FURNAS: JORNAL VALOR TENTA REESCREVER A HISTÓRIA

02/02/2011

FURNAS: JORNAL VALOR TENTA REESCREVER A HISTÓRIA

PT e PMDB disputam a presidência de Furnas, provavelmente porque cada qual acredita em sua capacidade de conduzir melhor os rumos do país - jamais essa disputa estaria atrelada a favorecimentos e afins. Tenho certeza disso, tanto quanto consigo montar um satélite e colocá-lo em órbita.

Partidos aliados disputando cargos? É a história da política brasileira, sem grandes novidades - especialmente a partir de 2003, valendo lembrar o caso Correios/Gtech, por conta do qual - e agora finalmente - Valdomiro Diniz, ex-roomie de Dirceu, figura oficialmente como RÉU em processo criminal de acusações múltiplas (concussão, corrupção ativa e passiva etc.).

Mas sigamos.

O Jornal Valor Econômico publica hoje uma reportagem no mínimo estranha. O 'máximo' não posso dizer, sob pena de parecer exagerado nas acusações. Leiam excerto publicado no site:

"Crise em Furnas pode afetar nomeações para o 2º escalão - A crise política na estatal Furnas Centrais Elétricas e a decisão da presidente Dilma Rousseff de nomear uma diretoria estritamente técnica para acabar com a influência do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na empresa, como adiantou o Valor na edição de ontem, mudou completamente a correlação de forças na disputa pelo segundo escalão do setor elétrico. Flávio Decat, aliado de Dilma e tido como nome certo para presidir a Eletrobras, poderá ser convocado para presidir Furnas, o que seria facilitado por ser um funcionário de carreira da empresa. Para as demais diretorias, seriam nomeados pessoas "que trabalham com Decat há 30 anos", segundo informaram fontes que acompanham de perto as negociações." (grifos nossos)

Hum... O preferido pelo PT seria um "técnico", "funcionário de carreira", ALIADO DE DILMA (guardem essa), e citam até pessoas que trabalham com ele "há 30 anos", prováveis indicadas para compor demais diretorias. O outro que postula a vaga, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), convenhamos, não chegaria perto desse perfil, né?

Não, não é bem assim. Ambos não são tão diferentes no universo político, e isso não por méritos de um, mas DEMÉRITOS do outro. Vamos aos fatos - e não essa versão omissa publicada no Valor Econômico e reproduzida nos blogs de sempre (aqueles cujos titulares tiveram ou têm contratos com o Governo Federal, com ou sem licitação).

Aos fatos: FLÁVIO DECAT, o "técnico", aparece em gravações como indicado de FERNANDO SARNEY (que o chama de amigo, tornando bem complicada a alegação dele ser "aliado de Dilma") para ocupar cargo estratégico no Governo Federal! Obviamente, ele conseguiu a vaga. Hoje, a FSP menciona as escutas LEGAIS E PERMITIDAS PELA JUSTIÇA - feitas pela Polícia Federal - que contêm os seguintes diálogos (publicados em outubro de 2009, em reportagem de Andrea Michael, Andreza Matais e Hudson Corrêa):

"Sarney ajudou filho a "atacar" setor elétrico, revela grampo - Fernando queria encaixar amigo em estatal; "Manda passar lá no Senado", disse senador - Presidente do Senado e seu filho não quiseram falar das gravações de conversas que podem configurar tráfico de influência no setor elétrico - Gravações da Polícia Federal mostram que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), não estava alheio às investidas do filho mais velho, Fernando, sobre órgãos públicos do setor elétrico -ações que, para os policiais, configuram crime de tráfico de influência. Numa conversa, o senador orientou Fernando a arrumar emprego para aliados no comando da Eletrobrás, estatal ligada ao Ministério de Minas e Energia. Noutro diálogo, o filho do senador avisou que, feitas essas nomeações indicadas pelo pai, ele iria "atacar" os apadrinhados, com o objetivo de liberar verbas de patrocínio a entidades privadas ligadas à família -o que de fato aconteceu. Os grampos -obtidos com autorização judicial- fazem parte da Operação Faktor, antes chamada de Boi Barrica, que levou ao indiciamento de Fernando por quatro crimes. A apuração de tráfico de influência ainda não foi concluída pela PF. Pelo Código Penal, o fato de pedir vantagem, mesmo não consumada, já configura crime (...)

'Manda passar lá'
Negociações para preencher cargos na Eletrobrás começaram em fevereiro de 2008, um mês antes da definição da nova diretoria pelo ministro Edison Lobão (Minas e Energia), aliado de Sarney e alçado ao cargo em janeiro de 2008. Em 14 de fevereiro Fernando pediu ajuda ao pai para acomodar, na Eletrobrás, seu amigo Flávio Decat -engenheiro com o qual Fernando trocou vários telefonemas interceptados. "Quero orientação a respeito daquele meu amigo lá do Rio que está aí esperando um chamado seu, da Roseana. E eu preciso de uma orientação", disse o filho. "Manda passar lá no Senado. Às 17h30 no meu gabinete", respondeu Sarney. Três meses após a conversa com Sarney, Decat ganhou emprego na estatal: Lobão anunciou a criação da Diretoria de Distribuição para abrigá-lo. Outra indicação de Sarney que contentou Fernando foi a do engenheiro José Antônio Muniz para presidente da Eletrobrás. Assim que soube da nomeação, em 4 de março de 2008, Muniz ligou para Fernando e se reuniu com Sarney. "Deu certo", festejou Muniz. "Tô sabendo já. Como diria aquela frase do Galvão Bueno: eu já sabia. Estou satisfeito que tudo deu certo, que vai ser bom para o Lobão. Vai ser bom para todos", respondeu Fernando, que a seguir falou do encontro com Sarney: "Então tá bom. Amanhã vou estar aí. Se hoje [você] não falar com papai, amanhã a gente fala". Dias após a reunião, Fernando falou com Anelise Pacheco, assessora da presidência da Eletrobrás: "Já acenei com ele [Muniz] que aquela área nós temos interesse em ter sob controle. E ele disse que sem problema. Me pediu uma semana, dez dias para sentar na cadeira e tal. Depois da Semana Santa, nós vamos atacar. Mas já pensei nisso. Tá tudo pensado", disse Fernando em 14 de março. "É porque a menina da Roseana está me ligando para ver os programas que pode fazer", disse Anelise. "Nós chamamos, conversamos longamente e um dos pontos acertados foi este", tranquilizou Fernando. Meses depois, entre agosto e dezembro de 2008, a ONG do Maranhão da qual José Sarney é presidente de honra recebeu, sem licitação, R$ 590 mil da Eletrobrás como patrocínio para fazer festas no Estado -uma delas, realizada pela governadora Roseana Sarney (PMDB). Em julho deste ano, a Folha revelou que R$ 130 mil do total repassado pela Eletrobrás foram destinados a uma empresa da então assessora de Roseana. A PF também captou, em junho de 2008, uma conversa em que Fernando pediu a Augusto César Araújo, também assessor da presidência da Eletrobrás, que "resolva a vida" de uma amiga liberando dinheiro para eventos que ela agencia: "Acho que é mais fácil vir por meio dessas produções culturais do que um emprego formal". (grifos nossos)

Nem adianta dizer "isso é coisa da Folha", porque SÃO GRAVAÇÕES DA POLÍCIA FEDERAL. O "técnico", vejam só!, é chamado de AMIGO por Fernando Sarney, que não apenas lhe consegue um emprego, mas faz com que CRIEM UMA DIRETORIA ESPECIALMENTE PARA ABRIGÁ-LO. E o filho de Sarney, como mostram as gravações da reportagem, emplacou vários outros nomes. Provavelmente por coincidência, é claro, a fundação de Sarney recebeu R$ 590 mil da Eletrobrás - e nem há o que dizer sobre o "resolva a vida" lá da outra amiga.

Mas a história (oficial) quase sempre é mais fundada em versões que fatos. O Valor Econômico, que não publicou estes últimos, não viu problema algum em imprimir aquela reportagem segundo a qual o preferido do PT (e AMIGO de Fernando Sarney, que o indicara anteriormente) seria única e tão-somente um "técnico" - a conversinha, como sói, foi repetida pela petistosfera.

Papelão.

Deve ser vergonhoso quando os fatos desmentem tais versões de forma tão humilhante. Isso, claro, quando se tem alguma vergonha na cara.

transubstanciado por gravata às 02.02.11 - 15:26:39 | 4 comentários

Comentários, Pingbacks:

Comentário de: Mariana http://www.twitter.com/marianaterra

Alguém tem dúvida que essa guerrilha interna entre PT e PMDB ainda vai afundar o governo da nossa ilustríssima presidente?! O PMDB não entrou nessa pra ser o irmão pobre... Eles vão se estapear por cargos e nomeações até o último escalão. É a caça ao tesouro!

#Permalink 02/02/2011 @ 15:02:02


Comentário de: robson

FORA PT

#Permalink 02/02/2011 @ 18:02:12


Comentário de: alexandre fernandes

está insinuando algo sobre o jornal valor econômico ? o jornal tem como colunistas luiz carlos mendonça de barros, márcio garcia, fábio giambiaggi, eliana cardoso, cristiano romero. o que eles tem em comum : são críticos ferrenhos do governo federal. aviso isso porque vcs adoram uma teoria conspiratória !!!!!

(Gravz: Ou analfabetismo funcional, ou má-fé, ou será preciso explicar. Por questão de gentileza, explicarei. ESSA reportagem do Valor Econômico não diz REALMENTE quem é o indicado. A Polícia Federal tem provas substanciais sobre o dito-cujo. Mostrei os fatos e contestei UMA reportagem, sem fazer qualuqer teoria conspiratória - coisa que você levanta para depois você mesmo dizer que "adoramos" - aliás, "adoramos" quem? Até onde sei, isso é coisa de quem usa sigla PIG e afins. Todo mundo tem direito a uma defesa, até o PT em comentários de blogs, mas você não está ajudando muito seu partido. Sério)

#Permalink 02/02/2011 @ 19:02:38


Comentário de: João

"Nem adianta dizer "isso é coisa da Folha", porque SÃO GRAVAÇÕES DA POLÍCIA FEDERAL."

E porque isso é coisa de moleque mimado. Ah, da Folha num pode, buá...


#Permalink 09/02/2011 @ 15:02:07


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