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Domingo, 23 de Julho de 2006

Escrevendo com luz

Ghosts in the Park

Houve época em que se acreditava que a fotografia não passava de uma mera reprodução da realidade, e que, por conta disso, não teria valor criativo ou artístico. Ledo e ingênuo engano: muito mais do que simplesmente espelhar a natureza, os artistas da câmera possuem a capacidade de captar uma determinada imagem em uma específica fração de tempo e fazer com que ela transcenda os limites da moldura, preenchendo a escrita da luz com entrelinhas que não se esgotam em um mero clique.

Um bom exemplo é o da foto acima, tirada de um parque de diversões abandonado no Japão. Para além do mero registro visual, fiquei mesmerizado com a capacidade que uma "simples" foto possui de fazer com que mergulhemos em uma dimensão perdida, na qual quase podem se vislumbrar espectros circulando pelos trilhos enferrujados de uma montanha-russa mergulhada em névoas e reminiscências desencontradas.

São Paulo por Daniela Bracchi

Angulações diferentes, senso de observação, técnica no uso de filtros e lentes, manipulação digital. Um fotógrafo, mais do que fazer o mero registro da realidade, é capaz de recriar as imagens à sua frente, descolando-se das limitações do real a fim de mergulhar em um território muito mais instigante. É o que faz, por exemplo, a soteropolitana Daniela Bracchi, que na foto acima extrai da paisagem cinzenta de São Paulo cores que passam desapercebidas pelos desatentos à poesia escamoteada entre viadutos e pichações.

Ojos

E no entanto, a poesia não necessariamente reside em fotografias profissionais. Registros congelados de tempo, as imagens encontradas em álbuns de família encapsulam momentos que resistem, teimosos, ao oblívio do passado. Fotos Encontradas é um site fascinante com fotos resgatadas nas calles de Buenos Aires, seja em sacos de lixo ou calçadas. Sem quaisquer referências a respeito de seus personagens, cada fotografia veiculada no site é um ponto de reticências acerca do seu destino. Teria sido rasgada, queimada ou jogada no lixo por trazer lembranças dolorosas ou simplesmente porque estava fora de foco? Que histórias se ocultam por detrás do sorriso amarfanhado de um casal de imigrantes em preto e branco, ou na expressão melancólica de uma mulher sentada ao lado de alguém cuja cabeça foi meticulosamente recortada?

As grandes fotografias possuem uma origem em comum: a felicidade do obturador ter sido pressionado no momento fugaz em que Deus foi flagrado em um sorriso distraído.

(texto originalmente publicado em 15/06/05)

© Alexandre Inagaki
 
25 comentários
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Comentários, Trackbacks:


Nome: tina oiticica harris · http://universoanarquico.blogspot.com
Gosto muito das fotos do André Dahmer, quero dizer, da Dupla Design, não nada disso, do Andreas Gursky, uns painéis enormes de temas tão variados quanto um prédio em Montparnasse quanto uma pelada na Ásia. Também gosto dos polaroids© do Andy Wharhol.

Finalmente, meu fotógrafo predileto é o Rogério Reis, prata da casa, direto de Ipanema. Não é só um personagem do filme do paulista F. Meirelles. Existe de verdade e sua obra pode ser vista na Net. Rogéro Reis fotografou Cidade de Deus, a Amazônia e suas espécies, os menos favoreciidos economicamente durante o carnaval, em suas fantasias criativas, publicados em um livro, Na Lona. Para mim ele representa através da variedade de sua obra a qualidade principal do brasileiro, que vai além do jeitinho.

Boa semana, Alexandre Inagagaki !
link 23.07.06 @ 16:40

Poxa... havia comentado com tanta alma pra ter o comentario apagado por ter esquecido de registrar meu e-mail ali em cima... triste isso... tentarei reproduzir o que antes já havia escrito por aqui.

Gosto de escrever, mesmo escrevendo mal, gosto. Mas tem dias que andando por ai em deparo com cenas de um tocante tão intenso que as palavras me escapam. Ou reproduzem de forma muito pobre tudo que sinto frente a algo. Além do que as distorções próprias da escritas nos abandonam em caminhos obscuros. Mais que isso: descrever com palavras tais cenas tiraria todo o encanto do topor que estas provocam. A fotografia da a chance para que o observador fique mais proximo do sentimento do fotografo. Ou não.

Uma coisa é certa: uma arte apenas é muito pouco para ter o monopolio da vida.

Beijos pra ti

ps.: gostei demais da figura da arvore em Sampa...
ps2.: o primeiro vagão da figura da montanha russa, está pintado de tal forma que lembra muito a bandeira de Londrina-PR. Para ser uma reprodução de tal bandeira teria uma estrela a mais e esta quarta estrala formaria uma cruz com as outras. Coincidentemente a cidade de Londrina é a segunda maior colonia de japoneses do Brasil tendo 25% da sua população nipo com com ascendencia nipo. Mas o que eu estou falando, você é paraguaio mesmo... rs. Beijos
link 23.07.06 @ 18:45

Nome: BethS · http://beths.zip.net
Você já ouviu falar de uma máquina fotografica russa chamada Lomo?
ela está dando um passo enorme na linkagem da fotografia com as artes plasticas em geral.
As máquinas lomo são brinquedos sofisticados de milhões de pessoas no mundo inteiro hoje, eu tenho uma, é inacreditável.
Dá uma olhada no site deles - www.lomography.com
Beijo pra você
link 23.07.06 @ 18:48

Adorei as fotografias.
Sou uma fotógrafa-amadora-apaixonada por luz e sombras.
link 23.07.06 @ 18:55

Falando nisso, quando é que o senhor vai posar pra mim, hem, hem, hem?
Beijo da
Carol
link 23.07.06 @ 19:56

Uau, lindo texto!

Fotografia é isso mesmo...

Para aproveitar, deixarei aqui o meu Flickr:

http://www.flickr.com/photos/stehcw/

Beijos!
link 23.07.06 @ 20:07

Fotografia qualquer um faz! Especialmente com as câmeras "inteligentes", às vezes mais que o próprio dono! rs
Mas controlar e conhecer a própria câmera... Nem todos...

A minha às vezes me desobedece... Mas, estamos nos conhecendo!
:)
link 23.07.06 @ 20:49

A fotografia captura somente um momento. Escolher o momento certo é o que faz a diferença.
link 23.07.06 @ 23:57

Nome: Valenttina · http://valenttina.blogspot.com
Querido Alexandre,

Sera que escrever enlouquece tanto quanto pensar? Ou porque pra escrevermos precisamos pensar, enlouquecemos ainda mais rapido? Hmmm... enquanto pensamos nisso, venha ler as minhas aventuras sexuais. Tenho certeza que voce vai gostar...

Beijos

Valenttina
link 24.07.06 @ 12:38

retratos da vida.

gostei do enfoque poético
link 24.07.06 @ 14:06

Nome: Julio Cesar Corrêa · http://jccbalaperdida.blogspot.com
Sempre achei que fotografar era mostrar o que os olhos desprezam. É conseguir mostrar poesia numa sarjeta, por exemplo. Acertei?
gd ab
link 24.07.06 @ 17:35

Nome: Stephanie
Nossa, nem sei o que dizer... Acho que "emocionante" seria a palavra correta para descrever este seu texto.
Sou uma grande apaixonada por fotografia, e poucas pessoas entendem o porquê de tanta paixão. Você traduziu em poucas linhas tudo o que eu sinto e não consegui dizer a quem não entende.
Um abraço!
link 24.07.06 @ 18:20

Nome: Palpiteira · http://apalpiteira.blogspot.com
Não sei fotografar, mas adoro fotos, principalmente, a de lugares.
Ina, eu abri uma rádio virtual. Pensei em batizá-la de rádio virundum? Tem algum problema?
Beijos.
link 24.07.06 @ 22:41

Nome: Cristina
Ale,
Adoro fotografia e acredito que é preciso arte e sensibilidade para captar determinadas imagens.
Não sei se você conhece esse site:
www.fotogarrafa.com.br
O site é do jornalista Marcelo Min, vale a pena conferir.
Um abraço,
Cristina
link 25.07.06 @ 02:06

Adoro fotografias, mas confesso que o Photoshop tirou um pouco do brilho dessa recente e não menos importante arte. Agora, todas as vezes que olho uma foto fico pensando se não teria havido retoque. No entanto, ainda que eu ache isso um problema, continuo gostando demais de ver fotografias principalmente de pessoas. Beijocas
link 25.07.06 @ 10:22

Nome: Sergio Fonseca · http://www.papeldepao.com.br
Ina, você fumou o quê? quero um também. hahaha

Genial a concepção do site Fotos Encontradas. Aproveito para discordar da Yvonne. O photoshop nada mais é do que um laboratório limpo, sem produtos químicos que fedem e fazem mal à saúde e poluem os rios. Manipulação já existia no laboratório convencional. Retoques, superposição, etc, etc. Fotógrafos normalmente usa o photoshop para fazer as correções comuns feitas nos laboratórios e minilabs, ou seja: ajuste de brilho, contraste, saturação, essas coisas. Quando passa disso, já não é fotografia.

Forte abraço!
link 25.07.06 @ 10:56

Li um artigo (não lembro onde) que afirmava a banalização da fotografia, devido a evolução das máquinas digitais, a facilidade de compra. Todos nós saímos por aí batendo foto de tudo. Antigamente uma foto era muito bem guardada. Recordava emoções, sentimentos. Lembrança de um momento especial guardado pela imagem. Hoje, o que vemos, é a internet publicando fotos sem conteúdo, insignificantes. Um amigo fotógrafo me diz que as pessoas acham que é só apertar um botão. Nem sempre é assim. Essas fotos encontradas é a prova que fotos demais acabam gerando desconfortos no futuro. Daí se joga, se rasga, se queima. Sempre será assim. É bom, é inevitável!
link 25.07.06 @ 12:16

Você me lembrou o meu professor de fotografia, no primeiro ano da faculdade, dizendo que a gente tinha que desenvolver "o olhaaaaaaaar!"
link 25.07.06 @ 14:09

Mesmo as fotos que não são artísticas podem dizer muito.
Como eu queria ter tido uma máquina digital na juventude para poder tirar todas as fotos que tiro hoje. Teria fotos da minha turma, das festas, dos passeios, do meu bairro como era antigamente e outras de mim mesma. Tenho pouquíssimas fotos antes disso. O quanto essa capacidade de registro pode mudar a vida das pessoas?
link 25.07.06 @ 14:20

Nome: thata · http://pinel.blogspot.com
provavelmente vc já ouviu falar, mas se não ouviu, vai gostar muito da revista Found (foundmagazine.com), que tem o mesmo conceito deste site argentino, mas inclui bilhetes e outras coisas achadas na rua.
Beijão!!
link 25.07.06 @ 14:30

Nome: Bel Furtado · http://blogsincope.blogspot.com
Adorei o post. Essa foto da Daniela Bracchi é incrível.
link 26.07.06 @ 16:23

Gostei muito da foto do parque. Parece que algumas fotografias possuem alma, é engraçado. Esta que você escolheu dá uma sensação de tempo perdido, não sei. Melancolia.
link 28.07.06 @ 16:12

Otimo texto! Muito bacana
link 03.08.06 @ 22:48

Nome: André Mellagi · http://garibada.blogspot.com
Essa foi uma das melhores definições que li sobre fotografia.
link 05.08.06 @ 16:55

Nome: heton thyers
É interessante pensar em subjetividade quando vi seu comentário sobre o "vislumbre" numa montanha russa que pra mim nada evocou(diferentemente da foto de Daniela). Estou me atualizando agora com relação ao mundo dos blogs e me perguntei: como será que uma pessoa extremamente sofistica e inteligente, que produz reflexões do tipo Ferris, consegue ter tempo para a vida? Deve ser exaustivo informar as pessoas sobre o que possa positivamente ser viver! Enfim, esse comentário definitivamente vai se perder, fato contundente de um tempo que glamouriza a informação, e porque ninguem tem mais tempo pra "vasculhar seus arquivos"! "Blogo, logo existo", tudo de bom Inagaki.

Comentário um tanto quanto ingênuo de sua parte, Heton. Não levo mais tempo para escrever um post do que levo redigindo uma matéria para uma revista ou jornal.
link 06.08.06 @ 18:04



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