eu vou ser voluntário desses pet rescue groups. Podem cobrar.

* * *

Veja mais fotos do Oliver ou as outras fotos relacionadas à passagem do Katrina por Nova Orleans.

* * *

Continuo on the road. Hoje estou indo para Washington DC e, na semana que vem, assim que eu tiver notícias do Oliver, pra bem ou pra mal, vou pra Bay Area, na Califórnia.

UPDATE

A moça do Animal Rescue League of Boston acabou de ligar de novo, cinco minutos depois de eu fazer o post acima. Os dados do Oliver foram transferidos para o American Humane Association, que é quem vai tentar entrar na cidade para resgatá-lo. Infelizmente, o governo não está deixando ninguém entrar em New Orleans. Eles estão tentando, sabem que se demorar muito vai ser tarde demais, mas não podem prometer nada.

* * *

Celebrando o aniversário de cinco anos do Furacão Katrina, e em homenagem à minha enorme preguiça de escrever novos textos, vou reeditar "em tempo real" os mesmos posts que fiz naqueles dias tão movimentados de agosto e setembro de 2005. Não mudei nem uma vírgula. Para quem quiser saber a história completa, comprem meu livro de crônicas Liberal Libertário Libertino - cuja parte final é inteirinha sobre o Katrina. Por fim, um pequeno epílogo das minhas aventuras durante o Katrina, não incluído no livro acima, onde agradeço a todos que me ajudaram: Dia de Ação de Graças.

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Alguns livros sobre Nova Orleans e o furacão Katrina: Breach of Faith: Hurricane Katrina and the Near Death of a Great American City // Come Hell or High Water: Hurricane Katrina and the Color of Disaster // Hurricane Katrina: America's Unnatural Disaster

 

01.09.10


Categorias: New Orleans

Como Um Refugiado do Sudão (Relembrando o Furacão Katrina)

Cinco anos atrás, no LLL:

Quarta, 31 de agosto de 2005

Finalmente, um santo leitor me mandou o texto da nota do Globo. Aqui vai:

Como um refugiado no Sudão

O carioca Alex Castro, de 31 anos, tinha chegada a Nova Orleans duas semanas antes da ordem de evacuação, sábado. Professor de literatura brasileira da Universidade de Tulane, viveu o drama de ser obrigado a deixar seu poodle, Oliver, para trás. "Fiquei sabendo que a universidade colocou ônibus à disposição de alunos e funcionários para que deixassem a cidade. Mas eram só eles. Estávamos nos dias que antecederiam o início das aulas, quarta-feira, e muitas pessoas tinham acabado de chegar à cidade, parentes tinham levado alunos para lá. Muitos falavam: 'meu pai pode ir? Meu irmão veio aqui só para me trazer e não tem como sair'. Não pude levar meu cachorro, Oliver. Não tenho carro, não conheço ninguém na cidade, não tinha um plano de evacuação, como todos lá têm. Quando tive que sair, deixei água e comida para uma semana para o Oliver. Pretendo voltar o mais rapidamente possível", disse Castro ao GLOBO.

O professor, que conta seu drama em seu blog http://www.liberallibertariolibertino.blogspot.com, ficou 48 horas "como um refugiado do Sudão", enquanto era levado para a universidade da cidade de Jackson. Depois pegou um avião para Detroit e, depois, para a casa de amigos em Nova York.

Michaelis Tour-Nova Orleans: Guia de Viagem  Esquetes de Nova Orleans

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Pedidos

Estou bem mal. Mental e emocionalmente exausto. Agora é que está batendo a enormidade dessa porra. Mas tenho dois pedidos:

Parem de perguntar por notícias do bicho. Ele não fala, não escreve, não manda email, claro que não tenho notícias dele. Se tiver, eu aviso.

E, por favor, o mais importante, parem de vir me dizer que vai ficar tudo bem. Caralho, você não sabe isso, não tem nada o que você possa fazer, nem eu, é só uma frase vazia usada pra acalmar gente histérica, o que não é o meu caso - ainda. Se você quiser dizer que espera ou torce pra que tudo fique bem, eu aceito at face value e agradeço.

Mas eu confesso que me irrita muito essas pessoas que botam a mão no meu ombro e dizem, com uma certeza que não sei de onde veio, que vai ficar tudo bem.

I don't know that, neither do you. Em uma emergência, o que conforta é amizade, concern, companheirismo, não frases vazias.

Aliás, hoje saí no Globo, em um box que não aparece na versão online. Se alguém puder transcrever a notinha nos comentários aqui do blog, eu agradeço.

E muito obrigado a todos pelas muitas demonstrações de carinho, afeto, amor. Eu amo todos vocês. Mesmo os que me irritam com as frases vazias. Eu sei que é de coração.

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Cemitério em Spruce Street


Cemitério em Spruce Street

Nova Orleans é famosa por seus cemitérios, a maioria dos quais é ponto turístico. Não é o caso desse aqui, que fica na minha rua, Spruce Street.

Ago.25, Katrina minus 4

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Newcomb Hall


Newcomb Hall

Onde eu teoricamente iria estudar e trabalhar, se o prédio ainda estiver lá.

Ago.25, Katrina minus 4

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St Charles Streetcar


St Charles Streetcar

O bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à universidade (se ainda estiver lá).

Ago.25, Katrina minus 4

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Tulane University Entrada Principal


Tulane University Entrada Principal

Entrada principal de Tulane, na St Charles Av.

Ago.25, Katrina minus 4

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St Charles Streetcar 2


St Charles Streetcar 2

O bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à universidade (se ainda estiver lá).

Ago.25, Katrina minus 4

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St Charles Streetcar


St Charles Streetcar

O bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à universidade (se ainda estiver lá). A foto é do ponto em frente à entrada principal.

Ago.25, Katrina minus 4

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St Charles Streetcar


St Charles Streetcar

O bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à universidade (se ainda estiver lá). A foto é do ponto em frente à entrada principal.

Ago.25, Katrina minus 4

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St Charles Streetcar


St Charles Streetcar

O bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à universidade (se ainda estiver lá). A foto é do ponto em frente à entrada principal.

Ago.25, Katrina minus 4

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Arrival in New York


Arrival in New York

Segunda, Ago.29, K Day.

Enquanto o Katrina destruía minha cidade, cheguei em Nova Iorque literalmente morto, exausto, preocupado, depois de 52 estressantes horas on the road, de Nova Orleans, a Jackson, Mississippi, passando por Detroit, Michigan.

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Celebrando o aniversário de cinco anos do Furacão Katrina, e em homenagem à minha enorme preguiça de escrever novos textos, vou reeditar "em tempo real" os mesmos posts que fiz naqueles dias tão movimentados de agosto e setembro de 2005. Não mudei nem uma vírgula. Para quem quiser saber a história completa, comprem meu livro de crônicas Liberal Libertário Libertino - cuja parte final é inteirinha sobre o Katrina. Por fim, um pequeno epílogo das minhas aventuras durante o Katrina, não incluído no livro acima, onde agradeço a todos que me ajudaram: Dia de Ação de Graças.

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Meus três livros preferidos sobre Nova Orleans e o furacão Katrina: The Great Deluge: Hurricane Katrina, New Orleans, and the Mississippi Gulf Coast (se só puderem ler um, leiam esse) // The Year Before the Flood: A Story of New Orleans // 1 Dead in Attic: After Katrina

 

31.08.10


Categorias: New Orleans

Perguntas (Relembrando o Furacão Katrina)

Cinco anos atrás, no LLL:

Terça, 30 de agosto de 2005

Liguei o MSN no cibercafé do aeroporto de Detroit e encontro uma amiga. Começo a contar pra ela minhas desventuras, evacuação de New Orleans, abrigo em Jackson, chegada em Detroit, etc, e ela pergunta:

Por causa do Katrina, né?

* * *

1943. A família Rosenberg consegue escapar de Berlim. Atravessam os alpes suiços a pé. Viajam clandestinos no porão de um navio cercado de ratos. Fazem todo o tipo de sacrifício.

Finalmente, chegam à América, exaustos, aliviados, vitoriosos. E alguém pergunta:

Por causa daquele Hitler, né?

Não, Pedro Bó, é porque não gostamos daquela comida gordurosa!

Michaelis Tour-Nova Orleans: Guia de Viagem  Esquetes de Nova Orleans

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Dicas de Refugiado

Caso voces algum dia precisem abandonar suas casas e ficar em um abrigo para refugiados, por favor, aceitem a sabedoria acumulada desse que vos fala.

Don't wear white underwear.

Take my word for it.

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Alguns livros sobre Nova Orleans e o furacão Katrina: There is No Such Thing as a Natural Disaster: Race, Class, and Katrina // It Takes a Nation: How Strangers Became Family in the Wake of Hurricane Katrina // The Sociology of Katrina: Perspectives on a Modern Catastrophe

 

30.08.10


Categorias: New Orleans

Coluna da Direita Remexida

Mais opções de contato, mais livros lidos, busca mais proeminente, novo tagline mais sincronizado com o blog atual.

 promoção submarino  Promoção Submarino  Promoção Submarino

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29.08.10


Categorias: Egotrip

Oliver (Relembrando o Furacão Katrina)

Cinco anos atrás, no LLL:

Segunda, 29 de agosto de 2005

Sao 6 da manha e ainda estou em detroit. Nao acredito que faz soh 48 horas que eu estava dormindo pacificamente, pensando que sabado ia ser o dia do oliver. Meu roomate ia passar remedio contra pulgas na casa e eu e o oliver iriamos ficar na rua o dia todo. Eu ia levar ele pra conhecer o levy e tulane. Ao inves disso, foi o dia em que eu o abandonei.

Nao consigo me perdoar. Acabei de passar minha segunda noite de refugiado, dormindo no chao em um aeroporto deserto (tirei fotos), e passando um frio fudido. Nao trouxe casaco, pq estava fazendo quase 40c em Nola. Acho engracado imaginar que saih de casa sem conceber que iria acabar em NY.

A principio, fiquei colado nos teloes da CNN vendo noticias sobre katrina e, finalmente, desabei, e chorei muito pelo meu filho, sem acreditar que trouxe ele pra morrer nessa terra, e pensando em todo o carinho e em todo o trabalho que ele me deu nessas duas semanas pra se estabelecer em Nola. Cara, como chorei. Devem ter achado que eu era o mais apaixonado New Orlenian. Depois, tentei fugir dos teloes, nao estava mais aguentando chorar tanto, mas esse aeroporto maldito tem teloes ligados na CNN a cada 10m. Nao deu pra fugir. Felizmente, foram todos desligados a meia-noite.

Uma ultima coisa: eu sei que sou interesseiro, mas quando vc estah sozinho, refugee, on the road, tem que usar all the help you can possibly get. Entao, faco questao de dizer pra todo mundo que sou um evacuee de New Orleans, e isso ganha a simpatia/empatia imediata das pessoas, elas se viram ao avesso pra tentar ajudar. Quando eu falo do cachorro, entao.

Soh faco pensar no Oliver. Tomara que a ex consiga me perdoar por deixa-lo lah. Tomara que eu consiga me perdoar.

Mas para os que achavam que dava, nao dava. Nos onibus de tulane, ele nao iria. Tinham familias sendo separadas as lagrimas e ninguem pode fazer nada. Voos out of new orleans, no way, nao tinha mais nenhum. Carro, eu nao tinha. O que eu nao fiz foi ver se algum dos vizinhos ficaria na cidade e dar a chave da casa pra ele. Mas nao tive tempo. Tive que evacuar em menos de uma hora.

Meu consolo eh que se a casa estiver de peh, ele vai ficar bem.

PS: Ulysses nao dah. Joyce estava de sacanagem. Estou lendo Decline and Fall, do Gibbon, que eu tb trouxe, meu segundo livro favorito depois da Biblia.

Michaelis Tour-Nova Orleans: Guia de Viagem  Esquetes de Nova Orleans

* * *

New York

Jah estou instalado em NY. Os estragos em New Orleans parecem que foram menores do que poderiam ser. Pode ser que de pra eu voltar no fim de semana. Seria minha prioridade. Tenho historias pra contar. Mas antes vou tomar banho, trocar de roupa, tirar um cochilo, essas coisas.

Daqui a pouco, eu volto.

* * *

Celebrando o aniversário de cinco anos do Furacão Katrina, e em homenagem à minha enorme preguiça de escrever novos textos, vou reeditar "em tempo real" os mesmos posts que fiz naqueles dias tão movimentados de agosto e setembro de 2005. Não mudei nem uma vírgula. Para quem quiser saber a história completa, comprem meu livro de crônicas Liberal Libertário Libertino - cuja parte final é inteirinha sobre o Katrina. Por fim, um pequeno epílogo das minhas aventuras durante o Katrina, não incluído no livro acima, onde agradeço a todos que me ajudaram: Dia de Ação de Graças.

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Alguns livros sobre Nova Orleans e o furacão Katrina: Zeitoun // Why New Orleans Matters // Do Not Open: The Discarded Refrigerators of Post-Katrina New Orleans

 

29.08.10


Categorias: New Orleans

Fetiche de Entendimento

Depois de "Mulher de Um Homem Só", as leitoras gostam de dizer que eu "entendo muito de mulher". Meu ego ronrona, as namoradas riem ("quem não te conhece que te compre, Alex") e fica tudo por isso mesmo, mas o elogio desmascara um pouco do nosso fetiche de entendimento.

Elogiar alguém por "entender de mulher", por exemplo, significa sugerir que existe uma "essência intrínseca de mulheritude" que está disponível para ser observada, apreendida, compreendida, definida, nomeada e passada adiante. Mas temos três bilhões de mulheres no mundo, de todas as cores e tamanhos, profissões e temperamentos, culturas e idiomas. O que elas podem ter em comum além das bucetas?

Já seria temerário tentar entender grupos pequenos e limitados (os anões, os médicos, os curitibanos), como alguém poderia entender "as mulheres"? Como alguém poderia achar isso possível? Como alguém poderia achar isso desejável? Será mesmo que entendê-las é a melhor coisa que temos a fazer com nossas mulheres? Ou com qualquer pessoa? Mulher de Um Homem Só, 3a edição

Não, eu não entendo nada de mulher. Até porque eu não entendo ninguém. Não entendo nem a mim mesmo. Mais importante, não acho que entender seja desejável. Para que desejamos tanto entender? O que fazemos de bom com tanto entendimento?

Essa nossa ânsia por entender tem o mesmo ímpeto autoritário de outras ânsias, como definir, nomear, buscar a verdade.

Entender X nada mais é do que uma tentativa de simplificar X ao seu mais básico denominador comum, de modo a poder defini-lo e nomeá-lo e, assim, chegar à verdade sobre X. Mas esse processo de simplificação é, por definição, redutor e autoritário: você lança o seu olhar sobre X, ignora inúmeros aspectos relevantes (praticamente qualquer objeto é mais complexo do que sua explicação), constrói uma narrativa explicativa baseada somente nos aspectos específicos sobre os quais você decidiu se concentrar, e, por fim, crava-lhe um rótulo autoritativo, dizendo "A verdade sobre X é isso!"

Entender, definir, nomear e buscar ou articular uma verdade são todas operações autoritárias demais pra minha cabeça. Entender é reduzir, definir é matar, nomear é controlar.

Eu não tento entender ninguém. Eu observo, eu escuto, eu aceito. Tento me colocar na posição da outra pessoa e ver o mundo como ela vê.

Entender é um gesto de dominação e redução. Aceitar é um gesto de amor e generosidade.

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De vez em quando, em conversa com namoradas, elas dizem, exasperadas:

"Ai, Alex, você não me entende!"

E minha resposta é sempre mais exasperante ainda:

"É, não entendo mesmo. Não entendo a mim. Não entendo o mundo. Não entendo as prioridades dos meus amigos, que fazem sacrifícios que eu jamais faria pra poder comprar coisas que eu jamais compraria. Não entendo nada. Vou entender logo você? Você teve outra vida. Tem outro temperamento. Outro corpo. Outros desejos. Você é um outro universo. Mas eu te aceito, eu te amo e estou aqui do seu lado."

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Quatro livros pra abrir sua cabeça:

 Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social FERNANDO BRAGA DA COSTA Pedagogia do Oprimido

Folhas de Relva = Leaves of Grass, de Walt Whitman Discurso do Método RENE DESCARTES

 

28.08.10


Categorias: Comportamento

De Jackson, Mississipi a Detroit, Michigan (Relembrando o Furacão Katrina)

Cinco anos atrás, no LLL:

Domingo, 28 de agosto de 2005

Sao 9 da noite de domingo e muita coisa aconteceu desde que postei pela ultima vez, 16h atras - parece que faz 3 dias.

Abandonei o abrigo na Jackson State University, em Jackson, Mississipi. Gosto de estar on my own. Depois de ficar micado por um bom tempo no aerporto de Jackson, com o furacao se aproximando e ameacando fechar o aeroporto e me deixar lah micado de vez (foi por pouco), consegui um last minute seat num voo pra Detroit.

Last minute mesmo, tive que pegar o aviao na pista e sentei numa das cadeiras pra tripulacao. Estou agora em um cibercafe do aeroporto de Detroit, que pelo menos eh um aeroporto de verdade, e nao aquela pseudo rodoviaria que era o aeroporto de Jackson.

Amanha de manha, pego um voo pra NY, para ficar na casa de uma amiga querida que me convidou e ainda pagou minha passagem.

Michaelis Tour-Nova Orleans: Guia de Viagem  Esquetes de Nova Orleans

As historias que tenho pra contar pra voces estao se acumulando. Gosto de saber que, enquanto eu pulo de cidade em cidade com a katrina atras de mim, voces acompanham minha vida como se fosse uma novela. Gosto de estar sozinho mas vcs nunca deixam eu me sentir 100% sozinho. Quando chegar na casa da minha amiga, em NY, vou ter mais sossego pra contar as historias todas. Juro.

Por enquanto, continuem pensando no Oliver pq eu tb soh penso nele, e estou muito preocupado. Mas ele eh um cachorro de rua, da favela, confio no seu instinto de sobrevivencia.

The worst-case scenarios preveem que a vida soh se normalizaria em Nola em seis meses! Eh incrivel como nessas duas semanas eu jah tinha enfiado Nola no meu coracao como minha nova casa. Imaginar ela sendo destruida soh nao eh pior do que imaginar esse furacao batendo no Rio. Ateh o site de Tulane jah estah fora do ar. Serah que isso tudo foi olho grande dos invejosos?

Tenho que ir, porque a internet aqui eh 20 dolares a hora.

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Celebrando o aniversário de cinco anos do Furacão Katrina, e em homenagem à minha enorme preguiça de escrever novos textos, vou reeditar "em tempo real" os mesmos posts que fiz naqueles dias tão movimentados de agosto e setembro de 2005. Não mudei nem uma vírgula. Para quem quiser saber a história completa, comprem meu livro de crônicas Liberal Libertário Libertino - cuja parte final é inteirinha sobre o Katrina. Por fim, um pequeno epílogo das minhas aventuras durante o Katrina, não incluído no livro acima, onde agradeço a todos que me ajudaram: Dia de Ação de Graças.

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Alguns livros sobre Nova Orleans e o furacão Katrina: Breach of Faith: Hurricane Katrina and the Near Death of a Great American City // Come Hell or High Water: Hurricane Katrina and the Color of Disaster // Hurricane Katrina: America's Unnatural Disaster

 

28.08.10


Categorias: New Orleans

Katrina

Cinco anos atrás, no LLL:

Sábado, 27 de agosto de 2005

Mais uma mulher má, quente e incontrolável na minha vida. Talvez a última.

A cidade está sendo evacuada. Eu não conheço ninguém e não tenho carro. Uma amiga disse: don't worry, you're a part of Tulane now, they'll take care of you. Pois a única ajuda que Tulane está me dando é o seguinte aviso no site: "Everyone should begin implementing their personal hurricane plan now." In other words, you're on your own, good luck.

O dia está lindo, ensolarado e calmo. O furacão deve bater aqui na segunda, ao meio-dia. O storm surge, a onda que vem depois do furacão, deve passar de seis metros. Como a cidade fica entre um rio e um lago, espera-se que ela seja simplesmente lavada do mapa - ela e quem ficar por aqui. Minha velhíssima casa não me parece capaz de suportar uma muralha d'água de seis metros mas enfim.

Eu me sinto em uma daquelas narrativas militares de antigamente, quando avisavam a uma cidade murada que os hunos estavam a dois dias de distância. E todo mundo ia escrever seus testamentos e put their affairs in order.

Ainda não sei bem o que vou fazer. Muito provavelmente, me trancar em casa, hope for the best, talvez morrer.

Mauro, vai postando umas confissões aí até eu voltar.

Na melhor das hipóteses, só vou ter internet de novo na quarta, quando a universidade reabrir.

Na pior, bem, sinceramente, vai ou não vai dar um puta release? Publicação póstuma do primeiro romance inédito do blogueiro que saiu do Brasil pra ir pra Nova Orleans e morreu na primeira semana. Porra, se isso não fizer o livro vender, fudeu. E ainda dá pra empurrar o livro de contos, um livro das prisões, um livro das confissões e uma coletânea geral do blog. Sorte da ex que vai ficar rica.

Hmmm, se não fossem as três mulheres pelas quais estou apaixonado, eu até encararia esse furação de peito aberto. (Vocês sabem quem são e eu amo vocês.) Também, claro, beijo pro meu pai, pra minha mãe, pra minha irmã e pra você, Xuxa.

Em suma, that's all, folks. Nada do que eu disse é brincadeira. Acompanhem o noticiário e torçam por mim.

UPDATE

Acabei de vir de uma reunião do Presidente da universidade com os pais. Esse furacão não poderia ter acontecido em pior hora. Estamos em pleno orientation week, as aulas começariam da quarta, o campus está cheio de alunos se mudando, de pais que vieram trazer os filhos, essas coisas. Já ouvi mais de um: "Oh, why didn't I go to fucking Brown?!" O pior, claro, é que esses milhares de novos alunos acabaram de chegar na cidade, não conhecem ninguém, ainda não têm celular, telefone ou internet em casa (eu, eu, eu.) Ou seja, estão completamente indefesos.

Minha casa é muito frágil, realmente não dá pra ficar lá. Tulane vai disponibilizar vários ônibus, que sairão do campus hoje às 5 horas (daqui a 3 horas e meia) para levar os alunos para a University of Mississipi at Jackson, onde o pessoal vai ficar em abrigos improvisados.

Eu pretendo estar em um desses ônibus. Acho que vai ser, no mínimo, uma história interessante pra contar, além de um bonding experience.

O Oliver, naturalmente, infelizmente, não pode ir. Vou ter que deixá-lo em casa, com muita água e comida, e torcer pelo melhor. O roomante e a namorada vão dirigir até Houston com o labrador deles, 350 milhas, eu poderia pedir para ir com eles, ou pelo menos, para o Oliver ir com eles, mas ninguém ofereceu, então, melhor me virar sozinho.

Vocês agora me dão licença, vou correr pra casa, arrumar as coisas do Oliver, fazer a mala e tentar estar de volta aqui no campus às 4. Prevejo caos e confusão. Espero ter que usar toda minha brasilidade.

Estou levando Ulysses, do Joyce. Acho que dessa vez, eu leio essa joça.

UPDATE II

Sao 5 da tarde, estou no centro esportivo de Tulane, em um comp publico sem teclado brasileiro. O centro esportivo eh de onde os onibus da evacuacao vai sair e tb funcionarah como um abrigo de emergencia durante o furacao. Enquanto esperamos os onibus, vimos dezenas de funcionarios entrarem trazendo comida e sacos de areia. Estou tirando fotos, nao sei quando vcs as verao.

Civilizacao eh uma coisa linda. Alem das filas nos supermercados e nos postos de gasolina, alem das lojas barricando as vitrines com madeira, em cada rua voce ve cidadaos normais limpando as saidas dos bueiros e recolhendos as folhas e o lixo da rua. Cada um fazendo sua parte pra evitar uma inundacao do seu quintal. Realmente, a sensacao eh de estar em um daqueles filmes de guerra em que vc sabe que o inimigo chegarah em poucas horas e gasta todo seu tempo se preparando pra ele.

Todo mundo lembrou de trazer travesseiro e cobertor, menos o idiota aqui. Como bom brasileiro, pensei no meu banho e trouxe toalhas e produtos de higiene, e pensei nas minhas leituras, e trouxe Ulysses. Mas nao lembrei que teria que dormir.

Fui um dos primeiros a chegar, jah me registrei e estarei no primeiro onibus que sairah de Tulane.

A TV ligada no noticiario, ao meu lado, soh dah mas noticias. Varios fatores meteorologicos contribuem para fazer com que o furacao aumente de intensidade no caminho pra cah, ao inves de diminuir como aconteceu em outras vezes. Tomara que meu filho fique bem.

Vou sair agora pq tem uma japonesa na fila atras de mim.

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UPDATE III

Enquanto o onibus nao sai, eu fico aqui falando com vcs. Sao 5:40.

Lembrem-se que estamos em orientation week, a primeira semana do ano letivo, e muitos pais de calouros vieram trazer pessoalmente seus pimpolhos para a primeira separacao da familia. E que separacao traumatica e emocionante! Muitos pais estao pedindo para irem junto com os filhos, muitos filhos estao pedindo para irem junto com os pais, mas nao tem jeito. Nos onibus de Tulane, soh alunos e funcionarios.

Entreouvido no celular: Jeff, you have no idea! I bet I'm having a much more exciting orientation week than you!

Alias, nao sei como esse povo consegue. Estah todo mundo aqui no hall falando no celular. Deve ser pra fora do estado. Nao consegui falar com nenhum dos tres numeros de celular locais para os quais liguei. A rede, obvio, estah congestionada. Em Set.11, eu tb tentei ligar pra minhas amigas em NY e soh consegui get through as 4 da tarde.

Ultima nota: que deus me ajude, mas quanta mulher bonita, na flor da idade, de havaianas, anel de dedo do peh, tornozeleira, pezinho feito, pedicure francesinha, esmaltes de todas as cores, incluindo dourado, prateado, azul, verde, ui, que delicia.

Agora nao tem mais fila, mas tb nao tenho mais nada a dizer. Entao, tchau.

UPDATE IV

A Cruz Vermelha preve que, se a cidade nao for evacuada e for de fato atingida por um furacao, as mortes podem chegar a 100 mil. Bota gente nisso.

Jah me perguntaram se nao estou levando tudo muito bem. Olha, os proximos quatro dias vao ser, no minimo, desconfortaveis e estou sim muito preocupado com o Oliver. Mas jah q o estupro eh inevitavel, o jeito eh pelo menos aproveitar pra observar a natureza humana e cacar boas historias.

Meu lema eh o seguinte: o que nao mata, sempre rende boas historias. O que mata, entao, rende excelentes historias.

UPDATE V

Essa porra desse onibus nao sai. Jah sao 6:20.

Pela TV, a evacuacao estah indo muito bem, todas as autoestradas estao andando, nada de caos em nenhum ponto da cidade, nem engarrafamento.

Mas tambem, em parte, eh porque as ultimas duas evacuacoes foram a toa. Fizeram o mesmo drama que fizeram agora, todo mundo evacuou, deram problemas terriveis nas estradas, e nada de furacao. Mudou de direcao na ultima hora.

Entao, muitos nativos simplesmente teimaram que dessa vez nao vao sair. O estado jah gritou lobo vezes demais. Foda-se. They will ride it out.

Good luck to us all.

UPDATE VI

Sao 5 e meia da manha, estou no ginasio da Jackson State University, no Mississipi, em um computador emprestado. Por aqui, tudo bem, mas nao vou abusar escrevendo muito, depois faco um relatorio mais detalhado. Estou tirando fotos.

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Meus três livros preferidos sobre Nova Orleans e o furacão Katrina: The Great Deluge: Hurricane Katrina, New Orleans, and the Mississippi Gulf Coast (se só puderem ler um, leiam esse) // The Year Before the Flood: A Story of New Orleans // 1 Dead in Attic: After Katrina

 

27.08.10


Categorias: New Orleans

Sobre o Conceito de Tempo

Uma amiga perguntou:

Quando você voltou de um mês na Ásia, o Oliver surtou de felicidade?

E eu respondi:

Não. Ele não percebe o conceito de tempo. Pra ele, foi como se eu estivesse voltando de um dia fora.

Minha amiga discordou veementemente e começamos a conversar: será que animais conseguem mesmo apreender o conceito de tempo. Se conseguem, como?

Afinal, existe isso de "tempo", assim, abstratamente, concretamente, ou será que o tempo não é só mais uma construção humana para tentarmos fazer sentido do universo?

* * *

Vejamos o que diz a ciência.

Da descrição da Amazon de The End of Time: The Next Revolution in Physics, de Julian Barbour, que pretendo ler:

Where does the time go? Independent physicist Barbour presents an unusual alternate to the standard way of viewing the four-dimensional universe (three spatial dimensions and time), beginning with how our perception of time is formed. Time, he says, does not exist apart from events: the motions of the sun and the stars, the mechanical movement of a clock. Rather than truly feeling the passing of time, we merely note changes in our surroundings, described by the author as a series of "Nows," like frames of a motion picture. ...

Barbour is a research physicist who works without formal ties to the academy. Here, he presents his thesis that time and motion do not exist; they are illusions. The first portion of the book is rather philosophical in tone, but most of the work is concerned with the struggle to resolve the disparities among classical physics, quantum mechanics, and general relativity. Barbour argues that the omission of time from the foundations of physics will enable scientists to achieve a unified theory of physics.

* * *

A física encontra o Zen.

Do livro The Way of True Zen, do Mestre Taisen Deshimaru, mestre do meu mestre:

If you are totally present to yourself, concentrating in body and mind, in the fullness of here and now, without holding anything back, an instant can become an eternity. This instant now is all that is important, it is eternity; past and future are nothing but dreams and imaginings, visions.

All time, all life is only an instant, and so it is impossible to analyze, categorize, conceptualize. It is only a series of steps, so many here-and-nows. So the most precious thing in our life is to walk along the path, the way that has never been tried, that is never experienced twice.

Time is not a line, but a series of now-points. ...

Experience is here and now. Time exists only now, existence exists only now. The past and the future are not existence. Every instant experienced is a point, and the series of points makes a line but leaves no trace. Only here-and-now exists.

It is completely senseless to think about what comes after death, about heaven, paradise. It is not necessary to ask questions about what we become after this life. Such questions are the fruit of egoism, and torment people unnecessarily.

Here-and-now contains eternity.

Ficções JORGE LUIS BORGES

* * *

Por fim, literatura, meu campo.

Qual é a relação entre tempo e memória? Será que um não é a origem do outro? Existe tempo sem memória ou memória sem tempo? O conto Funes, el Memorioso, de Jorge Luis Borges (que pode ser lido de graça aqui) conta a história de um homem que tinha a memória tão prodigiosa que não percebia a passagem do tempo. Trecho de um texto meu sobre esse conto:

"Funes, O Memorioso", ostensivamente sobre a memória e o esquecimento, também revela-se um conto sobre o tempo – já que nem memória nem esquecimento podem ser entendidos exceto em função do tempo. É sintomático que Funes tenha a capacidade de relembrar um dia nos seus mínimos detalhes ("esos recuerdos no eran simples; cada imagen visual estaba ligada a sensaciones musculares, térmicas, etc."), mas para isso ele necessite de um outro dia inteiro. Para Funes, a memória é um traiçoeiro pacto do diabo, um sinistro jogo de soma zero: para cada dádiva que recebe precisa fazer um sacrifício de igual valor.

"No sólo le costaba comprender que el símbolo genérico perro abarcara tantos individuos dispares de diversos tamaños y diversa forma; le molestaba que el perro de las tres y catorce (visto de perfil) tuviera el mismo nombre que el perro de las tres y cuarto (visto de frente)."

Por um lado, a prodigiosa memória de Funes fazia com que vivesse em um eterno presente: como o cachorro que ele observa, Funes também vive de minuto em minuto, sempre no presente, fora de qualquer tempo sequencial histórico. Por perceber tudo, Funes não percebe nada: ao registrar minuciosamente todas as diferenças entre o cachorro das três e quatorze e das três e quinze, Funes não concebe conceber que animais tão diferentes entre si (com ângulos, sombras, expressão diferentes) possam ser o mesmo animal. Ironicamente, Funes vê tudo, menos a passagem do tempo – que é justamente o que conecta o cachorro das três e catorze ao das três e quinze, "mesclando-os" em um mesmo animal.

Por outro lado, entretanto, ao ver tudo e registrar tudo, Funes percebe passagem do tempo talvez melhor do que ninguém: todo dia, diante do espelho, cada aspecto de sua progressiva decadência física lhe é surpreendente:

"discernía continuamente los tranquilos avances de la corrupción, de las caries, de la fatiga. Notaba los progresos de la muerte, de la humedad."

Na verdade, resta uma dúvida: se não conseguia perceber que o cão das três e catorze e o das três e quinze eram o mesmo animal, conseguiria perceber que o rosto no espelho de ontem e o de hoje, um pouco mais velho, pertenciam à mesma pessoa, ele, Funes? Será que sua prodigiosa memória não teria o efeito de fazer com que nem mesmo se reconhecesse no espelho, que sumisse completamente enquanto indivíduo? Será esse o preço da memória? ...

Funes simplesmente não vê o tempo: vive somente no presente e sua existência é ahistórica. Tem poderes mentais milagrosos (poderiamos dizer amaldiçoados), mas quanto mais recorda, mais torna-se incapaz de perceber qualquer sequência temporal. Para ele, é como se o tempo não existisse: cada cachorro observado é um novo cachorro. O tempo não passa, ele se reinicia a cada nova observação. O cronômetro está sempre sendo zerado.

* * *

E assim, voltamos ao Oliver.

Por tudo o que conheço de cachorros, minha impressão é que os fenômenos acontecem (eu acordo, eu saio de casa, eu volto pra casa, o sol nasce, o sol se põe, ele tem fome, ele come, ele tem fome, etc) mas Oliver seria incapaz de transformar esse acúmulo de fenômenos em uma sequência lógica e convencionada chamada "tempo". Para mim (seria talvez wishful thinking?), cachorros vivenciariam "o tempo" da forma mais zen possível e ahistórica possível, sempre no "here-and-now", sempre em um eterno presente que nunca termina.

Talvez por isso sejam tão felizes.

* * *

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Três livros maravilhosos sobre Zen Budismo: The Gateless Gate: All 48 Koans, with Commentary by Ekai, called Mumon, An Introduction to Zen Buddhism e Buddhism Without Beliefs: A Contemporary Guide to Awakening.

 

24.08.10


Categorias: Livros

Transparência Abusiva

Email que recebi:

Acabei de ler sua criação (Mulher de um Homem só). De uma vez só, de uma só vez. Não consegui que não fosse assim. Por que todas somos Carla e agimos como a Julia. E como pode um homem saber (d)escrever tão bem a alma insegura de uma mulher? É abusivo sermos tão transparentes assim para você.

Mas o Murilo me revolta. Será possível que não tenha culpa em nada? Estou duvidando, todos tem culpa. Talvez a culpa seja apenas dele. Talvez seja apenas da Raquel. Não, não, a culpa é toda de todos.

Não sei... seus personagens me perturbam, ficam em minha cabeça. São pessoas que conheço, sou eu. É a mim.

Muito obrigado.

* * *

Mulher de Um Homem Só, 3a edição

Mulher de Um Homem Só (2009), romance.
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24.08.10

Companheiros & Cidadãos em Cuba

Um trecho do meu romance em andamento Cria da Casa: Histórias de Empregadas & Escravos:

"Ele começou dizendo, muito sério e gaguejando um pouco: 'c-ciudadanas Escobar y Montero...'. E eu interrompi, rindo, querendo quebrar um pouco da tensão: 'por favor, ciudadana, ¡no! ¡compañera!' Mas ele fechou a cara, juntou coragem, e falou diretamente para mim, deixando bem claro que, dali em diante, eu estava formalmente excluída da Revolución, do socialismo e do projeto do Hombre Nuevo: 'ciudadana Escobar, por su comportamiento contrarrevolucionario e imoral, yo le ruego que solicite baja docente de la universidad.' E olhando para Yadira, acrescentou rapidamente: 'Las dos.' Eu não sabia como reagir. Carnavais, Malandros e HeróisYadira, como sempre, não disse nada: senti apenas sua cabeça caindo em meu antebraço e ali ela ficou.

* * *

E uma nota explicativa:

Em Cuba, ser chamado de "compañero" significa estar dentro da Revolução, do projeto socialista, ser patriota. Já ciudadano, ainda mais quando usado especificamente como oposto de compañero, tornou-se quase um termo pejorativo. Essa distinção não é muito diferente daquela abordada por Roberto DaMatta, no seminal Carnavais, Malandros e Heróis: Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro: em nosso país, quando um policial se dirige a alguém como "cidadão" (ou "indivíduo") é sempre para imediatamente fazer pesar sobre ele o implacável peso da lei. Tanto em Cuba quanto no Brasil (em oposição aos Estados Unidos), ser "cidadão" é o último degrau da taxonomia política: no Brasil, o ideal é ser "pessoa" (ou seja, inserido em uma rede social) e, em Cuba, "companheiro" (ou seja, inserido no projeto socialista). Pelo mesmo motivo, em Cuba, dependendo do tom, até o tratamento de "señor" pode ser considerado ofensivo. Rosa Maria, ao ser chamada de ciudadana, já soube imediatamente que sua situação era delicada. Aos companheiros, tudo; aos cidadãos, a lei.

* * *

Não, meu romance não têm notas explicativas: essa noveleta, especificamente, é narrada por um intelectual que adora notas de rodapé.

* * *

Meus livros à venda. Se for comprar, pra fins de comissão, prefiro fortemente que compre pelo meu site. Também à venda na Amazon. Vá no Skoob e dê sua opinião.

Liberal Libertário Libertino - Crônicas Mulher de Um Homem Só

Radical Rebelde Revolucionario - Cronicas Cubanas, por Alex Castro Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro

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22.08.10

Formspring

Continuo respondendo, mas perguntas anônimas só serão respondidas se forem muito interessantes e muito educadas. O povo fica tentando me provocar, não consegue e eu me divirto muito, mas não vou ficar perdendo meu tempo respondendo provocador: http://www.formspring.me/alexcastrolll

 

21.08.10


Categorias: Egotrip

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diário de leituras 2010