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Quinta, 5 de Novembro de 2009

O Homem que Amava as Mulheres

Escrever não é tarefa das mais fáceis. Colocar em palavras todos os pensamentos, emoções e sentimentos que nos vêm à mente requer disciplina, dedicação, uma certa dose de talento e da tal da inspiração, essa musa arredia que volta e meia nos foge do alcance, acenando de longe para o nosso desconsolo enquanto páginas permanecem em branco.

Em outras ocasiões, me deparo com textos que parecem ter psicografado pensamentos que eu sequer sabia que tinham passado pela minha mente, tamanha é a capacidade de nos descreverem. Acontece com capítulos de livros, letras de música, diálogos cinematográficos. E eu, que já citei anteriormente o monólogo de Woody Allen em Hannah e Suas Irmãs, em que ele fala a respeito de como resolveu uma crise existencial revendo um filme dos Irmãos Marx, desta vez tomo a liberdade de pegar emprestadas as palavras que o mestre François Truffaut colocou na boca de seu personagem Bertrand Morane em O Homem que Amava as Mulheres.

Para mim não existe nada mais bonito de se ver do que uma mulher andando, desde que com um vestido ou saia que mexa no ritmo de seus passos. Algumas mulheres andam como se tivessem um objetivo; um encontro talvez. Outras apenas passeiam com ar despreocupado. Algumas são tão belas vistas por trás que hesito em ultrapassá-las, temendo ficar decepcionado. Porém, nunca me desaponto. Quando elas não me agradam de frente, me sinto aliviado de certa maneira; pois, infelizmente, não posso ter todas elas.

Milhares delas andam pelas ruas diariamente. Mas quem são todas essas mulheres? Para onde vão? Dirigem-se a algum encontro? Se o coração delas está livre, então seus corpos devem ser pegos, e creio que não tenho o direito de deixar passar essa chance. A verdade é que elas desejam a mesma coisa que eu: elas querem amor. Todo mundo quer amor. Todos os tipos de amor: amor físico, amor sentimental ou simplesmente a ternura desinteressada de alguém que escolheu outro alguém para a vida toda, e não tem olhos para mais ninguém. Não me encontro nessa situação; olho para todas.

As pernas das mulheres são compassos que percorrem o globo terrestre em todos os sentidos, dando-lhes equilíbrio e harmonia.

Como alguns animais, as mulheres praticam a hibernação. Durante quatro meses elas desaparecem. Não são vistas. E então, no primeiro raio de sol do mês de março, como se tivessem combinado ou recebido uma ordem de mobilização, elas aparecem às dezenas nas ruas, com roupas leves e saltos altos. E a vida recomeça.

Uma bela perna é maravilhosa, mas não sou inimigo dos tornozelos grossos. Posso até dizer que me atraem: são a promessa de um alargamento mais harmonioso subindo ao longo da perna. As pernas das mulheres são compassos que percorrem o globo terrestre em todos os sentidos, dando-lhes equilíbrio e harmonia.

Recentemente percebi que no inverno sou atraído por seios grandes. Entretanto, no verão, gosto dos pequenos. Duas pequenas maçãs andando de braços dados. Mas o que têm todas essas mulheres? O que têm a mais do que todas as outras que conheço? Bem, justamente, o que têm a mais é isso: elas ainda me são desconhecidas.

* * * * *

P.S. 1: Antes que alguém leve a ferro e fogo as palavras de Bertrand Morane e possa pensar que sou um incorrigível mulherengo, vale a pena ressaltar: sou, felizmente, um cara muito bem comprometido. B) Nada, porém, que me impeça de admirar o texto de Truffaut, assim como a sequência do filme embedada neste post, que encontrei no canal de nataligarciavideos no YouTube.

P.S. 2: Para quem, feito eu, gosta de colecionar citações cinematográficas, recomendo fortemente uma visita a este site: Colin's Movie Monologue Page.

P.S. 3: Já visitou a página de Pensar Enlouquece no Facebook?

© Alexandre Inagaki
 
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This post was mentioned on Twitter by interneyblogs: O Homem que Amava as Mulheres http://tinyurl.com/yao6k8f - Pensar Enlouquece, Pense Nisso. - Cinema
link 05.11.09 @ 12:37

Nome: Bianca Melyna · http://www.escre--vendo.blogspot.com
Muito bom o solilóquio! Quanto aos P.S.'s, é isso: és um admirador da beleza feminina em sua plasticidade. Praticamente um curador. =D

R: Gostei da definição, Bianca: curador. Adotá-la-ei. :D
link 05.11.09 @ 12:38

interpretei esse texto como uma afirmação contrária ao infeliz episódio acontecido na uniban. olhar as mulheres e apreciar seus detalhes, com respeito e admiração, não tem nada a ver com mulherenguismo. como representante da classe feminina, sinto-me homenageada. acabo de blipar uma música do Caetano: “elegia”, que tem essa mesma levada: http://migre.me/aLla

R: Cris, foi algo inconsciente, mas que de fato tem tudo a ver: o amor truffautiano pelas mulheres é a antítese da situação nonsense ocorrida na Uniban. Sinta-se, sim, devidamente homenageada. :p
link 05.11.09 @ 12:44

Nome: Diego Goes
Apesar de ser gay, sei bem que o andar das mulheres é hipnotizante, hehehehe.
O texto é estupendo, mesmo. Nunca assisti a este filme de Truffaut. Morar no interior do interior do Brasil faz isso com a gente. Aqui não tem nas locadoras estes clássicos. =/

Outra coisa: isso de se deparar "com textos que parecem ter psicografado pensamentos que eu sequer sabia que tinham passado pela minha mente" frequentemente acontece comigo quando você escreve por aqui.

Abraços!

R: Que puxa, Diego. Você precisa adquirir o DVD do filme então. Mas eu garanto: será um dinheiro muito bem aplicado. Ah, e valeu pelo segundo parágrafo do seu comentário. Nada como bons incentivos pra ver se supero a preguiça e a procrastinação por mais vezes. ;)
link 05.11.09 @ 12:48

só um complemento, ina: no caso da música do caetano, "elegia", ele faz bem mais do que olhar para a mulher. mas com o mesmo espírito de admiração e adoração. é isso o que nós mulheres queremos.

"Feita para iletrados, a mulher se enfeita / Mas ela é um livro místico e somente / A alguns a que tal graça se consente / É dado lê-la"

R: Só um complemento ao seu complemento, Cris: na verdade, "Elegia" é uma tradução que Augusto de Campos fez de um poema de John Donne, "Elegy XIX", musicada por Péricles Cavalcanti. Mais detalhes sobre esta bela combinação de letra & música neste link.
link 05.11.09 @ 13:28

Nome: Thiago Rosa · http://www.thiagorsr.net
Como comentar algo assim? Só se eu achar entre os lábios de uma mulher alguma caminho novo, que indica o que realmente as mulheres querem. Porém todos os caminhos são conhecidos, e ninguém conhecer melhor as mulheres do que elas próprias. E isso já foi indicado de uma outra maneira neste filme. Vou falar o que mais?
link 05.11.09 @ 13:34

isso de se identificar à flor da pele não seria o bovarismo, doença textualmente transmitível e praticamente incurável?
link 05.11.09 @ 13:54

Agora sim compreendi o nome "truffautianas" relacionado a lista. Que puxa, Ina! Me senti lisonjeada. A pessoa que tem seu coração é uma sortuda por ter ao lado um homem com tanta admiração pelo universo feminino.
Já estava com saudades de ler seus textos.
Deixe de preguiça e escreva mais. rs

Beijos!
link 05.11.09 @ 14:27

Nome: Nathália · http://www.floresnajanela.com
Não te culpo: nós mulheres somos mesmo sensacionais! =)

Não fico por aí olhando pernas e bundas, mas me identifico com você no aspecto de me encontrar em certos monólogos de filmes, séries, livros e nos versos de músicas.

Acho que faz parte das belezas da vida.

R: Nathália, não posso negar que ver certas pernas e bundas é algo que me agrada bastante. :P Mas vale o complemento, né? Coisas boas de se olhar, sem a companhia de neurônios devidamente ativos, não passam de colírios fugazes...
link 05.11.09 @ 14:56

nossa, o poema original é mais lindo ainda! thanks :)
link 05.11.09 @ 15:06

Nome: Marcos Alexandre · http://manhattanconnection.wordpress.com/
Interessante a página indicada. Porém ela diz ser de "movie monologues", mas está cheia de "dialogues". Inclusive todos os que acessei eram diálogos e não monólogos, e tinham uma inscrição de "agradecimento pelo envio deste monólogo". Alguém está precisando de um dicionário...

R: Acho que é mais questão de você saber procurar direito no site, Marcos. Além da versão original da cena de Allen em "Hannah e Suas Irmãs", vários dos meus monólogos prediletos no cinema, como os de "Talk Radio", "A Mulher Faz o Homem" e "O Grande Ditador" foram devidamente transcritos.
link 05.11.09 @ 16:03

Nome: joao~grando · http://joaogrando.blogspot.com
A continuação das panturrilhas é sempre um [encantador] mistério: seja para cima (saia), ou para baixo (sapato).
link 06.11.09 @ 09:26

Nome: joao~grando · http://joaogrando.blogspot.com
Ocorreu-me agora que, se houvesse tumblr., talvez esse trecho citado teria virado apenas uma série de reblogagens do Chagrin.

Ou: como cada coisa é insubstituível, como o texto escrito (e só escrito) tem sua competência.

E nessa de despertar o que estava na nossa cabeça através de um texto de outro no próprio texto, eu parti para outro texto (só texto, sem misturar com imagens como usualmente faço). E aí que usei do comentário anterior para completar um rascunho antigo. E como a parada toda passar por dividir, se quiser, dá uma olhada: http://migre.me/aQID , que o foco é o mesmo.
Grando abraço,
joao~grando

R: Caro João, você citou Rayuela em seu post. Que, diga-se de passagem, será o assunto do meu próximo post no Pop Cabeça. Sincronicidades. :p
link 06.11.09 @ 10:19

Demais!!
link 06.11.09 @ 16:16

Inagaki,
não pensaria que vc é "mulherengo" com esse post.Ao contrário, o texto é tão delicado que só faz de você um cavalheiro.

R: Ufa! Adriana, ainda bem que minha intenção ficou clara para você. :p Sempre há quem mal interprete a gente.
link 06.11.09 @ 19:46

Como mulher, admito: nada balança mais um coração feminino do que um homem que sabe olhar uma mulher de verdade. Admirar o nosso jeito de corpo, de alma... De vida. É maravilhoso quando esse encontro acontece. :-)
Amei!
Abraços, caríssimo!
link 06.11.09 @ 21:56

Nome: Vivien Morgato · http://www.mejoana.blogspot.com
Gosto de textos que falam sobre pessoas, sobre o olhar do autor sobre pessoas. É sempre surpreendente, não raro, poético.

R: Muito bem dito, Vivien. Também aprecio conhecer outros olhares atentos às coisas da vida.
link 07.11.09 @ 10:18

Cara, que sensacional isso!
To muito mais feliz de fazer parte daquela sua lista no twitter :)

E acho que ser 'mulherengo' no sentido desse vídeo não é nada mau. Rola respeito e sensibilidade, achei muito bacana.

beijao!

R: Rê, é fato: Truffaut foi um mulherengo com classe. :D
link 07.11.09 @ 11:40

Nome: célia musilli
Fantástica a ideia de que o que nos atrai é o desconhecido...mas há tb a presença que vai entrando em nossas vidas até que...não dá pradizer que sem certas Pessoas não existimos...mas existimos menos. Um abço
link 07.11.09 @ 15:44

Meu caro, gostei muito, muito do texto, obrigada por mais essa, Ina.

Logo que começei a ler lembrei de um texto do Fabricio Carpinejar:

"Mulher não é um pedaço de carne. Por mais que o homem a observe com malícia.

O corpo da mulher é pensamento. Não anda, pensa. Uma mulher parada ainda está se movimentando.

É um cuidado com o cotovelo, um préstimo das sobrancelhas, a sombra preciosa do pescoço. Parece treinado, mas nem ela sabe o que está fazendo, não seria capaz de repetir. Não adianta chamar atenção ao ato involuntário, que responderá desajeitada:

– O quê? Não reparei...

Será informada do próprio milagre e continuará agindo com a naturalidade do esquecimento." Fabricio Carpinejar.

Sugiro ler o texto inteiro, chama-se Desde lá e está em algum lugar nesta página do blog dele:
http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/2007_12_01_archive.html

Essa semana estava conversando com uma pessoa do meu trabalho que fez uma comparação da mulher com uma aeronave... mas esta explicação fica pra outro dia.

Um grande abraço

R: Marcela, o Carpinejar é bom mesmo. Prefiro os versos dele às crônicas, mas ainda assim ele manda muito bem em trechos como o citado por você, em especial quando ele usa a metáfora do movimento parado. Vou te cobrar essa história da imagem da aeronave depois, viu? ;)
link 07.11.09 @ 15:54

Nome: Daniela Venske
Um dos meus filmes top10! Sempre cito esse trecho...rs
link 09.11.09 @ 14:59

Nome: Carol Bottacin
Belo texto, o filme deve ser incrível, vou procurar para baixar na internet, nesse fim de mundo islâmico, só na pirataria... Não posso deixar de dizer que lendo me lembrei de uma frase que li circulando pela internet tempos atrás, dita pela tal Mirella, no tal tosco programa de tv, A Fazenda: "Toda ferrari na garagem vira fusca".
O desconhecido tem mesmo todo esse poder diante da libido masculina, é sensual não saber, não conhecer na intimidade. O que é mais sensual que não saber pelo que esperar, que as surpresas que o novo nos dá?
Mulherengos de plantão, não vos tolero, mas vos entendo!!

R: Carol, interessante essa imagem da Mirella. Não que seja verdade incontestável, mas reflete um pensamento bastante recorrente por aí. Me veio, porém, a seguinte dúvida: e para as mulheres, essa metáfora também se aplica?
link 12.11.09 @ 05:36

hehehe
gostei
link 14.11.09 @ 17:32

Nome: Marcos Alexandre · http://manhattanconnection.wordpress.com/
Sim, muitos monólogos foram transcritos. O que eu disse é que no site há muitos diálogos transcritos, e que estes estão classificados como monólogos. Na verdade o site classifica qualquer citação de um filme como sendo monólogo. E isso está errado. Monólogo é uma coisa, diálogo é outra.

R: Sim, percebi isso. Por isso note que, em meu P.S., falo em "citações cinematográficas", não simplesmente em monólogos.
link 16.11.09 @ 09:20



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