O último reduto da maromba

Segunda-feira, enfim, novidades na área (sempre foi sério, mas agora é mais sério ainda). Enquanto isso, mais matériazinha bacana da "firma". Lá dos idos de março de 2006, sobre a academia "roots" de halterofilismo (não é "musculação") do gente fínissima Jorge Zahdi. Segue o relato, originalmente publicado na Gazeta do Povo no dia 19 de março.

“Aqui o cara vem para ficar forte”. Esse é o lema de Jorge Zahdi, 64 anos, proprietário de uma academia de musculação que parou no tempo. Localizada no porão de sua casa, na Rua Saldanha Marinho – sob o nome de “Condicionamento Físico Jorge Zahdi” (assim, em português, nada de sport, company, corpus, body, studio, training, physical, fitness, como é comum hoje em dia) – é o último bastião da maromba de raiz em Curitiba, sobrevivendo (muito) forte e rija em meio à invasão dos templos da malhação de alta tecnologia.

Os 19 anos de atividade completados neste mês – pouco se comparados aos 50 de exercícios ininterruptos do ex-Mister Curitiba e Paraná, iniciados por conta de uma atrofia no braço depois de um acidente – não revelam a idade real do empreendimento de Zahdi, instrutor de halterofilismo (e não personal trainer, como ele gosta de frisar) há quase quatro décadas.

Para entender do que se trata, é preciso visitar a pequena masmorra do suor, e sacar os aparelhos de ginástica da “idade do ferro”, principais responsáveis pela identidade amarelada da academia. Idade do ferro velho, no caso. Peças abandonadas, colhidas por Zahdi, talhadas e torneadas por especialistas na medida para ficar sarado, isso lá no comecinho dos anos 80. “Sou fã desses aparelhos medievais”, diz o “ferreiro”, bem-humorado.

E, mesmo com quase 30 anos de utilização, graças ao carinho e dedicação do dono, todos estão em condições perfeitas. Quem quiser fugir do agito das academias da moda e juntar-se ao legítimo underground do esporte para aumentar o “múque”, não terá com o que se preocupar. “Tem coisas moderníssimas por aí. Mas eu, pelo espaço que disponho, além do gosto pessoal, prefiro esse tipo de equipamento”.

Os gastos com a manutenção são mínimos. “É basicamente água (são dois chuveiros e um banheiro no minivestiário) luz e impostos”, revela Zahdi. Os atuais 30 alunos (nenhuma mulher), que pagam a mensalidade de R$ 65, garantem sem problemas a permanência no ramo do representante dos velhos tempos.

Puxar ferro de verdade, segundo Zahdi, apresenta rigorosamente o mesmo resultado da prática em aparelhos mais novos. “É apenas uma questão de opção. A única diferença é que o trabalho em barras desmembradas é menos suave”. Especialmente para as mãos, pois são protegidas somente por fita isolante (para não enferrujar com o suor), ao contrário do que acontece nas máquinas modernas, revestidas por uma grossa borracha.

De “última geração”, apenas uma bicicleta e uma esteira, além de quatro aparelhos comprados em loja, em 85. A trilha sonora fica por conta de um rádio simples, e varia de acordo com a preferência dos freqüentadores. Entretanto, geralmente está sintonizado na Ouro Verde FM, bem longe dos ritmos frenéticos dos espaços convencionais. “Não gosto de barulho, sou amigo do silêncio”, comenta Zahdi, que aprecia música clássica para treinar.

Nas paredes, além dos tradicionais espelhos, estão os atores Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenneger – em cartazes doados por um amigo dono de locadora – dois brutamontes míticos, um incentivo para a moçada não perder a pegada nos cansativos movimentos de repetição. A propósito, o atual governador da Califórnia foi Mister Olimpia, prêmio máximo para os fisiculturistas.

Porém o ídolo de Zahdi foi outro. O também ator e ex-fisiculturista Steve Reeves, Mister Universo em 1950, falecido em 2000, o primeiro parrudão a trocar os halteres pela telona. “Não gosto muito dos filmes de violência. Apesar disso, é uma satisfação ver homens que souberam usar a condição física para vencer na vida”, pondera.

Em plena forma aos 64 anos, e tocando com alegria o próprio negócio, Zahdi permite se escalar no time dos fortões de sucesso. “Graças a Deus tive sucesso no que eu gosto, reuni muitos amigos e consegui viver com o meu trabalho”.

Para Zahdi, o importante é ser inteligente

Combustível de muitos viciados em ginástica, o narcisismo é condenado pelo dono do Condicionamento Físico Jorge Zahdi. Para ele, conteúdo é fundamental. “O importante é ser inteligente”, disse. Porém, uma freqüentadora esporádica de sua academia, revelou uma porção da personalidade do professor que ele preferiu esconder.

“Ele é muito vaidoso”, contou Maria Lúcia Chueire Zahdi, esposa do instrutor, que prefere utilizar a esteira própria dentro de casa, no andar de cima. Aliás, o cuidado com o corpo de Zahdi foi responsável por despertar o interesse da assistente social de 43 anos. “Eu tinha pouco mais de 20 quando o conheci, e foi impactante”, declarou, sobre o físico avantajado do futuro marido.

Naturalmente, ele está sempre cobrando Maria Lúcia para que não descuide da forma. “Ele faz isso porque sabe da importância de cuidar da saúde”. Cuidados que também partem dela, responsável por preparar a alimentação balanceada do marido.

“Seu Jorge, quero ficar fortão. Como é que faz?”

Nos encontros com Zahdi para esta reportagem, aproveitei também para deixar um pouco a história de lado e partir para a teoria, já que a prática eu preferi ficar devendo, desconfiado do meu “múque” pouco treinado. “Então, Seu Jorge, quero ficar fortão. Como é que faz?”, mandei, cheio de deslumbramento com os Rambos e Rockys na parede.

O professor não se intimidou e passou as primeiras etapas da minha incursão no mundo da maromba de raiz. “Bom, teremos de fazer uma avaliação física, uma ficha biométrica e preciso saber quais são seus objetivos”, disse Zahdi. E emendou, do alto da sua experiência, revelando o segredo para ganhar corpo de Hulk. “Não pode ter pressa. É preciso ser persistente, dedicado”, ensinou.

Desanimei, mas mantive a posição de candidato a aluno. “Quanto tempo exatamente?”, questionei. Zahdi respondeu, citando uma recomendação curiosa que alguns clientes costumam fazer. “Não dá para saber com exatidão. Tem gente que vem fazer ginástica e pede o cuidado para que eu não deixe que ele fique muito forte, pois não pretende ser nenhum Mister Universo”, contou. complementando, ironicamente. “Eu falo para ficar despreocupado, pois é um pouco difícil isso acontecer de um dia pro outro”.

Sendo assim, joguei a bomba na mesa. Força de expressão, claro. “E os anabolizantes?”, disse, querendo deixar o professor em má situação ao invocar a praga que habita as academias. “Infelizmente, é muito comum em nosso meio, eu mesmo já vi. Quem lançar mão disso será cobrado com juros e correção monetária. Fatalmente terá problemas de saúde”, rebateu com categoria.

Diante de tanta dificuldade, para as pessoas normais. E diante de quase intransponível dificuldade, para os preguiçosos da musculação, como eu, perdi o encanto pela vida de ferreiro. Mas deixei no ar a idéia de usufruir da simpática masmorra de Zahdi. “Se um dia eu resolver treinar, virei aqui”.

Permalink por André Pugliesi em 09.03.07 Email .
Categorias: Comportamento, Esportes , 8 comentários

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Comentários:

Comentário de: THIAGO BIDU Email · http://www.midiaprivada.blogspot.com
Esse tipo de fonte escolhida por você faz jus ao nome do seu blog, ou você acha "legal" assim mesmo?
Falo isso porque, textos longos devem ter uma fonte mais arredondada e, se possível que contenha serifa, o que dá dinamismo à leitura.

Ver:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Serifa
e
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tipografia

Fiquei só curioso em saber suas pretensões e objetivos. Vai que você tem um contra-argumento para me justificar o motivo do uso dessa sua tipogravfia, que eu não saiba...
É viver e aprender.
Abraços
PermalinkPermalink 12.03.07 @ 14:20


Comentário de: Edney Souza Email · http://www.interney.net/
Thiago, o André vai mudar completamente o layout, esse é temporário.

Mas uma observação: serifas possuem essa função sim, só que no papel, serifas não são indicadas para monitores.

Existem muitos textos sobre isso:
http://www.google.com.br/search?q=serifas+monitores
PermalinkPermalink 12.03.07 @ 17:16


Comentário de: jorge · http://www.escriba.org
Pra variar, texto enxuto e divertido. PArabéns. E a nova casa sofreu uma bela reforma, heim? show, ficou maneiro pacas!

abração!
PermalinkPermalink 14.03.07 @ 20:15


Comentário de: tina oiticica harris · http://attu.typepad.com/universo_anarquico/
Não saco de typefaces, nem de lay outs, só de Chanel.

Aí fazendo votos que teu blog alce vôo. Afinal, terra das terras roxas, do Dirceu do Botafogo, do Jaime Lerner, ex-prefeito, promessa de putaria, estou esperando...
PermalinkPermalink 16.03.07 @ 03:37


Comentário de: Léo Mendes Junior · http://deprimeira.blig.com.br
Quem quer saber de serifa, cara pálida? O importante aqui são os textos, e eles são ótimos. Vamos lá, André, para de enrolar e bota coisa nova que esses textos aí eu já sei de cor.
PermalinkPermalink 17.03.07 @ 14:21


Comentário de: Anderson
Puta merda, até que enfim voltou a operar hein! A internet volta a vida!
PermalinkPermalink 19.03.07 @ 22:26


Comentário de: André Roberg. Email · http://www.folhabr.com
Muito bom o texto, formidável!

Deu até vontade de malhar...
Mas já passou!
PermalinkPermalink 24.03.07 @ 05:44


Comentário de: mário
onde fica essa academia ???
PermalinkPermalink 24.03.07 @ 16:59


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