Bicho solto na areia

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"Abud, será que é preciso passar protetor na genitália?", pergunto, faceiro por tão curiosa ignorância e, ao mesmo tempo, temeroso com as possíveis conseqüências nefastas do que estava por vir. Afinal, cruzada a porta do vestiário - reparem, unissex - o sol comandava, reinando absoluto num céu azul alucinante.

Era sabadão, quase dez horas da manhã, e nossa brodagem em nome do jornalismo geraldino era retomada na Praia do Pinho, Santa Catarina, principal ponto naturista do nosso Brasilsão de Deus.

Pouco mais de 200 quilômetros em marcha ré, eu taxiava em frente à residência de Abud, em Curitiba, capital do Paraná, no início da manhã, saudado com o cantar dos pássaros, numa preguiça desgraçada. Quase nada perto da convicção de que a aventura pelado, com nada que se tem direito, seria muito boa.

Destino: nu

Cumprimos o pequeno trecho Curitiba-Camboriú na ponta dos dedos, embalados pelo mítico rock, este ritmo insinuante que faz a cabeça dos jovens. Se não fosse por uma disputa bem pegada com um tiozão e sua senhora, a bordo de um Fiat Hundred Forty Seven creme, poderíamos afirmar que a nova matéria se anunciava numa tranqüilidade incomum.

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Veloz e furioso

Pois foi só embicarmos na única entrada para o recanto naturista, estacionarmos na cancela - o parque peladeiro é dividido do “mundo normal” - para, enfim, sentir a adrenalina consumir as veias. Neste caso, reação um tanto previsível, considerando que em questão de minutos nos veríamos na responsa de chamar no Adão. Assim... tal e qual amarrar o tênis.

Sem demora, passamos as caras com a segurança que nos permitiu o acesso, facilitado pelo esquema armado na véspera. Faltava então, como obstáculo derradeiro, bater um papo com nosso contato na área: Alessandra, gerente da Pousada & Camping Praia do Pinho, estabelecimento que junto com um restaurante, reina absoluto na área.

Antes de última cancela já avistávamos, bem ao longe, corpos despidos flanando na areia. Contudo, nada comparável à cena que viria. Foi eu frear a rodonave, eis que surge de trás do muro, vindo em nossa direção, um 100% desinibido rapaz com seu pênis a pendular. Olhar absolutamente destreinado foi impossível não notar e, claro, se incomodar. Acabamos por cair numa risada extremamente nervosa, o estopim para uma possível queimada de filme que, certamente, despertaria desconfiança.

Sabendo disso, derrotamos rapidamente o choque, controlamos os impulsos e fomos digladiar com Alessandra. Prontamente, sacamos de nossas credenciais e intenções. "Olá, tudo bem? Eu sou o André, ele é o Rodrigo, somos jornalistas, essas são nossas carteiras. Sabe como é, deve pintar todo tipo de aventureiro por aqui. Viemos fazer a matéria que eu te falei ontem, lembra?", eu disse.

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Vista área do Pinho

Sem dar muita importância, e com um ar meio cabreiro, a jovem loura seguiu o combinado e convocou Valdir Nei de Melo, 49 anos, principal autoridade do local na posição de presidente da organização não-governamental Naturistas da Praia do Pinho (ONPP). Seria ele o responsável por nos acompanhar e mastigar as informações e regras da praia.

Com o mesmíssimo figurino que ostentava há cerca de cinco meses, ele nos recebeu. Corpo rotundo de tiozão, sacão balangando bonito e na pele castigada do sol a confirmação de que ali estava, sem dúvida, o general da quebrada. Tomado o primeiro jab no round anterior, assimilamos o golpe numa boa: sem crise nenhuma conversar com um total desconhecido despido e, conseqüentemente, de arma apontada (não engatilhada) para nós.

"E aí, Valdir? Seguinte, estamos fazendo uma reportagem sobre naturismo. Gostaríamos que você apresentasse o local, como funciona etc, certo?", iniciei. No que ele respondeu. "Sem problemas. Mas tem um detalhe, nesta faixa de areia em frente à pousada a nudez tem que ser total".

Vestidos com os óculos de sol

O aviso do presidente de que a partir de então teríamos que chamar no Adão era tudo o que nós queríamos ouvir. Viajamos para isso. Mas quando a bola está na marca da cal, com o Maraca lotado, jogados 47 do segundo tempo, é impossível não rolar uma aflição. Sem contar que, em nome da promoção, do registro jornalístico, facilmente conseguiríamos uma permissão para circular com o material ensacolado.

Com o intuito de amadurecermos a idéia antes de manobra tão ousada, pedimos um break ao nosso guia e, enquanto ele retornava para a areia, fomos tomar a decisão. No entanto, nem foi preciso o parlamento, pois, com grande sensatez, Abud mandou. "Foda-se, vamos nessa".

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Chamando no Adão pra posteridade

Foi nesse momento que nos deparamos com a primeira grande diferença do mundo naturista para o universo degradado, hostil, capitalista falido das aparências. Ao contrário do que geralmente acontece quando se vai desprevenido ao mar, não foi preciso descolar um mocózinho ou organizar a tradicional paredinha de toalha para trocar o modo underwear pelo bermuda (sunga não) ou biquíni. Dessa forma, fomos ao vestiário (unissex, faz total sentido), tiramos os tênis, meias, camiseta, bermuda, é um, dois, três e... pronto, óculos de sol e nada mais!

A sensação de ficar peladão em público é sinistra - vestiário é fichinha. Simplesmente, ali está você, com o aparelho genital na vitrine, e um monte de gente que sequer trocou um rápido cumprimento com a sua pessoa na escadaria do prédio, tomou um Minuano gelado na mercearia ou, sei lá, sentou ao lado no colégio - não que essas situações prosaicas sejam o suficiente para tirar a roupa na frente de alguém. No início, e em algumas bad trips no decorrer do período, é algo que parece ser a realização daqueles pesadelos em que se está nu, sem ter como se defender, no churrasco de quinze anos de formatura do primeiro grau. Contudo, voltemos aos fatos.

Era chegado o momento de Pugliesi e Abud invadirem o terreno da praia do Pinho. E, para tanto, íamos nos deparar com a segunda grande diferença do mundo naturalista. Como está na abertura desta reportagem, assim que ficamos só na carcaça, e diante dos potentes raios solares, inquiri: "Abud, será que é preciso passar protetor na genitália?". Que é necessário besuntar rosto, costas, dorso, braços e pernas todo mundo sabe. Mas alguém já ouvir falar por aí que é importante cobrir a aparelhagem se for mostrá-la ao sol?

Creio ser meio óbvio que sim. Porém, pelas barbas do profeta, não está escrito em lugar algum! Olhei no verso da embalagem e não tinha nada do tipo: "ao praticar nudismo, homens lambrecar o pênis, mulheres a vagina". Sendo assim, após a pintura básica, aplicamos uma demão ligeira nas nádegas e somente um tapa no guri. Vai que cai, melhor não mexer com o desconhecido. E assim, servidos ao óleo branco e portando apenas as lunas (exceto pelas chaves do carro, carregada na mão), fomos à procura de Valdir em seu habitat, literalmente, natural.

Formando o bonde nudista

Embicamos no corredor para a areia como se estivéssemos prestes a pisar o gramado do Estádio Azteca na final da Copa de 70 - pressão frenética com a iminência de trocar uns passes com o Crioulo. No entanto, bafejados pela sorte, avistamos a barraquinha de Valdir logo em frente, e lá nos abrigamos para um conveniente tempo de aclimatação. Eles que aguardem – ou imaginavam que ia ser fácil nos tirar pra baitola? (o que fazem dois marmanjos passeando desnudos numa área para casais?).

"Vou explicar pra vocês basicamente como é a divisão. Primeiro, lá no começo, do lado esquerdo (olhando para o mar) é livre, pode ficar ou não pelado. Pra cá das pedras é a zona de adaptação. E, da marca até o final, do lado direito, são permitidos apenas casais. E totalmente nus", mapeou Valdir, destacando que, em se tratando de um espaço público, as pessoas podem entrar e sair a hora e como quiserem. Entretanto, são aconselhados a colaborar, chamando no Adão e Eva ou, para manter a paz, ralar o peito. "Dificilmente alguém não compreende", completou.

Comum mesmo é a pilantragem querendo aproveitar a liberdade das vestes para se entregar aos prazeres do vuco-vuco. E neste caso, Valdir cresce pra cima de si mesmo numas de meganha e interpela quem estiver faltando com a ética. "Primeiro eu chamo a atenção, como no caso de uma ereção. Depois tenho que pedir para se retirar". Na manha, sempre, até porque, ali o desguarnecimento é geral.

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Não tem mistério

Ciente das regras básicas, formamos o bonde para dar uma geral nas areias do Pinho. E assim nós fomos, com Valdir elogiando a beleza natural do local, destrinchando um pouco mais do manual de conduta, salientando as ações da ong, enquanto eu e Abud só naquele maroto "nossa, que legal, é mesmo", ao passo que, em nossa mente, ressoava o grito "porra, tô nude!".

Mas sabe como é, malandro. Baita brisa refrescante nas partes, o sol como testemunha, o mar azul e convidativo... com o tempo você relaxa total. Até porque, todos compartilham da mesma condição, e esse é o segredo para ficar numa boa. Além do mais, ninguém fica mirando as partes pudendas alheias – não na hard face, pelo menos.

Foi quando estávamos bem sossegados, caminhando e molhandinho o pé na água, ansiosos pelo mergulho, que Valdir nos impôs uma tarefa insana: atravessar, pelas pedras, até o outro lado do recanto naturista, onde se pode tirar ou não a roupa. É sabido que transitar pelas rochas não é simples, tem o tão temido limo, os saltos, entre outros obstáculos perigosos. Agora, que tal fazer isso sem qualquer proteção?

A poucos metros da escalada, com Valdir à frente, já começou a briga por posição entre eu e o Abud. A colocação mais perigosa já estava assumida, a de maquinista, restava agora a briga para não ser o vagão do meio. E daí ficou tipo em largada de Fórmula 1, com os carros zanzando de um lado para o outro. Seria até antiético eu revelar quem ficou na intermediária, mesmo porque durante a longa jornada rolou uma alternância, sempre com o espaço mínimo rigidamente respeitado.

Concluído o desafio, deixo a dica para os rapazes quanto ao melhor procedimento para o salto nas pedras: se for dar um vôo extenso, da última rocha para a areia, por exemplo, antes colha a bolsa escrotal com as duas mãos, como se estivesse na barreira no jogo de futebol, e aí sim se jogue. Point totalmente escaneado, e verificado que do lado de lá só havia homens e um clima de flerte gay violento, poderíamos enfim salgar o couro.

Prazer vs. Observação

A prática da natação estilo como veio ao mundo é certamente o que há de melhor. As únicas contra-indicações são o surfe de peito (o popular jaca) no raso e a constante aparição dos "peixes-moicano", quando o pessoal ergue muito a nádega para furar a onda. Fora isso, é um espetáculo ficar lá, por horas, flutuando, literalmente livre, leve e solto.

Mas o prazer teria que ficar de lado em nome da apuração. Voltamos para a areia a fim de catalogar os tipos e, assim, concluir os trabalhos. "A maioria dos freqüentadores se encontra na faixa dos 35 aos 45 anos, são casais com a família, e vindos de Santa Catarina, principalmente, São Paulo e Paraná. Mas temos muitos jovens também", nos disse depois Anílton Bitencourt, um dos proprietários e administrador da Pousada & Camping Praia do Pinho (que compreende ainda um quiosque e o estacionamento).

Apesar do pouco comparecimento do público – nossa empreitada foi realizada uma semana após o carnaval, feriado que é o top de visitação na temporada – notamos exatamente isso, filmando o movimento confortavelmente sentados em uma toalha para evitar os siris. E aí completamos o álbum de figurinhas: tinha pomba cabeluda, careca, linguiça toscana, salsichão, pepino, peito grande, pequeno, farsante, tudo bem sortido para o gosto geral.

Todos convivendo pacíficamente. Não por acaso. "Para praticar o nudismo, a pessoa tem que ter cabeça aberta, bem resolvida, o que é mais comum nessa idade", apontou com precisão, novamente, Anílton, largamente experiente apesar dos 25 anos.

A propósito, o encontro com o grande empreendedor do nudismo foi bem engraçado. Fomos informados que ele estava no quiosque, sendo assim, eu e Abud nos dirigimos até lá. No caminho, dois homens vinham no sentido oposto: um cinquentão, pança notável, cabelos e barba compridos, aquele naipe hippie clássico; enquanto, quase ao lado, um gurizote com pinta de surfista e calçado em bermudas, chinelos e camiseta. Logicamente, fomos seco no tiozão, pensando ser Anílton. Ledo engano. O simpático manda-chuva não é adepto do pintofree, segundo ele, para manter um distanciamento profissional.

A fome já castigava, então fomos almoçar. E no restaurante fora da pousada (que possui um amplo refeitório) bate aquela bad trip do pesadelo. Pois lá, fora da faixa da areia, é cada um por si, e muita gente não fica pelada. Alguns vestidos normalmente, outros de toalhinha, e poucos em pêlo. O que acarreta cenas engraçadas. Como da família almoçando muy respeitosamente, sentada na mesa, ao passo que volta e meia um pênis margeia perigosamente o prato. Coisas da vida naturista.

Feita a digestão, partimos de peito aberto para mais uma longa salgada no esqueleto, para a refrescar final. O sol já sumindo, ventinho gelando, resolvemos que era tempo de cobrir o corpo e pegar a estrada. Quase dois anos passados da última reportagem, a nova fase estava definitivamente inaugurada. A lamentar, apenas o fato de não ter rolado o incrível vôlei de praia pelado. Quem sabe numa próxima oportunidade...

Mais, muito mais informações, acesse:

Praia do Pinho

Naturismo

Permalink por André Pugliesi em 27.03.07 Email .
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O último reduto da maromba

Segunda-feira, enfim, novidades na área (sempre foi sério, mas agora é mais sério ainda). Enquanto isso, mais matériazinha bacana da "firma". Lá dos idos de março de 2006, sobre a academia "roots" de halterofilismo (não é "musculação") do gente fínissima Jorge Zahdi. Segue o relato, originalmente publicado na Gazeta do Povo no dia 19 de março.

“Aqui o cara vem para ficar forte”. Esse é o lema de Jorge Zahdi, 64 anos, proprietário de uma academia de musculação que parou no tempo. Localizada no porão de sua casa, na Rua Saldanha Marinho – sob o nome de “Condicionamento Físico Jorge Zahdi” (assim, em português, nada de sport, company, corpus, body, studio, training, physical, fitness, como é comum hoje em dia) – é o último bastião da maromba de raiz em Curitiba, sobrevivendo (muito) forte e rija em meio à invasão dos templos da malhação de alta tecnologia.

Os 19 anos de atividade completados neste mês – pouco se comparados aos 50 de exercícios ininterruptos do ex-Mister Curitiba e Paraná, iniciados por conta de uma atrofia no braço depois de um acidente – não revelam a idade real do empreendimento de Zahdi, instrutor de halterofilismo (e não personal trainer, como ele gosta de frisar) há quase quatro décadas.

Para entender do que se trata, é preciso visitar a pequena masmorra do suor, e sacar os aparelhos de ginástica da “idade do ferro”, principais responsáveis pela identidade amarelada da academia. Idade do ferro velho, no caso. Peças abandonadas, colhidas por Zahdi, talhadas e torneadas por especialistas na medida para ficar sarado, isso lá no comecinho dos anos 80. “Sou fã desses aparelhos medievais”, diz o “ferreiro”, bem-humorado.

E, mesmo com quase 30 anos de utilização, graças ao carinho e dedicação do dono, todos estão em condições perfeitas. Quem quiser fugir do agito das academias da moda e juntar-se ao legítimo underground do esporte para aumentar o “múque”, não terá com o que se preocupar. “Tem coisas moderníssimas por aí. Mas eu, pelo espaço que disponho, além do gosto pessoal, prefiro esse tipo de equipamento”.

Os gastos com a manutenção são mínimos. “É basicamente água (são dois chuveiros e um banheiro no minivestiário) luz e impostos”, revela Zahdi. Os atuais 30 alunos (nenhuma mulher), que pagam a mensalidade de R$ 65, garantem sem problemas a permanência no ramo do representante dos velhos tempos.

Puxar ferro de verdade, segundo Zahdi, apresenta rigorosamente o mesmo resultado da prática em aparelhos mais novos. “É apenas uma questão de opção. A única diferença é que o trabalho em barras desmembradas é menos suave”. Especialmente para as mãos, pois são protegidas somente por fita isolante (para não enferrujar com o suor), ao contrário do que acontece nas máquinas modernas, revestidas por uma grossa borracha.

De “última geração”, apenas uma bicicleta e uma esteira, além de quatro aparelhos comprados em loja, em 85. A trilha sonora fica por conta de um rádio simples, e varia de acordo com a preferência dos freqüentadores. Entretanto, geralmente está sintonizado na Ouro Verde FM, bem longe dos ritmos frenéticos dos espaços convencionais. “Não gosto de barulho, sou amigo do silêncio”, comenta Zahdi, que aprecia música clássica para treinar.

Nas paredes, além dos tradicionais espelhos, estão os atores Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenneger – em cartazes doados por um amigo dono de locadora – dois brutamontes míticos, um incentivo para a moçada não perder a pegada nos cansativos movimentos de repetição. A propósito, o atual governador da Califórnia foi Mister Olimpia, prêmio máximo para os fisiculturistas.

Porém o ídolo de Zahdi foi outro. O também ator e ex-fisiculturista Steve Reeves, Mister Universo em 1950, falecido em 2000, o primeiro parrudão a trocar os halteres pela telona. “Não gosto muito dos filmes de violência. Apesar disso, é uma satisfação ver homens que souberam usar a condição física para vencer na vida”, pondera.

Em plena forma aos 64 anos, e tocando com alegria o próprio negócio, Zahdi permite se escalar no time dos fortões de sucesso. “Graças a Deus tive sucesso no que eu gosto, reuni muitos amigos e consegui viver com o meu trabalho”.

Para Zahdi, o importante é ser inteligente

Combustível de muitos viciados em ginástica, o narcisismo é condenado pelo dono do Condicionamento Físico Jorge Zahdi. Para ele, conteúdo é fundamental. “O importante é ser inteligente”, disse. Porém, uma freqüentadora esporádica de sua academia, revelou uma porção da personalidade do professor que ele preferiu esconder.

“Ele é muito vaidoso”, contou Maria Lúcia Chueire Zahdi, esposa do instrutor, que prefere utilizar a esteira própria dentro de casa, no andar de cima. Aliás, o cuidado com o corpo de Zahdi foi responsável por despertar o interesse da assistente social de 43 anos. “Eu tinha pouco mais de 20 quando o conheci, e foi impactante”, declarou, sobre o físico avantajado do futuro marido.

Naturalmente, ele está sempre cobrando Maria Lúcia para que não descuide da forma. “Ele faz isso porque sabe da importância de cuidar da saúde”. Cuidados que também partem dela, responsável por preparar a alimentação balanceada do marido.

“Seu Jorge, quero ficar fortão. Como é que faz?”

Nos encontros com Zahdi para esta reportagem, aproveitei também para deixar um pouco a história de lado e partir para a teoria, já que a prática eu preferi ficar devendo, desconfiado do meu “múque” pouco treinado. “Então, Seu Jorge, quero ficar fortão. Como é que faz?”, mandei, cheio de deslumbramento com os Rambos e Rockys na parede.

O professor não se intimidou e passou as primeiras etapas da minha incursão no mundo da maromba de raiz. “Bom, teremos de fazer uma avaliação física, uma ficha biométrica e preciso saber quais são seus objetivos”, disse Zahdi. E emendou, do alto da sua experiência, revelando o segredo para ganhar corpo de Hulk. “Não pode ter pressa. É preciso ser persistente, dedicado”, ensinou.

Desanimei, mas mantive a posição de candidato a aluno. “Quanto tempo exatamente?”, questionei. Zahdi respondeu, citando uma recomendação curiosa que alguns clientes costumam fazer. “Não dá para saber com exatidão. Tem gente que vem fazer ginástica e pede o cuidado para que eu não deixe que ele fique muito forte, pois não pretende ser nenhum Mister Universo”, contou. complementando, ironicamente. “Eu falo para ficar despreocupado, pois é um pouco difícil isso acontecer de um dia pro outro”.

Sendo assim, joguei a bomba na mesa. Força de expressão, claro. “E os anabolizantes?”, disse, querendo deixar o professor em má situação ao invocar a praga que habita as academias. “Infelizmente, é muito comum em nosso meio, eu mesmo já vi. Quem lançar mão disso será cobrado com juros e correção monetária. Fatalmente terá problemas de saúde”, rebateu com categoria.

Diante de tanta dificuldade, para as pessoas normais. E diante de quase intransponível dificuldade, para os preguiçosos da musculação, como eu, perdi o encanto pela vida de ferreiro. Mas deixei no ar a idéia de usufruir da simpática masmorra de Zahdi. “Se um dia eu resolver treinar, virei aqui”.

Permalink por André Pugliesi em 09.03.07 Email .
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Celebrando a Sacanagem

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Juliana Antonele, a mais completinha e vencedora da noite

Há 34 anos o Concurso Bem Bolada é a principal opção em matéria de putaria no carnaval curitibano. Literalmente. Para os fanfarrões de primeira viagem, e para aqueles que não são da área, o concurso elege a garota de programa mais bonita, gostosa, jeitosa, em suma, a moça mais completinha do carnaval na capital paranaense. Representantes de quase todas as boites de Curitiba e região metropolitana pisam e sambam na passarela em busca do título máximo do ramo.

Realizado no Crystal Palace, domingo de carnaval, o evento teve como vitoriosa a candidata Juliana Antonele, alegados 21 anos, representando a Sex Night Club. Entre toda sorte de tipos femininos, Juliana Antonele, sem dúvida, era uma das mais bonitas. No entanto, muito se comenta nos bastidores quanto à lisura dos resultados. Enfim, se é certo que o júri não transmite muita credibilidade, especialmente entre as concorrentes, pelo menos é composto da mais variada gama de personalidades. Constituíam o corpo de jurados do Bem Bolada 2004, gente do quilate de um Roberto Hinça, apresentador de tevê renomado, Jotapê, radialista e político nas horas vagas, contando ainda com um belo apanhado de figuras estranhas e jornalistas em estado avançado de embriaguez. A apresentação do evento ficou a cargo de Cândido de Oliveira, brilhante repórter do programa Ricardo Chab. Candinho, para os íntimos, mostrou enorme categoria na condução do concurso, fazendo às vezes de apresentador, animador de auditório e, quando necessário, comandou o rebolado das candidatas até o chão, tal qual um passista de escola de samba dos mais experientes. Só faltou o pandeiro.

Como de praxe, destaquei o intrépido jornalista Rodrigo Abud para me acompanhar na cobertura do evento. Abud, que de bôbo não tem nada, animou-se e aceitou prontamente meu chamado. Afinal, não é de se desperdiçar a chance de cobrir algo, ou alguma coisa, no funeral, perdão, no carnaval curitibano. Ainda mais numa festa de garotas de programa, onde as chances de cobertura, em cash ou não, aumentam consideravelmente. Abaixo, nossas impressões sobre o Bem Bolada 2004.

Chegando ao evento eu e Abud constatamos que, caso não rolasse o famoso trenzinho de carnaval, certamente as risadas estavam garantidas. Já na portaria do Crystal Palace a fauna humana exuberante e exótica dava o ar da graça, provando ser o Bem Bolada um evento para uma platéia selecionada. Em meio a um público majoritariamente masculino, destacavam-se tiozões exalando naftalina, jovens ouriçados e vovôs-garoto, não me perguntem como, muito bem acompanhados. Algumas moças sozinhas também decoravam o ambiente, todas com o pecado estampado na face. Mais adiante, no transcorrer do desfile, descobriríamos que não só a fauna, mas também a flora do local era bastante exuberante. Mas isso é assunto para algumas linhas abaixo.

Opositor que sou do corporativismo no jornalismo brasileiro, adentrei ao recinto sem fazer uso da minha carteira do Sindicato dos Jornalistas, a qual não possuo e nem faço questã. Paguei ingresso como todos os mortais, devidamente bonificado pelo recorte da Tribuna. Abud e eu concordamos que 10 mangos tratava-se de um preço justo para um evento de tamanha magnitude. Além do mais, quitando o ingresso estaríamos contribuindo para a manutenção do Bem Bolada como o bastião da marotagem no carnaval curitibano.

Passando pela revista, sentimos o bafo de zona que se adonava das dependências do Crystal Palace, fenômeno normal em se tratando da natureza do concurso. Em tempo, louve-se a disposição e o profissionalismo dos seguranças em apalpar uma rapaziada excitadíssima para apreciar as candidatas. Como bons pândegos, eu e Abud caímos matando na pista de dança, recepcionados pela tecnêra irada que bombava dos alto-falantes.

Depois de nos esbaldarmos com os hits eletrônicos mais cafajestes da night, bailamos ao som da banda residente do Crystal Palace. Não me recordo o nome do grupo, uma sub-banda de formatura, daquelas que tocam a nata das músicas lamentáveis do rádio para os mais novos profissionais consagrarem seu futuro desemprego. Lembro-me apenas de um belíssimo afro-brasileiro arrepiando, pra variar, no contra-baixo. Muita porcaria e algumas saudosas marchinhas depois, Cândido de Oliveira subiu ao palco para dar início aos trabalhos do Bem Bolada 2004.

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Candinho, a fogosa Kendrya e Madrinha abusada

Estrategicamente posicionados à beira do palco, não contávamos com a desorganização do evento. Com muita educação, é verdade, Cândido de Oliveira solicitou que a massa ereta que tomava conta da pista sentasse no chão para não obstruir a visão dos cafetões, digo, do pessoal das mesas que estava atrás. Diplomaticamente acatamos as ordens de Candinho, afinal, ainda assim teríamos uma bela visão do desfile. Mas tinha mais. Mostrando que tudo havia sido minuciosamente planejado, a organização ordenou que a plebe, digo, o pessoal sentado no chão se afastasse para dar lugar às mesas dos jurados. Com a mesa do júri à frente ficaríamos com a visão deveras prejudicada, não podendo relatar com fidelidade o desfile, sendo assim, fomos obrigados a descolar um espaço mais adequado.

Terminados os reparos logísticos, Candinho chamou ao palco Kendrya, uma menina muito extrovertida que as más línguas diziam ser prostituta. A moça subiu ao palco para divulgar seu ensaio de fotos ousadas para a revista Área Vip Brasil e, para o deleite da audiência, aproveitou o ensejo e proporcionou um preview do conteúdo editorial. Me senti num fim de feira, onde melões eram disputados avidamente e até um bacalhauzinho sobrou pra alegria turma.

Para entreter e aplacar a ansiedade do público, Candinho usou e abusou dos dotes sambísticos da Madrinha do Bem Bolada. Entre os mais diversos agradecimentos, a moça dançou sem parar no aguardo da preparação das candidatas. Há duas horas dançando desnuda ao lado de Candinho no palco, a Madrinha não escondeu a expressão de insatisfação ao ser convocada pelo apresentador a dançar mais um pouquinho. Ciente do descontentamento da estafada passista, mostrando incrível perspicácia e atenção aos mínimos detalhes, Candinho soltou a pérola da noite...

"Que beleza, já tá de topless..."

Depois dessa, restou a Candinho anunciar, com pompa e circunstância, os responsáveis pela escolha da legítima representante da noite curitibana. Com os jurados em seus lugares, a plebe espremida e as torcidas animadas, finalmente, foram chamadas as concorrentes.

Demorou, mas valeu a pena. Um sem fim de plumas, paetês, purpurinas, nádegas, seios e genitálias semi-desnudas descortinaram-se perante os olhos atônitos da platéia. Pura luxúria, marotagem e saliência. Um espetáculo erótico-carnavalesco empolgante e divertidíssimo.
E dá-lhe mexe-mexe, bole-bole, sobe-e-desce, desce-e-sobe. Todas as candidatas tiveram a oportunidade de exibir seus dotes artísticos e genitais para os jurados. Primeiro, coletivamente. Depois, em vôo solo. Sambaram à vontade. Afinal, para uma escolha de tamanha envergadura, faz-se necessária muita atenção nos mínimos detalhes. E para uma melhor visualização dos detalhes, algumas candidatas mais vagabundas, digo, desesperadas, digo, um tanto quanto exaltadas, não se contentaram em exibir apenas a malemolência no samba, exibindo-a também em outras partes do corpo. Aliás, se não fosse por essas meninas festeiras que apresentaram CIC, RG e comprovante de residência na passarela, o Bem Bolada não passaria de um concurso de beleza comum.

Eu nem precisaria dizer que a o público ia a loucura com as meninas mais afoitas. Inclusive, não posso deixar de destacar um bróder que estava ao nosso lado, trajando uma camisa social branca não muito passada, de vistosa cabeleira black que a todo momento ordenava com incrível intimidade:

Cândido, manda elas tirar a roupa!!

Finalizado os desfiles, as candidatas recolheram-se aos suntuosos camarins do Crystal Palace para aguardar a apuração dos votos. Não demorou muito e o resultado veio à tona sem grandes surpresas. Bianca, do Café Paris, foi eleita Miss Simpatia. A eleita para Segunda Princesa foi Patrícia Guedes, do Café Paris. Por último nos prêmios de consolação, Priscila Veiga, do Saara Café, faturou o título de Primeira Princesa. Interessante notar pelo resultado como os cafés de Curitiba estão a cada dia com atrações mais ousadas.

O tão aguardado resultado do Bem Bolada 2004 veio logo a seguir. Cercado pelos jornalistas, Candinho anunciou Juliana Antonele como a Bem Bolada do carnaval 2004. A moça, bastante contida e tímida, posou para as lentes dos fotógrafos, deu entrevistas, mas não atendeu ao apelo da platéia por um algo mais. Manteve-se vestida mesmo nos momentos de euforia pela conquista do título.

Chegava ao fim o tradicionalíssimo concurso Bem Bolada. Alguns reclamavam do excesso de pudor da maioria das candidatas. Eu e Rodrigo Abud ainda atordoados pela estréia no fantástico mundo da putaria momesca, deixamos para repercutir o concurso com mais calma e, tranqüilos, relatarmos a experiência para vocês.

Como já disse, exceto por algumas meninas mais acaloradas, não se confirmou a putaria generalizada que parecia ser a tônica do concurso. Como profundo conhecedor da folia brasileira, posso garantir que as chances de deixar o vovô, a vovó e a menina ingênua morrendo de vergonha com o carnaval são bem maiores em qualquer praia do Brasil. A profusão de danças sexuais e versos chulos no Bem Bolada é infinitamente menor. A diferença é que o Bem Bolada é um concurso onde a rapaziada deixa a hipocrisia de lado e celebra pacificamente a sacanagem há 34 carnavais.

Permalink por André Pugliesi em 04.03.07 Email .
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Achados na Noite

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Em seu estupendo álbum "Perdido na Noite", Agnaldo Timóteo embalou num bolero uma bela lição...

"Somos amantes do amor liberdade. Somos amados por isso também. E se buscamos uma cara metade. Como metade nos buscam também. Estou perdido. Estamos perdidos. Mas a esperança ainda é real. Pois quando menos se espera aparece uma promessa de amor ideal"

Eram jogados 1976 e Timas ainda não encontrara o basta definitivo para seu coração em frangalhos. Estava perdido na noite de muitos, sempre à procura da mesma ilusão. Aparentemente, havia deixado de lado as idéias caóticas de um ano antes em "Galeria do Amor", quando o polêmico negrão confessou ter flertado com emoções diferentes ao freqüentar o célebre corredor da viadagem carioca. Mas seguia desgraçado da cabeça, se largando forte na náite.

E se quase 20 anos depois, Timóteo ainda brutalizasse em canções as chagas de seu coração vazio, agora num fim de feira total, humildemente eu lhe dirigiria uma palavra amiga:

"Bróder, deixa com o béque..."

Sem demora, partiríamos em alta velocidade para a Travessa da Lapa, quase esquina com a Sete de Setembro, onde reside o Clube dos Solitários. Local este que recebeu a última expedição da minha pessoa e da pessoa de Rodrigo Abud enquanto produtores desse site. Nos fizemos presentes nessa tal fortaleza do amor, espaço para enfim organizar as tampas em suas respectivas panelas. Curiosos pela notável fila de velhinhos que se aglomeram diariamente defronte às dependências do clube, fomos lá ver qual é da parada.

Os contactos com o proprietário da brincadeira estavam todos agilizados por Abud, que não se limitou a acertar a pauta, foi muito além, e com apenas cinco minutos de conversa telefônica já possuía fortes laços de amizade com o mesmo. Seu nome: Rosaldo Pereira, um entusiasta do amor.

Derrubou é pênalti

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Aportei antes em nosso destino. O frio castigava a capital paranaense, e dada a meia dúzia de cinco ou seis que enfrentavam o sereno na porta do estabelecimento, nada parecia indicar um embalo de sábado à noite. Mas nós sabemos que os velhinhos são ordeiros, organizados, pontuais e incansáveis. Portanto, quando adentrei ao gramado em nada me estupefaceei ao constatar que, naturalmente, lá estavam todos a bailar. Minutos depois, Abud estava ao meu lado e a configuração de dupla foi acionada.

Não era assim um público de Fla-Flu, mas até que a terceira idade se adonava bonito do local. O clube é composto por dois ambientes distintos. Vencida a entrada, um grande salão recheado com mesas cobertas por toalhas brancas. E conjugado, um espaço para a dança com o palco e o bar. Destacado no cenário, um pequeno bunker à direita do palco, que de longa distância parecia ser a casinha do DJ. Descobrimos ser o paradeiro de ninguém menos que Rosaldo Pereira, que mostrava não ser somente o responsável pela burocracia do acontecimento, mas também por toda a programação musical.

Profissão Cupido

Durante 10 anos, Rosaldo trabalhou na Rede Globo de Televisão, marcou presença na OM, CNT etc. Milita no rádio há mais de 30 anos, atuando em atrações musicais e jornalísticas. Atualmente, comanda o programa "Em nome do Amor" na rádio Colombo, mega sucesso no ramo casamenteiro, com simplesmente 3.800 enlaces oficiais registrados desde janeiro de 1982, data em que foi ao ar pela primeira vez. Tanto sucesso fez a audiência sentir a necessidade da realização de uma celebração, e daí nasceu a idéia de reunir os ouvintes num baile. No dia sete de setembro de 1990 o Clube dos Solitários abriu as portas. E passados quase 16 anos já atingiu a marca de 640 casamentos oficiais.

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Rosaldo Pereira, cupido na Terra

"Todo mundo pedia uma festa, um baile, e o clube supriu essa vontade de ter um ponto de encontro dos ouvintes do programa", relembra Rosaldo. O evento foi crescendo e na medida da participação das pessoas carecendo de locais mais amplos para a sua organização. Sendo assim, mudou de endereço diversas vezes, mas na Travessa da Lapa já são seis anos ininterruptos.

Como apresentador do programa e organizador do baile, Rosaldo não poderia se furtar aos convites para ser padrinho dos casamentos arrumados graças ao programa e o baile, e por muito tempo morreu numa grana nervosa pra agradar a turma. "Gastava muito dinheiro sendo padrinho de tanto casal, aí passei a recusar gentilmente os convites", explica o Santo Antônio das Araucárias.

Paradoxalmente, o pai da matéria nunca foi um coração solitário. Rosaldo é casado há 25 anos, e conta com a ajuda da esposa que trabalha no bar. A casa abre de quarta a domingo, e o ingresso vai de dois a cinco cru-crus dependendo do horário. Sábado é dia de som ao vivo, sempre com uma banda diferente. E quando o som mecânico é que comanda, Rosaldo ferve a pista com country, pagode, forró, xóte, boleros, vanerão e derivados.

Com picos que chegam a 940 pessoas, dá pra descolar um numerário gostoso com o evento, mas não é possível tocar a vida só dando uma de cupido. "Não posso negar que tenho um retorno financeiro, mas não é o suficiente. Temos uma série de gastos, como com segurança, por exemplo", revela.

Os mais de 4.440 casamentos no cartel proporcionaram histórias incríveis das pessoas que apostam nas cartas para encontrar o grande amor de suas vidas. Dentre tantas, Rosaldo destaca uma realmente muito curiosa. "Uma das passagens mais incríveis foi a de um casal que ficou cinco meses trocando cartas através do programa, marcaram de se conhecer e quando chegaram ao encontro descobriram que eram vizinhos de frente".

Passeando de Fusca

O desenrolo com o MC, DJ e chefão do esquema foi muito agradável, e sua pequena enterprise musical era mesmo aconchegante, mas eu e Abud carecíamos de um pouco de adrenalina correndo nas veias. E nada melhor que dar aquela riscada nos tacos para ficarmos bem mais à vontade. Para tanto, contamos com a colaboração de duas nobres senhoras, que gentilmente nos concederam o prazer de um breve saracoteio.

Foi quando a mão de Margarida repousou suavemente sobre a palma da mão de Abud, ao mesmo tempo em que Marili Lúcia apresentou-se para ser o meu par. Pouco à vontade nos compassos gauchescos, mandamos um magro dois por dois pra não machucar os pés de tão simpáticas companhias. No ligeiro papo sobre amenidades, descobrimos serem as duas descasadas e à procura de um namorico de portão. Agradecidos pela importante introdução ao mundo da dança, nos despedimos e deixamos as duas senhoras novamente livres para voar.

White Dance Machine

Enquanto flanávamos pelo salão, atentamos para uma figura que parecia ser o responsável por distribuir os coletes na pelada, tamanha era a categoria com que se portava. Seu nome: Wenceslau. Não tinha tempo ruim. Mudava a faixa e lá estava ele sempre acompanhado circundando o salão. Wenceslau parecia ter fugido de um parque de diversões com atrações humanas, devido à precisão cirúrgica com que executava seus movimentos de baile, tanto indo como vindo, sempre de forma absolutamente idêntica. Sua despigmentação e o repertório enxuto de breaks nos sugeriu um condinome para ele: o Carrosel Albino.

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Wences, o Carrosel Albino, circulando

Aguardamos os três segundos regulamentares que Wenceslau costumava ficar sem par para interpela-lo e rapidamente descobrimos ser ele mais do que um dançarino de presença, mas principalmente uma figura simpaticíssima. Habitué do clube - são cinco anos no currículo - Wenceslau quer casar. "Sempre pinta uma namorada aqui, outra ali, mas eu estou procurando um compromisso sério", declarou. Na sequência, perguntamos qual o seu ritmo preferido, visto que se tratava de um bailarino contumaz. "De 42 a 45 anos", despombalizou ao se referir à faixa etária que procurava, não dando bola pro questionamento. Pois então tivemos que insistir: qual tipo de dança você mais aprecia? "Domino mais o xóte e o vanerão", atacou.

Ralando as partes

Quando não mais que de repente sentimos um forte fluxo de libido no ar. E foi só bater os olhos para sabermos de onde era emitida a potente onda sexual que inundava a pista de prazer. Francisco e Consuelo transpassavam as pernas com energia, encaravam um ao outro com olhos de sedução, se arranhavam felinamente, escancaravam ao mundo que o solavanco ali era somente uma questão de tempo e oportunidade. Formavam de longe o par mais sensual da noite.

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Balançando a roseira no salão

Abordados para a execução dos flashs, Consuelo questionou Abud se ele não era protético, não se sabe com qual fundamento. De certo, apenas que a quarta-zaga e zaga-central de Francisco estava um tanto quanto desguarnecidas. Devidamente clicados os dois voltaram aos movimentos peristálticos.

A banda Bela Vista já enchia as caixas com a sonoridade dos pampas quando eu e Abud decidimos mudar de ambiente, desfrutar um pouco de recolhimento no lounge. Sentamos à mesa e passamos a filmar a rapaziada idosa interagindo animadamente entre uma cervejinha e outra. E, registre-se, o público do clube não é composto apenas daqueles que utilizam as portas traseiras do transporte coletivo. Um número razoável de jovens também se fazia presente, mas a terceira idade comanda, especialmente no domingo.

Com o adiantado da hora, e saciados em nossa curiosidade, decidimos nos evadir do local. Os corações devidamente abastecidos de alegria. E, após conhecer o clube, uma velha canção dos Originais do Samba bombando na mente: "se você saiu por aí e não conseguiu arranjar alguém, deixe que alguém saia por aí e consiga arranjar você".

Programa Quadro Casamenteiro - das 22 às 23hs de segunda a sexta na Rádio Colombo do Paraná AM 1020 Khz

Clube dos Solitários - Travessa da Lapa, nº 30 - Centro
Fone do Clube: (41) 3019-6160

Permalink por André Pugliesi em 27.06.05 Email .
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Swingando na noite

André: E aí Abud? Descolei aquele esquema, tá pronto?
Abud: Eu nasci pronto.

Com esse brevíssimo diálogo, eu e meu dileto amigo Abud refizemos nossa parceria e nos jogamos novamente na night curitibana. Para quem não sabe, parceria que já rendeu uma série de momentos memoráveis e que há tempos não pisava o gramado. E que nesta oportunidade seria colocada à prova em mais uma missão extremamente ousada. Após conferirmos a desgraceira de um cinema pornô e o skindô de um concurso carnavalesco de garotas de programa, chegava a hora de quebrar um novo paradigma.

Atentos às preferências do consumidor, de botuca nas nuances do mercado, optamos por mais uma incursão ao inebriante mundo da sacanagem. Afinal, o povão gosta mesmo é de putaria. E transferindo os conceitos ultramodernos da televisão brasileira para o universo blogal, compactuamos em mandar às favas os escrúpulos e guguzar. Meio olho no conteúdo, um e meio no Ibope. Dança mallandrinha!!

Para tanto, optamos por uma matéria de apelo sexual incontestável. Ou seria de incontestável apelação sexual? Tanto faz. Eu e Abud traçamos nosso destino na quarta-feira, dia 24 de junho, comparecer a uma noite na mais famosa casa de swing de Curitiba. E para evitar qualquer problema jurídico, não revelarei o nome do estabelecimento, digo apenas que é num bairro totalmente desconhecido de Curitiba, famosíssimo pelos restaurantes italianos. Chamemos então o local de o Templo Máximo da Comunidade Swingueira.

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De frente pro crime

Para os desconhecedores de tal prática esportiva, o swing se caracteriza pela troca de parceiros entre casais nas relações sexuais. Uma noite em que os casais permitem-se realizar as mais diversas fantasias com outros parceiros, sem que isso influencie na relação afetiva, uma experiência absolutamente carnal. Inconcebível para a maioria, notadamente se trata de uma modalidade cada vez mais praticada. Segundo minhas aferições teóricas sobre o tema, o prazer está em compartilhar as experiências extra-oficiais com sua parceira, apenas observando ou mesmo atuando.

Preparação - Antes de batermos de frente com o nosso destino, fui obrigado a passar as caras ante a resistência natural de minha cônjuge sobre a idéia. Dada a minha condição de católico carismático fervoroso, fui ter com minha companheira a fim de conseguir o alvará de liberação para mais uma empreitada pouco convencional. Como ela bem sabe, seria incapaz de decepcionar o Padre Marcelo Rossi, quiçá à fortaleza da família canarinho, sendo assim, ela não demorou em relevar minhas fanfarronices e permitir meu intento. Garanti que incertezas e preocupações relativas ao meu comportamento não deveriam entrar na conta.

Liguei para o Templo Máximo da Comunidade Swingueira e confirmei minha presença e do Abud na noite de quarta-feira, a única aberta aos homens e mulheres solteiros. As vagas são limitadas e a procura é grande. São cobrados 80 reais de entrada para cada solteiro, o casal também é 80 mangos, incluindo o couvert e um jantar. Shows de estripers, masculino e feminino, também são servidos. Lá dentro, paga-se apenas o que consumir. A casa abre às 21hs e fecha por volta das 4hs. Obviamente, não é permitida a entrada de nenhum tipo de instrumento de gravação, sendo vetado o uso de máquina fotográfica.

Respeitadas todas as esferas burocráticas, diplomáticas e conjugais, finalmente estávamos aptos a realizar a aventura respeitando todas as normas legais. Quando do acerto da reserva, me foi alertado pela moça que deveríamos trajar roupa esporte fino. Um empecilho estava criado. Todos sabem que sou do povão, das massas, galera, geral, da turma do gargarejo. E como tali, possuo apenas um par de sapatos, utilizado em todos as formaturas, casamentos, batizados, exames de análises clínicas e entrevistas de emprego que sou convocado. Por tratar-se de sapatos de nobre linhagem italiana, cai bem utiliza-los apenas com terno. Resultado, ou eu iria de terno, ou teria que emprestar um calçado mais adequado para um evento sexual dessa magnitude. Questionado pela minha pessoa quanto ao empréstimo, Abud, Top Five em matéria de elegância na noite, não titubeou em apontar o terno como a vestimenta perfeita para ocasião. Sapato, calça, paletó e gravata nos tornariam cidadãos respeitáveis, um subterfúgio perfeito para desviar a atenção dos presentes em nossas faces jovens e nos emprestar um ar responsável e ereto.

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Na pinta errada

Deixei minha residência rumo ao encontro com Abud em local incerto e não sabido. Avistando o jovem, reduzi para terceira marcha e aprumei próximo ao meio fio para que o mesmo pudesse saltar espetacularmente e alojar-se em minha possante rodonave com ela em movimento. Juntos novamente, enfim nos dirigimos ao Templo Máximo da Comunidade Swingueira. Devido ao adiantado da hora, e como não seria possível registrar as peraltices no local, celebramos a nossa empreitada com o registro do joiado e psicodélico portfolio que vocês estão conferindo.

Penetrando no mundo do swing - Seguindo as orientações, paramos o carro na entrada, sinal de luz obrigatório, e fomos recepcionados pelo manobrista e pela promoter da casa. Recebemos as fichas de consumação, revelamos nossa condição de estreantes e fomos gentilmente apresentados pela promoter aos diversos recintos do clube. Para os solteiros são quatro áreas de livre movimentação, e uma outra exclusiva aos casais. Segue o croqui.

Piso superior

Suítes exclusivas para os casais.
Piso intermediário
Uma espécie de boate onde é servido o jantar, rolam as danças, brincadeiras e shows eróticos.

Piso inferior

Dark Room - uma sala escura com uma grande cama.
Labirinto Erótico - um caminho tortuoso com diversas cabines idênticas às de lojas de roupas.
Salão - uma mega cama e uma cadeira erótica.

Na parte intermediária, uma decoração de gosto pra lá de duvidoso, com fitas e arcos fosforescentes por todo o teto. Parecia uma instalação do sistema solar numa feira de ciências do primeiro grau, ou um Guto Lacaz anos 80 de quinta categoria. Os outros ambientes não dispunham de decoração nenhuma. Aliás, seria totalmente desnecessário. Confiamos na descrição dos ambientes feita pela promoter, afinal, não dá pra enxergar porra nenhuma. E é justamente aí que mora o perigo. O Dark Room é um breu só. O Salão e o Labirinto recebem uma fraca iluminação vermelha. Segundo a promoter, basta acostumar a vista para enxergar nesses ambientes. Mais tarde, nós entenderíamos que o enxergar a que ela se referia era, no caso, alguns vultos perambulando, fazendo polichinelos, abdominais e flexões de braço numa curiosa e ofegante dinâmica de educação física. Um par de óculos com visão noturna faria furor e elevaria o grau de aproveitamento da incursão no Templo Máximo da Comunidade Swingueira a níveis estratosféricos.

Demarcando o território - Convidados pela simpática promoter, eu e Abud sentamos numa mesa estratégica, localizada num cantinho discreto e aconchegante. Na primeira investida da garçonete, cardápio em mãos, declinamos docemente, postergando nosso primeiro drink. Estratégia que seria usada ao longo de toda a noite. Fortalecendo a velha máxima que diz que pobre é uma merda. Praticamente todas as mesas estavam reservadas, com direito a nome do casal na plaquinha sob a mesa, fato que comprovou a assiduidade dos casais nos eventos. As mesas iam sendo ocupadas aos poucos, com cumprimentos efusivos entre os mais chegados e o proprietário/gerente do clube. Pouco tempo depois de nos estabelecermos, recebemos em nossa mesa a companhia de Sergião, O Professor, um carioca perdido na noite curitibana. Sérgio nos passou os macetes principais com seu carioquês invejável, salientou os limites e perdeu-se na penumbra. Mais tarde vocês entenderão o porquê do apelido do bróder.

É impossível delimitar o perfil dos freqüentadores. Gilberto Freyre ia curtir. Um mix variadíssimo de pessoas de todas as classes, credos, cores e libertinagem à flor da pele. Comprovando toda essa miscigenação maravilhosa desse povo alegre do Brasil. Tem aquela sua vizinha bem apessoada, tem a tia da cantina, o professor de História, a patricinha, o empresário, tem secretária (e como tem), toda a sorte de barangas, gostosas, galãs e tiozões barrigudos para todos os gostos e idades. Deixe o preconceito de lado e creia, o swing não é uma prática para pervertidos em busca de satisfazer uma sanha sexual, e sim uma opção de pessoas absolutamente convencionais.

No tocante a formação dos casais, baseados no método catadão de avaliação, e contando com nossa capacitada visão periférica, concluímos que pelo menos metade parece real, e alguns forjados, entre amantes e possíveis garotas de programa. Assim como na parcela de mulheres solteiras no local. Um tanto bastante comuns, outro bem duvidoso. Curiosamente, as mulheres andam em bando pela casa. O que não é permitido aos homens, com o objetivo de não intimidar os casais diante de grupos de rapazes com ares de marotagem. A homarada pode ficar, no máximo, em duplas. Por fim, os únicos idiotas de gravata no local eram eu e o Abud. Óbito.

O responsável pela trilha sonora seguia os mandamentos da cartilha do DJ de zona, brindando os presentes com sucessos dos anos 80, clássicos de Bonnie Tyler, Olivia Newton-John, Donna Summer e dá-lhe Roxette. Até uma Norah Jones escapou nos alto-falantes. Servido o jantar, não poderíamos nos deparar com um cardápio mais inusitado. Comida mineira. A leve gastronomia de Minas Gerais. Mais inapropriado que isso, só uma feijoada completa. Quando me deparei com torresmos, tutu de feijão, lingüiças e outros ingredientes de elevada periculosidade flatulática, imaginei a possibilidade de uma posterior hecatombe fruto da fissão dos gases graças ao solavanco dos corpos. Iniciou-se então a primeira grande experiência meta-tosco-filoso-física da noite. Um prosaico jantar com pessoas que mais tarde estariam chegando, despudoradamente, as vias de facto logo à minha frente. Sensacionalmente surreal. E conforme a cartilha oficial do ráuli, participamos do jantar naturalmente, fazendo um social e aproveitando para dar uma escaneada na turma.

Esquentando os tamborins - Recolhidos os pratos e talheres, e respeitado um período mínimo para a complexa digestão do jantar, a pista de dança bombou. Sem demora os casais partiram para um animado bailão. Logo após, foi dada a largada para as brincadeiras, uma seqüência de dinâmicas possivelmente idealizadas por um verdadeiro Içami Tiba erótico. Com os casais na pista, começou a brincadeira do chapéu, um misto de dança da vassoura e da cadeira. A primeira oportunidade para os casais realizarem um approach. Mulheres passavam o chapéu branco, homens o chapéu preto, quem estivesse com eles na mão quando a música parasse era desclassificado. Como uma espécie de rodizião humano, em alguns momentos pinta o mignon do próximo no teu prato, em outros o matambre alheio. Agito brilhantemente comandado pelo gerente da casa, empunhando o microfone e revelando toda a sua faceta de animador de auditório e psicólogo amador. Ou armador, como queiram.

Em seguida, foram apresentados os shows eróticos. Primeiramente, o consagrado estripe feminino. Uma formosa loira paramentada para festa junina jogou lenha na fogueira da rapaziada. Em meio a saltos daiânicos e as tradicionais coreografias, pasmem, incendiou uma senhora que não se fez de rogada e acompanhou a loira no meio do palco numa performance de lesbianismo. Animação para os homens, animação para as mulheres. Dois muquinhos, muito originalmente travestidos de zorro e motoca, adentraram ao recinto saltando freneticamente e arrancando a roupa para delírio e afobação da periquitaiada. Justo, sem dúvida, ainda mais se considerarmos que ao contrário da loira, os rapazes não ficaram totalmente nus, poupando o público masculino de suas vergonhas.

Finalizadas as apresentações, adentraram ao recinto rapazes e moças da casa para elevar o moral do pessoal. De nosso posto, eu e Abud, respeitando os limites da nossa condição de iniciantes, pudemos finalmente entender e observar, in loco, o famoso e, muito raro, ninguém é de ninguém. Casais, solteiros, solteiras e profissionais de ambos os sexos recheavam de lascívia e desprendimento a pista de dança. Parecia a grande área numa final de Copa do Mundo com um escanteio decisivo aos 45 minutos do segundo tempo. Um agarra-agarra mútuo absolutamente insano, mulheres chargeadas por vários homens, muquinhos apalpados fervorosamente etc e pau. Uma profusão de órgãos pudendos veio à tona sem o menor constrangimento. Tal qual nas clássicas revistinhas de sacanagem de carnaval, só que ao vivo. Fantasias mil.

E se o conceito do ninguém é de ninguém já havia sido apresentado, foi definitivamente encerrado e registrado com a brincadeira do relógio, um esquema simples em mais uma dinâmica entre os casais. Os casais formam um grande círculo. Som na caixa, a luz se apaga totalmente e assim permanece por alguns bons segundos. Quando acende, os homens permanecem no lugar e as mulheres seguem como se fosse um ponteiro de relógio, fazendo o papel de corrimão. Ou seja, todas as mulheres passam por todos os homens, acabando a brincadeira quando os pares iniciais se formarem novamente. Embora não tenhamos conseguido ver, não é difícil imaginar o que acontece no escurinho. Um incrível congraçamento de salivas, mãos, peitos, bundas e correlativos.

A hora é agora e vâmo que vâmo - Concluída a aproximação, literalmente, dos casais, graças a toda aquela interação gostosa e sadia, finalmente a maionese desanda. Boa parte dos presentes desce para o piso inferior e perdem as estribeiras. Embora se passe longe dos limites do sexo convencional, nenhum grande absurdo é cometido. Basicamente, marido, mulher e um rapaz convidado liberam suas fantasias em público. Geralmente, o convidado chama na chincha e o marido, ou a mulher, apenas observa. E aí está o segredo da parada. O voyerismo. Segundo o Houaiss, o ato daquele que se excita sexualmente ao observar atividades sexuais de terceiros. Tão desinibidos quanto os praticantes, os observadores postam-se diante do ato e ali ficam flagrando sem qualquer tipo de constrangimento. Como cachorro sentadinho em frente ao frango de padaria. Seje no Labirinto Erótico, abrindo a cortininha, seje no Salão ou Dark Room.

Com um agravante, a seccional da punheta, esbaforida com a conjunção carnal desenfreada, manobra abertamente a genitália como se estivesse no sossego do lar. O que faz do território pouco iluminado um verdadeiro campo minado. Daí tira-se a importância de saber se movimentar pelos cômodos apertados com extrema malemolência, driblando os possíveis choques com outrem, evitando assim ser abalroado por um pênis em riste ou atingido por um míssil desgovernado de sêmen. No piso superior, exclusivo para os casais, a ferveção come solta. Impedidos de registrar os acontecimentos, eu e o Abud não poderemos dar certeza do que rola por lá. Sabe-se apenas que saliência pouca é bobagem.

E segue o baile. Dentre as mais variadas performances sexuais, destaque para o casal que utilizou a incrível cadeira erótica. A moça, de barriga pra cima, pernas e braços abertos, recebia o motobomba de seu parceiro e, ao mesmo tempo, dois jovens buscavam sintonizar uma melhor frequência girando os mamilos da sacaninha. Aos poucos alguns casais vão se desinibindo, outros partem para uma segundinha, terceirinha, e no fim das contas quase todo mundo entra na dança. Passado o impacto inicial, não restam grandes novidades em termos de movimentações e performances acrobáticas. Gemidos em maior ou menor escala de excitação, ou fingimento, são responsáveis pelos melhores momentos daí pra frente. O espírito de paudurescência esfuziante inicial da homarada vai dando lugar a um meia-vida melancólico conforme o término das apurações vai se anunciando. Os desesperados partem para a aventura do popular sopão, tentando garantir pelo menos uma tirada de cueca e assim não sair com o placar em branco.

Deitando o cabelo - A muáfa de sexo se adona do ambiente, deixando o ar denso e a permanência quase impossível. Com as dependências praticamente esvaziadas, eu e Abud decidimos por finalizar mais um capítulo de nossa história. Descemos para quitar nossas dívidas. Com o caixa ao lado da saída dos carros, pudemos desvendar um mistério que assolava nossas mentes. Um coroa estranho passou a noite observando sua companheira, um fiel exemplar da espécie grã-finas curitibanas quarentonas, sendo apalpada pela torcida do Flamengo. Em seu automóvel, a resposta do motivo de estar tão bem acompanhado. Um portentoso Audi, e até aí nada demais. Ao abrir a porta do automóvel, sacamos o pulo do gato. Estava lá um aparelho de DVD rolando um disco dos Bee Gees. Fechamos a conta, passamos a régua e quando estávamos batendo em retirada, tivemos tempo para uma pergunta para o Sergião, O Professor, passando pelo local:

André e Abud: E aí, quantas?
Sergião, O Professor: Quatro.

Atitude responsa - De tudo que podemos constatar com essa experiência, uma coisa é absolutamente inquestionável. O que poderia indicar um ambiente de vale-tudo, revelou-se muito respeitador e seguro. Como pregam as normas do swing, as mulheres mandam em tudo. Cabe aos homens demonstrar interesse e aguardar pela resposta da mulher. Caso ela aceite, tranqüilo. Do contrário, a negativa é absoluta e o homem deve aceitar. Em nenhum momento, homem e mulher, são obrigados a fazer algo que não queiram. Sem medo de arriscar, a nível de azaração, paquera, flerte, as meninas sentiriam-se mais seguras no clube do que em qualquer night média. O uso de camisinha, óbvio, é indispensável.

Permalink por André Pugliesi em 30.07.04 Email .
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