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| Segunda, 30 de Julho de 2007
No artigo publicado no New York Times sobre a morte de Bergman, Mervyn Rothstein transcreve a seguinte declaração do cineasta: "Quando eu era jovem, tinha um medo extremo de morrer. Mas agora penso que ela faz parte de um arranjo muito, muito sábio. É como uma luz que se extingue. Nada que justifique uma agitação". Uma declaração que não surpreende, vinda de um mestre que elevou a sétima arte a patamares inéditos de densidade artística e filosófica. Das muitas obras-primas do cineasta sueco, meu filme predileto é O Sétimo Selo, de 1957. Dele, transcrevo alguns diálogos que provam que Ingmar Bergman foi um mestre entre mestres, tanto na direção quanto no roteiro de suas obras. - É um inferno com as mulheres, e pior sem elas. A melhor coisa é matá-las enquanto se pode. (...) - Talvez eu a ame. Para encerrar esta breve homenagem, um trecho de outra de suas obras-primas: Morangos Silvestres, também de 1957. Obrigado, Bergman. P.S. 1: Ontem à noite foi a vez de mais um mestre, Michelangelo Antonioni, nos deixar. Mais uma perda lamentada por todos os cinéfilos. P.S. 2: Confiram a homenagem coletiva organizada por Chico F.
Os Jogos Pan-Americanos acabaram, deixando muitas histórias pra contar. A maior delas, sem dúvida nenhuma, é saber como é que o Pan 2007, que estava orçado inicialmente em R$ 800 milhões, acabou por consumir nada menos que R$ 3,8 bilhões. Será que um dia a verdade sobre este singelo aumento no orçamento inicial virá à tona? Aguardemos sentados, porque de pé cansaremos mais.
Aos trancos e barrancos o Brasil fez bonito no Pan, apesar de incidentes como o corte aos 44 minutos do segundo tempo de Ricardinho da seleção brasileira de vôlei, motivado por uma discussão com Bernardinho sobre divisão de premiações. No final das contas, o Pan 2007 serviu para a revelação de novos ídolos, como Jade Barbosa, e a consolidação de outros, como Marta. E, apesar de vexames causados pela (falta de) organização, como os incidentes nas instalações de beisebol e softbol, o Brasil parece ter passado no teste de sediar um grande evento esportivo, ao menos em quesitos como trânsito, pontualidade dos eventos e segurança. Ficam as muitas histórias pra contar. Destaco em especial a cobertura feita por dois jornalistas, Carolina Canossa e Felipe Held, que fizeram em seus blogs relatos deliciosos de algumas das maiores presepadas ocorridas no Pan. Recomendo o relato que Carol fez do único gol feito pela seleção brasileira de hóquei sobre a grama: "O 'heróico' autor do gol verde-amarelo tem o nome de Willian Alba, apelido 'Picles', faz 19 anos daqui a cinco dias e conheceu o esporte no início do ano, depois de ter disputado torneios mirins de futsal". Detalhe: o Brasil marcou só um gol e tomou 57. Menção honrosa também para a descrição que Felipe fez da entrevista que Pedro Lima (também conhecido como "Peu" para os íntimos), medalhista de ouro no boxe, concedeu à ESPN Brasil: "Depois das perguntas de praxe, o repórter Dudu Monsanto fez uma surpresa para o grande campeão: 'A sua namorada Jacigleide (!) está na linha. Peu, o que você tem a falar para ela?'. Começou. Peu e a gloriosa Dinha (ah, se não fossem os apelidos!) trocaram juras de amor. O auge foi quando o medalhista disse 'Meu amor, nada vai mudar entre a gente depois dessa medalha. Você sabe onde eu tenho aquela tatuagem pra você, naquele lugar que eu não posso mostrar na tevê'. Ai, Jesus!" No Pan em que a música-tema "Viva Essa Energia" foi devidamente virundizada e transformou-se em "viva a cervejinha" (conforme relatou minha amiga Cris Carriconde), concedo o Troféu Galvão Bueno de narração de modalidades usualmente ignoradas a Sérgio Guimarães, da Rádio Gaúcha FM. Sérgio descreveu por cerca de 4 minutos a performance de Marcel Sturmer, bicampeão pan-americano de patinação artística, com uma destreza digna do pai do Cacá Bueno, como podemos conferir neste vídeo. Neste Pan em que o Brasil perdeu medalhas por ocorrências como o caso de Aline Campeiro (atleta que vibrou antes da hora, pulou no colo do seu técnico pra comemorar um recorde brasileiro que bateu, e acabou por sofrer um entorse no joelho sendo obrigada a abandonar a competição), pode-se dizer que aconteceu de tudo, com destaque especial para as vaias destinadas ao Presidente ou a competidores de outros países. Mas foi inegavelmente divertido enquanto durou. E que venha Guadalajara 2011!
Sexta, 27 de Julho de 2007
Segundo o Guia dos Curiosos, hoje é Dia do Despachante, Dia do Motociclista e Dia Nacional de Prevenção dos Acidentes de Trabalho. O site do New York Times recorda alguns fatos históricos, dentre os quais o mais marcante para mim é a primeira aparição do Pernalonga em um desenho animado, em 1940. Além disso, hoje também é dia do meu aniversário. Eu sinceramente não ligo muito pra essas datas, mas é claro que fico contente ao receber beijos, abraços, scraps e presentes. Aliás, quem quiser me presentear com algum item da minha lista de desejos, fique à vontade... Para finalizar este post, republico um texto antigo que escrevi há alguns anos. Tempo, tempo, tempo... Dia de Desaniversário Todos os dias do ano alguém faz aniversário. Logo, todo dia deveria ser dia de festa. Certos estavam os personagens de Lewis Carroll, que comemoravam seus desaniversários. Afinal de contas, por que celebrar apenas um dia do ano, renegando os outros 364? Somam-se-me dias, como bem escreveu Pessoa. Enquanto alguns amigos sugerem comemoração em um bingo, outros acham mais adequado alugar uma quadra de bocha. A eles, respondo: não estou ficando velho, na verdade tudo é uma mera questão de acumulação de know how através dos anos. Eufemismos à parte, o fato é que nunca fui muito fã de aniversários. Sei lá, perderam o encanto, da mesma maneira que não vejo mais graça no Natal.
Houve tempos em que desejei envelhecer logo, a fim de poder ver os filmes da Sessão Coruja, beijar na boca a menina mais bonita da classe e coisas do tipo. Mas foram arroubos da infância, época na qual arrogantemente cremos que teremos todo o tempo do mundo à nossa disposição. Hoje, com três décadas em minhas costas, sei que estou chegando à metade da minha vida. Sinto-me quase como Humpty Dumpty, aquele ovo gigante que, sentado em cima de um muro, vislumbra o mundo no meio do caminho entre a certidão de nascimento e o atestado de óbito. O que fiz, o que farei, o que almejo para o futuro? Aniversários, na verdade, assemelham-se mais a réveillons: são ocasiões apropriadas para se refletir a respeito da vida. É, nada como uma boa desculpa para beber champanhe, e lembrar que todo dia é dia de recomeçar. Philip Larkin, um de meus autores prediletos, escreveu em seu poema As Árvores: "ano passado morreu, parecem dizer/ comece de novo, de novo, de novo". Que assim seja.
Quinta, 26 de Julho de 2007
Eduardo Fernandes, a.k.a. Eduf, já editou as revistas eletrônicas Fraude.org e Gonzo, compôs e gravou músicas sob a alcunha de Peruano Saudita, publicou cartuns no Jornal da Tarde, trabalhou nos sites da Trip, TPM e Futuro Comunicação, colaborou e editou um número do Spam Zine, lançou um livro intitulado "O Prazer de Decepcionar", criou e editou a revista Radar e escreveu para a Irmandade Raoul Duke. Atualmente é editor do site da revista Superinteressante e grava rock'n'roll for geeks. Mas é evidente que tudo não passou de mera preparação para um novo projeto que vem por aí. Nas palavras de seu autor: "Basicamente, a idéia é encontrar saídas divertidas, inteligentes e criativas para lidar com a vida atrelada à tecnologia. Os lifehackers são espécies de McGyvers do cotidiano. Como o personagem do seriado de TV, dão um jeito de usar as coisas mais improváveis para resolver seus problemas. Por isso o nome do site: Magaiver, abrasileirando um personagem que por si só já é bem brasileiro, aquele que usa criatividade e bom humor para superar limitações e falta de recursos". Atesto, boto fé e saio de baixo.
Não deveria haver alguma espécie de mérito para uma pessoa que é contemplada com os holofotes midiáticos? Compor como Lennon, escrever como Cortázar, pintar como Picasso ou ter capacidade de liderança feito Gandhi ou Churchill? Necas de pitibiriba. Na escancarada democracia da fama, há espaço para qualquer um. As fronteiras entre fama e infâmia, cada vez mais tênues, tornam atualíssima a frase pronunciada em um filme de Woody Allen sobre o tema: "Você conhece uma sociedade pelas celebridades que ela cria". * * * * *
No entanto, comparem essa nota com o que o blog Retratos da Vida, do jornal Extra, afirma: "A Playboy de Íris Stefanelli está dando o maior trabalho. A dose de photoshop usada nas imagens é bem maior do que os profissionais de tratamento estão acostumados por lá. Em muitas fotos, as pernas, o bumbum e a barriga precisaram de um belo retoque". Em qual das notícias nós, céticos calejados, deveremos botar mais fé? Em meio a notas desencontradas, é interessante recordar o que a ex-namorada do Alemão afirmou em 26 de abril à Folha Online, a respeito da então hipótese de um dia topar posar sem roupas para uma revista masculina: "Surgiram dois convites. Mas tava muito triste, porque não é o que eu quero pra mim. Eu não queria ir para esse lado. Eu tenho vergonha. Queria primeiro conquistar uma carreira. Mostrar que sou capaz de conseguir dinheiro por outro meio". De fato Íris deve ter ficado abatida, a ponto de ter sido flagrada outro dia furando a fila de uma conhecida padaria 24 horas em São Paulo. Percalços da fama, por certo. * * * * * Mas o que estranhar, em tempos nos quais revistas como a People desembolsam até US$ 4,1 milhões pelo direito de exibir, em primeira mão, as primeiras fotos da filha do casal Angelina Jolie e Brad Pitt, como mostra esta matéria do Jornal da Tarde sobre as fotografias de celebridades mais caras da história? Creio que não tardará a vir o tempo em que casamentos de personalidades serão exibidos em boletins extraordinários, com direito a musiquinha do plantão da Globo (o tema mais urucubaca de todos os tempos) e helicóptero do Gugu gerando imagens comentadas por Sonia Abraão e Leão Lobo ("o vestido de noiva de Sandy foi desenhado por Ronaldo Ésper, uma loucuuuuuura"). Nesse mesmo dia, os Quatro Cavaleiros do Apocalipse descerão à Terra semeando a fome e a destruição. José Luiz Datena comandará a transmissão ao vivo com imagens da CNN.
Terça, 24 de Julho de 2007
Quando John McClane invadiu as telas do mundo inteiro pela primeira vez, Ronald Reagan era o presidente dos Estados Unidos, a expressão "Guerra Fria" ainda fazia algum sentido, a moeda brasileira era o cruzado, não havia Web e Ayrton Senna ganharia naquele distante ano de 1988 seu primeiro campeonato de Fórmula 1. A um ano da queda do Muro de Berlim, o mundo vislumbrava uma nova realidade na qual soviéticos pouco a pouco deixavam o posto de vilões. O protagonista interpretado por Bruce Willis trouxe um novo paradigma aos filmes de ação. John McClane não tinha físico de halterofilista bombado feito Stallone ou Schwarzenegger. E, ao contrário do glamourizado James Bond, John apanhava, sangrava e se estrepava o tempo inteiro, como se sua bondgirl fosse Lady Murphy, sempre ao seu lado concentrada na tarefa de fazer com que seu dia seja o mais infernal possível. Duro de Matar, ao apresentar um herói cínico, vulnerável, mais preocupado em resgatar sua mulher do que proteger as instituições ou o "american way of life" tão defendido por personagens como Rambo, influenciou todos os filmes e seriados de ação que o sucederam. Jack Bauer é seu irmão caçula. Duro de Matar 4.0 resgata o personagem de John McClane quase duas décadas após sua primeira aparição, novamente na pele de um sujeito envolvido à revelia em um dia de cão. Está mais desiludido, mais envelhecido, mais rabugento. Sem dinheiro no banco, divorciado e tendo um péssimo relacionamento com a filha, McClane desta vez é enredado em uma trama que envolve um colapso nos setores de trânsito, comunicações e energia, causado por um grupo de piratas de computador que se infiltra no sistema informatizado do governo americano. Com a ajuda de um parceiro inesperado, o desajeitado hacker Matt Farrell (interpretado por Justin Long, uma espécie de Keanu Reeves jovem e com mais senso de humor), John McClane conseguirá desbaratar essa quadrilha, movido por duas razões básicas: salvar a filha que foi seqüestrada pelos bandidos e matar todos os caras maus. Aos 52 anos de idade, Bruce Willis está excelente no papel de herói durão e cínico. Timothy Olyphant, que interpreta o vilão principal, o líder da quadrilha Gabriel, não tem nem um quinto do carisma de Willis. Mas essa deficiência é compensada em parte pela sensual Maggie Q, que rouba cenas no papel de Mai, comparsa e namorada de Gabriel. Outro destaque do elenco é Kevin Smith, diretor de clássicos do cinema nerd como O Balconista, perfeita escolha de casting para interpretar o mestre hacker Warlock. É claro que você não pode exigir verossimilhança de um filme como Duro de Matar 4.0. Há seqüências que se assemelham a comédias pastelão, de tão inacreditáveis. Destaco duas cenas em especial: a seqüência em que McClane derruba um helicóptero em pleno ar ao jogar o carro que dirige para cima dele, e outra na qual ele consegue escapar do ataque de um avião a jato que destrói um viaduto inteiro. Mas enfim, nada que um policial cinqüentão protagonizando um blockbuster hollywodiano não consiga fazer, a fim de salvar sua filha e poder ir pra casa reconciliado com ela. Se, no meio do trajeto de resgate, John McClane salvar os Estados Unidos de um apocalipse cibernético, que assim seja. Duro de Matar 4.0, como diria aquele locutor do "Domingo Maior" da Globo, é ação do começo ao fim. O espectador mais atento não deixará passar desapercebido um certo clima de xenofobia (explicitado nas ofensas à "magrela asiática" cometidos por McClane) e o fato de o chefe dos vilões citar uma frase de Lênin. Mas o filme não pretende defender nenhuma grande tese sociológica. Quem for ao cinema buscando por diversão descerebrada certamente se refestelará com primorosas cenas de explosões e pancadarias. Jack Bauer que se cuide: John McClane voltou com tudo e não está nada prosa...
Bruxaria. Satanismo. Pornografia. Se depender dos paranóicos e crentes que levam tudo por trás e crêem que há mensagens ocultas em cada filme, música ou livro que consumimos, este mundo está definitivamente perdido. Que o digam os fiéis que ouvem atentamente as palavras do pastor Josue Yrion, que denuncia as mensagens subliminares que ele foi capaz de enxergar nas obras da Disney. Fale sinceramente: você também é desses que ouviu "Superfantástico" da Turma do Balão Mágico ao reverso? Mas enfim, tergiverso para falar que não sei, sinceramente, o que há por trás de Rotina em Chamas, que afirma ser "uma aventura cinematográfica sobre a enfadonha rotina de 3 brasileiros". Segundo o site, a tal obra, que supostamente utiliza mensagens subliminares, está sendo realizada pela Flamejante Filmes, produtora cujo dono seria um certo Winston Bandeira. Uma rápida consulta ao Registro.BR mostrou que quem está por trás desse site é a galera da Colmeia. No entanto, o vídeo que o misterioso Winston me enviou é tão bacana que não resisti à tentação de publicá-lo aqui. Ei-lo: Não é difícil chegar à conclusão de que esta produção, deve fazer parte de alguma campanha publicitária. Mas gostei da bela sacada de produzir um vídeo personalizado para cada blog "homenageado". Além do Pensar Enlouquece, Ah! Tri Né!, O Mico na Rede e Sim, Viral foram alguns dos contemplados com versões customizadas deste vídeo.
Sexta, 20 de Julho de 2007
É inacreditável saber de fatos como os relatados por esta reportagem da Agência Estado: "Seis meses após anúncio, PAC da aviação fica sem verba". Em janeiro, ainda diante da comoção causada pela colisão do Legacy com o avião da Gol que tirou 154 vidas, o governo federal havia anunciado que cerca de R$ 350 milhões seriam destinados, dentro de seu Programa de Aceleração do Crescimento, a investimentos em infra-estrutura aeroportuária. No entanto, estamos em julho e nada de concreto foi gasto em investimentos em aeroportos. Não espere, portanto, que as autoridades (ir)responsáveis tomem alguma atitude mais produtiva do que simplesmente decretar dias de luto após algum "acidente". Não adianta simplesmente reclamar da ganância das empresas aéreas ou da inapetência da Anac ou da Infraero. Faça a sua parte, evitando voar em um aeroporto que, conforme afirmou Carlos Camacho, diretor de segurança de vôo do Sindicato Nacional dos Aeronautas, é internacionalmente conhecido por ter uma pista crítica, principalmente em dias chuvosos. Não voe por Congonhas. P.S. 1: Para ler e refletir sobre o assunto: frases sobre o acidente com o vôo da TAM. P.S. 2: Rodolfo Castrezana pede para avisar: por motivos de força maior, o OMEdI agora atende amigos, clientes e fornecedores em uma nova URL, http://www.omedi.net. P.S. 3: Confiram o relato do comandante de um avião Airbus A320 da TAM (link via Dia de Folga). P.S. 4: Já está sendo organizado um "No/Fly Day": sábado, 18 de Agosto, a partir das 16 horas, será feita uma marcha que partirá do obelisco do Ibirapuera e seguirá até Congonhas. Maiores informações neste site.
Quarta, 18 de Julho de 2007
"Acidente", segundo o dicionário Houaiss, possui a seguinte acepção: "acontecimento casual, fortuito, inesperado". A tragédia ocorrida ontem à noite, portanto, não pode ser chamada de "acidente". Não faltaram indícios prévios de que alguma nova desgraça envolvendo aviões poderia acontecer a qualquer momento. Tarefa mais árdua do que o reconhecimento dos corpos será identificar, no jogo de empurra-empurra entre governo, Infraero, Aeronáutica, Anac e empresas aéreas, os irresponsáveis pela chacina de 17 de julho de 2007. Ivan Sant'anna, autor do livro Caixa-Preta, que reconstitui a história de três desastres aéreos, afirmou em entrevista concedida a Jorge Antonio Barros, do blog Repórter de Crime: "O piloto deve ter passado da cabeceira (da pista do Aeroporto de Congonhas) e tentou arremeter. Ele bateu tentando voar. E voou para a morte. Mas realmente foi uma tragédia anunciada". Mais adiante, Ivan arremata: "Não tem governo. Por causa das reclamações contra o caos aéreo, ninguém tem peito de mandar fechar o aeroporto, que é o que deve ser feito, sobretudo em dia de chuva". O termo grooving, utilizado para descrever as ranhuras transversais que facilitam o escoamento de água e servem para aumentar a aderência dos pneus de aviões em uma pista de aeroporto, será tão conhecido quanto a palavra transponder na época da colisão entre o Legacy e o avião da Gol, ocorrido há menos de um ano. Qual será a palavra a ser notabilizada da próxima vez? Cris Dias, João Paulo Cuenca, Carlos Cardoso, Bia Kunze e Chico F. escreveram posts precisos sobre os acontecimentos de ontem. Mais de 180 vítimas, entre passageiros, tripulantes e transeuntes que estavam nas imediações, fazem do "acidente" do vôo 3054 da TAM a maior tragédia, em número de mortos, de toda a história da aviação brasileira. Por quanto tempo esse recorde funesto perdurará? Alguma medida mais efetiva do que uma reunião de "emergência", convocada pelo Presidente da República com seus ministros logo após saber do "acidente", será tomada, fora decretar alguns dias protocolares de luto oficial? Há momentos em que palavras são inócuas, estéreis, inúteis. Não valem, nunca possuirão o mesmo valor de um abraço.
Sexta, 13 de Julho de 2007
Eu, particularmente, não me incomodaria em passar debaixo de uma escada, pisando sobre cacos de espelhos quebrados por mim mesmo enquanto aninho em meus braços um gato preto na manhã de uma sexta-feira 13. Mas o fato é que existem muitos supersticiosos neste mundo, a ponto de ter sido criado um termo específico para definir a fobia que alguns têm pelo número treze: triscaidecafobia. Há inclusive uma palavra específica para aqueles que temem as sextas-feiras 13: parascavedecatriafobia.
Para alguns "experts" no assunto, a explicação para as crendices sobre a data está no fato de que Jesus Cristo foi crucificado numa sexta-feira, sendo que na última ceia havia treze pessoas em sua mesa. Há outras teorias: segundo uma lenda nórdica, houve um banquete e doze deuses foram convidados. Loki, espírito da discórdia, apareceu sem ser chamado e armou uma briga que culminou na morte de Balder, o favorito dos deuses. Teria surgido a partir daí a crença de que convidar treze pessoas para um jantar representaria iminente desgraça. Teorias maionésicas à parte, o fato é que parascavedecatriafóbicos abundam neste mundo. Em declaração feita à National Geographic News, Donald Dossey, fundador do Stress Management Center and Phobia Institute, afirma que cerca de 800 a 900 milhões de dólares são perdidos em negócios porque pessoas evitam voar ou fazer transações comerciais em dias como o de hoje. Um cético feito eu não entende por que tantas neuras justamente na sexta-feira, véspera dos descansos imprescindíveis dos finais de semana. Compartilho, pois, da teoria de Garfield: terríveis mesmo são as segundas-feiras 13... P.S. 1: Neste sábado, dia 14, a partir das 19:30, não perca o lançamento dos livros Liberal Libertário Libertino, Radical Rebelde Revolucionário e Virgínia Berlim no Rio de Janeiro! Alex Castro preparou um comovente FAQ sobre os lançamentos. Eis uma de suas esclarecedoras respostas:
P.S. 2: Rodolfo Castrezana, do OMEdI, estará presente em um debate sobre o papel da Internet na vida sexual do brasileiro, organizado pela revista PIX, ao lado de nomes como Bruna Surfistinha e Gisele Rao: dia 17 de julho, a partir das 19:30, no Sesc Pinheiros. Confira! P.S. 3: Kandy, além de auxiliar escribas distraídos na revisão de artigos apinhados de erros de grafia e concordância, é uma excepcional cronista. Exemplo recente do que afirmo: "Absurdo", um daqueles textos que a gente lê e não resiste à compulsão de repassar para a frente.
Terça, 10 de Julho de 2007
Há tempos o posto de melhor banda de rock do Brasil é ocupado pelo Violins. Já em 2005 o grupo de Goiânia havia lançado o melhor álbum nacional daquele ano, "Grandes Infiéis". O lançamento recente deste petardo sonoro intitulado "Tribunal Surdo" consolidou minhas impressões: não há, neste país, uma banda de rock que possa se comparar, em termos de qualidade de letras ou coragem estética, ao Violins.
"Queria dizer à sociedade que nós, pais, não temos culpa. Mas não é justo manter presas crianças que estão na faculdade, estão estudando, trabalham. Não concordo com a prisão na Polinter, ao lado de bandidos. Vão acabar com a vida deles. Peço ao juiz que dê uma chance aos nossos filhos". O que pensar de uma sociedade na qual o pai de um dos cinco imbecis (que recebem mesada mensal e são alunos de faculdades), que espancaram covardamente uma empregada doméstica que estava solitária em um ponto de ônibus, tem a desfaçatez de dar uma declaração dessas? "Grupo de Extermínio de Aberrações", faixa 4 do novo álbum do Violins, expressa com raivosa ironia o zeitgeist da Terra Brasilis. O conteúdo de sua letra, expressamente proibido para analfabetos funcionais, descreve com precisão a realidade em que homossexuais são espancados nas ruas dos Jardins, enquanto a sociedade finge que inexiste racismo neste país de cidadãos bovinamente cordiais.
P.S. 1: Na versão que o Terminal Guadalupe canta de Grupo de Extermínio de Aberrações, o verso "o estoque de extintor não chega ao fim do mês" foi trocado por "eu sou fiel ao Papa Bento XVI", em uma acertada liberdade poética. Hoje, 10 de julho, é comemorado o Dia da Pizza. Não tendo nenhuma conotação política ou jurídica, é um excelente pretexto pra que este dia acabe em pizza. Para paulistanos, recomendo uma visita à lista de dez melhores pizzarias de São Paulo elaborada pela galera do Sampaist.
Sexta, 6 de Julho de 2007
Torneiras abertas à toa. Leila, eu ainda não tô bêbado, relaxa. Quando eu me levantar desta mesa e gritar pra todo mundo que encontrei a Resposta Definitiva, aí sim é motivo pra você começar a se preocupar, ok? Teve uma vez que bebi tanto que achei que tinha virado médium, incorporei o Nietzsche, a Rita Hayworth e o Wilson Grey na mesma noite. Meus amigos sentiram que era hora de me arrastar pra casa quando comecei a cantar Put the Blame on Mame e a fazer um strip no meio do velório. Mas eu tô bem, eu tô bem. Do que é que estava falando? Ah sim, torneiras. O problema deste mundo são esses amores não-correspondidos e desperdiçados a toda hora, entende? Como paixões que são despertadas negligentemente, ilusões platônicas que acabam com gosto de soco na alma, noites de sexo mal interpretadas, amores exilados que não encontram seu lugar no mundo, como peças extraviadas de um quebra-cabeça. O problema todo se resume nisso: corações e cérebros não falam a mesma língua. A vida seria muito menos dolorida se a gente tivesse o dom de se apaixonar por aquela pessoa que nos oferece o coração. Deveria ser tudo questão de um clique, e pronto: aquele amigo que a gente só consegue enxergar como confidente assexuado se transformaria no príncipe encantado. Mas não, não neste rascunho porco de mundo em que vivemos. Quem sabe na versão 2.0. Sim, eu sei, não precisa falar. Você falou que eu ia me estrepar com aquela menina, mas deixou de usar pedagogia comigo, pô. Sim, pode rir, vou fazer o quê? Leila, você se esquece do quanto todo homem é crianção e imaturo, e de como a gente se torna repentinamente burro quando se interessa por alguém? Esses lances de sermões, do tipo "filho não coma o que caiu no chão", "cuidado com as más companhias", "não aceite balas nem arquivos atachados de estranhos", yada yada yada, não dão certo. Tem que quebrar a cara pra aprender, errar, cometer novos erros. Mas deixa pra lá. Fala sério, esse vinho não parece que fica melhor a cada gole? Ih, relaxa, tá tudo sob controle. Cê tá parecendo minha mãe, só falta pedir pra que eu arrume meu quarto. Meus livros estão todos empilhados, um dia te mostro a Torre de Pisa que fiz com meus Goethes, Fonsecas, Borges. Uma lindeza. Ansiosa pra ver o meu quarto? Ih, você não sabe do que está falando. Aquilo é um buraco negro, tudo que entra some e vai parar em outra dimensão. Mas olha só: talvez o amor não passe de um erro de programação. Um bug atravancando o perfeito funcionamento do sistema. Um vírus no código-fonte da Matrix. Uma maldição que surgiu com a intenção única de inspirar cornos a escreverem músicas sertanejas, e de fazer minhocas treparem fulminantemente no drive-in do meu cérebro, numa putaria incessante que me atormenta 25 horas por dia. Leila, eu juro pra você: um dia vou espirrar e minhoquinhas sairão voando de minhas orelhas. Não ri não, eu tô falando uma verdade trágica! Esses bichos promíscuos estão me deixando mais pirado ainda, enchendo minha cabeça com a imagem onipresente daquela vagabunda incapaz de retribuir todo o amor que eu poderia dar a ela. Vou parecer alienado, e talvez eu seja mesmo, mas a verdade é essa: amores desperdiçados são a grande tragédia da humanidade. Se Franco, Pinochet, Suharto e todos esses babacas tivessem uma mulher legal, talvez não ficassem tanto tempo pensando em merdas totalitárias. Caralho, tô ficando mesmo bêbado. Ops, desculpe aí. Falo palavrões pra caralho. Tem vezes que dá vontade de dizer pra aquela menina: porra, será que você não vê que eu não sou só ombro, que eu tenho boca, mãos, língua, pau? Porque estou farto de ouvir as desventuras amorosas daquela vadia com Danilos, Gérsons, Alans, Rodrigos e todo um bando de putos batizados com esses nomes típicos de classe média metida a burguesa, uns mauricinhos prestáveis pra trepar, mas que roncariam estrepitosamente se fossem obrigados a ouvir um quinto das lamúrias e confidências que a desgraçada me faz. Isso é que dá virar confidente. Se eu quisesse realmente comê-la, jamais poderia deixar que nós nos tornássemos amigos. Com certeza ela só consegue me ver como um terapeuta assexuado, um ombro-travesseiro, jamais como um macho. Caralho. Se ela soubesse que, por trás desta fachada inofensiva, se esconde um gigolô pós-graduado em usos alternativos de chantili e algemas... Jura que você pagaria pra ver isso? Engraçadinha. A verdade é que você só conhece uma pessoa entre quatro paredes, despida, literal e simbolicamente, de todas as máscaras que a gente usa no dia-a-dia. Ainda bem que tenho você pra me agüentar. Ouvir meus desabafos é como pagar pecados em vida, quando você morrer vai direto pro céu. Onde mais eu acharia uma amiga como você, que presta atenção em tudo o que eu digo? Ou isso, ou você arqueia as sobrancelhas como ninguém. Brincadeira. Às vezes me pergunto o que leva você a aturar minhas rabujices. Você deveria ser terapeuta. E não adianta me dizer que você só faz essas coisas por minha causa. Você é uma santa, a Madre Teresa dos chatos bêbados como eu. Um dia ainda ganho na Mega Sena e encontro uma mulher tão linda e inteligente como você. Um clique? Ué, não entendi. Burro? Sim, mas qual é a novidade? Não, não. Pode deixar, eu pego um táxi. Ok. Garçom, a conta. Leila, como é bom ter uma amiga como você. * * * * * P.S. 1: Não conheço trilha sonora mais adequada para este meu conto que não seja a canção que Cazuza, Dé e Bebel Gilberto compuseram numa dessas madrugadas insones nas quais os pensamentos da gente perambulam inquietos por aí: "Preciso Dizer Que Te Amo". Esta gravação foi lançada na coletânea "Red Hot + Rio". P.S. 2: "Bons Amigos" foi publicado no livro Blog de Papel, coletânea que reúne contos de 14 blogueiros. Sem dúvida nenhuma um motivo de orgulho, por ter sido publicado na companhia de tanta gente fina, elegante e sincera.
Quinta, 5 de Julho de 2007
Vinte dos blogueiros mais conhecidos do país receberam convites para um evento especial: o pré-lançamento, na sexta-feira, dia 29 de junho, do novo projeto do grupo Abril, o canal de televisão Fiz.TV, projeto de mídia híbrida que visa conciliar Internet e televisão. O evento, que aconteceu na sede do Fiz, em São Paulo, contou com as presenças de Marcelo Botta, Gerente de Conteúdo do novo canal, e Fabio Basso Montanari, blogueiro do site. A proposta do Fiz.TV, que entrará no ar dia 1. de agosto (obrigado pela correção, Sr. Noir!), é interessante: abrir espaço em sua programação para qualquer cidadão comum que queira enviar um vídeo por intermédio do site do canal. É lógico que, para que essa produção chegue à televisão, haverá certos filtros. Os vídeos mais votados no site, desde que respeitando determinadas restrições (um exemplo: curta consagrado pelo YouTube, o "Tapa na Pantera" seria barrado no baile por poder ser interpretado como uma "apologia às drogas"), integrarão uma programação que, a princípio, terá 4 horas inéditas por dia, com reprises em blocos. Os internautas que tiverem seus trabalhos exibidos no Fiz serão remunerados (mas não esperem valores muito substanciais) e poderão ver seus vídeos na TVA, a princípio a única operadora de canais por assinatura que veiculará o Fiz.TV. Coube aos blogueiros presentes ao evento, como legítimos representantes da cultura "do it yourself" de arregaçar as mangas e criar seus próprios canais de veiculação das suas idéias, a tarefa de veicular ao público geral as primeiras impressões sobre a proposta do Fiz.TV. Dito e feito: Pat Barcelos, do Update or Die, Renê Fraga, do Google Discovery, Carlos Merigo, do Brainstorm #9, Phelipe Cruz, do Papel Pop, Luiz Jeronimo, do Tarja Preta, Renata Honorato, do Sampaist, Carlos Cardoso, do Contraditorium, Tiago Dória, em seu blog, e Rosana Hermann, do Querido Leitor, já escreveram sobre o assunto. Mas quem escreveu o texto mais abrangente sobre o projeto foi Gustavo Jreige, do blog Outros Olhos, que postou um excelente artigo destrinchando todas as facetas da proposta do novo canal da Abril. O WeShow, lançado recentemente, é um agregador de vídeos hospedados em sites como YouTube, DailyMotion e Metacafe. Todo o conteúdo encontrado é selecionado e organizado por editores, que catalogam os vídeos em mais de 200 categorias. Para explicar melhor a proposta do WeShow, site atuante em três países (Brasil, Estados Unidos e Inglaterra), deixo a palavra com um dos sócios desta empreitada - Bruno Parodi, ex-colunista do site No Mínimo e um dos responsáveis pela concepção e realização do portal G1: "O diferencial está justamente na seleção dos melhores vídeos disponíveis na internet, não importa a fonte. Outro ponto importante é que nossa equipe editorial tem um trabalho de atribuir títulos, descrições e tags mais pertinentes aos vídeos (e uniformizadas), uma vez que o usuário que posta aquele vídeo originalmente muitas vezes não tem preocupação com a informação textual que acompanha o vídeo". Mensalmente será promovido o Prêmio WeShow, concurso elegendo os melhores vídeos em diversas categorias como "Carros Customizados", "Bungee-Jumping" e "Gatas Internacionais". Há também o WeShow TV, videocast semanal comentando os destaques em cada categoria. Explica Parodi: "A WeShow TV traz também uma outra forma de consumir os melhores vídeos, através de programas produzidos apresentando justamente essas pérolas. E quem quiser dar uma olhada na íntegra dos vídeos citados no programa, basta conferir logo abaixo da telinha os links para cada um deles". Marcos Wettreich, criador do iBest, foi o idealizador do projeto ao lado de Bruno Parodi. Fabio Seixas, sócio-fundador do Camiseteria, é o diretor de marketing do projeto. P.S. 1: Este blog vota no Sedentário & Hiperativo na categoria "Best Foreign Language Blog", e no Brainstorm 9, na categoria "Best Marketing Blog", do Blogger's Choice Awards. P.S. 2: Participe do "Drinking Game dos Blogs" proposto por meu xará Nix e descubra um ótimo álibi para se embebedar.
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