O ARRUDA É CULPA NOSSA
02/12/2009
O ARRUDA É CULPA NOSSA
Há duas saídas para o governador do DF, José Roberto Arruda (DEM): porta da frente ou porta de trás. Talvez haja uma terceira, a porta lateral. Mas ou ele renuncia, ou sofre impeachment. Não há a menor condição de permanecer no cargo. E se o DEM pretende continuar com discursos tratando do tema "ética", é bom que o excomungue o quanto antes, sob pena de cair no ridículo - não que hoje possa discursar sobre o tópico sem qualquer esqueleto no armário.
Mas sigamos.
Não é nossa culpa porque "votamos". O problema é VOTAR NOVAMENTE. Todo mundo já o conhecia, já sabia o que ele havia feito, já havia toda uma ficha corrida. Caramba: PAINEL DO SENADO. Além disso, o chorinho falso, toda a encenação, foi expulso de um partido. O que faz o pessoal do DF? PERDOA TUDO E VOTA NO ARRUDA. Maravilha, né?
O mesmo acontece conosco, os paulistas. Paulo Maluf, cuja história dispensa narrativas, foi o Deputado Federal mais votado em 2006. Não é difícil que retorne à Câmara em 2010, com índices igualmente estratosféricos. Nossa capacidade de perdoar é mesmo infinita. E isso vale também para os mensaleiros, quase todos reeleitos também em 2006 (mesmo depois de confessarem a bagaça).
Rio? Garotinho e esposa, com direito a eleger o sucessor, Sérgio Cabral (no fim, ele se dizia adversário). Bahia? ACM durante décadas. Maranhão? Sarney, com direito a levar os domínios ao Amapá. E assim por diante. Procurem um lugarejo no Brasil e encontrarão também um domínio político quase feudal. Quando cai, não há nada parecido com revolução, mas mera troca de seis por meia-dúzia.
Como no DF, ora bolas. Chegaram a comemorar, enfim, a queda da hegemonia de Roriz. Mas o próprio Arruda manteve um dos aliados mais poderosos, agora pivô desse escândalo ridículo, com dinheiro em meias e cuecas.
Obviamente, eles merecem e PRECISAM pagar pelo que fazem, mas nós, os eleitores, não somos inocentes. Claro que não somos. Conhecemos a história de todos eles e nenhum dos mandatários ganha cargos eletivos sem nossos votos. A culpa é também nossa. Esses protestos com nariz de palhaço fazem muito mais sentido do que se imagina. Eu, por exemplo, leio como autocrítica coletiva.
E aí alguém surge com a velha historinha da REFORMA POLÍTICA. É mesmo? Pois saibam que o tópico principal é a "lista fechada". Votamos num partido e os caciques resolvem tudo entre si. Quem serão os escolhidos do partido de Sarney? E no de Arruda? E no de Zé Dirceu? E no de Maluf? Nem chegaremos a trocar seis por meia-dúzia. Ficaremos com seis, mesmo.
Depois, não adianta fazer protestinho.
Revisão: Hellen Guareschi
transubstanciado por gravata às 02.12.09 - 16:58:00 | 21 comentários
Comentários, Pingbacks:
Hoje mesmo, quase bati em um!
acho q é pq vc já sabe que ele num vai deixar ninguém escolher, vai ele msm, né???
(Gravz: Nada! O Arruda era do PSDB, foi expulso e, pelo DEM, foi reeleito. Só não entendi a parte do "ninguém escolher")
O eleitor poder ser levado a desconsiderar ilícitos "menores" (caso da violação do painel do Senado)para evitar que chegue ao poder um projeto de sociedade que contrarie suas mais fortes convicções.Até porque a vitória de um político que não tenha tido nenhuma irregularidade apontada até então não é garantia de nada. Vide PT e vestais da moralidade.Não estou justificando nada, é que não vejo saída para a tual situação. Sinto-me traído e enfurecido.
(Gravz: Não gosto nem aceito soluções do tipo 'lista fechada' ou 'volta a ditadura'. Corruptos precisam ser presos, punidos etc. Mas culpar a democracia é demais)
(Gravz: Ah, claro, aí sim)
Mas se nao votar no Arruda ou no Maluf vai votar em quem?
Eu me vejo constantemente sem opçoes.Ou se vota no safado conhecido ou no safado desconhecido.
Ha 2 eliçoes desisti de votar, fica mais barato pagar a multa da Justiça (rsrsr) Eleitoral do que me deslocar para o local de votaçao e depois ficar no analista me arrependendo de ter ajudado a eleger o safado da vez.
Abs.
Brasil, Um Pais de TOLOS e sem futuro.
Concordo integralmente com o Indignado 03/12/2009 @ 12:12:13. Penso que o voto obrigatório é um dos fatores responsáveis pela eleição de corruptos e energúmenos que infestaram o Brasil desde o século passado.
Está na hora dos cidadãos sérios do país começarem a pensar nisso e começar a pressionar por este aperfeiçoamento.
Se não houver pressão da Elite nada acontecerá. Chega de sermos governados pela vontade do "lumpen ProletariaT".
E aí sim seremos culpados quando algum "filho do Brasil" espertalhão se aproveitar disso.
Gravata peço/sugiro um novo post sobre o "protesto" do Cesar Benjamim contra a manipulação perniciosa da imagem do lula representada pelo filme de ficção.
Arruda é culpa de vocês
http://www.youtube.com/watch?v=wIXSSkvs06c
Sobre o artigo do Benjamin, não debato nesse nível.
E o Toffoli? Que que é isso companheiro?? Bebeu Varsol?
(Gravz: Olha, se sou você, prossigo acompanhando o caso do Arruda, viu? Temer, vice da Dilma, já dançou...)
Estou pegando carona no post apenas para lembra-lo que o Cesar Benjamim divulgou um novo texto sobre as razões que o motivaram a escrever o primeiro.
Desde que passei a acompanhar o seu blog nunca vi um post que rendesse tantos comentários quanto aquele. Claro que o conteúdo da maioria era previsível.
Na resposta a um deles vc diz que acredita mesmo na versão "piada". Continua acreditando?
(Gravz: Não li o novo, onde está? E, sim, continuo acreditando na versão da piada. Péssimo gosto, mas piada)
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/nos-nao-esqueceremos/
Sobre o novo texto do CB, fica claro que ele não é um idiota, o que só reafirma que a "piada" continua uma desculpa bem bolada mas falsa (foi para chocar o americano, mas o CB não traduziu, etc). E tem o "menino do MEP", que poderia ter simplesmente negado, mas se negou a fazê-lo porque está "numa religião que o proíbe de mentir".
Por que agora?
César Benjamin, Folha de S. Paulo, 02/12/09
ESPECIAL PARA A FOLHA
DEIXO de lado os insultos e as versões fantasiosas sobre os “verdadeiros motivos” do meu artigo “Os Filhos do Brasil”. Creio, porém, que devo esclarecer uma indagação legítima: “por quê?”, ou, em forma um pouco expandida, “por que agora?”. A rigor, a resposta já está no artigo, mas de forma concisa. Eu a reitero: o motivo é o filme, o contexto que o cerca e o que ele sinaliza.
Há meses a Presidência da República acompanha e participa da produção desse filme, financiado por grandes empresas que mantêm contratos com o governo federal.
Antes de finalizado, ele foi analisado por especialistas em marketing, que propuseram ajustes para torná-lo mais emotivo.
O timing do lançamento foi calculado para que ele gire pelo Brasil durante o ano eleitoral. Recursos oriundos do imposto sindical -ou seja, recolhidos por imposição do Estado- estão sendo mobilizados para comprar e distribuir gratuitamente milhares de ingressos. Reativam-se salas pelo interior do país e fala-se na montagem de cines volantes para percorrerem localidades que não têm esses espaços. O objetivo é que o filme seja visto por cerca de 5 milhões de pessoas, principalmente pobres.
Como se fosse pouco, prepara-se uma minissérie com o mesmo título para ser exibida em 2010 pela nossa maior rede de televisão que, como as demais, também recebe publicidade oficial. Desconheço que uma operação desse tipo e dessa abrangência tenha sido feita em qualquer época, em qualquer país, por qualquer governante. Ela sinaliza um salto de qualidade em um perigoso processo em curso: a concentração pessoal do poder, a calculada construção do culto à personalidade e a degradação da política em mitologia e espetáculo. Em outros contextos históricos isso deu em fascismo.
O presidente Lula sabe o que faz. Mais de uma vez declarou como ficou impressionado com o belo “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, que narra o impacto dos primeiros filmes na mente de uma criança. “O Filho do Brasil” será a primeira -e talvez a única- oportunidade de milhões de pessoas irem a um cinema. Elas não esquecerão.
Em quase oito anos de governo, o loteamento de cargos enfraqueceu o Estado. A generalização do fisiologismo demoliu o Congresso Nacional. Não existem mais partidos. A política ficou diminuída, alienada dos grandes temas nacionais. Nesse ambiente, o presidente determinou sozinho a candidata que deverá sucedê-lo, escolhendo uma pessoa que, se eleita, será porque ele quis. Intervém na sucessão em cada Estado, indicando, abençoando e vetando. Tudo isso porque é popular. Precisa, agora, do filme.
Embalado pelas pré-estreias, anunciou que “não há mais formadores de opinião no Brasil”. Compreendi que, doravante, ele reserva para si, com exclusividade, esse papel. Os generais não ambicionaram tanto poder. A acusação mais branda que tenho recebido é a de que mudei de lado. Porém os que me acusam estão preparando uma campanha milionária para o ano que vem, baseada em cabos eleitorais remunerados e financiada por grandes grupos econômicos. Em quase todos os Estados, estarão juntos com os esquemas mais retrógrados da política brasileira. E o conteúdo de sua pregação, como o filme mostra, estará centrado no endeusamento de um líder.
Não há nada de emancipatório nisso. Perpetuar-se no poder tornou-se mais importante do que construir uma nação. Quem, afinal, mudou de lado? Aos que viram no texto uma agressão, peço desculpas. Nunca tive essa intenção. Meu artigo trata, antes de tudo, de relações humanas e é, antes de tudo, uma denúncia do círculo vicioso da extrema pobreza e da violência que oprime um sem-número de filhos do Brasil. Pois o Brasil não tem só um filho.
Reitero: o que escrevi está além da política. Recuso-me a pensar o nosso país enquadrado pela lógica da disputa eleitoral entre PT e PSDB. Mas, se quiserem privilegiar uma leitura política, que também é legítima, vejam o texto como um alerta contra a banalização do culto à personalidade com os instrumentos de poder da República. O imaginário nacional não pode ser sequestrado por ninguém, muito menos por um governante.
Alguns amigos disseram-me que, com o artigo, cometi um ato de imolação. Se isso for verdadeiro, terá sido por uma boa causa.
CÉSAR BENJAMIN, 55, militou no movimento estudantil secundarista em 1968 e passou para a clandestinidade depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro desse ano, juntando-se à resistência armada ao regime militar. Foi preso em meados de 1971, com 17 anos, e expulso do país no final de 1976. Retornou em 1978. Ajudou a fundar o PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006 foi candidato a vice-presidente na chapa liderada pela senadora Heloísa Helena, do PSOL, do qual também se desfiliou. Trabalhou na Fundação Getulio Vargas, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Prefeitura do Rio de Janeiro e na Editora Nova Fronteira. É editor da Editora Contraponto e colunista da Folha.