Achados na Noite

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Em seu estupendo álbum "Perdido na Noite", Agnaldo Timóteo embalou num bolero uma bela lição...

"Somos amantes do amor liberdade. Somos amados por isso também. E se buscamos uma cara metade. Como metade nos buscam também. Estou perdido. Estamos perdidos. Mas a esperança ainda é real. Pois quando menos se espera aparece uma promessa de amor ideal"

Eram jogados 1976 e Timas ainda não encontrara o basta definitivo para seu coração em frangalhos. Estava perdido na noite de muitos, sempre à procura da mesma ilusão. Aparentemente, havia deixado de lado as idéias caóticas de um ano antes em "Galeria do Amor", quando o polêmico negrão confessou ter flertado com emoções diferentes ao freqüentar o célebre corredor da viadagem carioca. Mas seguia desgraçado da cabeça, se largando forte na náite.

E se quase 20 anos depois, Timóteo ainda brutalizasse em canções as chagas de seu coração vazio, agora num fim de feira total, humildemente eu lhe dirigiria uma palavra amiga:

"Bróder, deixa com o béque..."

Sem demora, partiríamos em alta velocidade para a Travessa da Lapa, quase esquina com a Sete de Setembro, onde reside o Clube dos Solitários. Local este que recebeu a última expedição da minha pessoa e da pessoa de Rodrigo Abud enquanto produtores desse site. Nos fizemos presentes nessa tal fortaleza do amor, espaço para enfim organizar as tampas em suas respectivas panelas. Curiosos pela notável fila de velhinhos que se aglomeram diariamente defronte às dependências do clube, fomos lá ver qual é da parada.

Os contactos com o proprietário da brincadeira estavam todos agilizados por Abud, que não se limitou a acertar a pauta, foi muito além, e com apenas cinco minutos de conversa telefônica já possuía fortes laços de amizade com o mesmo. Seu nome: Rosaldo Pereira, um entusiasta do amor.

Derrubou é pênalti

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Aportei antes em nosso destino. O frio castigava a capital paranaense, e dada a meia dúzia de cinco ou seis que enfrentavam o sereno na porta do estabelecimento, nada parecia indicar um embalo de sábado à noite. Mas nós sabemos que os velhinhos são ordeiros, organizados, pontuais e incansáveis. Portanto, quando adentrei ao gramado em nada me estupefaceei ao constatar que, naturalmente, lá estavam todos a bailar. Minutos depois, Abud estava ao meu lado e a configuração de dupla foi acionada.

Não era assim um público de Fla-Flu, mas até que a terceira idade se adonava bonito do local. O clube é composto por dois ambientes distintos. Vencida a entrada, um grande salão recheado com mesas cobertas por toalhas brancas. E conjugado, um espaço para a dança com o palco e o bar. Destacado no cenário, um pequeno bunker à direita do palco, que de longa distância parecia ser a casinha do DJ. Descobrimos ser o paradeiro de ninguém menos que Rosaldo Pereira, que mostrava não ser somente o responsável pela burocracia do acontecimento, mas também por toda a programação musical.

Profissão Cupido

Durante 10 anos, Rosaldo trabalhou na Rede Globo de Televisão, marcou presença na OM, CNT etc. Milita no rádio há mais de 30 anos, atuando em atrações musicais e jornalísticas. Atualmente, comanda o programa "Em nome do Amor" na rádio Colombo, mega sucesso no ramo casamenteiro, com simplesmente 3.800 enlaces oficiais registrados desde janeiro de 1982, data em que foi ao ar pela primeira vez. Tanto sucesso fez a audiência sentir a necessidade da realização de uma celebração, e daí nasceu a idéia de reunir os ouvintes num baile. No dia sete de setembro de 1990 o Clube dos Solitários abriu as portas. E passados quase 16 anos já atingiu a marca de 640 casamentos oficiais.

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Rosaldo Pereira, cupido na Terra

"Todo mundo pedia uma festa, um baile, e o clube supriu essa vontade de ter um ponto de encontro dos ouvintes do programa", relembra Rosaldo. O evento foi crescendo e na medida da participação das pessoas carecendo de locais mais amplos para a sua organização. Sendo assim, mudou de endereço diversas vezes, mas na Travessa da Lapa já são seis anos ininterruptos.

Como apresentador do programa e organizador do baile, Rosaldo não poderia se furtar aos convites para ser padrinho dos casamentos arrumados graças ao programa e o baile, e por muito tempo morreu numa grana nervosa pra agradar a turma. "Gastava muito dinheiro sendo padrinho de tanto casal, aí passei a recusar gentilmente os convites", explica o Santo Antônio das Araucárias.

Paradoxalmente, o pai da matéria nunca foi um coração solitário. Rosaldo é casado há 25 anos, e conta com a ajuda da esposa que trabalha no bar. A casa abre de quarta a domingo, e o ingresso vai de dois a cinco cru-crus dependendo do horário. Sábado é dia de som ao vivo, sempre com uma banda diferente. E quando o som mecânico é que comanda, Rosaldo ferve a pista com country, pagode, forró, xóte, boleros, vanerão e derivados.

Com picos que chegam a 940 pessoas, dá pra descolar um numerário gostoso com o evento, mas não é possível tocar a vida só dando uma de cupido. "Não posso negar que tenho um retorno financeiro, mas não é o suficiente. Temos uma série de gastos, como com segurança, por exemplo", revela.

Os mais de 4.440 casamentos no cartel proporcionaram histórias incríveis das pessoas que apostam nas cartas para encontrar o grande amor de suas vidas. Dentre tantas, Rosaldo destaca uma realmente muito curiosa. "Uma das passagens mais incríveis foi a de um casal que ficou cinco meses trocando cartas através do programa, marcaram de se conhecer e quando chegaram ao encontro descobriram que eram vizinhos de frente".

Passeando de Fusca

O desenrolo com o MC, DJ e chefão do esquema foi muito agradável, e sua pequena enterprise musical era mesmo aconchegante, mas eu e Abud carecíamos de um pouco de adrenalina correndo nas veias. E nada melhor que dar aquela riscada nos tacos para ficarmos bem mais à vontade. Para tanto, contamos com a colaboração de duas nobres senhoras, que gentilmente nos concederam o prazer de um breve saracoteio.

Foi quando a mão de Margarida repousou suavemente sobre a palma da mão de Abud, ao mesmo tempo em que Marili Lúcia apresentou-se para ser o meu par. Pouco à vontade nos compassos gauchescos, mandamos um magro dois por dois pra não machucar os pés de tão simpáticas companhias. No ligeiro papo sobre amenidades, descobrimos serem as duas descasadas e à procura de um namorico de portão. Agradecidos pela importante introdução ao mundo da dança, nos despedimos e deixamos as duas senhoras novamente livres para voar.

White Dance Machine

Enquanto flanávamos pelo salão, atentamos para uma figura que parecia ser o responsável por distribuir os coletes na pelada, tamanha era a categoria com que se portava. Seu nome: Wenceslau. Não tinha tempo ruim. Mudava a faixa e lá estava ele sempre acompanhado circundando o salão. Wenceslau parecia ter fugido de um parque de diversões com atrações humanas, devido à precisão cirúrgica com que executava seus movimentos de baile, tanto indo como vindo, sempre de forma absolutamente idêntica. Sua despigmentação e o repertório enxuto de breaks nos sugeriu um condinome para ele: o Carrosel Albino.

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Wences, o Carrosel Albino, circulando

Aguardamos os três segundos regulamentares que Wenceslau costumava ficar sem par para interpela-lo e rapidamente descobrimos ser ele mais do que um dançarino de presença, mas principalmente uma figura simpaticíssima. Habitué do clube - são cinco anos no currículo - Wenceslau quer casar. "Sempre pinta uma namorada aqui, outra ali, mas eu estou procurando um compromisso sério", declarou. Na sequência, perguntamos qual o seu ritmo preferido, visto que se tratava de um bailarino contumaz. "De 42 a 45 anos", despombalizou ao se referir à faixa etária que procurava, não dando bola pro questionamento. Pois então tivemos que insistir: qual tipo de dança você mais aprecia? "Domino mais o xóte e o vanerão", atacou.

Ralando as partes

Quando não mais que de repente sentimos um forte fluxo de libido no ar. E foi só bater os olhos para sabermos de onde era emitida a potente onda sexual que inundava a pista de prazer. Francisco e Consuelo transpassavam as pernas com energia, encaravam um ao outro com olhos de sedução, se arranhavam felinamente, escancaravam ao mundo que o solavanco ali era somente uma questão de tempo e oportunidade. Formavam de longe o par mais sensual da noite.

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Balançando a roseira no salão

Abordados para a execução dos flashs, Consuelo questionou Abud se ele não era protético, não se sabe com qual fundamento. De certo, apenas que a quarta-zaga e zaga-central de Francisco estava um tanto quanto desguarnecidas. Devidamente clicados os dois voltaram aos movimentos peristálticos.

A banda Bela Vista já enchia as caixas com a sonoridade dos pampas quando eu e Abud decidimos mudar de ambiente, desfrutar um pouco de recolhimento no lounge. Sentamos à mesa e passamos a filmar a rapaziada idosa interagindo animadamente entre uma cervejinha e outra. E, registre-se, o público do clube não é composto apenas daqueles que utilizam as portas traseiras do transporte coletivo. Um número razoável de jovens também se fazia presente, mas a terceira idade comanda, especialmente no domingo.

Com o adiantado da hora, e saciados em nossa curiosidade, decidimos nos evadir do local. Os corações devidamente abastecidos de alegria. E, após conhecer o clube, uma velha canção dos Originais do Samba bombando na mente: "se você saiu por aí e não conseguiu arranjar alguém, deixe que alguém saia por aí e consiga arranjar você".

Programa Quadro Casamenteiro - das 22 às 23hs de segunda a sexta na Rádio Colombo do Paraná AM 1020 Khz

Clube dos Solitários - Travessa da Lapa, nº 30 - Centro
Fone do Clube: (41) 3019-6160

Permalink por André Pugliesi em 27.06.05 Email .
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Swingando na noite

André: E aí Abud? Descolei aquele esquema, tá pronto?
Abud: Eu nasci pronto.

Com esse brevíssimo diálogo, eu e meu dileto amigo Abud refizemos nossa parceria e nos jogamos novamente na night curitibana. Para quem não sabe, parceria que já rendeu uma série de momentos memoráveis e que há tempos não pisava o gramado. E que nesta oportunidade seria colocada à prova em mais uma missão extremamente ousada. Após conferirmos a desgraceira de um cinema pornô e o skindô de um concurso carnavalesco de garotas de programa, chegava a hora de quebrar um novo paradigma.

Atentos às preferências do consumidor, de botuca nas nuances do mercado, optamos por mais uma incursão ao inebriante mundo da sacanagem. Afinal, o povão gosta mesmo é de putaria. E transferindo os conceitos ultramodernos da televisão brasileira para o universo blogal, compactuamos em mandar às favas os escrúpulos e guguzar. Meio olho no conteúdo, um e meio no Ibope. Dança mallandrinha!!

Para tanto, optamos por uma matéria de apelo sexual incontestável. Ou seria de incontestável apelação sexual? Tanto faz. Eu e Abud traçamos nosso destino na quarta-feira, dia 24 de junho, comparecer a uma noite na mais famosa casa de swing de Curitiba. E para evitar qualquer problema jurídico, não revelarei o nome do estabelecimento, digo apenas que é num bairro totalmente desconhecido de Curitiba, famosíssimo pelos restaurantes italianos. Chamemos então o local de o Templo Máximo da Comunidade Swingueira.

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De frente pro crime

Para os desconhecedores de tal prática esportiva, o swing se caracteriza pela troca de parceiros entre casais nas relações sexuais. Uma noite em que os casais permitem-se realizar as mais diversas fantasias com outros parceiros, sem que isso influencie na relação afetiva, uma experiência absolutamente carnal. Inconcebível para a maioria, notadamente se trata de uma modalidade cada vez mais praticada. Segundo minhas aferições teóricas sobre o tema, o prazer está em compartilhar as experiências extra-oficiais com sua parceira, apenas observando ou mesmo atuando.

Preparação - Antes de batermos de frente com o nosso destino, fui obrigado a passar as caras ante a resistência natural de minha cônjuge sobre a idéia. Dada a minha condição de católico carismático fervoroso, fui ter com minha companheira a fim de conseguir o alvará de liberação para mais uma empreitada pouco convencional. Como ela bem sabe, seria incapaz de decepcionar o Padre Marcelo Rossi, quiçá à fortaleza da família canarinho, sendo assim, ela não demorou em relevar minhas fanfarronices e permitir meu intento. Garanti que incertezas e preocupações relativas ao meu comportamento não deveriam entrar na conta.

Liguei para o Templo Máximo da Comunidade Swingueira e confirmei minha presença e do Abud na noite de quarta-feira, a única aberta aos homens e mulheres solteiros. As vagas são limitadas e a procura é grande. São cobrados 80 reais de entrada para cada solteiro, o casal também é 80 mangos, incluindo o couvert e um jantar. Shows de estripers, masculino e feminino, também são servidos. Lá dentro, paga-se apenas o que consumir. A casa abre às 21hs e fecha por volta das 4hs. Obviamente, não é permitida a entrada de nenhum tipo de instrumento de gravação, sendo vetado o uso de máquina fotográfica.

Respeitadas todas as esferas burocráticas, diplomáticas e conjugais, finalmente estávamos aptos a realizar a aventura respeitando todas as normas legais. Quando do acerto da reserva, me foi alertado pela moça que deveríamos trajar roupa esporte fino. Um empecilho estava criado. Todos sabem que sou do povão, das massas, galera, geral, da turma do gargarejo. E como tali, possuo apenas um par de sapatos, utilizado em todos as formaturas, casamentos, batizados, exames de análises clínicas e entrevistas de emprego que sou convocado. Por tratar-se de sapatos de nobre linhagem italiana, cai bem utiliza-los apenas com terno. Resultado, ou eu iria de terno, ou teria que emprestar um calçado mais adequado para um evento sexual dessa magnitude. Questionado pela minha pessoa quanto ao empréstimo, Abud, Top Five em matéria de elegância na noite, não titubeou em apontar o terno como a vestimenta perfeita para ocasião. Sapato, calça, paletó e gravata nos tornariam cidadãos respeitáveis, um subterfúgio perfeito para desviar a atenção dos presentes em nossas faces jovens e nos emprestar um ar responsável e ereto.

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Na pinta errada

Deixei minha residência rumo ao encontro com Abud em local incerto e não sabido. Avistando o jovem, reduzi para terceira marcha e aprumei próximo ao meio fio para que o mesmo pudesse saltar espetacularmente e alojar-se em minha possante rodonave com ela em movimento. Juntos novamente, enfim nos dirigimos ao Templo Máximo da Comunidade Swingueira. Devido ao adiantado da hora, e como não seria possível registrar as peraltices no local, celebramos a nossa empreitada com o registro do joiado e psicodélico portfolio que vocês estão conferindo.

Penetrando no mundo do swing - Seguindo as orientações, paramos o carro na entrada, sinal de luz obrigatório, e fomos recepcionados pelo manobrista e pela promoter da casa. Recebemos as fichas de consumação, revelamos nossa condição de estreantes e fomos gentilmente apresentados pela promoter aos diversos recintos do clube. Para os solteiros são quatro áreas de livre movimentação, e uma outra exclusiva aos casais. Segue o croqui.

Piso superior

Suítes exclusivas para os casais.
Piso intermediário
Uma espécie de boate onde é servido o jantar, rolam as danças, brincadeiras e shows eróticos.

Piso inferior

Dark Room - uma sala escura com uma grande cama.
Labirinto Erótico - um caminho tortuoso com diversas cabines idênticas às de lojas de roupas.
Salão - uma mega cama e uma cadeira erótica.

Na parte intermediária, uma decoração de gosto pra lá de duvidoso, com fitas e arcos fosforescentes por todo o teto. Parecia uma instalação do sistema solar numa feira de ciências do primeiro grau, ou um Guto Lacaz anos 80 de quinta categoria. Os outros ambientes não dispunham de decoração nenhuma. Aliás, seria totalmente desnecessário. Confiamos na descrição dos ambientes feita pela promoter, afinal, não dá pra enxergar porra nenhuma. E é justamente aí que mora o perigo. O Dark Room é um breu só. O Salão e o Labirinto recebem uma fraca iluminação vermelha. Segundo a promoter, basta acostumar a vista para enxergar nesses ambientes. Mais tarde, nós entenderíamos que o enxergar a que ela se referia era, no caso, alguns vultos perambulando, fazendo polichinelos, abdominais e flexões de braço numa curiosa e ofegante dinâmica de educação física. Um par de óculos com visão noturna faria furor e elevaria o grau de aproveitamento da incursão no Templo Máximo da Comunidade Swingueira a níveis estratosféricos.

Demarcando o território - Convidados pela simpática promoter, eu e Abud sentamos numa mesa estratégica, localizada num cantinho discreto e aconchegante. Na primeira investida da garçonete, cardápio em mãos, declinamos docemente, postergando nosso primeiro drink. Estratégia que seria usada ao longo de toda a noite. Fortalecendo a velha máxima que diz que pobre é uma merda. Praticamente todas as mesas estavam reservadas, com direito a nome do casal na plaquinha sob a mesa, fato que comprovou a assiduidade dos casais nos eventos. As mesas iam sendo ocupadas aos poucos, com cumprimentos efusivos entre os mais chegados e o proprietário/gerente do clube. Pouco tempo depois de nos estabelecermos, recebemos em nossa mesa a companhia de Sergião, O Professor, um carioca perdido na noite curitibana. Sérgio nos passou os macetes principais com seu carioquês invejável, salientou os limites e perdeu-se na penumbra. Mais tarde vocês entenderão o porquê do apelido do bróder.

É impossível delimitar o perfil dos freqüentadores. Gilberto Freyre ia curtir. Um mix variadíssimo de pessoas de todas as classes, credos, cores e libertinagem à flor da pele. Comprovando toda essa miscigenação maravilhosa desse povo alegre do Brasil. Tem aquela sua vizinha bem apessoada, tem a tia da cantina, o professor de História, a patricinha, o empresário, tem secretária (e como tem), toda a sorte de barangas, gostosas, galãs e tiozões barrigudos para todos os gostos e idades. Deixe o preconceito de lado e creia, o swing não é uma prática para pervertidos em busca de satisfazer uma sanha sexual, e sim uma opção de pessoas absolutamente convencionais.

No tocante a formação dos casais, baseados no método catadão de avaliação, e contando com nossa capacitada visão periférica, concluímos que pelo menos metade parece real, e alguns forjados, entre amantes e possíveis garotas de programa. Assim como na parcela de mulheres solteiras no local. Um tanto bastante comuns, outro bem duvidoso. Curiosamente, as mulheres andam em bando pela casa. O que não é permitido aos homens, com o objetivo de não intimidar os casais diante de grupos de rapazes com ares de marotagem. A homarada pode ficar, no máximo, em duplas. Por fim, os únicos idiotas de gravata no local eram eu e o Abud. Óbito.

O responsável pela trilha sonora seguia os mandamentos da cartilha do DJ de zona, brindando os presentes com sucessos dos anos 80, clássicos de Bonnie Tyler, Olivia Newton-John, Donna Summer e dá-lhe Roxette. Até uma Norah Jones escapou nos alto-falantes. Servido o jantar, não poderíamos nos deparar com um cardápio mais inusitado. Comida mineira. A leve gastronomia de Minas Gerais. Mais inapropriado que isso, só uma feijoada completa. Quando me deparei com torresmos, tutu de feijão, lingüiças e outros ingredientes de elevada periculosidade flatulática, imaginei a possibilidade de uma posterior hecatombe fruto da fissão dos gases graças ao solavanco dos corpos. Iniciou-se então a primeira grande experiência meta-tosco-filoso-física da noite. Um prosaico jantar com pessoas que mais tarde estariam chegando, despudoradamente, as vias de facto logo à minha frente. Sensacionalmente surreal. E conforme a cartilha oficial do ráuli, participamos do jantar naturalmente, fazendo um social e aproveitando para dar uma escaneada na turma.

Esquentando os tamborins - Recolhidos os pratos e talheres, e respeitado um período mínimo para a complexa digestão do jantar, a pista de dança bombou. Sem demora os casais partiram para um animado bailão. Logo após, foi dada a largada para as brincadeiras, uma seqüência de dinâmicas possivelmente idealizadas por um verdadeiro Içami Tiba erótico. Com os casais na pista, começou a brincadeira do chapéu, um misto de dança da vassoura e da cadeira. A primeira oportunidade para os casais realizarem um approach. Mulheres passavam o chapéu branco, homens o chapéu preto, quem estivesse com eles na mão quando a música parasse era desclassificado. Como uma espécie de rodizião humano, em alguns momentos pinta o mignon do próximo no teu prato, em outros o matambre alheio. Agito brilhantemente comandado pelo gerente da casa, empunhando o microfone e revelando toda a sua faceta de animador de auditório e psicólogo amador. Ou armador, como queiram.

Em seguida, foram apresentados os shows eróticos. Primeiramente, o consagrado estripe feminino. Uma formosa loira paramentada para festa junina jogou lenha na fogueira da rapaziada. Em meio a saltos daiânicos e as tradicionais coreografias, pasmem, incendiou uma senhora que não se fez de rogada e acompanhou a loira no meio do palco numa performance de lesbianismo. Animação para os homens, animação para as mulheres. Dois muquinhos, muito originalmente travestidos de zorro e motoca, adentraram ao recinto saltando freneticamente e arrancando a roupa para delírio e afobação da periquitaiada. Justo, sem dúvida, ainda mais se considerarmos que ao contrário da loira, os rapazes não ficaram totalmente nus, poupando o público masculino de suas vergonhas.

Finalizadas as apresentações, adentraram ao recinto rapazes e moças da casa para elevar o moral do pessoal. De nosso posto, eu e Abud, respeitando os limites da nossa condição de iniciantes, pudemos finalmente entender e observar, in loco, o famoso e, muito raro, ninguém é de ninguém. Casais, solteiros, solteiras e profissionais de ambos os sexos recheavam de lascívia e desprendimento a pista de dança. Parecia a grande área numa final de Copa do Mundo com um escanteio decisivo aos 45 minutos do segundo tempo. Um agarra-agarra mútuo absolutamente insano, mulheres chargeadas por vários homens, muquinhos apalpados fervorosamente etc e pau. Uma profusão de órgãos pudendos veio à tona sem o menor constrangimento. Tal qual nas clássicas revistinhas de sacanagem de carnaval, só que ao vivo. Fantasias mil.

E se o conceito do ninguém é de ninguém já havia sido apresentado, foi definitivamente encerrado e registrado com a brincadeira do relógio, um esquema simples em mais uma dinâmica entre os casais. Os casais formam um grande círculo. Som na caixa, a luz se apaga totalmente e assim permanece por alguns bons segundos. Quando acende, os homens permanecem no lugar e as mulheres seguem como se fosse um ponteiro de relógio, fazendo o papel de corrimão. Ou seja, todas as mulheres passam por todos os homens, acabando a brincadeira quando os pares iniciais se formarem novamente. Embora não tenhamos conseguido ver, não é difícil imaginar o que acontece no escurinho. Um incrível congraçamento de salivas, mãos, peitos, bundas e correlativos.

A hora é agora e vâmo que vâmo - Concluída a aproximação, literalmente, dos casais, graças a toda aquela interação gostosa e sadia, finalmente a maionese desanda. Boa parte dos presentes desce para o piso inferior e perdem as estribeiras. Embora se passe longe dos limites do sexo convencional, nenhum grande absurdo é cometido. Basicamente, marido, mulher e um rapaz convidado liberam suas fantasias em público. Geralmente, o convidado chama na chincha e o marido, ou a mulher, apenas observa. E aí está o segredo da parada. O voyerismo. Segundo o Houaiss, o ato daquele que se excita sexualmente ao observar atividades sexuais de terceiros. Tão desinibidos quanto os praticantes, os observadores postam-se diante do ato e ali ficam flagrando sem qualquer tipo de constrangimento. Como cachorro sentadinho em frente ao frango de padaria. Seje no Labirinto Erótico, abrindo a cortininha, seje no Salão ou Dark Room.

Com um agravante, a seccional da punheta, esbaforida com a conjunção carnal desenfreada, manobra abertamente a genitália como se estivesse no sossego do lar. O que faz do território pouco iluminado um verdadeiro campo minado. Daí tira-se a importância de saber se movimentar pelos cômodos apertados com extrema malemolência, driblando os possíveis choques com outrem, evitando assim ser abalroado por um pênis em riste ou atingido por um míssil desgovernado de sêmen. No piso superior, exclusivo para os casais, a ferveção come solta. Impedidos de registrar os acontecimentos, eu e o Abud não poderemos dar certeza do que rola por lá. Sabe-se apenas que saliência pouca é bobagem.

E segue o baile. Dentre as mais variadas performances sexuais, destaque para o casal que utilizou a incrível cadeira erótica. A moça, de barriga pra cima, pernas e braços abertos, recebia o motobomba de seu parceiro e, ao mesmo tempo, dois jovens buscavam sintonizar uma melhor frequência girando os mamilos da sacaninha. Aos poucos alguns casais vão se desinibindo, outros partem para uma segundinha, terceirinha, e no fim das contas quase todo mundo entra na dança. Passado o impacto inicial, não restam grandes novidades em termos de movimentações e performances acrobáticas. Gemidos em maior ou menor escala de excitação, ou fingimento, são responsáveis pelos melhores momentos daí pra frente. O espírito de paudurescência esfuziante inicial da homarada vai dando lugar a um meia-vida melancólico conforme o término das apurações vai se anunciando. Os desesperados partem para a aventura do popular sopão, tentando garantir pelo menos uma tirada de cueca e assim não sair com o placar em branco.

Deitando o cabelo - A muáfa de sexo se adona do ambiente, deixando o ar denso e a permanência quase impossível. Com as dependências praticamente esvaziadas, eu e Abud decidimos por finalizar mais um capítulo de nossa história. Descemos para quitar nossas dívidas. Com o caixa ao lado da saída dos carros, pudemos desvendar um mistério que assolava nossas mentes. Um coroa estranho passou a noite observando sua companheira, um fiel exemplar da espécie grã-finas curitibanas quarentonas, sendo apalpada pela torcida do Flamengo. Em seu automóvel, a resposta do motivo de estar tão bem acompanhado. Um portentoso Audi, e até aí nada demais. Ao abrir a porta do automóvel, sacamos o pulo do gato. Estava lá um aparelho de DVD rolando um disco dos Bee Gees. Fechamos a conta, passamos a régua e quando estávamos batendo em retirada, tivemos tempo para uma pergunta para o Sergião, O Professor, passando pelo local:

André e Abud: E aí, quantas?
Sergião, O Professor: Quatro.

Atitude responsa - De tudo que podemos constatar com essa experiência, uma coisa é absolutamente inquestionável. O que poderia indicar um ambiente de vale-tudo, revelou-se muito respeitador e seguro. Como pregam as normas do swing, as mulheres mandam em tudo. Cabe aos homens demonstrar interesse e aguardar pela resposta da mulher. Caso ela aceite, tranqüilo. Do contrário, a negativa é absoluta e o homem deve aceitar. Em nenhum momento, homem e mulher, são obrigados a fazer algo que não queiram. Sem medo de arriscar, a nível de azaração, paquera, flerte, as meninas sentiriam-se mais seguras no clube do que em qualquer night média. O uso de camisinha, óbvio, é indispensável.

Permalink por André Pugliesi em 30.07.04 Email .
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