USP X MASSACRE NO HAITI: COMPARAÇÃO ASSUSTADORA
16/06/2009
USP X MASSACRE NO HAITI: COMPARAÇÃO ASSUSTADORA
O movimento radical paredista, na USP, não é apoiado pelo PT. Mas, na Internet, a petistosfera se vale do cumprimento de uma ordem judicial para tentar ganhos eleitoreiros. É do jogo? Não, não. Não existe jogo que justifique essa má-fé.
Vamos falar do Haiti.
Em 2004, Jean-Bertrand Aristide foi democraticamente eleito presidente do Haiti. Em seguida, foi seqüestrado por fuzileiros navais dos EUA e levado à África Central. Depois disso, o país foi dominado por "forças de paz" da ONU.
O Brasil, sob Lula, foi quem liderou essas "forças" - provavelmente em busca de assento no tal Conselho de Segurança das Nações Unidas. Isso, e apenas isso, bastaria como um sinal de pouca afinidade para com a democracia. É o ex-sindicalista e ex-socialista então aliado a George W. Bush e suas práticas imperialistas.
Já imaginaram se fosse FHC? Pois é... Na Venezuela, chegaram e escrever libretos, e até hoje os vendem como "prova" de que tentaram dar um golpe por lá. No Haiti conseguiram, com seqüestro e tudo. Em seguida, Lula mandou o exército pra lá. Cadê o livro?
Aliás, alguém leu alguma reprimenda do tipo "Lula é um ditador", em algum blog desses que agora ficam indignados com a transposição do espaço físico da USP, ou com o cumprimento de uma ordem judicial? Claro que não. Porque não se pode falar mal do partido. É sempre isso: primeiro a legenda, depois a causa. E isso vale até para o direito à vida.
Sigamos, e entenderão.
A Wikipedia, em português, não traz qualquer baixa com exceção das militares (que sem dúvida merece nosso pesar). Mas vejamos também as civis. Vejam trechos do que está escrito num site bem ao gosto dos que defendem Lula e condenam peremptoriamente o cumprimento, no Brasil, de uma ordem judicial.
"Soldados brasileiros que voltaram do Haiti deram entrevista para o Jornal Folha de SP onde afirmaram que o nome “missão de paz” dava uma impressão errada do que estava acontecendo no Haiti. Um dos soldados identificado como “S”, explica: “Até parece que este nome é para tranqüilizar as pessoas no Brasil. Na verdade, não há dia em que as tropas da ONU não matem um haitiano em troca de tiros. Eu mesmo, com certeza, matei dois. Outros, eu não voltei para ver.” (Folha de SP, 29/01/2006). E o mais revoltante: desde 2005 as tropas da ONU têm chacinado haitianos em represália explícita por se manifestarem pela retirada das tropas e pelo retorno de Aristide – Titid, como o povo pobre o chama. Manifestações com dezenas de milhares de haitianos são reprimidas a bala pelas forças policiais e tropas da ONU. Quando as manifestações são muito grandes, no dia seguinte as tropas da ONU costumam fazer incursões em Cité Soleil – com 300 mil moradores é a maior favela na periferia da capital do país, Porto Príncipe – e atiram por horas sem parar contra as casas dos moradores, matando homens, mulheres e crianças. Só não matam idosos porque estes são raros no Haiti. A expectativa de vida é de 49 anos! Nessas incursões – chamadas de “punições coletivas” por alguns jornalistas presentes no Haiti – os soldados atiram de dentro de seus carros blindados, semelhantes aos “caveirões” usados pelo BOPE nas favelas do Rio, e também de helicópteros. Muitas pessoas, principalmente crianças, são atingidas na cama, enquanto dormem, por balas de calibre pesado que atravessam os telhados de suas habitações. Depois de contar e chorar seus mortos, o povo pobre de Cité Soleil volta às ruas protestando e é reprimido de novo! A situação de um povo desarmado enfrentando forças externas tão poderosas como essas, pode aniquilar física e psicologicamente toda uma geração. Os que buscam se organizar ou participar de movimentos de resistência são mortos ou presos sem motivo, ilegalmente. Depois de presos sofrem torturas e geralmente são “desaparecidos” pela Polícia Nacional. Já são incontáveis os presos políticos e ativistas desaparecidos." (grifos nossos)
O Exército Brasileiro está no Haiti por decisão exclusiva de Lula, não por força de ordem judicial; seu comandante-em-chefe é o Presidente da República e, por óbvio, é o direto responsável por tudo que acontece.
Quando alguém fala do que houve no Iraque, por exemplo, obviamente não condena o General ou Almirante tal. É George Bush, pois cabe ao Presidente, sentado na ponta da mesa da "Situation Room", decidir o que será feito. O mesmo vale para Lula. E ele decidiu não apenas pela liderança, como também pela MANUTENÇÃO das tropas no Haiti.
Quem, desses blogueiros da petistosfera, o chamaria de "ditador"? E se acham que o link passado é "radical" demais (ainda que traga trechos de reportagem da FSP), podem ficar também com esse. Ou então lembrar daquele jogo da seleção, com uma escolta absurda. Ou, sei lá, visitem o Haiti.
Legalidade x Massacre / Vida x Partidarismo
Dalmo de Abreu Dallari, ligado ao PT, jurista consagradíssimo, já assinalou o óbvio: a polícia não foi à USP sob ordem do executivo, mas sim em decorrência de uma ação judicial. Não houve nenhuma morte nem ferimento grave; em que pese a DESOBEDIÊNCIA À ORDEM JUDICIAL, que é crime, perpetrada pela minoria que se recusava a atender os termos da decisão do Poder Judiciário.
No Haiti, porém, não houve nada disso. Lula mandou as tropas porque quis, ninguém interveio, nenhum outro ente da república o obrigou a tomar essa decisão. E houve algumas centenas de mortos.
Nenhum blogueiro que hoje esbraveja por aí saiu gritando contra o Presidente da República. Nem o chamou de ditador. Nem pediu sua cabeça. Nem ameaçou denunciá-lo à Anistia Internacional. Nem nada. Silêncio total e absoluto.
Relativização do direito à vida? Preocupação seletiva? Indignação diferenciada? Caráter volátil? Não, nada disso. É o de sempre, mesmo.
Primeiro o partido, depois a causa. Ou aquilo lá: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Milhares de haitianos mortos sob a responsabilidade de Lula não são nada perto do portão da USP ultrapassado sob ordem judicial (quando se pode tentar culpar um adversário).
É muita cara-de-pau.
(de novo: sem revisão, com gripe lascada e escrevendo com notebook na cama)
transubstanciado por gravata às 16.06.09 - 21:59:36 | 20 comentários
Comentários, Pingbacks:
Abraço.
(Gravz: Não, dessa vez não houve. Ficarão em silêncio, mesmo. Já ficaram cinco anos)
Um esclarecimento que deve ser feito é que as tropas de paz no Haiti são compostas por vários países. Antes de enviar os tropas para as missões, os países devem treinar os militares, informando sobre os princípios básicos de direitos humanos e direito humanitário (especial para conflitos). Reforçando o treino, as Nações Unidas dispõem de vários manuais de conduta para evitar violações.
Eu não duvido da ocorrência de fatalidades na missão de paz, no entanto é preciso ter muita cautela ao afirmar que as tropas brasileiras estão massacrando haitianos. O uso da força é permitido sob certas circunstâncias.
Por fim, é preciso mencionar que independente do presidente do país é bem possível que teríamos mandando as forças de paz para o Haiti. A política externa brasileira é conhecida por relativa estabilidade, mesmo com mudanças de governo. Conseguir um assento no Conselho de Segurança é pedido que, por mais curioso que pareça, é mais antigo do que a própria ONU.
Enfim, parabéns pelo trabalho.
Cordialmente,
Karolina
(Gravz: Sim, Karolina, é complicado. Concordo. Por isso fui contra a bobagem de se dizer que o chefe do executivo estadual seria culpado pelo cumprimento de uma ordem expedida pelo Poder Judiciário. Mas, voltando ao Haiti, apesar dos complicadores, o Presidente da República é sim responsável pelos atos do exército. Se fossem pequenos incidentes isolados, não falaria nisso. Mas são práticas recorrentes - sem contar a presença pura e simples. É como eximir George W. Bush da invasão do Iraque - outro episódio bem complicado. Abs)
(Gravz: A PM atendeu a uma ordem judicial. Não há mais o que discutir sobre isso. Dalmo Dallari e Ricardo Kotscho concordamm, porque é FATO. O Exército Brasileiro foi ao Haiti porque Lula assim determinou, tomou a iniciativa e fim de papo. Ou você acha que as tropas foram escondidas? Como VOCÊ explica isso? Abs)
Para o país enviar tropas a qualquer outro canto do planeta é preciso de autorização pelo poder legislativo.
Fico feliz (na verdade é triste isso tudo, mas antes que as pessoas se conscientizem do que ocorre lá
Claro que a gravidade de se matar e massacrar civis é infinitamente maior do que a gravidade de se jogar bombas de gás sobre manifestantes civis, mas é a questão da responsabilidade das *ações* das forças militares/policiais por parte do chefe do executivo.
Então que você queira dar publicidade - mesmo tardia - à questão haitiana não apenas é uma decisão pessoal sua que deve ser respeitada como tal como é uma atitude louvável em prol dos direitos humanos - mesmo tendo um viés político-partidário nessa sua decisão (o que podemos chamar de anti-pró-petismo), afinal ideologia partidária ou antipartidária é um direito de todos. Não se decorre daí, porém, que o governador do Estado não seja responsável pela ação da PM na USP.
Claro que há uma certa ironia ao que você enfatize isso como uma crítica à partidarização da ação da PM na USP na medida em que partidariza a questão haitiana para fazer essa crítica.
[]s,
Roberto Takata
(Gravz: Na verdade, fiquei surpreso com a partidarização da ação da USP, haja vista a obediência a uma ordem judicial. Por isso, rememorei a tragédia do Haiti, que foi totalmente decidida pelo Poder Executivo - e chancelada pelo Legislativo de forma praticamente simbólica; como quando concordam com alguém do STF etc)
[]s,
Roberto Takata
(Gravz: Também espero...)
O olho que enxerga tudo de ruim nos adversários, até o que não existe, é o mesmo que não enxerga erros no partido, até os mais evidentes.
Nao sou partidario do Lulismo e da seita religiosa petista. Porem, no caso do Haiti, acho q a decisao do gov. Lula foi correta. O Brasil deve ter uma participacao se quer ser um pais influente nas Americas.
Sobre a invasao da USP, ee outra historia, a analogia do caro Gravata nao ee valida, no meu entender. O pais nao estaa sob uma lei marcial e o Estado de direito deve ser pleno.
(Gravz: A analogia não é mesmo muito válida. Na USP, a PM obedeceu a uma ordem judicial e não matou ninguém. Aliás, ninguém foi nem gravemente ferido. No Haiti, Lula não "obedeceu" à ONU, mas sim foi porque quis. Tomou a iniciativa porque bem entendeu, INTEGRANDO nossas forças armadas a uma força de paz. E o que houve por lá DEFINITIVAMENTE não foi estabelecido pela ONU, né?)
Talvez a execucao esteja errada, mas a ideia parece correta.
No outro q post mandei, coloquei uma discussao, pq nao haa projetos socias patrocinadas pela ONU no Haiti? Soo colocar forcas militares nao adianta... alias, gostaria de saber quem estaa administrando esse plano, sera q ee o Donald Rumsfeld?
(Gravz: Isso de "player no cenário mundial"... Que tal ser um "player" comercial?)
Acho q o Brasil jaa ee um "player" comercial, se nao fosse, nao estaria no G20. Outra coisa, veja o caso dos outros paises do BRIC (q estao em melhor posicao no cenario mundial q o Brasil), soo o Brasil nao possui bomba nuclear (e nao pode ter devido a tratados internacionais).
(Gravz: Ok, reformulo.. Que tal ser APENAS um player comercial)
(Gravz: Olha até onde você está indo pra justificar o massacre no Haiti)
E termino c/ uma pergunta, o q vc acha q os outros paises deveriam fazer, deixar os haitianos matassem uns aos outros? De acordo c/ o q vc escreveu, deveriamos todos ficar olhando os haitianos massacrarem uns aos outros, como fizemos c/ a Ruanda... e depois escrever como deixamos isto rolar s/ fazer nada.
(Gravz: O Haiti está completamente desestabilizado e tomado por uma guerra, um massacre. Não há qualquer imprensa estabelecida. O link é de um site marxista. Se você disser que não confia em socialistas e marxistas, eu digo que somos dois. Mas, sim, há um massacre - confirmado pela reportagem da Midia Independente, logo em seguida. Peço desculpas se pareceu que distorci seu escrito, não foi mesmo a intenção. E, se "casualidades civis" são "norma" nesse tipo de conflito, isso não exime o Presidente da República de sua RESPONSABILIDADE ao aceitar a LIDERANÇA na tal 'missão de paz'. Se quer mesmo situar o país numa posição central e de destaque, precisa ter maturidade para assumir os erros. E falamos aqui de vidas humanas, não de lapsos bobos)
(Gravz: Não acho nada de bondinho. Falei bem claramente sobre a questão comercial, industrial etc. Alemanha, Espanha, Japão e Coréia, p.ex. [ao menos nas últimas décadas...], não massacram país algum. E estão aí dando as cartas em diversos mercados)
O que o Presidente Luís Inácio da Silva, o "Lula", fez no Haiti foi frustrar o interesse dos EUA no país, e não submeter-se a ele. Foi a diplomacia do governo Lula quem garantiu que o aristidista Rene Preval fosse declarado vencedor das eleições, às expensas do candidato dos EUA, Leslie Manigat. Quando foi descoberta a fraude maciça contra Preval, foi o Brasil quem liderou o consenso entre 7 dos 8 países observadores do pleito, isolando os EUA de forma muito habilidosa. Já havia feito isso quando criou o grupo de países "amigos da Venezuela", convidando os EUA, mas sempre mantendo o Império em posição minoritária no grupo.
(Gravz: Frustrar o interesse dos EUA? Jesus! O que o Lula fez foi obedecer a ordem de Bush feito um cachorrinho de estimação, marcos. Enquanto os mariners levavam o presidente eleito pra dar uma volta na África, Lula mandava a tropa brasileira pro Haiti. Foi isso. É o iraquezinho de Lula, pra tentar um assento no Conselho de Segurança. Essa historinha sua é pra lá de ridícula. Se você conta pra dar um migué, ok. Falhou. Mas se realmente acredita, aí é caso sério)
reval como continuador de Aristide, as eleições, a fraude maciça contra Preval, o "migué" dos EUA visando beneficiar Manigat, as articulações de Celso Amorim visando confirmar a clara vitória de Preval, a saída político/legal (foi baseada na legislação da Bélgica, um dos países observadores do pleito)que confirmou Preval como Presidente eleito, a saída honrosa que encontraram para os EUA, a confraternização dos haitianos com os soldados brasileiros após a confirmação da vitória de Preval. É história, simplesmente.(Gravz: Ok. Os EUA mandam bala no golpe. O Brasil dá seqüência na operação, enviando tropas. No seu raciocínio, nós FRUSTRAMOS o interesse norte-americano? E isso são "fatos" que constam até da "doentia imprensa anti-PT"? Acho que podemos encerrar por aqui, não? Sobretudo depois da "confraternização dos haitianos". Lembra aquelas fotos dos iraquianos abraçando soldados americanos. Claro que há simpatizantes, isso é óbvio. Mas há alguns outros não exatamente felizes com a presença, o que TAMBÉM É BEM ÓBVIO. Mas a petistosfera não faz um 'bodycount' no Haiti pra não queimar o filme do Lula)
"Se você disser que não confia em socialistas e marxistas, eu digo que somos dois. Mas, sim, há um massacre - confirmado pela reportagem da Midia Independente, logo em seguida."
1) Nao sei quem ee a midia "independente" de quem vc fala. O q parece ee q nao haa realmente uma confirmacao q haa um sistematico abuso das forcas de paz, ou q esteja associado ao comando brasileiro. Alias, dizer q ee "idependente", como sabemos, nao diz muito sobre a sua independencia. Nao vou dizer q sou contra todas as info. de sites marxistas, pois acredito q deve haver uma investigacao mais profunda.
2) Massacre jaa estava ocorrendo antes das forcas brasileiras entrarem no Haiti. O q pode se argumentar ee piorou ou melhorou.
3) E vc nao respondeu a minha pergunta, o q o gov. brasileiro deveria fazer? Pelo q entendi vc acha q nao deveria fazer nada. Vc gostaria q virassemos as costas e deixassem q os haitianos matassem uns aos outros. Q belo humanismo... como fizemos c/ o massacre em Ruanda. Todo mundo escreve como foi horrivel, mas ninguem fez nada.
"(Gravz: Não acho nada de bondinho. Falei bem claramente sobre a questão comercial, industrial etc. Alemanha, Espanha, Japão e Coréia, p.ex. [ao menos nas últimas décadas...], não massacram país algum. E estão aí dando as cartas em diversos mercados)"
Acho q nao tem nada a ver c/ a discussao. Veja o caso dos misseis norte coreanos, o Japao e a Corea tem q ficar a merce dos americanos. Ee isso q estou escrevendo.
Os brasileiros estão lá, de capacete azul, são maioria mas não são os únicos (na página da Wikipedia são citados pelo menos 30 outros países).
Algum outro soldado da ONU, de outra nacionalidade, relata algo parecido? Ou estamos todos neste enorme complô contra um país tão decisivo no cenário mundial como é o Haiti?
