
"A enquete publicada no site do Senado que pergunta "Você é favorável à aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que torna crime o preconceito contra homossexuais?" fez um tal de "Internautas Cristãs" criar uma campanha para que o "NÃO" vença. Pelo andar do resultado, até aqui, eles estão conseguindo. O "NÃO" está vencendo com 61% contra 39% do "SIM". O texto dos evangélicos que pede para que seus seguidores votem no "NÃO" diz que caso a lei antidiscriminação seja aprovada, "estaremos institucionalizando em nosso país o sistema de castas e todos aqueles que não forem homossexuais serão considerados cidadãos de segunda classe". O texto termina dizendo que "Os movimentos gayzistas querem calar a Palavra de Deus. Não permita!".
Enquanto isso, a comunidade gay parece não reagir a esse temerário conservadorismo. Se você quer reagir, clique AQUI e vote."
Texto de Mix Brasil
Recebi um comentário da Helen com várias perguntas sobre minha relação com a fé e sobre meus tempo de evangélica. Resolvi responder por aqui mesmo, como um post, já que muitas pessoas já me fizeram questionamentos parecidos. Aí está então, a breve "entrevista" da Helen comigo:
E se Deus existir?
Se Ele existir eu espero que me ame como meus pais me amam. Isso dá e sobra.
O que Deus deveria fazer pra que você acreditasse em sua existência?
Vixi, não sei... Paz e amor no mundo inteiro, talvez.
Como você acha que Ele deveria exercer seu papel de Deus?
Usando o poder ilimitado dele para fazer com que mais nenhuma pessoa seja violentada, nenhuma criança tenha sua inocência maculada, ninguém passe fome, não haja guerras, essas coisas.
Por que Deus não pode simplesmente existir, você tem medo dessa possibilidade, ou melhor, tem medo Dele?
Ele pode simplesmente existir sim, mas dadas as condições da raça humana eu posso simplesmente duvidar da existência dele. Se ele for mesmo como os pastores o descrevem eu tenho medo dele sim. Se ele deixa que pessoas passem a eternidade no inferno, eu tenho muito medo dele.
O que faria/sentiria se Jesus voltasse agora e você se deparasse com a realidade de sua promessa?
Eu falaria "puta merda, aquele bando de crente louco tava certo!"
Por que você deixou de crer em Deus, por causa da experiência com os crentes e a igreja ou por outro motivo?
Por causa do inferno. Não posso crer num Deus que tenha o inferno como uma opção para suas criaturas. Eu tenho dó de queimar livros meus ou de jogar fora minhas bonecas de quando eu criança, imagina se eu iria criar um bando de gente, com alma, com sentimentos, com emoções e pensamentos próprios e depois ia deixar que elas passassem a eternidade queimando, gemendo e rangendo os dentes?! Então, basicamente comecei a questionar a doutrina do inferno, dentre outras incongruências da Bíblia. Por fim decidi que não poderia continuar frequentando uma igreja evangélica se não acredito nas premissas básicas da fé que ela prega.
Quando era cristã se sentia livre, amada por Deus?
Me sentia livre, mas desde que eu abrisse mão de certas coisas. Não apenas coisas que qualquer um deve abrir mão, mas coisas simples e inocentes, como ouvir Beatles, por exemplo. Se eu ouvisse "músicas do mundo" já me sentia culpada. Também me sentia culpada se eu passasse um dia sem orar, se eu faltasse ao culto, coisas desse tipo. Mas me sentia amada por Deus, sim. Minha imagem de Deus era de um cara meio hippie eu acho, gente boa pra caramba, doidão, mas paizão também. Com uma imagem dessas não é de se espantar que eu não conseguisse encaixar esse Deus com o Deus "Vingador", que tem fogo e enxofre para aqueles que não o quiserem. (Agora que me liguei no paradoxo: se minha imagem de Deus era de um hippiezão, por que eu me sentia culpada com coisas tão pequenas? Acho que eu alternava a imagem do hippie-paizão com a do Deus super formal, que exige certas atitudes dos seus filhos.)
Como foi parar na igreja, era crente de "berço" ou era do "mundo" e se converteu?
Era "do mundo" e me converti. Meu irmão que me levou para a igreja. Eram uns dias em que eu andava meio deprimida e acabei "me encontrando".
Você ouvia Diante do Trono?
Ouvia e gostava muito.
Acreditava em ato profético e afins?
No início nem sabia o que era isso, mas entrei numa igreja que estava começando a transição para o G12, adoração extravagante, atos proféticos, essas coisas, então entrei nessa "vibe" junto com todos os outros.
Era uma adoradora extravagante?
Totalmente extravagante. Achava lindo esse negócio de pular, gritar, rir, chorar, dar pirueta, virar cambalhota... Mas fazia tudo isso com sinceridade. Acho que até mesmo por ter uma personalidade bastante passional. Eu me jogava de cabeça na adoração! E não só com essas manifestações externas, também era capaz de ficar quietinha, só cantando, ouvindo um louvor e curtindo uma sensação boa demais que eu achava até que podia durar para sempre. Quase um transe. Hoje essas boas sensações me assaltam em outros momentos, mas são tão bonitas e puras quanto aquelas que eu acreditava serem proporcionadas por momentos com Deus.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Ah, Fernando Pessoa, é por isso que te amo.

Ontem assisti O Menino do Pijama Listrado. Imaginei que fosse um filme mais ingênuo, meio água-com-açúcar, mas não é. Só que este post não é sobre O Menino do Pijama Listrado... Isso é só uma introdução para dizer que quase sempre após assistir um filme, dou uma olhada no Cinema em Cena porque gosto muito das críticas de lá e aprendo bastante sobre cinema com elas. Então, fui ler a opinião de Pablo Villaça sobre o filme e descobri que ele tem um blog e postou um texto sobre o discurso de um pastor da Igreja Batista que o deixou horrorizado. Quando vejo pessoas indignadas com pregações evangélicas como essa relatada por Pablo, eu me lembro o porquê a igreja me marcou tão negativamente! Porque discuros como esses são absolutamente comuns e recorrentes. E lá dentro todos engolem esse tipo de preconceito e raciocínio torto. Aqueles que não concordam, mas não querem perder a estabilidade de fazer parte de um grupo, calam-se. Mas eu não preciso me calar mais.
Quando me dizem que não tenho direito de falar sobre os "ungidos de deus" ou que só falo sobre essas coisas porque sou amargurada, minha única resposta é: VOU CONTINUAR ESCREVENDO E FALANDO SOBRE OS ABSURDOS DA LÓGICA EVANGÉLICA e não faz a menor diferença você me dizer que não tenho esse direito. Se eu conseguir abrir uma cabeça sequer para o fato de que embaixo do discurso amoroso dos evangélicos há um poço de preconceitos e ódio, já me dou por satisfeita.
Porque não importa o quanto de "Jesus te ama" eles recitem. Por baixo desse "amor" há pensamentos assim:
"Muitos defendem o casamento entre homossexuais. Eles não têm que se casar de forma alguma, não podem. Isso é preconceito? É preconceito, sim, mas que temos que ter mesmo! Esse tipo de casamento vai destruir a instituição do matrimônio. E outra coisa: alguns defendem que casais homossexuais possam adotar crianças órfãs. Não podem, não. É preferível que as crianças cresçam no orfanato do que criadas por um casal de homossexuais". (Pastor Jorge Linhares)
No post de Pablo ele fala também sobre a idéia do pastor de que as enchentes em Santa Catarina no ano passado foram um castigo divino. Ouvir esse tipo de coisa é muito comum em qualquer igreja evangélica, não importa o quão moderna ou acolhedora ela pareça. Os pastores mais inteligentes não falariam isso em cultos normais, abertos ao público, mas em reuniões de lideranças todo tipo de absurdos como esses são debatidos pelos pseudos-especialistas em designios de deus.
Então, aos preocupados com o que pode me acontecer por "tocar nos ungidos do Senhor", fica a dica: eu não tenho medo de fantasmas, só tenho medo da ignorância!
Além de ser péssima oradora, ter uma dicção sofrível, vocabulário pobre e ainda imitar sua "mãe na fé", a Bispa Sônia Hernandez, no jeitinho de falar (é normal discípulos incorporarem os trejeitos e a impostação de voz de seus pastores), ela acredita que foi Deus que colocou dinheiro nos cofres do Real Madrid, para que Kaká fosse contratado. Detalhe: ela é uma pregadora tão fraquinha, que se não fosse a esposa do super craque do futebol, certamente não estaria falando a centenas de fiéis da Renascer. A Bispa Sônia, por exemplo, tem uma voz irritante, mas sabe se expressar. Mas o texto de Leonardo Cruz, transcrito logo abaixo, expressa de forma ainda melhor o quanto é hipócrita esse discurso de Caroline Celico, esposa de Kaká.
Segundo Caroline, a ida do casal para a capital espanhola teria propósitos missionários, para fundar uma Igreja Renascer na cidade.
No vídeo, a pastora Caroline pratica toda a panóplia do manual do pregador picareta: as piadinhas para descontrair e cativar a audiência, as mãos erguidas, a aparência muito bem cuidada, o tom suave da voz (o “sotaque de crente”) que cresce em paroxismos de fervor quase colérico.
Tento imaginar qual seria a reação de um espanhol que passa dificuldades para sustentar sua família após ter perdido o emprego no rastro da crise econômica. Que ouve uma menina MILIONÁRIA dizer que Deus, apesar da crise, deu 65 milhões de euros para que seu marido trocasse de clube. Que escuta a jovem pastora dizer que foi o jejum do fiéis que contribuiu para o novo contrato de Kaká. Que ouve Caroline dizer que mais importante do que o dinheiro, do que a qualidade de vida e do que a mudança para Madrid é a alegria por abrir uma filial da Renascer, seita cujos “Apóstolos” estão às voltas com problemas nos tribunais.
Será que ela estaria radiante se o Kaká recebesse uma proposta para jogar no Ch'ŏngjin Chandongcha da Coréia do Norte, com salário mensal de 200 dólares? Se for o desafio missionário o que ela considera mais importante, esse seria muito maior em Pyongyang do que em Madrid.
Não deixe de ler o restante do texto de Leonardo Cruz, do blog A Terceira Margem do Sena
Juliana Dacoregio