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SELEÇÃO E AS DIVINDADES DO FUTEBOL

28/06/2009

SELEÇÃO E AS DIVINDADES DO FUTEBOL

Sou cético, menos com futebol. Não acredito em deus, mas meus maiores questionamentos sobre ser agnóstico ou ateu ocorrem durante pelejas do bom e velho esporte bretão. Porque, vocês sabem, com futebol não se brinca. Tudo ali é sério demais e inequivocamente passa por santos, deuses, vibrações, cristais, pirâmides, orixás, forças elementares e uma porção de ziqueziras e saravás.

Daí minha preocupação diante da vitória de hoje.

Claro que comemorei. Gritei no primeiro, exagerei no segundo e quase perdi a voz quando Lúcio enfiou a cabeça e fez a bola explodir no gol norte-americano. Uma maravilha. Não há elegância alguma na torcida futebolística. Eis aí outra peculiaridade do ludopédio.

Tudo ia bem até que o locutor começou a enaltecer o técnico. Sim, Dunga. Nada contra: foi xingado, quase ofendido. Vá lá, receba os elogios. Mas do "parabéns" a coisa passou para "eis o fim de uma era". E então frases como "ele é o cara" e "agora é Dunga" vinham como se não significassem nada.

Mas significam.

Os deuses do futebol ouvem esse tipo de coisa muito atentamente. Como ouviram - podem apostar - a música "Voa, Canarinho, Voa", em 1982. Ou vocês ainda põem a culpa em Paolo Rossi ou naquela atrasada de bola do Cerezo? Em 1986, por exemplo, o lema era "70 neles", evocando uma seleção sagrada, comparando-a ao time com Müller, o goleiro Carlos e um Zico que já não era exatamente o Pelé do estádio Guadalajara. Deu no que deu.

Enfim, não se brinca com as entidades divinas do futebol, mas mesmo assim os narradores insistiam em passar dos elogios à grandiloqüência absolutamente desnecessária, já alçando Dunga à condição de um Kasparov da tática futebolística. Isso, é claro, diz menos sobre os méritos do técnico e mais sobre a culpa dos cronistas que o detonaram até agora.

Sou contra a execração dos treinadores e não acho que o torcedor tenha esse direito, pra começo de conversa. Mas também não apóio a tecelagem de loas em escala industrial. Felipão, quem não se lembra?, chegou ao Japão totalmente desacreditado, levando algumas broncas por não convocar Romário. Zagallo chegou à França praticamente com a taça na mão, chamado de mestre e a coisa toda. Vocês conhecem o final das duas histórias.

Enfim, é isso.

E como religião não é ciência exata, não me peçam para explicar o que houve em 1994. Há teólogos da bola que ainda estudam o caso. Os poucos que arriscam alguma conclusão alegam o seguinte: o técnico também chegou desacreditado e ganhou. Ponto. Mas a parte curiosa é o fato de que, mesmo vitorioso, continuou sem respeito algum como treinador - e ainda teve a chance de voltar para ter esse "desrespeito" reiterado.

Por isso, vamos aplaudir o trabalho do Dunga e pronto. Não passemos disso. Se começarem a fazer musiquinha, aquela coisa toda, tratemos de nos prepara ao pior. Não acredito em deus, mas com futebol não gosto de brincar. A coisa é séria.

transubstanciado por gravata às 28.06.09 - 20:17:14 | 10 comentários

Comentários, Pingbacks:

Comentário de: Marlos Ápyus http://www.apyus.com

O pior é que a seleção de Zagallo (98) era tão boa ou melhor que a de Felipão em 2002. O problema, e parece que aqui Dunga leva vantagem, é que Zagallo não soube controlar os egos como Felipao controlava. Leia a semi entrevista que Juca Kfouri publicou hoje em seu blog e entenda o que quero dizer com freiar um ego inflado. Diz lá que Rivaldo e Ronaldo estavam na velha viadagem de um querer aparecer mais que o outro. E numa conversa atrás, após a ameaça de ir um dos dois para o banco, pararam com a frescura. Zagallo não tinha este poder (ou preocupação). E deixou os egos se degladiarem na Copa, se colhões para colocar Ronaldo no banco de reserva.

Nem considero Dunga técnico (diferente de Felipão e Zagallo). Mas se ele conseguir controlar os egos (como parece vem conseguindo), já é meio caminho andando. Mas preferia um técnico de verdade lá. Um Muricy, um Felipão, ou até mesmo um técnico gringo, se fosse o caso.

#Permalink 28/06/2009 @ 21:06:28


Comentário de: Carlos Vinicius http://revinet.blogspot.com

Acho que já estamos no lucro com o Dunga. Não esperava nada dele como técnico. Esperava que fosse tipo o Maradona tem sido na Argentina.
Claro, Copa do Mundo é outra coisa. É o que vale, o que define, no fim das contas. Mas ultimamente tendo a acreditar que é possível ganhar com o Dunga, coisa que não achava antes. Pode ser que não ganhemos, pode ser que nem acabe dependendo tanto dele, mas acho que ele faz por merecer sua chance.

#Permalink 28/06/2009 @ 21:06:41


Comentário de: Rodrigo Rover http://seletadeprosa.blogspot.com

Meu caro Grava, a única divindade futebolística que temo, no assunto futebol, é a vaidade. A falta dela (ou a maneira como ela foi controlada) é que explica 94 - pra mim, ainda bem que rodamos logo em 86, senão íamos perder pro time do Maradona. Prólogo a parte, uma coisa o Dunga tá conseguindo: o time corre. HOje provou isso. Vá lá, a ausência de um Ronaldo, de alguém que seja "a" estrela da companhia, pode contribuir pra isso. Felipes Melos, Lúcios e Luisões não vão querer ser os donos da bola. Mas o Dunga tem esse mérito sim - e olha q é duro, pra mim, admitir isso. Então, com a quantidade de talento disponível, o respeito natural que todos tem pela seleção e a confiança natural do brasileiro em sua bola num futebol mundial muitíssimo nivelado, um treineiro agregador e motivador pode fazer a diferença. Até porque, taticamente o Brasil é MEDÍOCRE - e, não esqueçamos, meses atrás essa seleção e esse técnico eram questionadíssimos. A empatia, união e motivação resolveram jogar a favor - veremos se até a Copa, o que acho difícil. Enfim, o comentário virou post, páro aqui. Abraço.

#Permalink 28/06/2009 @ 22:06:04


Comentário de: Welington Silva http://www.esportemrede.blogspot.com

Convido vcs para lerem um post no blog Esporte em Rede sobre a seleção brasileira, que tem no seu plantel quase 100% de jogadores estrangeiros.

Aguardo vcs lá!!!

#Permalink 29/06/2009 @ 00:06:18


Comentário de: jonas

Imagino que voce deva ta escrevendo agora sobre a situação de Honduras. NAO VA CHAMAR AQUILO DE GOLPE, POR FAVOR. A Constituição esta sendo seguida a risca, um presidente CIVIL nomeado pelo Parlamento já esta no lugar do golpista, e as eleições gerais estão marcadas. Não ha plano nenhum do exercito de governar o país. Tratava-se de um sujeito que teve sua ação condenada em todas as instituições.


abraços.

#Permalink 29/06/2009 @ 10:06:15


Comentário de: João

O desrespeito ao Parreira em 94 veio de uns paulistas que queriam Evair no lugar do Bebeto. Problema deles.

#Permalink 29/06/2009 @ 12:06:05


Comentário de: Ricardo

O Dunga, ontem, provou que tem uma coisa, só: SORTE. Puta cagada do carái o LF fazer aquele gol com 30s do 2º tempo.

#Permalink 29/06/2009 @ 13:06:26


Comentário de: kadu

Desde que ele não levou o Ronaldinho, deu chance real a quem joga no Brasil e substituiu quem não estava bem a coisa melhorou, pois em qualquer lugar onde tem gente que obtém o cargo pelo QI a apatia se instala. Além disso, parece que há uma série de ações nesta linha de "seriedade" e o Dunga pessoalmente não é afeito a frescuras, o que ajuda bastante.

E como ele é um técnico estreante, é interessante ver como a capacidade de mobilização é mais decisiva que a "competência técnica" num segmento onde todos conhecem as táticas e variações e a motivação individual conta bastante. Você pegar um cara que é do ramo e consegue liderar um grupo vale mais que gastar milhões com um "estrategista" como os luxemburgos da vida.

#Permalink 29/06/2009 @ 17:06:31


Comentário de: Roberto Takata http://neveraskedquestions.blogspot.com

"Zagallo chegou à França praticamente com a taça na mão, chamado de mestre e a coisa toda. Vocês conhecem o final das duas histórias." - não é bem assim, tanto é que Zagallo falou o famigerado: "Vocês vão ter que me engolir", por causa das críticas constantes.

[]s,

Roberto Takata

(Gravz: Isso foi na Copa América. Quando chegou à França, foi como grande favorito)

#Permalink 30/06/2009 @ 12:06:56


Comentário de: Roberto Takata http://neveraskedquestions.blogspot.com

"Gravz: Isso foi na Copa América. Quando chegou à França, foi como grande favorito"

A seleção poderia até ser favorita. Mas o Zagallo foi detonado durante toda a Copa: era turrão, ultrapassado... ninguém entendia o tal do "um".

[]s,

Roberto Takata

#Permalink 01/07/2009 @ 23:07:42


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