Achados na Noite

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Em seu estupendo álbum "Perdido na Noite", Agnaldo Timóteo embalou num bolero uma bela lição...

"Somos amantes do amor liberdade. Somos amados por isso também. E se buscamos uma cara metade. Como metade nos buscam também. Estou perdido. Estamos perdidos. Mas a esperança ainda é real. Pois quando menos se espera aparece uma promessa de amor ideal"

Eram jogados 1976 e Timas ainda não encontrara o basta definitivo para seu coração em frangalhos. Estava perdido na noite de muitos, sempre à procura da mesma ilusão. Aparentemente, havia deixado de lado as idéias caóticas de um ano antes em "Galeria do Amor", quando o polêmico negrão confessou ter flertado com emoções diferentes ao freqüentar o célebre corredor da viadagem carioca. Mas seguia desgraçado da cabeça, se largando forte na náite.

E se quase 20 anos depois, Timóteo ainda brutalizasse em canções as chagas de seu coração vazio, agora num fim de feira total, humildemente eu lhe dirigiria uma palavra amiga:

"Bróder, deixa com o béque..."

Sem demora, partiríamos em alta velocidade para a Travessa da Lapa, quase esquina com a Sete de Setembro, onde reside o Clube dos Solitários. Local este que recebeu a última expedição da minha pessoa e da pessoa de Rodrigo Abud enquanto produtores desse site. Nos fizemos presentes nessa tal fortaleza do amor, espaço para enfim organizar as tampas em suas respectivas panelas. Curiosos pela notável fila de velhinhos que se aglomeram diariamente defronte às dependências do clube, fomos lá ver qual é da parada.

Os contactos com o proprietário da brincadeira estavam todos agilizados por Abud, que não se limitou a acertar a pauta, foi muito além, e com apenas cinco minutos de conversa telefônica já possuía fortes laços de amizade com o mesmo. Seu nome: Rosaldo Pereira, um entusiasta do amor.

Derrubou é pênalti

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Aportei antes em nosso destino. O frio castigava a capital paranaense, e dada a meia dúzia de cinco ou seis que enfrentavam o sereno na porta do estabelecimento, nada parecia indicar um embalo de sábado à noite. Mas nós sabemos que os velhinhos são ordeiros, organizados, pontuais e incansáveis. Portanto, quando adentrei ao gramado em nada me estupefaceei ao constatar que, naturalmente, lá estavam todos a bailar. Minutos depois, Abud estava ao meu lado e a configuração de dupla foi acionada.

Não era assim um público de Fla-Flu, mas até que a terceira idade se adonava bonito do local. O clube é composto por dois ambientes distintos. Vencida a entrada, um grande salão recheado com mesas cobertas por toalhas brancas. E conjugado, um espaço para a dança com o palco e o bar. Destacado no cenário, um pequeno bunker à direita do palco, que de longa distância parecia ser a casinha do DJ. Descobrimos ser o paradeiro de ninguém menos que Rosaldo Pereira, que mostrava não ser somente o responsável pela burocracia do acontecimento, mas também por toda a programação musical.

Profissão Cupido

Durante 10 anos, Rosaldo trabalhou na Rede Globo de Televisão, marcou presença na OM, CNT etc. Milita no rádio há mais de 30 anos, atuando em atrações musicais e jornalísticas. Atualmente, comanda o programa "Em nome do Amor" na rádio Colombo, mega sucesso no ramo casamenteiro, com simplesmente 3.800 enlaces oficiais registrados desde janeiro de 1982, data em que foi ao ar pela primeira vez. Tanto sucesso fez a audiência sentir a necessidade da realização de uma celebração, e daí nasceu a idéia de reunir os ouvintes num baile. No dia sete de setembro de 1990 o Clube dos Solitários abriu as portas. E passados quase 16 anos já atingiu a marca de 640 casamentos oficiais.

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Rosaldo Pereira, cupido na Terra

"Todo mundo pedia uma festa, um baile, e o clube supriu essa vontade de ter um ponto de encontro dos ouvintes do programa", relembra Rosaldo. O evento foi crescendo e na medida da participação das pessoas carecendo de locais mais amplos para a sua organização. Sendo assim, mudou de endereço diversas vezes, mas na Travessa da Lapa já são seis anos ininterruptos.

Como apresentador do programa e organizador do baile, Rosaldo não poderia se furtar aos convites para ser padrinho dos casamentos arrumados graças ao programa e o baile, e por muito tempo morreu numa grana nervosa pra agradar a turma. "Gastava muito dinheiro sendo padrinho de tanto casal, aí passei a recusar gentilmente os convites", explica o Santo Antônio das Araucárias.

Paradoxalmente, o pai da matéria nunca foi um coração solitário. Rosaldo é casado há 25 anos, e conta com a ajuda da esposa que trabalha no bar. A casa abre de quarta a domingo, e o ingresso vai de dois a cinco cru-crus dependendo do horário. Sábado é dia de som ao vivo, sempre com uma banda diferente. E quando o som mecânico é que comanda, Rosaldo ferve a pista com country, pagode, forró, xóte, boleros, vanerão e derivados.

Com picos que chegam a 940 pessoas, dá pra descolar um numerário gostoso com o evento, mas não é possível tocar a vida só dando uma de cupido. "Não posso negar que tenho um retorno financeiro, mas não é o suficiente. Temos uma série de gastos, como com segurança, por exemplo", revela.

Os mais de 4.440 casamentos no cartel proporcionaram histórias incríveis das pessoas que apostam nas cartas para encontrar o grande amor de suas vidas. Dentre tantas, Rosaldo destaca uma realmente muito curiosa. "Uma das passagens mais incríveis foi a de um casal que ficou cinco meses trocando cartas através do programa, marcaram de se conhecer e quando chegaram ao encontro descobriram que eram vizinhos de frente".

Passeando de Fusca

O desenrolo com o MC, DJ e chefão do esquema foi muito agradável, e sua pequena enterprise musical era mesmo aconchegante, mas eu e Abud carecíamos de um pouco de adrenalina correndo nas veias. E nada melhor que dar aquela riscada nos tacos para ficarmos bem mais à vontade. Para tanto, contamos com a colaboração de duas nobres senhoras, que gentilmente nos concederam o prazer de um breve saracoteio.

Foi quando a mão de Margarida repousou suavemente sobre a palma da mão de Abud, ao mesmo tempo em que Marili Lúcia apresentou-se para ser o meu par. Pouco à vontade nos compassos gauchescos, mandamos um magro dois por dois pra não machucar os pés de tão simpáticas companhias. No ligeiro papo sobre amenidades, descobrimos serem as duas descasadas e à procura de um namorico de portão. Agradecidos pela importante introdução ao mundo da dança, nos despedimos e deixamos as duas senhoras novamente livres para voar.

White Dance Machine

Enquanto flanávamos pelo salão, atentamos para uma figura que parecia ser o responsável por distribuir os coletes na pelada, tamanha era a categoria com que se portava. Seu nome: Wenceslau. Não tinha tempo ruim. Mudava a faixa e lá estava ele sempre acompanhado circundando o salão. Wenceslau parecia ter fugido de um parque de diversões com atrações humanas, devido à precisão cirúrgica com que executava seus movimentos de baile, tanto indo como vindo, sempre de forma absolutamente idêntica. Sua despigmentação e o repertório enxuto de breaks nos sugeriu um condinome para ele: o Carrosel Albino.

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Wences, o Carrosel Albino, circulando

Aguardamos os três segundos regulamentares que Wenceslau costumava ficar sem par para interpela-lo e rapidamente descobrimos ser ele mais do que um dançarino de presença, mas principalmente uma figura simpaticíssima. Habitué do clube - são cinco anos no currículo - Wenceslau quer casar. "Sempre pinta uma namorada aqui, outra ali, mas eu estou procurando um compromisso sério", declarou. Na sequência, perguntamos qual o seu ritmo preferido, visto que se tratava de um bailarino contumaz. "De 42 a 45 anos", despombalizou ao se referir à faixa etária que procurava, não dando bola pro questionamento. Pois então tivemos que insistir: qual tipo de dança você mais aprecia? "Domino mais o xóte e o vanerão", atacou.

Ralando as partes

Quando não mais que de repente sentimos um forte fluxo de libido no ar. E foi só bater os olhos para sabermos de onde era emitida a potente onda sexual que inundava a pista de prazer. Francisco e Consuelo transpassavam as pernas com energia, encaravam um ao outro com olhos de sedução, se arranhavam felinamente, escancaravam ao mundo que o solavanco ali era somente uma questão de tempo e oportunidade. Formavam de longe o par mais sensual da noite.

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Balançando a roseira no salão

Abordados para a execução dos flashs, Consuelo questionou Abud se ele não era protético, não se sabe com qual fundamento. De certo, apenas que a quarta-zaga e zaga-central de Francisco estava um tanto quanto desguarnecidas. Devidamente clicados os dois voltaram aos movimentos peristálticos.

A banda Bela Vista já enchia as caixas com a sonoridade dos pampas quando eu e Abud decidimos mudar de ambiente, desfrutar um pouco de recolhimento no lounge. Sentamos à mesa e passamos a filmar a rapaziada idosa interagindo animadamente entre uma cervejinha e outra. E, registre-se, o público do clube não é composto apenas daqueles que utilizam as portas traseiras do transporte coletivo. Um número razoável de jovens também se fazia presente, mas a terceira idade comanda, especialmente no domingo.

Com o adiantado da hora, e saciados em nossa curiosidade, decidimos nos evadir do local. Os corações devidamente abastecidos de alegria. E, após conhecer o clube, uma velha canção dos Originais do Samba bombando na mente: "se você saiu por aí e não conseguiu arranjar alguém, deixe que alguém saia por aí e consiga arranjar você".

Programa Quadro Casamenteiro - das 22 às 23hs de segunda a sexta na Rádio Colombo do Paraná AM 1020 Khz

Clube dos Solitários - Travessa da Lapa, nº 30 - Centro
Fone do Clube: (41) 3019-6160

Permalink por André Pugliesi em 27.06.05 Email .
Categorias: Comportamento, Relacionamentos , 2 comentários

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Comentários:

Comentário de: Jones Rossi Email · http://www.globoesporte.com/extracampo
Só mandando um alô pros manos. Abs.
PermalinkPermalink 21.02.07 @ 14:22


Comentário de: Leopoldo Dogher
Muito bom o texto postado. Ri muito. É raro este tipo de trabalho. Parabéns.
PermalinkPermalink 23.12.07 @ 01:41


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