21/12/2009
INSTITUIÇÕES JABUTICABA: "CATÓLICAS PELO DIREITO DE DECIDIR"
Imaginem um movimento dentro do Partido dos Trabalhadores, o PT. Tal grupo, declarando-se o tempo todo engajado na causa partidária, levanta a seguinte bandeira: "PETISTAS PELO DIREITO DE SEMPRE VOTAR NO PSDB". Não querem sair do partido, não aceitam ser chamados de outra coisa se não PETISTAS, mas insistem nesse refrão.
Que tal? É o mesmo que acontece com as "CATÓLICAS PELO DIREITO DE DECIDIR" - a 'decisão' diz respeito a fazer aborto.
Sou a favor da legalização do aborto (até a formação do córtex cerebral) e não sou católico. Aliás, não precisaria dizer "não sou católico", pelo fato de que a primeira frase lógica e automaticamente anula a outra. É como dizer "não acredito em espíritos e não sou espírita" ou "não acredito em orixás e não sou de qualquer religião de raiz africana".
Mas há um grupo que insiste em ser "católico" e, ao mesmo tempo, defender o aborto. Não tenho certeza das mais absolutas, mas posso apostar alguma grana no seguinte: isso só acontece no Brasil. Ou alguém imagina algo como as "muçulmanas pelo direito à poligamia feminina"? É a mesma coisa.
Não existe "meia fé", "meia devoção" ou, nesse caso, "meio dogma". Mas o brasileiro parece que gosta de ser "católico pela metade" e, ainda por cima, fica extremamente irritado quando se lhe impõem as crenças NECESSÁRIAS para que o católico seja católico.
Vejamos APENAS DUAS (claro que há bem mais):
Adão e Eva
Católico é cristão e, como tal, acredita em Jesus Cristo. O Salvador, contudo, ganha esse título para seus fiéis porque SALVOU A HUMANIDADE DO PECADO ORIGINAL, que seria exatamente aquele cometido por Adão e Eva. Leiam e releiam qualquer livro relativamente sério sobre teologia ou doutrina cristã. É simplesmente IMPOSSÍVEL ser cristão sem acreditar na LITERALIDADE da história de Adão, Eva e o "fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal". Para você, é uma "alegoria"? Ok, então Cristo também é uma "alegoria" e, supimpa!, você não é cristão. Você é "alegorista".Transubstanciação
Nas missas, na hora da hóstia, não se trata de outra suposta alegoria, mas sim de mais uma LITERALIDADE. Há católicos, até hoje, que se assustam ao saber disso, simplesmente porque nunca se informaram sobre a própria religião. É o seguinte: a hóstia consagrada não REPRESENTA, mas sim É A PRÓPRIA CARNE E O SANGUE DE JESUS. Isso mesmo, o fiel, pela mão do padre, COME O CORPO E O SANGUE DE CRISTO (isso segundo sua fé). Se você, por qualquer motivo - talvez lógica? -, não acredita nisso, você simplesmente não integra as fileiras da Igreja Católica.
Se não acredita nessas duas coisas, você não pertence a essa religião. Você pode ter simpatia ou afinidade por boa parte dos ritos da Igreja Católica Apostólica Romana, pode ter sido batizado, crismado, casado etc. Mas, desculpe, você não é católico. É NECESSÁRIO acreditar - e de verdade, sem vacilo - nessas duas coisas (além de muitas, muitas, muitas, mas muuuuitas outras).
A situação do aborto, portanto, fica ainda pior.
Por isso, as "CATÓLICAS PELO DIREITO DE DECIDIR" não são católicas nem com reza brava (ok, aí muito menos). Eu também defendo a legalização do aborto, mas tenho noção de que ninguém é OBRIGADO a fazer parte de uma religião. Assim como ninguém é obrigado a integrar um partido político e, desta feita, jamais existirão os "PETISTAS PELO DIREITO DE SEMPRE VOTAR NO PSDB".
O catolicismo é uma opção complexa, que depende de um sem-número de crenças e ritos. Mas enquanto seria muito mais fácil simplesmente tais mulheres abandonarem a instituição que consideram "atrasada" (embora religiões, por óbvio, não sejam seculares), elas preferem investir numa máxima da brasilidade: o "dogma com upgrade".
E, o que seria uma luta justa, vira pura jabuticaba.
Revisão: Hellen Guareschi
transubstanciado por gravata às 21.12.09 - 20:02:02 | 42 comentários
20/12/2009
PT E PMDB: A ALIANÇA ELEITORAL É MESMO UM BOM NEGÓCIO PARA AMBOS?
O PT precisa do PMDB. Hoje, pela "governabilidade", ou seja, para conseguir votos no Senado e na Câmara. Mas, na eleição do ano que vem, o grande capital do PMDB são os minutos na televisão. Aliando-se a ele, o PT ganhará tempo bastante para fazer o programa dos sonhos de qualquer marqueteiro. Tudo isso é relativamente óbvio, mas o intróito é necessário para a análise dos obstáculos. A ver.
Nos Estados com maior eleitorado, o PT é adversário local do PMDB. Não é pouca coisa: Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, por exemplo. Havendo ou não a tal "aliança nacional", os petistas locais não apoiarão ninguém do PMDB e, em vez disso, farão campanha contra.
Na Bahia, a tensão é forte. No Rio, por outro lado, o PT foi reduzido a pó desde que a direção nacional interveio contra Vladimir Palmeira, há anos - desse modo, a gritaria quase muda talvez não incomode tanto Sérgio Cabral, que terá apoio direto de Lula.
No Rio Grande do Sul e em São Paulo, as direções do PMDB não acompanham o diretório nacional quanto ao apoio ao Governo Federal - e isso inclui, obviamente, a eleição de 2010. Sabem que será o acordo "caracu": horário de TV em troca de xingamentos e campanha contrária virulenta.
Em Minas, com a aparente desistência de Aécio, o quadro ficou muito mais tenso. Sem a tal "aliança secreta" do tucano e Pimentel, cada qual tentará emplacar seu próprio candidato ao governo do Estado e, pra "colaborar", o PMDB corre por fora. Aécio, portanto, depende tanto de seu partido quanto o PSDB depende dele. E o PMDB mineiro? Boa pergunta, né?
Vamos ao plano nacional: os peemedebistas que são ferrenhos defensores da aliança com o PT não sofrem problemas locais com adversários petistas. Ou porque o Partido dos Trabalhadores foi destruído localmente (RJ, p.ex.), ou porque são caciques que prescindem de partidos (Sarney, p.ex.).
Mas vejam, por sua vez, a situação de Geddel Vieira Lima na Bahia. Depois de anos de supremacia carlista, surge Jacques Wagner. Todos os demais partidos locais, DEM, PSDB, PDT e PTB, caso o peemedebista queira, estariam ao seu lado. Como convencê-lo acerca da "aliança nacional", não apenas contando com todo esse apoio, mas principalmente sabendo que o PT local fará de seu partido saco de pancadas?
O PMDB de Minas Gerais não vive situação muito diferente. No ano passado, o candidato do partido (apoiadíssimo por Helio Costa) foi derrotado no pleito para a prefeitura de BH. Saiu vitorioso Marcio Lacerda, do PSB, apoiado por Aécio e Pimentel. Agora, temos o seguinte: Helio Costa (PMDB), Patrus Ananias e Pimentel (PT) e Anastasia (PSDB) em condições. O grupo de Pimentel venceu as eleições locais: mas ele desiste da candidatura ou impede a de Patrus?
É o contexto em que Lula pediu a "lista tríplice".
Dizer que houve a precipitação de uma crise, convenhamos, é fazer leitura simplória. Podem dizer o que for, mas Lula está longe de ser bobo e, em termos de articulação política, é o melhor do PT. Ele sabe que não pode dispensar qualquer aliança local, Temer também deveria saber, em vez de ficar melindrado com uma declaração quase inócua (sobretudo quando seu nome está no olho do furacão do DF).
Mas Lula parece ser o único efetivamente preocupado com o grande problema das alianças locais. Enquanto isso, quase todos os petistas fazem esforços sobrehumanos, sempre CONTRÁRIOS à aliança nacional, opondo-se ao PMDB cada qual em seus Estados.
O partido vem tolerando, mas até que ponto? Por enquanto, com Lula à frente do Governo Federal, e todas as virtudes políticas dele decorrentes (ah, esses eufemismos...), ainda é bom ao PMDB a aliança nacional da forma como está, mesmo com as campanhas regionais contrárias e o relativo crescimento do PT em alguns Estados.
Mas compensa manter essa "parceria" nas eleições?
(sem revisão, Hellen não trabalha aos domingos :D)
transubstanciado por gravata às 20.12.09 - 17:29:31 | 6 comentários
18/12/2009
LULA X DILMA: ESTOURO DA MANADA?
Esqueçamos os atos-falhos e vamos ao principal: Dilma Rousseff, liderando a delegação brasileira em Copenhague, foi taxativa: o Brasil não participaria do fundo climático internacional, de R$ 1 bilhão por país. Marina Silva e José Serra defendiam (e defendem) nossa participação nesse mesmo fundo.
Entra a MANADA, guiada não apenas pelo berrante desafinado de Dilma Rouseff, mas também pelo articulador político de sua campanha à Presidência da República, José Dirceu, que escreveu o seguinte:
"...Por isso, é grave a pretensão dos países ricos de repartir em fatias praticamente iguais com as nações em desenvolvimento o fundo de combate ao aquecimento global, que deve ter, em 2030, cerca de US$ 200 bilhões como valor desejável para seu pleno funcionamento (segundo a ONU). Essa proposta é inaceitável para o grupo Basic e amplia o impasse na conferência. Por isso, recebeu queixa-denúncia da ministra Dilma Rousseff, que cobra envolvimento maior das nações em desenvolvimento. As observações de Dilma contrastam com o que defendem os presidenciáveis da oposição, o governador José Serra (PSDB) e a senadora Marina Silva (PV-AC). Ambos insistem que o Brasil deve entrar com pelo menos US$ 1 bilhão no fundo. Ou seja: o que o mundo rechaça em Copenhagen, a oposição do Brasil aceita e defende. É o que fariam se estivessem no governo? Aceitariam o inaceitável? Além disso, esquecem que o Brasil já comprometeu US$ 5 bilhões em ajuda tecnológica e financiamento a países da África e da América Latina..." (grifos nossos)
Bonito, né? Então vejam notícia publicada hoje no G1:
"Brasil pode contribuir para fundo climático internacional, diz Lula - Presidente se disse 'frustrado' com negociações climáticas. - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta sexta-feira (18) na plenária do último dia da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 15) que o Brasil está disposto a oferecer dinheiro para um fundo internacional de financiamento de medidas de adaptação e redução de emissões nos países pobres. “Se for necessário o Brasil fazer um sacrifício a mais estamos dispostos a participar do financiamento”, disse. Dias antes, sua ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, havia rejeitado a possibilidade de o Brasil contribuir. (...) Dizendo querer chegar a um consenso, Lula afirmou que compreende que os países ricos não "serão os salvadores dos países em desenvolvimento" e que o aquecimento global pode atrapalhar o desenvolvimento do Brasil. "Passamos um século sem crescer enquantos outros cresciam muito. Agora que nós começamos a crescer, não é justo que voltemos a fazer sacrifício." O presidente brasileiro foi enfático ao afirmar que estava frustrado com os resultados obtidos até agora. O tom de crítica dominou a fala de Lula. "Confesso que estou um pouco frustrado porque discutimos a questão do clima e cada vez mais constatamos que o problema é mais grave do que nós possamos imaginar" (grifos nossos)
Epa! E agora? Dilma ou Lula? Quem a MANADA vai seguir? Até ontem, ou hoje mais cedo, a opinião correta, inequívoca e acertadíssima era a de Dilma Rousseff, devidamente chancelada por José Dirceu e espalhada pelos mais diversos blogs oficiais, ops, independentes.
E agora?
O berrante de Lula é mais alto e poderoso - sem contar o DOGMA DA INFALIBILIDADE LULAL. Creio, portanto, que a manada deve segui-lo. E mugindo de cabeça baixa, como sói.
Aguardemos o malabarismo retórico. A partir de agora, a contribuição passa ser boa, importante e necessária. Ou o ato de Lula foi o de um verdadeiro CHEFE DE ESTADO. Ou então, respondeu às pressões da MÍDIA MÁ, que mais uma vez atuou assim ou assado. Blablablá.
Ou qualquer outra coisa. Convenhamos, eles são criativos.
Marina Silva e José Serra já haviam defendido a mesma medida há dias. Dilma disse que o tal bilhão "não faz nem cosquinha", lançando uma conta zilardária de contribuição à redução de emissões (da qual, quase 80% seriam de projetos de hidrelétricas). Ok, tais usinas realmente são ótimas, mas há uma mandrakaria aí. Afinal, seria como se os generais da Ditadura incluíssem Itaipu como "obra ecológica" (e vamos fazer de conta que não há empreiteiras na parada).
Mas agora vem Lula e coloca as coisas mais ou menos nos eixos, encerrando as lambanças de Dilma ao afastá-la da "liderança" da delegação brasileira de Copenhague - que, a rigor, deveria ser exercida, de fato, por Carlos Minc (outro apoiador da participação brasileira no fundo internacional).
Mas estamos salvos. Talvez agora o meio-ambiente deixe de prejudicar o desenvolvimento sustentável. E o Planeta. E, por conseqüência, nosso país - obedecendo a ordem daquele discurso.
transubstanciado por gravata às 18.12.09 - 13:56:46 | 15 comentários
15/12/2009
ÚLTIMA INSTÂNCIA: MP QUER QUE MARTA E EX-SECRETÁRIO DEVOLVAM R$ 4,6 MILHÕES A SÃO PAULO
Falávamos em enchente, obras correlatas etc. Cobraram discussões mais sérias e assim por diante. Vamos ao quanto publicado no Última Instância:
"O Ministério Público de São Paulo moveu ação de improbidade administrativa contra a ex-prefeita da capital, Marta Suplicy, por supostas irregularidades na construção de um piscinão durante a gestão da petista (2001-2004). Na ação, a Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social quer que Marta, o ex-secretário de Infra-estrutura Urbana e Obras, Roberto Luiz Bortolotto, e contra a Construtora OAS sejam condenados a devolver R$ 4,6 milhões aos cofres públicos. Segundo informações do Ministério Público, a irregularidade ocorreu numa contratação de emergência, sem licitação, nas obras do "piscinão" do Córrego Rincão, no valor de R$ 34,9 milhões. O contrato foi considerado ilegal pelo TCM (Tribunal de Contas do Município), que apontou superfaturamento de 75% no serviço de remoção de terras, que, segundo a auditoria, levou ao prejuízo de R$4,6 milhões. Procurada pela reportagem, a ex-prefeita Marta Suplicy defendeu a construção emergencial do piscinão. Por meio de sua assessoria, disse que as "obras contratadas em caráter de emergência para a construção de piscinão se deram pela preservação de vidas, prevenção e diminuição de danos em consequência de chuvas". Na ação, o promotor de Justiça Saad Mazloum afirma que a então prefeita determinou que as obras tivessem início imediato, em abril de 2002, "o que ocorreu sem qualquer licitação ou formalização de contrato". Ainda de acordo com o promotor, o então secretário de Infra-estrutura Urbana e Obras Roberto Luiz Bortolotto burlou a lei ao dispensar a licitação "sob o argumento de 'emergência', como fórmula para evitar interposição de recurso, ações judiciais ou, pior, para evitar a necessária licença ambiental". Para Saad Mazloum, o ex-secretário favoreceu indevidamente a construtora OAS ao escolher a empresa para realizar a obra sem pesquisa de preço, permitindo “a aplicação da tabela de preços da Secretaria com valores distorcidos e sem descontos, que naturalmente seriam obtidos numa concorrência pública". Durante um inquérito civil, a Promotoria também constatou a ausência de projeto básico para a obra, o que teria levado a distorções como o aumento de 125% do preço da obra em relação ao inicialmente previsto. Além da devolução do dinheiro, o MP pede a suspensão dos direitos políticos de Marta e Bortolotto de 5 a 8 anos, pagamento de multa civil de até duas vezes o valor do dano, e proibição de contratar com o poder público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios pelo prazo de cinco anos, caso da OAS."" (grifos nossos)
Alguém pode dizer: "ah, mas resolveu". Não, não resolveu. A obra é essa, e fica na região do Aricanduva. Basta simples busca pelo Google para achar notícias assim ou assim. Trata-se, portanto, de obra superfaturada que talvez tenha sido um paliativo, mas não deu solução ao problema das enchentes naquele "ponto de alagamento".
E agora a ex-Prefeita, por iniciativa do MP, foi acionada para devolver quase cinco milhões aos cofres do Município de São Paulo. Só espero que não me culpem por isso, não digam "o blog já foi melhor" ou algo como "já viu como está alagado aquele bairro sei lá onde?".
O que justifica a obra superfaturada e a contratação de tal construtora?
transubstanciado por gravata às 15.12.09 - 18:34:35 | 12 comentários
15/12/2009
DILMA: MEIO AMBIENTE É UMA AMEAÇA AO DESENVOLVIMENTO
Dissertem a respeito. Parabéns a todos os envolvidos.
transubstanciado por gravata às 15.12.09 - 16:05:56 | 20 comentários
10/12/2009
O TRUQUE DO PALAVRÃO
Lula, em cerimoniazinha, falou isso:
Não "deixou escapar", nem foi ato falho. Nada disso. É diferente de chutar um móvel e gritar "porra!" ou soltar qualquer outra interjeição de forma inadvertida. A "merda", nesse discurso, foi meticulosa. Tanto que já veio acompanhada da desculpa, da explicação, do argumento - e do aplauso da claque.
Acho bobagem o "patrulhamento da humanidade", essa coisa de político não poder beber, sair, ter uma vida particular e assim por diante. Em determinado contexto, inclusive, mais do que obviamente um Presidente da República pode - e talvez deva - dizer "merda" (ou palavrões de pior calibre linguístico). Mas talvez nunca num discurso em cerimônia - daí mais um motivo da obviedade teatral.
É claro o ensaio das fezes discursivas, e ele se assemelha a muito do populismo relativamente barato que envolve Lula, e de certa forma serve de combustível a seu carisma. É uma fórmula de sucesso, não há como negar. São quantos por cento, hoje em dia? Acho que quase noventa. O cocô ensaiado ajuda, acreditem. Não é motivo para condenação, mas para aplauso (em termos de marketing, é claro).
Jânio Quadros, diz a lenda, jogava pó de giz na cabeça, ou algo do tipo, fazendo parecer caspa. Ascendeu à classe mais alta, tornou-se um homem culto, mas sempre que possível fazia suas aparições populistas junto aos pobres - mostrando-se, obviamente, como um "igual". Talvez para compensar as expressões eruditas (muitas caricatas), forçava a mão nos hábitos do povão: média na padoca, pinguinha da boa e assim por diante.
Lula faz o inverso. Seus hábitos, no dia a dia, são os de quem "enricou" - e ele não deve nada a ninguém quanto a isso. Mas na hora do populismo, o que o aproxima do povo são as palavras. Seu discurso, estrategicamente ensaiado e encenado, tem a veracidade do pingado-pão-com-manteiga de Jânio Quadros.
A mesma "merda" populista.
Revisão: Hellen Guareschi
transubstanciado por gravata às 10.12.09 - 21:25:18 | 26 comentários
09/12/2009
ENCHENTES: DEBATE POLÍTICO NO ESQUEMA "DEIXA QUE EU CHUTO"
Em São Paulo, a chuva chegou antes da hora - e falo aqui das tempestades que alagam a cidade. Elas nos assolam há anos, décadas. O prefeito da vez é sempre o "culpado". Sempre foi assim, sempre será. É como funcionam as coisas. Os alvos dos ataques, hoje, seguramente estavam na turma que ontem gritava contra os atacantes contemporâneos. E vice-versa.
Kassab é o prefeito, do DEM, e é obrigado a ouvir insultos petistas porque São Paulo está alagada. Mas a Marta, do PT, foi prefeita e São Paulo também alagou. Adivinha quem xingava Marta naquela época? E assim segue o barco (sem trocadilhos) do esquema "deixa que eu chuto". Se, por óbvio, não há o que fazer contra as chuvas, ao menos tentam uma lasquinha eleitoral diante da intempérie.
Um leitor, nos comentários de outro post, cobrou: "Serra fugiu" - em razão do governador de SP ter ido à conferência do clima em Copenhague. Não sei se conta como "fuga", creio que não, já que sua viagem é justificada pelo fato de que propôs, e lá apresentará, as metas paulistas para reduzir emissão de carbono ou algo assim. E, se fosse para manter a conversa nessa lengalenga, poderia lembrar a vez em que caiu o mundo e a cidade ficou debaixo d'água enquanto a então prefeita Marta estava em férias em Paris - não em convenção alguma.
Mas não foi culpa da Marta, foi um toró dos diabos. Bem como não foi culpa do Serra. Nem do Kassab. Aliás, por mais que não gostemos do cara, NEM MESMO DO MALUF. São Paulo conjuga fatores péssimos: megalópole quase totalmente impermeável, sujeiras em bueiros (fácil culpar o poder público, mas a cada instante há um imbecil jogando lixo na rua), topografia etc. etc. etc. E, sim, há também omissão do Poder Público, mas as ações governamentais estão sempre em desvantagem.
Prova disso é que, independentemente do partido, sempre se diz o seguinte: "fulano não tem projeto para conter as enchentes". Bonita a frase, não é mesmo? Mas alguém já perguntou para seu autor - quando se trata de algum político - qual é o SEU projeto? Todo mundo já esteve na prefeitura, todos fizeram algo aqui e ali. E o que temos? Enchentes. Eleger culpados é moleza.
Aliás, isso lembra os casos de corrupção, quando se tenta "igualar" os partidos. Não é o caso. De fato, DEM, PT, PSDB, PMDB, PPS, PR, PTB, enfim, praticamente todas as legendas se meteram em encrencas. Mas não se pode confundir AÇÃO DELIBERADA e DESASTRE DA NATUREZA. Se houve temporais nas gestões de Kassab e Marta, não quer dizer que DEM e PT são igualmente incompetentes no "escoamento pluvial" - muito embora os partidários de cada legenda usem tais fatos para capitalizar votos, espezinhar etc.
Mas quando o assunto é corrupção e demais mutretas, a conversa é outra. É preciso cobrar os partidos (e isso independe de filiação ou simpatia) para que sejam severos quanto aos integrantes envolvidos em escândalos flagrantes. Ao menos quanto aos filiados DIRETAMENTE ligados em tramoias inequívocas.
Afinal, por que tanta gritaria ao inventar culpados pelos milímetros cúbicos de chuva, mas tamanho silêncio na hora de cobrar a punição severa dos que efetivamente cometeram atos graves? Cobram a presença física de José Serra, e não falam do dirigente tucano de Brasília? Em vez de culpar Kassab pela chuva, por que não expulsar Arruda da vida pública? Xingam a Marta por alagamentos, mas que tal impedir qualquer retorno de José Dirceu?
O Fla x Flu atende a muitos interesses.
Revisão: Hellen Guareschi
transubstanciado por gravata às 09.12.09 - 21:06:02 | 23 comentários
07/12/2009
PESQUISA: A IMPORTÂNCIA DO "FATOR REJEIÇÃO"
Saiu nova pesquisa de intenção de votos para Presidente da República, agora do IBOPE, e encomendada pela CNI. Continua o sobe-e-desce, dizem que José Serra venceria no primeiro turno, aquela coisa toda. Honestamente: não ligo para isso e, quando alguém pede uma orientação razoavelmente séria, peço que faça o mesmo. Dizem os velhos, com a sabedoria que lhes é peculiar: "há muita água pra passar debaixo da ponte".
Mas nem tudo nesses levantamentos pode ser tratado com desdém, pois nem todos os números tendem a oscilar tão bruscamente. Um exemplo meio óbvio, mas curiosamente pouco comentado: a rejeição. Todas as pesquisas trazem basicamente os mesmos índices nesse pormenor. Quando se fala em quem vai votar, fulano sobe e beltrano desce e assim por diante, mas as taxas de rejeição são praticamente idênticas em todos os institutos há meses. Não se trata de mera coincidência, mas de algo normal na análise de pesquisas.
Vejam o caso de Lula, hoje um fenômeno de popularidade e, sem dúvida alguma, um campeão do carisma. Nem sempre as coisas foram assim. Há muito tempo, sua taxa de rejeição era avassaladora. Para diminuí-la, foi preciso um trabalho de DÉCADAS. Para tanto, é preciso não apenas fazer do candidato alguém mais "palatável", mas dissociá-lo de bandeiras partidárias incômodas (ou mesmo do partido, em si), entre outros processos que, obviamente, levam anos.
Qualquer analista sério sabe que, tanto em 2002 quanto em 2006, quem venceu foi Lula, não o PT. Ao contrário: o partido foi levado a reboque da popularidade lulista. Mas, quando se fala em transferência de votos, qual seria o eventual (ou real) obstáculo a ser enfrentado? A taxa de rejeição do candidato. As eleições municipais serviram exatamente para que se observasse esse fator. Falar em "questões regionais" é fazer embaixadinha pra torcida e pregar aos convertidos.
Lula é o mais popular de todos os tempos de todo o universo? Que seja. Mas seu poder de transferência tende a resistir - e resiste - à taxa de rejeição daquele a quem pretende transferir votos. Não importa o quanto gostem dele se, ao mesmo tempo, desgostam do "objeto da transferência". Política não é essa ciência exata. E é o mesmo erro de quando falam que Itamar Franco "fez o sucessor". Claro que não fez. Foi o Plano Real que elegeu FHC, e não o carisma, a popularidade ou o anseio do povo em prosseguir com as diretrizes do então Presidente Itamar.
Aos números. Os candidatos apresentam as seguintes taxas de rejeição: Dilma, 41%; Marina, 40%; Aécio, 36%; Ciro, 33% e Serra, 29%. Numericamente, Dilma tem em seu favor o fato de que poucos a conhecem (32%), mas isso não chega a ser uma vantagem, pois ela está longe de ser a Campeã Mundial de Carisma, categoria Quadra Coberta.
E, brincadeira à parte, o percentual de rejeição não muda consideravelmente conforme a taxa de "conhecimento do candidato" - o que parece espantoso em princípio, mas de fato acontece. Porque "conhecer", nesse caso, é "saber quem é". Em 1989, praticamente TODOS "conheciam" Lula. Em 2002, também. Acho que isso serve para exemplificar. O problema não é 'conhecer' ou 'deixar de conhecer', mas sim o trabalho sério que precisa ser feito quanto à taxa de rejeição que, sim, corresponde exatamente aos fatos.
Quanto ao mais, agora são pesquisas e mais pesquisas, uma atrás da outra. Mas é bom lê-las de forma diferenciada, sem essas empolgações de "já ganhou" ou coisa do tipo. E a taxa de rejeição, todos deveriam saber, é tão ou mais importante que a disputa pela ponta, porque é difícil de ser modificada em prazos curtos ou médios.
E, claro, sempre haverá quem bata nos números.
Revisão: Hellen Guareschi
transubstanciado por gravata às 07.12.09 - 19:42:35 | 18 comentários
05/12/2009
CENSURA X CENSURA: PESOS E MEDIDAS DISTINTOS, ANÁLISE FACTUAL E JURÍDICA
O jornal O Estado de São Paulo foi proibido de noticiar qualquer ação do caso Boi Barrica, que envolve o filho de José Sarney. Na época, e até hoje, praticamente todos os simpatizantes e apoiadores do Governo Federal, em especial do Partido dos Trabalhadores, ou ignoraram ou até mesmo APOIARAM a medida restritiva e autoritária.
Para "uso externo", a justificativa era risível: "trata-se de informação sigilosa" - e já li isso em blogs que costumam publicar informações sigilosas extraídas de investigações que nem mesmo as publicam nos seus inquéritos finais. Enfim, havia toda sorte de explicações mirabolantes.
Na verdade, o buraco era (e é) muito mais embaixo. A denúncia surgia no auge do movimento "Fora, Sarney!", que enfraquecia o Planalto, franco apoiador do cacique maranhense (ou do Amapá?). Os petistas, portanto, passaram a se tornar "sarneyzistas de ocasião". Basicamente, era essa a razão de apoiar (!) a censura contra o jornal O Estado de São Paulo.
Mas não custa recordar o contexto daquela bizarrice, como bem revela a reportagem de Leandro Cólon e Rodrigo Rangel:
"Juiz que determinou censura é próximo de Sarney e Agaciel - Ele foi um dos convidados presentes ao luxuoso casamento de Mayanna Maia, filha de Agaciel, em 10 de junho - O presidente José Sarney (PMDB-AP) foi padrinho do casamento. Ele, o desembargador e Agaciel aparecem juntos numa foto na festa de Mayanna publicada em uma coluna social do Jornal de Brasília em 13 de junho. As mulheres de Agaciel, Sânzia Maia, e de Dácio Vieira, Ângela, também estão na foto. Em 12 de fevereiro, Sarney já havia comparecido à posse de Dácio Vieira na presidência do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Distrito Federal. Antes de se tornar magistrado, Dácio Vieira fez carreira no Senado. De acordo com seu currículo, no site do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, ele foi designado em 1986, na condição de advogado, para ocupar o cargo de titular da Assessoria Jurídica do Centro Gráfico do Senado. Depois, foi promovido para consultor jurídico da Casa. O currículo diz que, por designação especial, ele esteve à disposição da presidência da Casa, com atuação na consultoria-geral. Sua atuação: "Encaminho de informações e razões de defesa em ações judiciais de interesse da instituição, havendo registro, à época, deste proceder, por parte da presidência da Casa, senador Mauro Benevides (Biênio de 1990/1991)." (grifos nossos)
Na foto da reportagem, o desembargador Dácio Vieira aparece com sua mulher Ângela, e também a mulher de Agaciel, José Sarney, o próprio Agaciel Maia, além do senador Renan Calheiros. Todos no casamento da filha de Agaciel. Nada disso bastou para que se declarasse impedido: decidiu em favor do filho de Sarney, contra o Estadão e até hoje é essa decisão a vigente - a ser analisada pelo STF.
Repetindo: praticamente todos os simpatizantes do Governo Federal e petistas apoiam essa censura, dão razão ao Desembargador e chegam a considerar um absurdo a 'grita' do Estadão.
Vamos ao passo seguinte.
O blogueiro Antonio Arles recebeu uma notificação extrajudicial de advogados representando a empresa Folha da Manhã. O motivo foi o uso indevido de duas marcas pertencentes ao grupo, quais sejam: logomarca do UOL e do jornal Folha de São Paulo - no contexto de uma campanha de boicote.
Como bem observou a colega Flavia Penido, do blog "LadyRasta", vale o quanto determinado pela Lei 9279/96:
"CAPÍTULO III – DOS CRIMES CONTRA AS MARCAS
Art. 189 – Comete crime contra registro de marca quem:
I – reproduz, sem autorização do titular, no todo ou em parte, marca registrada, ou imita-a de modo que possa induzir confusão; ou
II – altera marca registrada de outrem já aposta em produto colocado no mercado.
Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa." (grifos nossos)
O que fez o blogueiro? Reproduziu as duas marcas, sem autorização, e as utilizou em campanha negativa etc. etc. etc. A campanha, por si, não entra em questão. A liberdade para boicotar um veículo é total e irrestrita. O que não se pode é usar a própria logomarca da empresa para fazer isso.
Não é exatamente uma coisa de difícil compreensão.
Mas, em seu próprio blog, depois do ocorrido, Arles escreveu o que segue:
"CENSURADO - Acabo de ser notificado extrajudicialmente por escritório de advocacia representando a Folha para que retirasse os selos da campanha #CancelandoFOLHA #CancelandoUOL, sob pena de processo por suposto uso indevido das marcas. Sendo assim, retirei imediatamente os referidos selos. No momento não poderei desenvolver um post explicando melhor o caso, mas deixo aqui meu protesto por mais este ato de censura contra blogs.
Atualização (05/12/2009 às 00:37h) - Veja mais no Vi o Mundo - PS: Agradeço aos amigos que deixaram comentários neste post. Muito obrigado pela força! Não publicarei os comentários para evitar maiores problemas para mim e para terceiros. Forte abraço." (grifos nossos)
Não houve censura alguma. Em primeiro lugar, porque censura é ato oficial, de Estado e, DEFINITIVAMENTE, uma notificação extrajudicial jamais configuraria restrição a qualquer liberdade - nem tem poder coercitivo para tanto.
Além disso, o objeto do pedido - em esfera ainda amigável - era única e tão-somente não usar as logomarcas (algo previsto em lei). E a campanha, portanto, pode e - se assim deseja o blogueiro - deve prosseguir.
Acho válido o direito de boicote. Na minha opinião, é um protesto pacífico considerável, e não cabe agora julgar causas ou méritos. Mas a lei proíbe que se reproduzam, indevidamente, marcas de uma empresa para esse tipo de finalidade (entre outras coisas). Desse modo, atendendo apenas a isso, a campanha pode prosseguir normalmente.
Simples assim.
Sem dúvida alguma, os blogs não apenas representam uma forma totalmente democrática de comunicação, como também já se mostram maduros diante de tanta gente que escreve há tanto tempo - e mesmo pelas redes dentro de redes formadas e estabelecidas.
Mas há que se amadurecer, também, quanto a outros aspectos. Um deles é a contenção do frisson corporativista diante de todo e qualquer alarde. Acreditem: os blogs NÃO estão sob ataque, ameaça ou coisa do tipo. Assim como multinacionais, padarias, avícolas e profissionais liberais, os blogueiros também estão sujeitos a chatices jurídicas. Não é uma perseguição implacável.
E não é preciso que haja comoção ou coitadismo: o atendimento à notificação já encerra qualquer possibilidade de processo. Mas causa espanto, sem dúvida, os pesos e medidas distintos usados para o caso do Estadão e esse agora.
Até que ponto, para uma campanha de boicote, é tão importante usar duas logomarcas e, ao mesmo tempo, é tão desnecessário ao povo brasileiro descobrir as falcatruas do filho de Sarney? Não consigo conceber a coexistência dessas mesmas convicções numa mesma cabeça.
Revisão: Hellen Guareschi
transubstanciado por gravata às 05.12.09 - 15:41:03 | 15 comentários
04/12/2009
PT/ARRUDA: SURGE A LIGAÇÃO
Em duas reportagens publicadas hoje no Estadão - e as transcrevo na íntegra a seguir - aparecem as primeiras ligações do PT com o esquema de José Roberto Arruda, até então supostamente restrito a partidos da oposição. Talvez isso explique a cautela de alguns caciques do Partido dos Trabalhadores, bem como a historinha de que "imagens não falam por si".
A primeira matéria é de Vannildo Mendes, de Brasília:
"Flagrado com dinheiro na cueca é suspeito de golpe - Empresário Alcyr Collaço é alvo de processo por suposto crime financeiro que provocou prejuízos de cerca de US$ 10 milhões ao banco Santander - Flagrado em vídeo colocando maços de dinheiro na cueca, o empresário Alcyr Collaço tem um histórico de crimes financeiros e negócios engendrados à sombra do poder político. Ex-operador credenciado na Bolsa de Valores de São Paulo, ele foi alvo de denúncias sobre aplicações suspeitas de fundos de pensão, investigadas em 2005 pela CPI dos Correios. Segundo dados levantados pela Inteligência da Polícia Federal, no curso da operação Caixa de Pandora, que desmantelou o propinoduto do DEM do Distrito Federal, Collaço era dono da corretora Ipanema, envolvida em fraudes que deram prejuízo de mais de US$ 10 milhões ao banco Santander, em 2001. Ele chegou a ter prisão decretada e ficou foragido por quatro meses. A prisão acabou revogada, mas o processo continua e só espera a sentença. Por meio da assessoria, o Santander confirmou o golpe, mas disse que não comenta detalhes, porque o processo "ainda está sub judice". Procurado nos seus endereços residencial e de trabalho, Collaço não foi localizado. Ele deixou com a secretária, no escritório do seu jornal, "Tribuna do Brasil", a informação de que está em São Paulo cuidando de assuntos particulares e que não comentaria, por enquanto, as denúncias que o tornaram personagem da Caixa de Pandora. Com a ficha suja e os negócios prejudicados em São Paulo, Collaço transferiu-se para Brasília em 2003. Veio pelas mãos do petista Marcelo Sereno, ex-membro da Executiva Nacional do PT e assessor da Casa Civil da Presidência na primeira fase do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Collaço também mudou seu ramo de negócios com a compra do jornal. Chegou a integrar o núcleo operacional de um esquema, engendrado no Palácio do Planalto, para montar uma estrutura de poder destinada a durar décadas, com o PT na cabeça. Idealizado pelos ex-ministros José Dirceu (Casa Civil) e Luiz Gushiken (Comunicação), com o qual Collaço se encontrou algumas vezes, o esquema incluía a construção de uma rede nacional de comunicação, integrada por mídias regionais, financiadas por recursos captados junto a fundos de pensão, entre outras fontes. Pouco antes de cair em desgraça, Collaço chegou a integrar a diretoria da Bolsa Mercantil e de Futuros de São Paulo. Num primeiro momento, ele atuou na captação de recursos do fundo de pensão Portus, para o qual chegou a indicar diretores. Foi o que levantou a subcomissão de fundos de pensão da CPI dos Correios. "Apurei que ele atuava sob as ordens do Marcelo Sereno, que admitiu ser seu amigo de longa data", disse o deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), relator da subcomissão. O fundo Portus é mantido por 13 companhias Docas dos Estados, entre elas a do porto de Santos. Segundo ACM Neto, Collaço, além de indicar diretores, influenciou em negócios que deram prejuízos ao fundo. A PF informou que Collaço é investigado como suspeito de ser um dos operadores do esquema do governo do Distrito Federal. Além de receber sua fatia, ele atuava como agente de repasse de recursos ao PPS, partido que integrava a base do governo Arruda, e em um esquema de blindagem do governador na mídia." (grifos nossos)
E também no Estadão de hoje, assinada pela sucursal brasiliense, saiu a seguinte reportagem:
"Mensalão petista abateu planos do empresário - Com a Justiça em seu encalço, o empresário Alcyr Collaço aportou na capital do País em 2003. Seu plano era comprar o Jornal de Brasília, que passava por grave crise após a prisão de um dos seus donos, Lourenço Peixoto, envolvido com a máfia dos vampiros, integrada por empresários e servidores graduados do Ministério da Saúde, que desviavam recursos públicos mediante a compra superfaturada de hemoderivados e produtos hospitalares. Peixoto resistiu ao negócio e Collaço partiu, em sociedade com o jornalista Etevaldo Dias, para comprar o jornal Tribuna do Brasil. Seu proprietário, o ex-senador Mário Calixto Filho (PMDB), também respondia a processo criminal por envolvimento em esquema de corrupção em Rondônia, pelo qual acabou cassado e preso. Após meses de barganha, o negócio foi fechado no início de 2005, por cerca de R$ 5 milhões, mas não envolveu pagamento em espécie. Em junho de 2005, caiu por terra o plano de montar um grande veículo regional ligado à rede petista, por causa do escândalo do mensalão, mesada paga a deputados em troca de apoio a projetos. Em 2006, Etevaldo deixou a sociedade. "Após o mensalão, os anúncios sumiram e o jornal mergulhou em crise, com dívidas se acumulando e atrasos de pagamento de funcionários", disse. Ele não quis comentar o envolvimento do ex-sócio no escândalo da Caixa de Pandora. Collaço aliou-se ao governo de Joaquim Roriz e foi atraído rapidamente para a Companhia de Desenvolvimento do Planalto (Codeplan), estatal comandada por Durval Barbosa, pivô da operação Caixa de Pandora. O Ministério Público apurou que entre 2003 e 2006, sob o comando de Durval na Codeplan, foi desviado um montante de cerca de R$ 1,2 bilhão. V.M.C" (grifos nossos)
Pois é, amigos, aí está. Ninguém pode ser punido pelo que PODERIA fazer, mas certamente há um histórico. Alcyr Collaço teve ligação com o PT até que o escândalo do Mensalão o afastou. E não foi uma ligação qualquer, como se depreende, sobretudo da primeira reportagem.
Quem o levou a Brasília foi Marcelo Sereno, da Direção Nacional do PT e da Casa-Civil na época de José Dirceu. Na capital federal, Collaço comprou um jornal e integrou um grupo estruturado pelo Planalto, envolvendo veículos de comunicação regionais (e liderado por Dirceu e Gushiken). A coisa ruiu com a descoberta do Mensalão, e o empresário, desta feita, aliou-se a Roriz.
Parece uma releitura invertida de Marcos Valério, descoberto entre Delúbio, Dirceu e Genoíno, mas cujo passado remontava a Azeredo. Collaço, por sua vez, agora aparece nos vídeos com Arruda e sua trupe, mas seu histórico leva a Marcelo Sereno, José Dirceu e Gushiken. E, naquela época, já havia várias acusações contra o empresário.
Tudo isso deve ou não ser investigado? Creio que sim. Vamos ver se todos, sem exceção, manterão a mesma tenacidade com que gritam, agora, o "Fora, Arruda!". Será que continuarão coerentes?
Se for pra botar grana, aposto na relativização do discurso.
Revisão: Hellen Guareschi
