Sai da frente que lá vem a tocha

Esp01100703

foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

"Você vai carregar a tocha do Pan?!? Mesmo? De qual modalidade você é?". Nenhuma, respondi. No semblante da professora e sua turma, a decepção era evidente. "Sou repórter da Gazeta", expliquei, sem efeito sobre a meninada que esperava um figurão. Apenas um "Bra-sil, Bra-sil" tímido e, gloriosamente desmotivado, iniciei os 400 metros tão cansativos quanto gloriosos de minha carreira esportiva – ou de jornalista esportivo, como queiram.

O fato é que por alguns (intermináveis) minutos, amparada pelo meu braço direito, a chama dos Jogos Pan-Americanos subiu ao céu perfeitamente azul da tarde de ontem em Curitiba. Pulou para o esquerdo. Voltou para o direito. E terminou no esquerdo. Ufa!

Parecia tranqüilo conduzir (nada de "levar a tocha") o artefato de pouco mais de 1,5 kg por cerca de quatro quadras. Não foi. A instrução era para que a mão ficasse quase na altura da cabeça, fugindo assim de uma eventual e vexaminosa chamuscada no cabelo, cílios e sobrancelhas – e isso judiou o ombro já castigado pela lida diária no computador.

Incômodo certamente reforçado em quem, como eu, inventou de cumprir o trajeto no "trotezinho". Durante a primeira parte, deslizei faceiro pela Rua Mateus Leme embrulhado no uniforme branco. Tirei onda de herói olímpico acenando para os populares, especialmente as crianças. O trânsito na região parou para que eu (quem?) passasse. Sem esbanjar, mandei até um sorriso para as câmeras à minha frente. Sem dúvida, empolgante.

Mas, vencidos 100 metros, o trote virou semi-cooper graças ao ritmo puxado da dupla de orientação que me acompanhava. Sem poder maneirar a velocidade, passada a metade veio aquela sensação de perda dos sentidos: a vista escurece, a cidade ficou muda, consegui apenas perguntar: "Falta muito?". Por sorte, já avistei a esquina, logo ali à esquerda. E no modo automático de condução entreguei o símbolo maior do evento são e salvo, rumo à Cidade Maravilhosa. Vai que vai.

Performance no máximo mediana para quem fora elogiado por um profissional. "Você está fininho, vai conseguir sem problema", incentivou o velocista paranaense Flávio de Souza Silva, antes do início do percurso. Isso porque eu havia combinado com ele uma transição estilo revezamento 4x100 metros – abortada pelo medo de apagar a chama (essa parte é brincadeira). Sem chance. No fim das contas, sobrou a satisfação de ter participado da festa, uma boa história pra contar e o alívio de ver a tocha partindo no horizonte.

Texto originalmente publicado na Gazeta do Povo desta quarta-feira, dia 4 de julho, no caderno de Esportes

Permalink por André Pugliesi em 04.07.07 Email .
Categorias: Esportes , 20 comentários

Arquivos
Categorias

Links
A Canção Pobre
Blog do Cirão
Blog do Marcão
Comunidade do JdeM
Conquistador Barato
Contos do Adamastor
Cronista Urbano
Degusta Paranóia
De primeira
Escriba v3.0
Extracampo
Mastix
Mau Humor
Memórias Fracas
Pablog
Ponto de Fuga
Sêo Delaqua
Surra
Trabalho Sujo
Um baiano em Campinas
Waran
O Azul e o Invisível

 


[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]